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quinta-feira, 10 de outubro de 2024

CD Sobô Nirê - meu labor da mata será lançado dia 16/10 em todas plataformas digitais

Capa do CD Sobô Nirê - meu labor da mata. Arte de Wellington Tatoo.

CD Sobô Nirê – meu labor da mata

O CD Sobô Nirê - meu labor da mata é um documento fonográfico criado para propiciar um diálogo da tradição dos cânticos sagrados de Malunguinho com a contemporaneidade e as artes de forma livre, criativa e fundamentada numa pesquisa séria. As toadas do Reis Malunguinho, divindade do panteão da Jurema Sagrada, atravessaram séculos, sendo cantadas cotidianamente nos terreiros através das entidades incorporadas e dos juremeiros e juremeiras. Sucessos tradicionais mais que centenários repetidos de forma ritual em quase todo Nordeste. Sim, toadas são sucessos musicais que atravessam gerações sem precisar da indústria fonográfica, e que podem transcender os espaços sagrados dos terreiros para invadir as plataformas digitais de música sendo reinterpretadas através de artistas ligados ou não à Jurema. Afinal, assim como a fumaça, a arte é livre.

As toadas cantadas na umbanda, candomblé e Jurema, povoam o imaginário da música popular brasileira desde a década de 1940, não sendo qualquer novidade as interpretações livremente artísticas, incluindo efeitos digitais, guitarras, e demais instrumentos, respeitando a liberdade poética de cada artista. Baden Power, Vinicios de Moraes, Clara Nunes, entre outros e outras artistas e sacerdotes, como Pai Edu do Alto da Sé de Olinda, Joãozinho da Gomea, gravaram discos, cd’s, fitas k7, etc, preservando a memória desses cânticos que embalam nossas vidas inteiras, seja dentro dos terreiros ou fora deles.

Há 10 nos guardado na gaveta (2014-2024), esperando ser aprovado em editais públicos de fomento à cultura (pleiteamos mais de cinco vezes, sem sermos aprovados), decidimos encerrar as expectativas com apoios dos governos e vimos à público divulgar este trabalho feito com tanto amor e fé, com tanta dedicação dos artistas envolvidos, que merece ser ouvido deliberadamente e ecoar por todos os meios possíveis, levando a mensagem da Jurema do Reis Malunguinho pro mundo.

O CD Sobô Nirê- Meu labor da mata contém 13 faixas com um mix entre toadas tradicionais e músicas inéditas com criações e arranjos que trazem a identidade sonora de cada artista pernambucano integrante do projeto.  O processo de captação, pós-produção e finalização foi realizado no Estúdio Peixe Sonoro (CTCD Nascedouro de Peixinhos/ITEP), a pesquisa histórica e a articulação cultural artística ficaram a cargo do Pesquisador historiador, mestre em ciências da religião e juremeiro Alexandre L’Omi L’Odò, Quilombo Cultural Malunguinho, que concebeu o projeto e participou em todas suas instâncias de realização, sendo o produtor fonográfico da obra. A produção musical esteve a cargo do músico percussionista Rinaldo Aquino, Ogan e L’Omi. A produção geral ficou a cargo do jornalista e juremeiro Ricardo Nunes, que com maestria dedicou todo seu suor para a realização deste projeto. A pesquisa foi extraída do livro ainda no prelo, “Malunguinho e seus cânticos sagrados na Jurema”, que contém mais de cem toadas registradas nos mais de 20 anos de pesquisa realizada por L’Omi.  

A proposta inicial era realizar um CD com toadas de Malunguinho, reunindo grande parte de seu arsenal musical na Jurema. Quando o projeto chegou nas mãos de Selma Leite (CTCD Nascedouro de Peixinhos) para gravação Estúdio Peixe Sonoro. Aprovado pelo seu mérito histórico e cultural de preservação de nossas raízes, ela sugeriu a ampliação e o convidasse de outros artistas para criar um universo maior que valorizasse ainda mais o trabalho. Assim foi feito e aceito. Projeto aprovado em um dos editais do Estúdio Peixe Sonoro, conseguiu realizar uma integração valiosa de artista que dedicaram sua criatividade e talento para dar vida a algo inédito e o resultado ficou admirável. Todos os músicos, grupos e pessoas partícipes deste trabalho cederam seus direitos autorais de imagem e som para o projeto.

Este projeto foi assinado como produção do Selo Fonográfico Peixe Sonoro, contando com uma produção colaborativa entre o CTCD Nascedouro de Peixinhos e os artistas convidados: Karynna Spinelli, Bojo da Macaíba, Coco dos Pretos, Bongar, Lucas dos Prazeres e Chinelo de Iaiá, e juremeiros e juremeiras convidados para gravar as faixas com toadas. Pai Vado de Pau Ferro, Pai Marivaldo Cabuêta, Cristina do Arraiá, Mãe Rosa do Palácio de Yemanjá, Thúlio do Bongar, entre outras pessoas contribuíram contando em faixas diversas, umas que estão no CD e outras que no futuro virão à público.  

A capa

Desenhada e pintada a punho pelo artista plástico, tatuador e ogan Wellington Nascimento da Silva, o renomado Wellington Tatoo (@manguedemim), a capa traz elementos que retratam o imaginário do Reis Malunguinho na Jurema Sagrada. Utilizando-se de suas cores rituais, verde, vermelho e preto, para dar o tom correto ao trabalho, traduzindo sua cromociência, os desenhos imprimem seus símbolos mais fortes, a estrela de sete pontas, ou estrela de Malunguinho que é destaque principal da arte. Adornada por sete chaves que representam as chaves que abrem ou fecham os portões sagrados das sete principais Cidades da Jurema, aludem ao poder espiritual que essa divindade tem no contexto juremológico da religião, dono das chaves mestras dos encantos. Ao centro, tem sua imagem em destaque, a mesma que podemos ver nos terreiros, quando é cultuado como Exu/trunqueiro (o garotinho preto sentado à espreita, observando quem vem e quem vai). Essa imagem, é a mesma desenhada por Flávio Felipe de Carvalho Filho em 2016, para compor as ilustrações da dissertação de mestrado Juremologia (L’Odò, p. 272, 2017). A pintura que faz a moldura dessa capa, traz elementos tribais africanos e quatro flechas, que cercam, dão forma e sentido semiótico ao que quer falar a arte: Malunguinho é negríndio.

A saudação “Sobô Nirê”, enigmática afirmação secreta e única na tradição da Jurema para uma divindade, afinal não há outra entidade ou divindade que tenha uma saudação só sua como Malunguinho, traz sua mais importante reverência, ainda pesquisada e não traduzida publicamente. O sub título “Meu Labor da Mata”, é um trecho de sua toada: “Malunguinho é meu labor, meu labor da mata... Oh meu labor da mata”, cantada por vezes pelos mais velhos como “oh meu amor da mata”, sendo uma das toadas de melodia e ritmo mais interessantes desta divindade, e também que afirma sua importância na mata sagrada, onde ele é o labor, a força, o ser pujante, a máquina que faz moer toda Ciência dentro dos segredos mestres.

Ficha técnica

Produção fonográfica: Alexandre L’Omi L’Odò.

Selo e estúdio: Peixe Sonoro.

Produção executiva: Selma Leite.

Produção geral: Ricardo Nunes

Técnicos de som: Peixe Sonoro

Produção musical: Rinaldo de Aquino, Alexandre L’Omi L’Odò e Pedro Santos

Produção Artística, pesquisa, articulação, direção artísitica: Alexandre L’Omi L’Odò.

Pós-produção, mixagem e masterização final: Alexandre L’Omi L’Odò, Marinho, Léo D.

Artistas: Grupo Bongar, Lucas dos Prazeres, Chinelo de Iaiá, Bojo da Macaíba, Coco dos Pretos e Karynna Spineli.

Juremeiros e juremeiras envolvidos: Cristina do Arraiá, Pai Marivaldo Cabuêta, Mãe Rosa do Palácio de Yemanjá, Juliana Barbosa, Ogan Rinaldo Aquino, Ogan Thúlio da Xambá.

Capa: Wellington Nascimento da Silva.

Serviço:

O CD Sobô Nirê - meu labor da mata, estará acessível gratuitamente em todas as plataformas digitais em 16 de outubro de 2024. Após o lançamento, também disponibiliraremos no YouTube.

Alexandre L'Omi L'Odò

Quilombo Cultural Malunuguinho 

alexandrelomilodo@gmail.com 

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Querem deturpar as discussões sérias sobre a Jurema Sagrada

Preacas (arcos-e-flechas de guerra) de Caboclo na Jurema. Foto de Laila Santana.

  Querem deturpar as discussões sérias sobre a Jurema Sagrada

É claro que as discussões religiosas e políticas entorno da Jurema Sagrada são coisas recentes no campo do diálogo e autoconhecimento do povo de terreiro. Se muito, tem dez anos que este tipo de discussão vem sendo fomentada e levada pelo QCM - Quilombo Cultural Malunguinho, entidade que nos meados de 2004 iniciou um processo de fortalecimento destas temáticas a partir do personagem negro Malunguinho, que é uma divindade da Jurema Sagrada e também um herói negro/índio da história de Pernambuco. Neste tempo (2004), a entidade chamava-se ainda de Grupo de Estudos Malunguinho, que tinha como objetivo promover encontros entre a academia e do povo de terreiro para discutirem juntos temas da teologia, história, cultura, política e transcendência, entre outros temas, no espaço do Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano, o APEJE. Neste local repousam parte fundamental da documentação histórica de todo Estado de PE.

Hoje vemos disfarçada de discussão uma série de críticas destrutivas a este trabalho histórico do QCM. Coisas como, “Vocês querem ser os donos da Jurema”, “Vocês são o IMETRO da Jurema”, “Malunguinho pra baixar nos terreiros vai ter que pagar pedágio a vocês”, e mais um monte de absurdos que só explicitam o despreparo total e o nível de discussão de nosso povo em encarar temáticas e problematizações objetivas sobre religião e ética em nosso meio.

Recentemente, um caso chamou muito a atenção da mídia na internet, em especial no facebook, uma rede social virtual. Um de nossos irmãos da Jurema postou uma fotografia onde expunha um homem “manifestado” com a Mestra Paulina, vestido como mulher, sendo segurado por mais 3 homens. A princípio, sabemos que as práticas da Jurema dentro dos terreiros tem se transformado de forma bastante estranha e descaracterizada nos últimos anos. E também compreendemos que estas transformações são fruto da péssima formação dentro dos terreiros. O que impera hoje neste meio é o ego e a auto-lógica de fazer e recriar a religião de forma irresponsável, descompromissada com a ancestralidade e a história. Uma espécie de auto-recriação do mundo espiritual, mítico, místico e religioso...

Como quase não há mais pessoas antigas dispostas a ensinar, os mais jovens se sustentam na lógica de fazer a coisa por suas próprias mãos, ou por suas próprias lógicas psicológicas... E é óbvio que isso deturpa a tradição. Isso degenera o patrimônio imaterial que é a Jurema e também vulgariza uma prática ancestral de cura e de cosmovisão de mundo.

Dentro deste contexto, ao criticarmos na internet certos tipos de absurdos afro indígenas teológicos, somo nivelados a baixarias distintas por parte de pessoas que enxergam estas críticas provocativas nossas como algo ofensivo e destrutivo meramente. Não avaliam nem racionalizam o sentido de contribuir na tentativa de reconstrução da identidade perdida nem da lógica de irmanação que propomos com estas atitudes. Sempre empobrecem a temática dizendo assim: “Vão cuidar de suas casas”... Querendo dizer para não nos metermos na vida deles... Como se a religião fosse uma coisa particular de cada casa... E ainda se vitimizam, afirmando que os perseguimos, fazendo um jogo para esconder seus equívocos.

Esta lógica de individualização cosmológica é absurda e até criminosa. Como pode eu dizer que dentro de minha casa eu posso fazer o que quero com a Jurema, sendo a Jurema uma religião de todos e todas? Partindo destas observação, podemos abrir um precedente enorme de discussões intelectuais e religiosas sobre o tema.

Entendemos as limitações postas historicamente para todo povo indígena e negro neste país. Compreendemos onde estamos e com quem estamos, mas isso não pode ser considerado um elemento válido para pormos panos mornos nestas discussões. Não podemos ser omissos com o sério problema da ameaça de extinção que nossa religião está sofrendo. Temos que reagir.

Muitos afirmam: “Deixa isso pra lá, esse povo é tudo burro e ignorante”... Ou ainda dizem: “Vocês são doidos em falar certas coisas, se fosse eu ficava calado”. Não acreditamos nestas afirmações, sabemos que este povo tem saber e ciência, portanto, condições de crescer nas discussões e entendimentos sobre a própria religião. Para nós, o preocupante, assim como afirmou Martin Luther King é: “O que me (nos) preocupa não é o grito dos fortes e sim o silencio dos fracos”... E, é este silêncio que nos condena ao lugar dos fracos e oprimidos, atmosfera que não queremos nos inserir nem nos manter. Assim como revela o provérbio: “O silêncio é a virtude dos fracos”, podemos interpretar que o grande silencio que paira sobre este tema por parte de pessoas sérias da religião advém de sua condição de histórico-psicológica de inferioridade, descrença e despreocupação total com o futuro da religião. Isso sim nos estimula a tentar muito mais ainda trazer a Jurema para um espaço de discussão ampliado. Para tentar contribuir concretamente para salvá-la. Vamos tentar fazer isso em futuros (breves) projetos nossos que pretendem trazer todo este povo pela primeira vez para contribuir em um pensamento coletivo da nossa gente.

Chega de palavras presas, de dores engolidas a seco, de perdoar o erro dos amigos por pura falta de amor e respeito à Jurema. Temos que falar, respeitando claro, as pessoas. Sempre respeitamos.

Portanto, pedimos aos amigos e amigas que se unam entorno desta questão nossa. Vamos discutir, fomentar mais diálogos, ajudar as pessoas a compreender mais os nossos problemas e tentarmos juntos vencer estes absurdos que só nos expõem ao ridículo e ao infortúnio.

Enquanto uns dizem na internet que vão “colocar mais fotos de mestras travestidas e fechando”, temos que dizer que a Jurema é uma beleza desconhecida ainda por eles mesmos.

Salve a fumaça e vamos transcender este limite da ignorância! Abaixo a omissão.
"Vamos salvar a Jurema, que é de nossa obrigação"!
Sobô Nirê!


Alexandre L’Omi L’Odò.
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

Quilombo Cultural Malunguinho

Quilombo Cultural Malunguinho
Entidade cultural da resistência negra pernambucana, luta e educação através da religião negra e indígena e da cultura afro-brasileira!