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sábado, 1 de julho de 2017

Mais um ciclo anual dedicado à Oxum

Alexandre L'Omi L'Odò em épocas de sua iniciação para Oxum. Foto de Aluísio Moreira.

Mais um ciclo anual dedicado à Oxum

Mais um ciclo anual dedicado à Oxum se inicia. No nagô de Pernambuco, a grande mãe das águas doces é celebrada no mês de Julho, tendo nas terças-feiras seus dias devocionais. 

Este é um mês que dedico a reflexão de meu papel sacerdotal e que disponho-me a mergulhar nas práticas rituais dedicadas à minha Mãe. Abro-me à experiência do amor das águas... A água ama a terra. Dá vida a tudo... semeia a alegria por onde passa, refresca as almas, fertiliza os sexos, abençoa a existência, nos possibilita tudo. 

Oxum é generosidade e amorosidade. É poder absoluto, contudo, é acolhimento e sabedoria. Oxum vive no fundo dos segredos das águas doces... O doce de sua bênção é inesecivel. Quem é tocado pelo amor de Oxum, jamais será a mesma pessoa. Oxum lava a alma e purifica, renova e harmoniza. 

Essa foto foi feita há 13 anos, pela oportunidade de minha iniciação na nação jeje nagô de Pernambuco. Era um neófito feliz. Continuo feliz por ser eternamente uma iyawo de Oxum (ser iyawo significa ser a esposa do Orixá. Àquela pessoa iniciada para cuidar da tradição, como se cuida de quem se ama eternamente). Continuo cuidadando... Cuido de mim, dos meus afilhados, dos amigos e amigas, das pessoas que amo, de todos que posso... Cuido de Oxum. Ela mora em mim, dentro do meu Ori, ela caminha comigo todas as horas. Sou feliz por ter casado com minha mãe. Sou a pessoa mais feliz de meu universo, um eterno iniciante, buscador de bons caminhos para mim e para tudo que acredito. Vivo o tempo de meu axé com desapego ao tempo... O tempo de axé pra mim não é tempo, é água de rio, que corre e abre caminhos, que fura pedras, mas não tem vaidade. 

Inicia-se dia 22 de Julho minha contagem regressiva para as celebrações de meus 14 anos de axé. Esse novo ano que inicia, vai ser lindo, caminhando de mãos dadas com as pessoas que amo e que acreditam em meus sonhos coletivos. Ubunto. 

Difícil tem sido seguir sem meu Mestre maior Pai Paulo Braz Ifátòògùn, sua ausência me deixa inseguro, como se não pudesse aprender mais nada... Me sinto ainda uma criança perdida, contudo, seu Egun tem sido o mesmo Mestre de sempre, só que de uma forma distante... A saudade machuca, mas seguirei seus princípios, e levarei à frente nossas tradições. Tenho duas folhas para semeia o mundo, não o decepcionarei. 

Meu maior consolo é a existência de minha iyalorixá Maria Lúcia Felipe Tia Lú, depositária de todo saber e axé. Nas mãos de suas águas estou entregue, e navegaremos juntos até o mais absal segredo, até o mais profundo amor. 

Adupé! Agò kolofé iyámi Osùn! 
Oré iyéiyé oooooooooooo! 

Sigamos nos banhando de alegria na vida. 

Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Vitória histórica das “águas do rio”! L’Omi L’Odò, um nome para renascer...

 
Alexandre L'Omi L'Odò em sua iniciação, 2004. Foto de Aluísio Moreira.

Vitória histórica das “águas do rio”!
L’Omi L’Odò, um nome para renascer

Agora escrevo para celebrar! Decidi enfrentar esta “guerra” judicial para me afirmar e poder contribuir de forma concreta com a história do Povo das Comunidades Tradicionais de Terreiro do Brasil. Nestes mais de 1 ano e 4 meses (tempo que durou o processo na justiça) de andadas, solicitações de documentos que nem sabia que existiam, deslocamentos gigantescos para ir em cartórios e em fóruns de mais de 4 municípios e, muita paciência com a lentidão surreal da justiça brasileira, consegui ter meu processo julgado favorável pelo Sr. Dr. Juiz Cláudio da Cunha Cavalcanti, Juiz de Direito da Primeira Vara de Família e Registro Civil da Comarca de Olinda, no dia 27 de setembro de 2012 .  Isso me deixa amplamente contente e realizado, sabendo que de alguma maneira pude hermanar de forma coletiva meu sentimento aberto de respeito pelos nossos ancestrais negros e indígenas que morreram no passado (e ainda morrem...) de forma cruel, condenados pelo escravismo e pelo Estado que nos deve muito ainda até hoje. Agradeço por tudo a estes e estas, inclusive por eu estar aqui escrevendo estas palavras com liberdade, hoje.

Tudo começou na minha adolescência... Quando tinha 13 anos... Época de muitas transformações dentro de mim e em minha vida. Foi neste tempo que entrei em contato com a religião da Jurema Sagrada e dos Orixás e, com a música afro e todo universo da cultura popular de Pernambuco, além do Manguebeat. Levado de forma natural para o terreiro de Jurema de Dona Leide de Cibamba (Mestre Brasiliano), no Amaro Branco, em Olinda, de onde se vê o Farol, tive a revelação de que eu seria filho da “mulher do ouro”, e que eu seria “das águas do rio”. Foram estas as palavras do meu querido mestre Cibamba... Para mim, não foi o Ifá que revelou qual era o meu Orixá, e sim a Jurema. A partir deste dia, mudei meus hábitos, adotei o amarelo como minha cor favorita e pesquisei muito sobre estas religiões, lendo livros etc. Com o tempo, fui estudando a língua yorùbá, até me especializar autonomamente e dar aulas sobre o tema em diversos lugares, inclusive em terreiros. A palavra do Mestre Cibamba havia ficado cravada na minha mente: “você é das águas do rio”... Isso repercutiu tanto em mim que fui fazer uma tradução do português para o yorùbá da frase, que a partir de então seria meu nome para tudo. O tempo passou e fui me envolvendo mais e mais com a religião, até ser iniciado para Oxum em julho de 2004 no Ilé Oyá T’Ògún, onde este meu nome foi confirmado pelos odú do próprio Orixá. Fui pertencente a esta casa por 18 anos, hoje, fui integrado ao axé do Ilé Iyemojá Ògúnté, casa de tradição nagô, dissidência do Sítio de Pai Adão. Contudo, este meu nome se consolidou em minha vida concretamente. Eu não era mais o Alexandre Alberto, era Alexandre L’Omi L’Odò, ou simplesmente L’Omi, como a maioria das pessoas me chamam... Daí pensei: Por que não mudar meu nome na justiça? Seria ótimo para mim, tendo em vista que meu amor pelo Orixá já era imenso e minha vontade de integrar o nome da divindade em minha vida social já era certo. Até uma empresa com o nome L’Omi L’Odò abri oficialmente... Isso tudo também me levou a reivindicar meu direito líquido de cidadão em mudar meu nome, integrando a mim o axé que me foi dado nesta vida, desde nascença.  

Diário de Pernambuco - EDITORIAL, Frases da Semana. 03 de outubro de 2012. Alexandre L'Omi L'Odò em foco.
Esta minha atitude também foi uma forma de combater o racismo, a xenofobia, preconceito e intolerância religiosa através da afirmação do meu nome yorùbá em meus documentos. Agora o país tem um precedente legítimo e válido judicialmente para contribuir no processo de quebra de valores eurocêntricos - “embranquecidos” e judaico-cristãos. Na lista de chamada da universidade, em assinaturas de artigos, no RG e CPF, em suma, no meu registro de nascimento constará esta fundamental parte de mim, as águas do rio, elemento sagrado de minha mais particular e intrínseca identidade. Todo este meu esforço foi um protesto, reivindicando o direito ao nome ancestral, negado pela cruel prática vigente ainda hoje de destruição de culturas e cosmovisões, protagonizada no ocidente especialmente pelos cristãos.

Mesmo tendo uma forte militância política e religiosa em defesa da Jurema Sagrada, meu foco sempre foi contribuir para o avanço nas diversas áreas das religiões tradicionais de terreiro como um todo. Vivo uma realidade de dupla pertença religiosa. Sou da Jurema e do Orixá... Em Pernambuco, especialmente em Recife e sua Região Metropolitana o formato nas mais de 1261 comunidades tradicionais de terreiro mapeadas pelo MDS em 2010 é esta. Na verdade mais de 70% destes terreiros praticam a dupla pertença religiosa, com forte prática da Jurema no seu cotidiano. Este indicativo justificaria de forma preliminar o porquê de o Mestre Cibamba ter se antecipado ao Ifá em me avisar sobre qual seria meu Orixá... Isso em nossa cultura não é um absurdo teológico e sim uma prática comum de imbricamento cosmo teológico e cultural afro indígena. Aviso isso para poder desde já contribuir para a avaliação sempre endurecida e antiquada dos “nagocentristas”.  

Gosto de lutar. Este é um dos caminhos do meu odú, acredito que motivado pela nossa evidente necessidade de suplantar as dificuldades sociais, chagas históricas dos candomblecistas, juremeiros e umbandistas. Sempre falei: O caminho dos iniciados é o caminho da consciência! Entendo que nós não podemos ter uma vivência meramente passiva dentro de nossa religião. Quando nos iniciamos, herdamos e resgatamos simbolicamente e teologicamente a história e tradição dos nossos ancestrais, por isso, temos que perceber onde estamos e o que fazer para a partir de então para se relacionar de forma mais propositiva com a sociedade em geral. Vencer o contexto ocidental cristão do nome (identidade individual) é uma questão necessária para que criemos massa crítica entorno do tema... 

A questão do batismo cristão e anulação da identidade, memória e tradição africana e indígena foram entre os séculos XV e XX formas de anular a memória oral contida nestes nomes míticos de batismo nas culturas não ocidentais. Esta “técnica” de ceifar a memória, fez com que de fato, os negros e negras, índios e índias passassem a assumir nomes cristãos, se acostumando culturalmente através dos séculos com este tipo de identificação. Hoje, e nos últimos mais de 30 anos, o Movimento Negro tem contribuído de forma muito forte no resgate destes nomes. Muitos militantes e não militantes colocaram nomes africanos em seus filhos e filhas. Conheço algumas pessoas com nomes africanos e indígenas também, e isso é belo de ver, pois é uma forma de combater o processo de eugenia dos nomes não cristãos. O diferencial do meu caso, é que eu tinha um nome ocidental e quis mudar oficialmente para um nome não ocidental, integrando a minha documentação uma frase (orikí) yorùbá, sobre tudo e principalmente, tendo como referência da petição uma justificativa totalmente afro indígena religiosa/teológica. Isso tornou o caso inédito, pois ninguém no Brasil até então havia pedido mudança de nome por motivos religiosos à justiça. Ainda, neste mesma petição, justifiquei que este nome (L’Omi L’Odò) foi meu nome de “batismo” no culto aos Orixás e que fazia parte de minha mais profunda identidade.  

 Matéria Diário de Pernambuco de 02 de Outubro de 2012. Vida Urbana C4. Novo nome em oferenda a Oxum. Alexandre L'Omi L'Odò.

Isso tudo me levou à transcendência de minha realidade, traduzindo meu universo íntimo através do meu nome mítico teológico e identitário que é um orikí à Oxum. Caso que me emociona profundamente. Isso tudo foi como dar um ebó (oferenda, sacrifício, homenagem ritual) para Oxum, também para além de muitas coisas, agradá-la... Minha alegria em presentear Oxum com este feito é a maior de todas. Este talvez tenha sido o maior ebó que já ofereci a minha mãe ancestral... Oxum é uma rainha entronada em minha cabeça, e a ela, devo todo respeito e dedicação. Esta mudança de nome foi sim, e reafirmo, de minha parte, uma forma de agradar meu Orixá e meus ancestrais. Tenho certeza que eles receberam isso com todo carinho, pois até o Ifá “alafiou” (confirmou). Fico feliz também com a possibilidade de dar um nome aos meus futuros filhos e filhas, que carregarão consigo a marca de uma das lutas justas por direitos equânimes na sociedade brasileira. Tudo o que fiz foi por amor, amor ao que acredito.

Infelizmente, a comunidade do Povo de Terreiro não deu ainda atenção devida a este fato histórico que pode ajudar verdadeiramente a muitos e muitas que desejarem mudar de nome para integrar suas divindades ainda mais a si, numa perspectiva oficial e social. A Ausência de apoio e divulgação do povo de terreiro a este caso pode ter dois motivos – 1. Pouco acesso aos meios de comunicação, principalmente a internet; 2. Falta de entendimento da importância do caso para a coletividade da religião. Isso me preocupa. Pois, deveríamos nos unir para fortalecer ações como esta, que são sérias, concretas e que valorizam a nossa diversidade religiosa como um todo. Algumas pessoas podem até confundir isso tudo com vaidade ou arrogância, porém, o caso por mim protagonizado, abriu um precedente jurídico histórico, não só para o povo de terreiro, mas também para as outras religiões e até mesmo para os transexuais. Isso me orgulha sim, com todo direito.  

Escrevi estas linhas para celebrar a data de mais um renascimento em minha vida. Oore yèyé o! Axé e Salve a Fumaça!

Agradeço profundamente a Greyce Pires, minha primeira advogada, que com muito carinho iniciou e me ajudou neste processo. Obrigado a João Monteiro e Sandro de Jucá que foram minhas testemunhas oficiais no dia da audiência final e, um aconchegante carinho para a querida Marcionia Teixiera, jornalista das mais ágeis e inteligentes que conheci, por ter acompanhado todo o caso, dando boa visibilidade na mídia impressa e de internet. Devo um agradecimento mais que especial ao querido e grande advogado Adriano José, que com carinho e sabedoria, me defendeu na última audiência do caso com competência e grandiosidade, garantindo minha vitória. Odé lhe enviou, adupé!

 A Oxum canto para celebrar:

Orò mi máa - Minha obrigação habitual
Orò mi máa ‘yó - É feita com alegria
Orò mi máa ‘yó - Minha obrigação habitual
Àyaba ‘dò yeye o - Para a Rainha do rio”
(BENISTE, 2002, p.125).

Saúdo Oxum com meu mojubá - Oríkì

Ó l’é - Ela tem beleza
Oore yèyé o, gbà mi - Mãe bem feitora, proteja-me
A fidé ré omo - Aquela que enfeita os filhos com bronze
Òsun, òyéyéni mò - Que é cheia de compreensão”
(BENISTE, 2002, p.127)

“Quero saciar minha sede milhões de vezes, milhões de vezes”...

Alexandre L’Omi L’Odò
Filho de Oxum e Juremeiro
alexandrelomilodo@gmail.com

quarta-feira, 28 de julho de 2010

"Menino, filho da chuva". Poesia de José Mário Austragésilo.

José Mário Austragésilo, poeta, jornalista e radialista. Foto de Isabel- Sujaan.

Caro Alexandre,
aproveito o e-mail de Belsinha (que fala dos seus seis anos de iniciação para Oxum) para dizer do quanto achei bonito seu texto e emocionante, principlamente pelos sentimentos que passa.
Ofereço a você o poema abaixo:

Menino, filho da chuva

Estende tuas mãos abertas
recolhe essa água que vem do Universo
derrama sobre as cabeças inqueietas
e espalha a serenidade nos olhos dos que passam.

Menino, filho da chuva,
reparte essa dádiva com os aflitos
alivia suas dores e cansaços
oferece teu ombro amigo
e tuas rodas de cantigas e alegrias.

Menino, filho da chuva,
estende tuas mãos e faz um roda bem grande
junta todos os povos meninos
e dá para cada um uma estrela de presente.

Jose Mario Austregésilo

28/07/2010.

Abraços.
________________
Republico aqui poesia enviada ao meu email pelo amigo-irmão José Mário Austragésilo.
Agradeço todo carinho a mim dedicado, muito axé, grande companheiro poeta.

Alexandre L'Omi L'Odò
Oxum Tola wá!!
alexandrelomilodo@gmail.com

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Dia 26 de Julho 2010, meu aniversário de seis anos de iniciação para Oxum! Bariká fun mi!

Ilús que tocaram no dia do meu orunkó. Foto de Aluísio Moreira/PE

BARIKÁ FUN MI! (Parabéns para mim!)

Hoje, dia 26 de Julho de 2010, comemoro meus seis anos de iniciado para Oxum.
Celebrar é preciso!

Alexandre L'Omi L'Odò, no dia seguinte a festa do Orunkó. Foto de Aluísio Moreira/PE
Lembrar do dia 26 de Julho de 2004, é remontar a cena mais sublime que já pude mirar em minha vida. O dia da minha iniciação, do meu renascimento para a religião dos Orixás, o Babaxé (Aba Baxé ni Orí)*, a hora de minha morte e renascimento para minha fonte de equilíbrio negra natural. Oxum naquele dia entronou-se em definitivo e de forma irrevogável de uma só vez em meu Orí (cabeça) e na minha vida, no meu Odú pessoal.

Fui iniciado no Ilê Oyá T'Ògún, de mãe Lúcia Crispiniano, a mãe Lúcia de Oyá, sacerdotisa a quem devo todo meu respeito e formação iniciática no culto do Orixá e da Jurema Sagrada, a quem agradeço por todo carinho de cuidar (parir) de um filho tão complexo e difícil como eu, que sempre quero saber mais, entender mais e fazer mais por nossa religião, de forma a meu modo claro, "radical" e autocrítico.

Alexandre L'Omi L'Odò na segunda saída do Hunkó (colorida). Foto de Aluísio Moreira/PE
Recebí o chamado para a iniciação em Dezembro de 2003, em uma cerimônia de fechamento de ano da Jurema, onde quem estava no ponto era Dona Rosa, a pombojira dona do terreiro de Oyá, que me chamou em público e disse: "Nêgo dos cabilôro grande, vosmicê tem seis tempos (seis meses) pra fazer seu santo, Oxum quer seu cabilôro (Orí- cabeça)". E como sempre fui do axé e não sabia como conseguiria me iniciar sem estar preparado para os gastos e todas as responsabilidades que demandam a iniciação, indaguei a ela como poderia eu, desempregado, sem ter nenhum tostão para pagar a obrigação, fazer meu santo em seis meses (em Julho de 2004)? - Ela respondeu: Oxum vai lhe dar, pois é ela quem quer! e assim foi, Oxum, Ògún e Exú, além claro de Malunguinho, o Mestre Boiadeiro e a Mestra Paulina, deram de forma divina toda condição financeira e de estrutura psicológica e ideológica para eu cumprir as exigências do meu Orixá.

"Quando o Orixá quer, ele dá", assim já dizem os mais velhos, e eu pude confirmar isso na prática, que quando nossa divindade nos chama, temos que aceitar, de forma que, a entrega a nova vida seja completa e sem medos ou preconceitos, que o nosso renascimento seja comprometido com o equilíbrio e com a religação ancestral com nossos antepassados africanos.

Lembro ainda do grande Mestre da Jurema sagrada, o senhor Brasiliano, o Mestre Cibamba de D. Leide de Olinda, que aos meus 13 anos de idade (tempos que ainda era percussionista do balé afro Magê Molê) já havia revelado minha natureza, dizendo assim: "Nêgo, a Mulé do Ouro (Oxum) é sua mãe, ela que tá na sua caminhada pra sempre", revelando além de muito mais coisas, a forte relação que as divindades da Jurema tem com os sagrados Orixás africanos, estabelecendo uma ligação tão forte a ponto de informarem coisas que só o Ifá (sistema divinatório yorùbá) poderia dizer.

Sou da espiritualidade desde que nasci e hoje, ao passar de todo este tempo integrando o culto indígena da Jurema e o culto de matrizes africanas dos Nagô, posso dizer que estou mais forte em minha fé, em meu caminho, em minha compreensão de mundo, pois vivencio a experiência profunda da entrega, da quebra dos meus preconceitos, da luta contra o racismo e descriminação e intolerância religiosa, da luta contra os conceitos cristãos ocidentais em minha religião, na iconoclastia dos valores católicos e cristãos invasores de nossas mentes e vidas, e especialmente na liberdade de experienciar a relação integral com a espiritualidade ancestral.

Peço minha benção a Oxum por ela ter me aceito como seu filho, honrando minha vida, me possibilitando ser uma pessoa mais água do rio (L'Omi L'Odò) a cada momento, segundo, milésimo de segundo...

Mãe Lúcia de Oyá T'Ògún e Oxum. Foto de Aluísio Moreira/PE.

Falta apenas um ano literalmente para eu passar a ser um adulto em minha religião, completando o primeiros ciclo de sete anos sacerdotais, ganhando algumas liberdades, no ritual denominado de Deká**. Vamos em frente...

Deixo um Orikí para Celebrar o dia de hoje:

"Mo r'ómi màá jó- Vejo água, danço
Mo r'ómi màá 'yò-
Vejo água, sou feliz
àgbàdo mi l'ore òjò-
O meu milho é amigo da chuva"***

(As últimas duas linhas podem ser também traduzidas assim: Vejo água e estou feliz, assim como o milho é feliz quando vê a chuva. Conotando a importância da água na vida e no desenvolvimento do ser- fertilidade)

Como não pude fazer festa, fiz texto!

_________________

*"Ato de sagração, no qual o Babalorixá leva o Elegum (filho do Orixá), a confraternar um contato mais eficaz com o seu Orixá. A cerimônia lembra um batismo, que é feito com sangue de certos animais, a depender do Orixá evocado. E, ao mesmo tempo, é o nascimento do noviço para a vida na seita, que tão logo, aconteça a comunhão entre o subordinado e o elemento encantado, fica estabelecido o transe com aquele que direcionará o seu destino, chega-se ao ponto épico, onde o já sagrado iaô, receberá uma Suna (nome), que fará pronunciado, no dia de sua apresentação pública.". OMINSULÁ, Roberto dos Santos Miranda. Mitos & Ritos Nagô, o Saber de Ominsulá. Editora Brasília, Bra. 1988. pag. 156.

**Deká- Ritual de transição do cargo sacerdotal de Iyawò (Elegun, iniciado para o Orixá), para o cargo de Egbomi (meu irmão mais velho). Mas digo: Deká não quer dizer nada!

***Oriki extraído da bibliografia: CARVALHO, José Jorge de. Cantos Sagrados do Xangô do Recife. Brasília: Fundação Cultural Palmares. 1993. pag. 96 e 97.


Alexandre L'Omi L'Odò.

Iyawò ti Osún.

alexandrelomilodo@gmail.com

Quilombo Cultural Malunguinho

Quilombo Cultural Malunguinho
Entidade cultural da resistência negra pernambucana, luta e educação através da religião negra e indígena e da cultura afro-brasileira!