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sábado, 9 de julho de 2016

Discriminação dentro de ônibus desperta debate sobre intolerância religiosa

Alexandre L'Omi L'Odò denunciou o caso de intolerância religiosa ao MPPE. Foto de Rafael Martins.

Discriminação dentro de ônibus desperta debate sobre Intolerância religiosa


Sacerdote da Jurema foi execrado por evangélicos e denunciou o caso ao Ministério Público

Matéria de Adaíra Sene
Diario de Pernambuco, 17 de Junho de 2016.

Ele é amaldiçoado, macumbeiro, catimbozeiro, dessas religiões, víbora do inferno, illuminati do satanás. Não faltaram termos pejorativos para um grupo de evangélicos queimar Alexandre L'Omi L'Odò, sacerdote da jurema, na inquisição da pós-modernidade. E nos novos tempos, o julgamento vem em cliques. As imagens das ofensas caíram nas redes sociais e causaram inquietação. Se nos séculos passados as chamas ardiam sob alegação de combate à heresia, no último dia 09, as palavras incendiaram com o intuito único de exterminar o diferente. Em um país miscigenado, foi no terminal de ônibus de Xambá - assim denominado em respeito à Nação Xambá ainda viva em Olinda - que um seguidor da religião de matriz africana e indígena se viu coagido por suas crenças. A intolerância vivida por Alexandre - produtor cultural, fundador do Quilombola Cultural Malunguinho e estudante de mestrado em Ciências da Religião - agora é investigada pelo Ministério Público de Pernambuco.

"A maioria do nosso povo abaixa a cabeça e guarda para si quando nos agridem. Eles usam adjetivos para desqualificar nossa tradição, sacerdócio e nossos símbolos religiosos. Eu não saí de casa para brigar com ninguém, mas reagi. Tive que enfrentar isso como os velhos guerreiros malunguinhos enfrentavam", desabafou. 

No dia 09, por volta das 20h, ele entrou num ônibus que fazia a linha TI Xambá/Encruzilhada, no Terminal de Xambá, acompanhado do afilhado de jurema Henrique Falcão. Os dois seguiam para a casa de axé Ilé Iyemojá Ògúnté, em Água Fria. Mas, segundo o juremeiro, ao entrar no ônibus, um vendedor de açaí começou uma pregação e instigou os evangélicos que estavam no coletivo contra ele. Teria dito, inclusive, que sabia da existência de um grande terreiro de "macumba" por trás da estação, o Terreiro Xambá, comandado por "um negão pai de chiqueiro", citando o babalorixá Ivo de Xambá.  

"Ele falou do meu povo e de um sacerdote. Fui diretamente atingido e reagi. Ainda me chamou para brigar dizendo que o demônio não conseguiria atingir um filho de Deus. Sou pacifista, mas não abaixo minha cabeça. Rebati com argumentos convincentes sobre o desrespeito dele até mesmo aos princípios da religião que segue, que diz que não devemos julgar. Algumas pessoas concordaram, mas outras se manifestaram até com o Espírito Santo contra mim", detalhou. A confusão foi tamanha que até mesmo o vigilante do Terminal Integrado foi até o ônibus. "Seguranças e fiscais da estação mandaram que nos retirássemos. Óbvio que também os rebati dizendo que paguei a passagem e que eu era a pessoa que estava sendo violentada". Segundo Alexandre, a discussão só terminou quando ele chegou ao seu destino.

Indignado, o juremeiro publicou um vídeo que fez das ofensas no Facebook no último 12. A postagem alcançou grande repercussão e - até a noite desta sexta-feira - tinha mais de 500 compartilhamentos. Alexandre L'Omi L'Odò, então, levou a denúncia para o Ministério Público. O caso foi registrado nessa quinta-feira. O MPPE, por meio da Promotoria de Justiça de Transporte, colheu o depoimento dele e vai instaurar um procedimento investigativo. No prazo de 30 dias, o caso será analisado para que sejam tomadas as medidas cabíveis. O promotor de Justiça Humberto Graça foi designado para a ocorrência.
A equipe de reportagem entrou em contato com o Grande Recife Consórcio de Transportes para questionar a conduta do fiscal e o comércio irregular e pregação dentro do coletivo. Segundo o Grande Recife, quem interveio foi um vigilante patrimonial. Através da assessoria de imprensa, o funcionário afirmou que entrou no ônibus tentando apaziguar a discussão, mas que em momento algum pediu para que eles se retirassem. Doutrinações e vendas são proibidas dentro de ônibus e, segundo o Consórcio, cabe aos motoristas solicitarem que as pessoas parem ou se retirem. Quando são flagradas pelos fiscais, as empresas são autuadas. Não foi o que aconteceu no último dia 09.
Regulamentação do Grande Recife
De acordo com o anexo 15 do Regulamento do Sistema de Transporte Público de Passageiros da Região Metropolitana do Recife (STPP/RMR), não é permitida a atividade de vendedores ambulantes dentro dos veículos, assim como é proibido qualquer usuário de falar em voz alta (seja para vender, anunciar, pedir, pregar religiões, etc) de modo que perturbe o sossego dos demais usuários.

CASO REACENDE DEBATE QUE ANDA À ESPREITA NA SOCIEDADE: A INTOLERÂNCIA RELIGIOSA


Preconceito religioso foi tema de especial do Diario: Povos de Santos. http://diariode.pe/f0uc. Foto: Victor Germano

Para o psiquiatra Carl Jung, o papel dos símbolos religiosos é dar significação à vida do homem. A partir dessa consciência de fé, florescem as mais diversas crenças enraizadas por influências do meio e da colonização pela qual ele se formou. De acordo com a doutora em teologia especialista em políticas públicas e direitos humanos e uma das fundadoras do Comitê Nacional de Diversidade Religiosa, Marga Janete Ströher, no Brasil, a intolerância religiosa sempre existiu.

"Nossa colonização já veio acoplada a um projeto político e religioso. Há 516 anos, os índios não tiveram sua religiosidade reconhecida. Os povos ciganos já vieram expulsos da Europa. Os africanos foram escravizados. Lidamos com isso como convivemos com uma suposta democracia racial. Você só ouve falar quando chega a níveis extremos, com incêndios criminosos em terreiros e assassinatos".

A intolerância no país tem aumentado?
Eu trabalhei por quatro anos acompanhando de perto as denúncias do Disque 100, o Disque Direitos Humanos. Posso dizer que tem aumentado de forma sistemática e cada vez mais agressiva. O fascismo que cresce dentro do nível político e econômico também se transporta para o nível das relações e se prolonga pelo país inteiro. Para termos uma ideia, desde quando começamos a divulgar o Disque 100, de 2012 até 2013, houve um aumento de 600% no número de denúncias. 

Quem são as principais vítimas da intolerância religiosa?
A gente sabe que em primeiro lugar estão as pessoas de matrizes africanas, indígenas ou afro-indígenas. Mas também existem os muçulmanos que são diretamente vinculados ao terrorismo porque as pessoas não têm discernimento sobre o que é religião e o que é posição política radical. E ainda temos ateus e agnósticos nos país, cerca de 8%, que sofrem porque são julgados como sem caráter por não acreditar em Deus. 

Quem são os principais agressores?
É complicado você dizer isso, mas, de acordo com as denúncias, por via de regra são seguidores de religiões fundamentalistas, cristãos evangélicos. É importante deixar claro que não é apenas uma intolerância religiosa. Ela é um componente muito forte de racismo atrelado à violência. Não estamos mais apenas no nível do desrespeito. Chegamos ao ponto crítico de assassinatos. 

Onde as agressões mais acontecem?
Por incrível que pareça, muitos casos acontecem com crianças ainda nas escolas. Muitas são discriminadas e ofendidas verbalmente por estarem com vestimentas ou guias, por exemplo, que fazem parte dos rituais das tradições. Mas acontece em todos os lugares. Nas ruas, em supermercados. Os terreiros mesmo, considerado lugares sagrados, têm sido apedrejados e destruídos pelo país inteiro.

Essa violência motivou a criação do Comitê Nacional?
A motivação maior da criação do Comitê de respeito à diversidade religiosa veio a partir das denúncias que a gente recebia através do Disque Direitos Humanos. Mas, além disso, também recebíamos muitas informações nas visitas que fazíamos pelo país e decidimos criar algo para concentrar ações e reverter essa história.

Qual a missão do comitê?
O comitê é paritário e funciona em parceria do Governo Federal com a sociedade civil. Ele serve para ampliar o debate e fomentar a implantação de políticas públicas para atender essa demanda crescente. Ele tem essa função importante de trabalhar metodologias de conscientização.

Como as pessoas podem denunciar?
Se você se sentiu desrespeitado devido às crenças que segue, procure a delegacia mais próxima, registre a ocorrência. Vá ao Ministério Público, denuncie. Por todo o país existem órgãos de assistência e acolhimento para vítimas desse tipo de violência.

"É preciso problematizar a questão. Não é a primeira vez que isso acontece. E isso é fruto de um proselitismo religioso. O número de evangélicos vem crescendo e eles são doutrinados a pensar que apenas a religião deles é a correta. Muitas igrejas estão bombardeando ideologias racistas e preconceituosas sob uma perspectiva teológica que o Deus deles é melhor que o dos outros e formam pessoas preparadas para agredir nosso povo pelas ruas. É preciso uma intervenção enérgica de conscientização para que crimes de intolerância parem de acontecer. Sei que é uma ferida aberta e foi preciso que eu colocasse o dedo para ampliar o debate. Mas nossos terreiros estão sendo incendiados, os filhos de santo têm apanhado nas ruas. Se esse pensamento fascista se expandir, daqui a pouco vamos derramar sangue por religião", ponderou o juremeiro Alexandre L'Omi L'Odò.

Central de Atendimento Disque 100
Ligação gratuita 24 horas: 100


Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho 
alexandrelomilodo@gmail.com

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Muda de Jurema será plantada pela primeira vez em escola pública

Sacerdote da Jurema L'Omi L'Odò com a Jurema aos pés. Foto de Rafael Martins/DP.

Muda de Jurema será plantada pela primeira vez em escola pública
Árvore é símbolo principal de religião de matriz indígena de mesmo nome

Matéria de Marcionila Teixeira.
Foto de Rafael Martins/DP.
Diário de Pernambuco, 08 de Junho de 2016. Local.

Uma muda de jurema, planta comum no Nordeste brasileiro e de grande significado para os seguidores da religião de matriz indígena de mesmo nome, será plantada nesta quinta-feira, pela primeira vez, em uma unidade de ensino pública do Brasil. O ato marca a Semana do Meio Ambiente na Escola de Referência em Ensino Médio Professor Cândido Duarte, em Apipucos, no Recife. O ato religioso e cultural também acontece em homenagem ao rei Malunguinho, líder da luta por liberdade de negros, negras e indígenas no Quilombo do Catucá, no século XIX.

Além de promover um debate sobre a relação das religiões de matrizes indígenas e africanas com o meio ambiente, o professor de geografia e direitos humanos, Rodrigo de Lima, também pretende marcar a data combatendo a intolerância religiosa e racial dentro da unidade de ensino, formada por 300 alunos do 1° ao 3° ano do ensino médio.

Rodrigo, que é catequista da Igreja Católica, costuma chamar o Quilombo Cultural Malunguinho, instituição voltada à informação, pesquisa e formação na cultura e prática afro indígena brasileira, para palestras na escola. “Sempre discutimos a consciência negra. Sigo a linha da teologia da libertação e considero importante quebrar a discriminação religiosa e racial. Temos muitos alunos evangélicos e católicos e há dois anos já estamos discutindo o tema”, explica.

Alexandre L’Omi L’Odò, sacerdote da Jurema e fundador do Quilombo Cultural Malunguinho, fará palestra sobre a contribuição das religiões afro-indígenas para a preservação ambiental. Em seguida, estará à frente do ritual de plantio da jurema no terreno da escola, que será acompanhado pelos alunos. "Este pé de Jurema será plantado como símbolo de esperança na luta contra o racismo e a intolerância religiosa, assim como para fortalecer o respeito à diversidade e garantir no espaço da escola um patrimônio de memória viva dos povos indígenas que nesta terra já habitavam antes da chegada dos colonizadores brancos e dos negros e negras escravizados", reflete Alexandre. 

A muda tem um metro e pode atingir cinco metros de altura com sete metros de copa. “A jurema sagrada é deusa- mãe, é o centro de tudo na religião. É de onde tiramos toda a força e enregia da natureza para trabalhar na religião. Os indígenas do Nordeste conheciam a planta muito antes dos colonizadores”, explica.

Em 2005, a professora de história Célia Arruda plantou um baobá, árvore de origem africana, na Escola de Referência de Ensino Médio (EREM) Mariano Teixeira, em Areias, Zona Oeste do Recife, para trabalhar também temas relacionados ao meio ambiente e à cultura negra. A árvore é um dos símbolos do movimento negro no Brasil. Hoje, a lei 11.645, que altera a 10.639, inclui o ensino da cultura e tradições indígenas nas escolas.


Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Derrubada de baobás agride tradição ancestral e fere princípios da sustentabilidade



Ancestralidade

Derrubada de baobás agride tradição ancestral e fere princípios da sustentabilidade
Comunidades afrodescendentes ressaltam importância de preservação da árvore trazida para o Brasil pelos escravos e alertam para o descompasso com os anseios da sociedade 

Patrícia Fonseca - Diario de Pernambuco
Publicação em: 24/04/2015

Em Olinda, a Promotoria de Justiça e Cidadania tenta impedir a continuação de uma obra que, sem realizar o Relatório de Impacto Ambiental (Rima), iniciou a supressão de 13 hectares de área de preservação permanente nos bairros de Jardim Atlântico e Jardim Fragoso. Entre as mais de 1.300 árvores apontadas no inventário de destruição da Via Metropolitana Norte para a construção de uma via de 61,1 quilômetros ligando as PEs 15 e 01, estão dois baobás plantados na Sementeira Municipal de Olinda. A cobrança da promotora Belize Câmara lança luz sobre importantes discussões da sociedade atual e oferece uma reflexão sobre a luta do indivíduo em não esquecer de suas origens, sua identidade, por mais fortes que sejam o argumento do progresso, a especulação imobiliária, o processo de aculturação, o preconceito.

"Hoje o que assistimos é um grande culto ao concreto, que vem desconfigurando as cidades, as deixando totalmente sem vida, sem alma, ao ponto de não entenderem a importância histórica, simbólica e espiritual de um baobá", diz Quitinho de Xambá. Foto: Karina Morais/ Esp. DP/ D.A.Press

Para os povos de matrizes africanas, o baobá é a arvore que guarda os ancestrais. "É uma agressão à nossa história, à nossa ancestralidade e religiosidade, e demonstra o quanto a mentalidade dos nossos gestores e instituições públicas está desconectada com o clamor do mundo, que grita por um modelo de sociedade mais sustentável. Hoje o que assistimos é um grande culto ao concreto, que vem desconfigurando as cidades, as deixando totalmente sem vida, sem alma, ao ponto de não entenderem a importância histórica, simbólica e espiritual de um baobá", explica Guitinho de Xambá, o filho de santo do Terreiro Xambá, que agrega cerca de 500 fieis em São Benedito, em Olinda.

Segundo Guitinho, a construção do novo para os povos de matrizes africanas não passa pela destruição do seu passado, mas é resignificado, oferecendo possibilidades de construção de cidades harmônicas: "No candomblé não se tira uma folha de uma árvore e não se planta uma árvore sem que haja um sentido para a coletividade, sem contemplar o todo, para agregar valores à sociedade. Pensar que uma cidade inteligente e moderna é enchê-la de pontos de internet nas praças, é uma engano. A humanidade sobrevive sem o facebook, sem o whatsapp, mas não sobrevive sem a sombra das árvores", atesta.

 Amaro Luiz da Silva plantou, há 30 anos, as árvores agora ameaçadas: "Quando soube que iam derrubar, corri, fui pra casa. Não consegui mais ficar aqui". Foto: Karina Morais/ Esp. DP/ D.A.Press

O engenheiro agrônomo Raul Soares, diretor geral de Paisagismo da Prefeitura de Olinda, guarda, há cinco anos, três mudas de baobá no que restou da sementeira municipal e que pretende replantar em breve. A árvore vai representar a "pedra fundamental" do novo espaço, que ainda não tem local definido. Diretor do local, ele diz que apesar de saber do projeto da Via Metropolitana, foi surpreendido com a forma de retirada tão intempestiva. "Foi feita uma comunicação verbal. Não nos mostraram notificação. É uma história de 35 anos jogada no lixo de uma hora para outra. Aqui era um viveiro florestal, onde plantamos matrizes para fazer a multiplicação por sementes ou de forma vegetativa em todas as praças, parques, canteiros centrais da cidade. Há três anos paramos de produzir mudas e estamos mantendo apenas o estoque, enquanto está sendo negociada outra área para a sementeira Pedro Jorge, batizada em homenagem ao procurador assassinado nas proximidades", conta Soares.

Cerimônia de plantio de uma muda de baobá no giradouro dos Bultrins, em Olinda, reuniu a comunidade Xambá e a Confraria do Rosário dos Homens Pretos. Foto: Jedson Nobre/ Divulgação

O agrônomo lembra que é possível, sim, fazer o transplante dos baobás. No entanto, a proposta do projeto da Secretaria Estadual das Cidades que não realizou Estudo de Impacto Ambiental é fazer a compensação de cerca de 2.600 mudas nos municípios de Camaragibe e Jaboatão dos Guararapes e não na mesma bacia hidrográfica afetada. Segundo ele, em Pernambuco não existe esta tecnologia, mas empresas de São Paulo, por exemplo, são especialistas no processo que obtém êxito em quase 100% dos casos.

A notícia enche de esperança o jardineiro Amaro Luiz da Silva, de 66 anos, 25 deles atuando na Prefeitura de Olinda. Foi ele quem plantou na sementeira, há 30 anos, os dois baobás ameaçados de serem derrubados. "Plantei com minhas mãos esses baobás e mais 50 árvores que foram derrubadas aqui. Tinha pé de jambo, fruta-pão, azeitona, manga. Os animais se alimentavam das frutas. Tinha saguis, passarinhos. Todos fugiram, ninguém sabe onde estão. É muito gratificante plantar uma árvore, cuidar, ver crescer. É como uma criança, um filho. Tem que cuidar pra ver ficar bonito. Estou muito triste, angustiado. Foi como se tivessem me dado um tapa na cara. Quando soube que iam derrubar, corri, fui pra casa. Não consegui mais ficar aqui", conta Seu Amaro, sem tirar a mão do "filho" de 23 metros de altura e quatro metros de circunferência.

História
Conta-se que, antes de serem embarcados nos navios negreiros, os africanos feitos escravos eram obrigados a dar voltas em torno de um baobá. Os algozes acreditavam, com o ritual realizado ao redor da "árvore do esquecimento", que eles perderiam da memória seus vínculos de família, língua, costumes, seu pertencimento. Uma maneira também de tentar livrá-los da culpa por imporem tanto sofrimento. O que se sabe é que os negros colheram e trouxeram escondidas para o Brasil sementes da árvore sagrada que representa resistência, longevidade.

Alexandre L'Omi L'Odò, sacerdote juremeiro, historiador e mestrando em ciências da religião pela UNICAP. Foto de Karina Morais.

"Nossos ancestrais plantaram os baobás em locais propícios para a formação de aldeias, para que em torno deles fossem construídas comunidades. Infelizmente, não conseguiram por causa da escravidão e da falsa abolição. Mas eles se preocuparam em deixar sinais: por aqui passaram os africanos. Os baobás ficaram e representam a resistência, a perenidade de um povo", aponta o historiador Alexandre L'Omi L'Odò, sacerdote da religião Jurema, candomblecista e mestrando em Ciência da Religião com o tema Jurema Sagrada.

Não por acaso, Pernambuco é considerada a segunda "pátria" dos baobás. Concentra a maior quantidade de exemplares em todo o mundo, depois da África, seu continente de origem. O estado possui 110 pés catalogados em um mapeamento realizado em 2011 pelo jornalista e fotógrafo Marcus Prado. "Comecei em Paulista e fui até o Sertão do Araripe, de carro, sobretudo de ônibus, moto e até em cima de um burro. Os acessos são os piores possíveis. Rodei 700 quilômetros para fotografar um único baobá em Araripona. Muitos são centenários e a maioria está ameaçada. Um deles, num engenho tombado no interior do estado, foi queimado. Em frente ao Cemitério de Santo Amaro, no Recife, derrubaram um baobá centenário há cerca de sete anos", denuncia o jornalista, que cadastrou espécies na Ilha de Itamaracá, São José do Belmonte, Serra Talhada, Arcoverde, Sanharó, Caruaru, Limoeiro, Gravatá, Vicência, Itambé, Ribeirão, Carpina, Buenos Aires, Vitória de Santo Antão, Recife, Ipojuca e Olinda. 

Link da matéria: 


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Publico aqui matéria do Diário de Pernambuco que tive muito prazer em contribuir. Um tema de suma importância para todo povo de terreiro e afro descendente do Brasil. Desculpem pelo texto com essa cor, pois isso é sinônimo de que foi copiado do site do Jornal. Ainda não aprendi a tirar isso... Mas dá pra ler tranquilamente. A toada que cantei no vídeo me foi ensinada pelo meu pai Alapini Paulo Braz Ifátòógún, o mesmo que me autorizou a cantar esta bela melodia do repertório sagrado de Orunmilá. Boa leitura e salve a fumaça!!

Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

Quilombo Cultural Malunguinho

Quilombo Cultural Malunguinho
Entidade cultural da resistência negra pernambucana, luta e educação através da religião negra e indígena e da cultura afro-brasileira!