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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Afoxé Omo Nilê Ogunjá – Um exemplo Afrocentrado no Carnaval do Recife

 Afoxé Omo Nilê Ogunjá. Eu no cantinho acompanhando essa linda luta! Foto: Acervo do grupo.

Afoxé Omo Nilê Ogunjá – Um exemplo Afrocentrado no Carnaval do Recife

Ontem, dia 03 de fevereiro de 2016, presenciei uma das atitudes mais interessantes na perspectiva do posicionamento da cultura popular na luta contra a falta de respeito para com as tradições de matrizes africanas e indígenas no Carnaval de Pernambuco.

O Afoxé Omo Nilê Ogunjá tomou uma atitude afirmativa muito importante: Realizou seu cortejo de forma independente abrindo seu carnaval apenas construindo parcerias e apoios. Levou seu grito de luta de forma exemplar. Saiu grande, bonito, vigoroso e empoderado, vale ressaltar.

Em minha avaliação, vejo nesta posição política do grupo, uma esperança no caminho de re-organizar o conceito de liberdade da cultura popular em nosso Estado. Se o Afoxé conseguiu sair tão forte sem apoio da prefeitura do Recife e do Governo do Estado, isso é sinônimo de que a comunidade pode se organizar com qualidade e força para colocar nas ruas seus ideais e sua identidade ancestral.

Contudo, isso não é tudo! Ainda o Omo Nilê, abrilhantou o Carnaval do Recife dando à Cidade a oportunidade de ver algo muito bonito sem pagar nada! Isso mesmo, sem pagar nada (a gestão da cidade do Recife não pagou nada por isso)! A cultura popular traz quantias enormes de dinheiro, que somam bilhões para o Estado em turismo etc. E o Omo Nilê fez os turistas que se encontravam na Praça do Arsenal e em todo percurso até a Rua da Moeda no Recife Antigo vibrarem com a força negra do Ibura (comunidade periférica do Recife).

A coragem do grupo me encantou. Me deixou encorajado e fortalecido. A força de Ogun que emanou dessa luta fez brilhar minhas idéias e me empreteceu mais ainda. Fortaleceu mais ainda meu entendimento sobre a afrocentricidade!¨

Afoxé Omo Nilê Ogunjá na avenida. Foto: Acervo do grupo. 

Sou crente na força da cultura popular e no imensurável poder dos povos e comunidades tradicionais. Contudo, creio ser urgente nós todos ACORDARMOS e tomarmos atitudes como esta de forma coletiva! Não devemos nos submeter ao Estado sem que este nos respeite como devido. Somos ainda tratados como negros e indígenas sem valor e quase sem alma – relembrando o conceito de homem e mulher negra e indígena nos tempos da escravidão-. A estrutura racista do Carnaval do Recife é só um pequeno exemplo do que aqui também esta sendo discutido (ler texto de anos anteriores sobre este tema em meu blog www.alexandrelomilodo.blogspot.com).

Ogunjá AFROCENTRADO! Isso mesmo, a força de um Orixá levando todo um grupo de negros e negras e afro descendentes à consciência, ao seu papel e função social. Temos que tomar nosso lugar neste processo! Sermos negros e negras e entendermos qual nossa função no mundo capitalista e ocidental: temos que ser AFROCENTRADOS!

Com estas breves palavras parabenizo o Afoxé Omo Nilê Ogunjá pelo belo exemplo para os demais afoxés e grupos de cultura popular! Vamos somar nesta proposta e vamos crescer esta energia!

Parabenizo ainda pela importante homenagem ao nosso grande Tata Raminho de Oxóssi, que ao completar 80 anos de idade em janeiro de 2016, teve uma justa homenagem por toda sua contribuição na história do povo de terreiro do Brasil. Bariká oooooo!

 Família negra de afirmação e força!O Afoxé Omo Nilê Ogunjá é afirmação! Foto: Acervo do grupo.

Ògún yé! Ogum é vida!

Alexandre L’Omi L’Odò
Historiador e Mestrando em Ciências da Religião
Quilombo Cultural Malunguinho

 alexandrelomilodo@gmail.com 

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Racismo institucional na polícia de Pernambuco - A outra face do Carnaval

Matéria digitalizada do jornal Diario de Pernambuco de 10 de fevereiro de 2013.


Racismo institucional na polícia de Pernambuco - A outra face do Carnaval 

Mais um carnaval no Estado de Pernambuco. Carnaval maravilhoso, "o melhor do mundo" segundo alguns. Eu particularmente acho também... Porém, existem muitos assuntos que todos nós devemos tratar em relação ao Carnaval pernambucano... Assuntos transversais e completamente necessários. Um destes assuntos é sobre o caso da agressão brutal, denunciada na internet pela jornalista Ivana Moura, proferida pela Polícia, contra o músico e maracatuzeiro Ítalo, integrante do Maracatu Raízes de Pai Adão, instituição pertencente a tradição e terreiro mais antigo dos cultos de matrizes africanas do Estado, o Ilé Iyemojá Ògúnté. 

Todo o caso que teve repercussão fortíssima na internet, pois só na minha página de facebook foram mais de 650 compartilhamentos da digitalização desta mesma matéria que publico aqui, nos leva a pensar o quanto  tem gente querendo combater este tipo de absurdo e também, ainda, avaliarmos o quanto vivemos em um mundo racista que oprime sobre tudo o povo pobre e de religião e tradição de matriz africana e indígena. O batuqueiro Ítalo sofreu o peso da mão do Estado de olhos azuis. Sofreu o peso de ser negro e ter opção por fazer cultura popular. Cultura popular esta que abrilhanta o Carnaval do Estado e traz bilhões para esta terra que sequer distribui essa renda com equanimidade entre aqueles que dão a cara e a alma para fazer esta grande festa. É indignante ver as imagens do vídeo abaixo sem sofrer junto com ele as dores dos mal tratos físicos e simbólicos que ele sofreu. Foi humilhado após tocar na abertura oficial do Carnaval do Recife, em pleno Marco Zero, na frente de todos e todas... Isso é de nos comover. Como a polícia faz isso? Fácil de responder, a polícia é uma instituição criada especialmente para reprimir os que de alguma forma querem alterar o sistema de dominação preponderante e absolutista, que em nada muda em relação ao povo negro e aos povos indígenas ao passar dos séculos. Todo este fato foi racismo institucional dos mais graves. A polícia fez isso. A polícia xingou o menino artista vestido com roupas de maracatu, de "macumbeiro safado", cometendo ainda a intolerância religiosa contra as religiões de terreiro, ainda como se não bastasse disseram que o garoto não tinha advogado, pressupondo que além de negro, pobre, maracatuzeiro, "macumbeiro", ele era um sem ninguém, um daqueles que a polícia pega todos os dias e acusam inescrupulosamente e levam para os presídios sem a menor condição de defesa, mesmo sendo estes inocentes... Foi mais que grave isso e o Estado tem que se posicionar.

Quem utiliza o facebook pode ver toda cena da agressão neste link: https://www.facebook.com/photo.php?v=347562185358221 

Esta matéria que disponibilizo aqui não saiu em toda publicação do Diario deste dia. Recebi a ligação do professor Carlos Tomaz me informando pela manhã cedo sobre ela. Fui ao aeroporto comprar, não tinha nada no jornal, dai comprei outro na comunidade de Peixinhos e também não tinha nada publicado, creio que esta informação só circulou para os assinantes, tendo em vista que com a grande presença dos turistas na cidade, colocar uma matéria deste porte poderia causar medo e afastar os que de fora vieram curtir o carnaval. Achei isso péssimo, pois não haveria como todos não saberem, é uma obrigação da m'idia informar sobre coisas importantes, porém neste caso, foi preferido omitir por interesse do Estado  em esconder os dados da violência no Carnaval. Indico para os que por aqui passarem que cliquem em cima imagem acima para ampliá-la e facilitar a leitura da mesma para que o texto integral seja entendido e consumido de fato. 

Por favor compartilhem esta postagem. Precisamos trazer mais massa crítica para esta discussão toda. A polícia precisa ser formada, educada, regida pela lógica da ética, não ser largada nas ruas para cometer atrocidades que vemos todos os dias.

Salve a fumaça!
Sobô Nirê Malunguinho!

Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com 

Quilombo Cultural Malunguinho

Quilombo Cultural Malunguinho
Entidade cultural da resistência negra pernambucana, luta e educação através da religião negra e indígena e da cultura afro-brasileira!