Espaço internacional de discussão e troca de saberes. Local para estreitar nossas negras discussões e lucubrações sobre a Música Percussiva (Yorùbá/afro-descendente e nordestina) e as religiões das matrizes indígenas e africanas, além de todo o seu imaginário histórico, social, cultural e pedagógico. Local de exposição de vivências práticas com a religião negra!!!
Alexandre L'Omi L'Odò em entrevista no programa Balanço Geral na TV Club Pernambuco no dia 20 de Junho de 2016.
Repercussão na mídia do Caso de intolerância religiosa sofrida pelo juremeiro Alexandre L'Omi L'Odò
A repercussão do caso de intolerância religiosa sofrida pelo sacerdote juremeiro Alexandre L'Omi L'Odò ocupou as redes sociais com o vídeo/registro do caso e relato escrito que "viralizou" no facebook. Ocupou ainda as páginas dos três jornais de Pernambuco e a mídia televisiva através do programa de alta audiência Balanço Geral da TV Club PE. O sacerdote ainda denunciou o caso ao Ministério Público do Estado - MPPE e aguarda respostas oficiais da instituição.
Matéria impressa do Jornal Folha de Pernambuco. Ver texto no link abaixo.
Foi de grande importância toda esta movimentação que fez ferver as páginas dos jornais na internet com uma enorme diversidade de comentários a favor da luta contra a intolerância religiosa e contra o racismo. A repercussão do caso contribuiu para a reflexão da população como um todo, já que infelizmente todos os dias vê-se esta prática proselitista e proibida dos "evangélicos" nos ônibus, metrôs e dentro das estações e terminais integrados. Muitas também foram as mensagens de apoio dos evangélicos que são contra estas práticas racistas e intolerantes. Este foi outro ganho fundamental na luta pelos direitos humanos, afinal, com a exposição de apoio ao caso, fica mais claro que não são todas as denominações evangélicas que pregam e ensinam a intolerância e a arrogância cristã. O sacerdote também no seu dia a dia vem recebendo nas ruas grande apoio da população que é contra estes absurdos da nossa sociedade.
Seguem abaixo os links das três matérias que abordaram o tema tanto na internet como nos jornais impressos:
Também teve importante repercussão a reportagem do Programa Balanço Geral com Hugo Esteves que foi ao ar no dia 20 de Junho de 2016. Com grande audiência, a matéria cumpriu um excelente papel educativo contra estes crimes de racismo e intolerância religiosa cometidos cotidianamente dentro dos transportes públicos. O apresentador foi muito competente em ter tratado o delicado tema com respeito, focando na perspectiva de despertar na população o entendimento de que ações como as cometidas por "evangélicos" nos ônibus e metrôs não podem se repetir para que seja respeitada a liberdade de crença de todas e todos. Estamos solicitando as imagens ao programa para posteriormente publicar na internet com o objetivo de dar maior visibilidade ao caso e também contribuir para a educação dos membros de nossa sociedade.
Alexandre L'Omi L'Odò denunciou o caso de intolerância religiosa ao MPPE. Foto de Rafael Martins.
Discriminação dentro de ônibus desperta debate sobre Intolerância religiosa
Sacerdote da Jurema foi execrado por evangélicos e denunciou o caso ao Ministério Público
Matéria de Adaíra Sene
Diario de Pernambuco, 17 de Junho de 2016.
Ele é amaldiçoado, macumbeiro, catimbozeiro, dessas religiões, víbora do inferno, illuminati do satanás. Não faltaram termos pejorativos para um grupo de evangélicos queimar Alexandre L'Omi L'Odò, sacerdote da jurema, na inquisição da pós-modernidade. E nos novos tempos, o julgamento vem em cliques. As imagens das ofensas caíram nas redes sociais e causaram inquietação. Se nos séculos passados as chamas ardiam sob alegação de combate à heresia, no último dia 09, as palavras incendiaram com o intuito único de exterminar o diferente. Em um país miscigenado, foi no terminal de ônibus de Xambá - assim denominado em respeito à Nação Xambá ainda viva em Olinda - que um seguidor da religião de matriz africana e indígena se viu coagido por suas crenças. A intolerância vivida por Alexandre - produtor cultural, fundador do Quilombola Cultural Malunguinho e estudante de mestrado em Ciências da Religião - agora é investigada pelo Ministério Público de Pernambuco.
"A maioria do nosso povo abaixa a cabeça e guarda para si quando nos agridem. Eles usam adjetivos para desqualificar nossa tradição, sacerdócio e nossos símbolos religiosos. Eu não saí de casa para brigar com ninguém, mas reagi. Tive que enfrentar isso como os velhos guerreiros malunguinhos enfrentavam", desabafou.
No dia 09, por volta das 20h, ele entrou num ônibus que fazia a linha TI Xambá/Encruzilhada, no Terminal de Xambá, acompanhado do afilhado de jurema Henrique Falcão. Os dois seguiam para a casa de axé Ilé Iyemojá Ògúnté, em Água Fria. Mas, segundo o juremeiro, ao entrar no ônibus, um vendedor de açaí começou uma pregação e instigou os evangélicos que estavam no coletivo contra ele. Teria dito, inclusive, que sabia da existência de um grande terreiro de "macumba" por trás da estação, o Terreiro Xambá, comandado por "um negão pai de chiqueiro", citando o babalorixá Ivo de Xambá.
"Ele falou do meu povo e de um sacerdote. Fui diretamente atingido e reagi. Ainda me chamou para brigar dizendo que o demônio não conseguiria atingir um filho de Deus. Sou pacifista, mas não abaixo minha cabeça. Rebati com argumentos convincentes sobre o desrespeito dele até mesmo aos princípios da religião que segue, que diz que não devemos julgar. Algumas pessoas concordaram, mas outras se manifestaram até com o Espírito Santo contra mim", detalhou. A confusão foi tamanha que até mesmo o vigilante do Terminal Integrado foi até o ônibus. "Seguranças e fiscais da estação mandaram que nos retirássemos. Óbvio que também os rebati dizendo que paguei a passagem e que eu era a pessoa que estava sendo violentada". Segundo Alexandre, a discussão só terminou quando ele chegou ao seu destino.
Indignado, o juremeiro publicou um vídeo que fez das ofensas no Facebook no último 12. A postagem alcançou grande repercussão e - até a noite desta sexta-feira - tinha mais de 500 compartilhamentos. Alexandre L'Omi L'Odò, então, levou a denúncia para o Ministério Público. O caso foi registrado nessa quinta-feira. O MPPE, por meio da Promotoria de Justiça de Transporte, colheu o depoimento dele e vai instaurar um procedimento investigativo. No prazo de 30 dias, o caso será analisado para que sejam tomadas as medidas cabíveis. O promotor de Justiça Humberto Graça foi designado para a ocorrência.
A equipe de reportagem entrou em contato com o Grande Recife Consórcio de Transportes para questionar a conduta do fiscal e o comércio irregular e pregação dentro do coletivo. Segundo o Grande Recife, quem interveio foi um vigilante patrimonial. Através da assessoria de imprensa, o funcionário afirmou que entrou no ônibus tentando apaziguar a discussão, mas que em momento algum pediu para que eles se retirassem. Doutrinações e vendas são proibidas dentro de ônibus e, segundo o Consórcio, cabe aos motoristas solicitarem que as pessoas parem ou se retirem. Quando são flagradas pelos fiscais, as empresas são autuadas. Não foi o que aconteceu no último dia 09.
Regulamentação do Grande Recife
De acordo com o anexo 15 do Regulamento do Sistema de Transporte Público de Passageiros da Região Metropolitana do Recife (STPP/RMR), não é permitida a atividade de vendedores ambulantes dentro dos veículos, assim como é proibido qualquer usuário de falar em voz alta (seja para vender, anunciar, pedir, pregar religiões, etc) de modo que perturbe o sossego dos demais usuários.
CASO REACENDE DEBATE QUE ANDA À ESPREITA NA SOCIEDADE: A INTOLERÂNCIA RELIGIOSA
Preconceito religioso foi tema de especial do Diario: Povos de Santos. http://diariode.pe/f0uc. Foto: Victor Germano
Para o psiquiatra Carl Jung, o papel dos símbolos religiosos é dar significação à vida do homem. A partir dessa consciência de fé, florescem as mais diversas crenças enraizadas por influências do meio e da colonização pela qual ele se formou. De acordo com a doutora em teologia especialista em políticas públicas e direitos humanos e uma das fundadoras do Comitê Nacional de Diversidade Religiosa, Marga Janete Ströher, no Brasil, a intolerância religiosa sempre existiu.
"Nossa colonização já veio acoplada a um projeto político e religioso. Há 516 anos, os índios não tiveram sua religiosidade reconhecida. Os povos ciganos já vieram expulsos da Europa. Os africanos foram escravizados. Lidamos com isso como convivemos com uma suposta democracia racial. Você só ouve falar quando chega a níveis extremos, com incêndios criminosos em terreiros e assassinatos".
A intolerância no país tem aumentado?
Eu trabalhei por quatro anos acompanhando de perto as denúncias do Disque 100, o Disque Direitos Humanos. Posso dizer que tem aumentado de forma sistemática e cada vez mais agressiva. O fascismo que cresce dentro do nível político e econômico também se transporta para o nível das relações e se prolonga pelo país inteiro. Para termos uma ideia, desde quando começamos a divulgar o Disque 100, de 2012 até 2013, houve um aumento de 600% no número de denúncias.
Quem são as principais vítimas da intolerância religiosa?
A gente sabe que em primeiro lugar estão as pessoas de matrizes africanas, indígenas ou afro-indígenas. Mas também existem os muçulmanos que são diretamente vinculados ao terrorismo porque as pessoas não têm discernimento sobre o que é religião e o que é posição política radical. E ainda temos ateus e agnósticos nos país, cerca de 8%, que sofrem porque são julgados como sem caráter por não acreditar em Deus.
Quem são os principais agressores?
É complicado você dizer isso, mas, de acordo com as denúncias, por via de regra são seguidores de religiões fundamentalistas, cristãos evangélicos. É importante deixar claro que não é apenas uma intolerância religiosa. Ela é um componente muito forte de racismo atrelado à violência. Não estamos mais apenas no nível do desrespeito. Chegamos ao ponto crítico de assassinatos.
Onde as agressões mais acontecem?
Por incrível que pareça, muitos casos acontecem com crianças ainda nas escolas. Muitas são discriminadas e ofendidas verbalmente por estarem com vestimentas ou guias, por exemplo, que fazem parte dos rituais das tradições. Mas acontece em todos os lugares. Nas ruas, em supermercados. Os terreiros mesmo, considerado lugares sagrados, têm sido apedrejados e destruídos pelo país inteiro.
Essa violência motivou a criação do Comitê Nacional?
A motivação maior da criação do Comitê de respeito à diversidade religiosa veio a partir das denúncias que a gente recebia através do Disque Direitos Humanos. Mas, além disso, também recebíamos muitas informações nas visitas que fazíamos pelo país e decidimos criar algo para concentrar ações e reverter essa história.
Qual a missão do comitê?
O comitê é paritário e funciona em parceria do Governo Federal com a sociedade civil. Ele serve para ampliar o debate e fomentar a implantação de políticas públicas para atender essa demanda crescente. Ele tem essa função importante de trabalhar metodologias de conscientização.
Como as pessoas podem denunciar?
Se você se sentiu desrespeitado devido às crenças que segue, procure a delegacia mais próxima, registre a ocorrência. Vá ao Ministério Público, denuncie. Por todo o país existem órgãos de assistência e acolhimento para vítimas desse tipo de violência.
"É preciso problematizar a questão. Não é a primeira vez que isso acontece. E isso é fruto de um proselitismo religioso. O número de evangélicos vem crescendo e eles são doutrinados a pensar que apenas a religião deles é a correta. Muitas igrejas estão bombardeando ideologias racistas e preconceituosas sob uma perspectiva teológica que o Deus deles é melhor que o dos outros e formam pessoas preparadas para agredir nosso povo pelas ruas. É preciso uma intervenção enérgica de conscientização para que crimes de intolerância parem de acontecer. Sei que é uma ferida aberta e foi preciso que eu colocasse o dedo para ampliar o debate. Mas nossos terreiros estão sendo incendiados, os filhos de santo têm apanhado nas ruas. Se esse pensamento fascista se expandir, daqui a pouco vamos derramar sangue por religião", ponderou o juremeiro Alexandre L'Omi L'Odò.
Intolerância
Religiosa de evangélicos contra juremeiro dentro do Terminal Integrado de
Ônibus Xambá
Esta
postagem que fiz no facebook no dia 12 de junho de 2016 ganhou enorme
repercussão nacional. Viralizando na internet, este registro que fiz da
intolerância e racismo religioso que sofri, deve servir para a reflexão do quão
grave é a situação que o povo de terreiro cotidianamente vive nos transportes
públicos (ônibus e metrôs). Vamos combater e educar. Assim contribuímos contra
algo tão absurdo. Sigamos na luta pelo extermínio do racismo e dessa doentia
intolerância religiosa praticada por parte dos "evangélicos". Denunciei
no Ministério Público de Pernambuco - MPPE e aguardo resposta da promotoria de
transporte desta instituição.
Segue
relato:
No dia 11
de junho de 2016, por volta das 20h, eu e meu afilhado de Jurema Henrique
Falcão
estávamos dentro da Estação Xambá (TI) para pegar o ônibus TI Xambá
Encruzilhada, pois íamos visitar a nossa casa de axé o Ilé Iyemojá Ògúnté, que
fica em Água Fria/Recife.
Ao
entrarmos no ônibus, um vendedor ambulante iniciou um discurso aparentemente
extrovertido para vender açaí... Contudo, ele, o tempo inteiro ficou
reafirmando ser pertencente a Igreja Assembléia de Deus (pelo que entendi).
Após identificar que eu era um "macumbeiro", começou a fazer o
tétrico discurso evangélico de baixa estirpe se direcionando à mim. Falando com
arrogância que conhecia a verdade e havia encontrado a luz, pois havia
desistido de ser um "umbandista" e que conhecia tudo "dessas
religiões", tentando provar isso, afirmou que sabia que tinha "um
grande terreiro de Macumba" por detrás daquela estação de ônibus (o Terreiro
Xambá) comandado por "um negão pai de chiqueiro" se referia
obviamente ao querido e importante babalorixá Ivo de Xambá.
Quando
ouvi tamanho absurdo racista e intolerante me rebelei imediatamente falando:
pai de chiqueiro nada, ele é um babalorixá, um sacerdote de respeito! Respeite
a religião dos outros, por que eu sou um juremeiro, catimbozeiro, macumbeiro e
candomblecista com muito orgulho e exijo respeito comigo e com minha religião
(em voz estridente).
Continuei:
você é um ignorante racista e que desrespeita até os princípios de sua religião
que diz que não deves julgar, portanto estais em pecado e vai pro inferno
devido a sua falta de respeito para com os seus "irmãos"! E que
devido a esta sua atitude ignorante e racista você se demonstra uma pessoa sem
condições de refletir sobre absolutamente nada, e que este é o reflexo da má
educação pública que embranquece as mentes e torna as pessoas vulneráveis a
ideologias criminosas que não se justificam como esta sua (...).
Ele
rebateu: "a verdade dói" e ironicamente ele pediu desculpas e
continuou a reafirmar este pensamento, ignorando o que eu falei, abriu assuntos
paralelos com "evangélicos" presentes no ônibus que obviamente o
apoiaram e iniciaram gritos contra a minha fé "pregações de salvação"...
Rebati:
afirmei que existem mais de dez mil religiões no mundo e questionei o por que
só as dos evangélicos seria a certa, a única verdade ou que seria a religião
que salvaria... E falei que este pensamento é falta de senso crítico que isso
tem ligação direta com a situação política do país hoje, com Temer na
presidência da República liderando um golpe antidemocrático sem
precedente.
Daí, uma
"evangelica" indignada falou que a crise econômica do país não a
afetava por ela "ser de Jesus". Sugeri um breve reflexão e disse, a
crise não lhe pega e você andando de TI Xambá, o que a deixou raivosa.
A esta
altura do campeonato, os passageiros já estavam estressados com a briga de
discursos em voz extremamente alta que estava acontecendo, e o ônibus não saiu
do lugar até vir seguranças e fiscais da estação para mandar que nos
retirássemos do ônibus. Óbvio que também os rebati dizendo que paguei a
passagem e que eu ali era a pessoa que estava sendo violentada. Logo eles
perceberam a situação e não insistiram, liberando a saída do ônibus para seu
roteiro.
Imaginei
que as coisas iriam se acalmar, porém outras mulheres "evangélicas"
não só levantaram a voz de forma arrogante, como também levantaram de seus
lugares e direcionando a palavra a mim afirmaram que: "a salvação era
única, e que eu e meu afilhado iríamos "queimar no fogo". A partir
disso, uma série de xingamentos vieram a tona por parte deles contra mim como:
"víbora do inferno, iluminatti do satanás, espírito sem luz,
amaldiçoados" dentre outros, como se pode perceber neste vídeo que não
representa nem 10% de toda essa odisseia repugnante do racismo e da
intolerância religiosa.
Não
satisfeito, o vendedor me desafiou a entrar em conflito físico com ele.
Afirmando que não seria possível tocá-lo por ele ser "filho de
Jesus". Ficou exaltadíssimo querendo briga e eu falei que não era
necessário aquilo, por que eu discuto argumentos e não precisaria de atos rudes
para a resolução de meus problemas. Ele se manteve provocando até a hora de sua
descida.
A viagem
só teve paz praticamente quando desci. Onde fui surpreendido por uma evangélica
que em um momento de lucidez veio até mim falar que o vendedor estava realmente
errado e que não se pode julgar nem desrespeitar a religião dos outros. Os
demais passageiros que não eram evangélicos ficaram todos do meu lado,
concordando e expressando com falas, gritos, e olhares de apoio a situação que
eu estava passando.
Por
ironia do destino, quando voltamos para casa, pegamos o mesmo ônibus (TI Xambá
- Encruzilhada), e a primeira coisa que ouvi ao subir no veículo foi "vai
fazer show novamente?", daí percebi que havia pego o mesmo transporte com
o mesmo motorista e a mesma cobradora... Daí respondi com segurança: Se eu me
sentir ofendido novamente irei sim!
O que
passei ontem, serve para refletirmos que devemos reagir contra a opressão dos
racistas e intolerantes religiosos sempre. Nós não podemos nos calar perante os
opressores, nosso silêncio e omissão não condiz com nosso histórico de
resistência, e também esta mesma omissão outorga aos opressores o pensamento de
que eles podem fazer o que quiserem contra nós sem que reajamos.
Matéria digitalizada do jornal Diario de Pernambuco de 11 de fevereiro de 2013.
Racismo Institucional na polícia de Pernambuco - A outra face do Carnaval II
Publico aqui para divulgar mais informação aos interessados no caso do maracatuzeiro Ítalo, que foi agredido cruelmente pela polícia na abertura do Carnaval do Recife. Foi uma situação constrangedora e muito racista. Nós, comunidades e povos tradicionais de terreiro nos sentimos todos espancados com este ato truculento contra um garoto negro da cultura popular e de terreiro. O policial não o chutou só, chutou com sua bota a todos nós sacerdotes e sacerdotisas do candomblé, jurema e umbanda, chutou todos os maracatus nação e grupos de percussão do Estado, agrediu a tradição pernambucana como um todo. Isso tem que ser reparado pelo "poder público" urgentemente. E esperamos que os órgãos responsáveis, como a corregedoria da polícia militar, o ministério público entre outros, tomem posição perante tamanho racismo institucional.
Leiam a matéria, cliquem em cima dela e leiam a mesma ampliada.
Quilombo Cultural Malunguinho e Ilé Iyemojá Ògúnté reunidos para discutir acusações contra povo de terreiro no programa de Cardinot. Na foto: Sandro de Jucá, Mãe Lu Omitòógún, Alexandre L'Omi L'Odò e Bárbara Costa. Foto: Captura de Tela.
Povo de terreiro de Pernambuco protesta na mídia contra as acusações de prática de sacrifícios humanos
O
Quilombo Cultural Malunguinho convocou o programa de Cardinot da TV
Clube/Record (programa exibido em 16/07/2012) para prestar
esclarecimento público e realizar defesa contra as acusações da mídia e
da polícia referentes ao
cruel sacrifício humano do menino Flânio de 9 anos do Brejo da Madre de
Deus praticados supostamente por "pais e mães de santo". Gravamos o programa no Ilé Iyemojá Ògúnté, casa de tradição nagô dos netos biológicos de Pai Adão, em Água Fria/PE. Nós do QCM
agimos imediatamente ao vermos neste programa a imagem das religiões de
matrizes africanas e indígenas vilipendiadas vastamente pelas falas
discriminatórias e infundadas dos atores do caso e dos apresentadores
deste e também de outros programas sensacionalistas de algumas
emissoras. O caso se tornou muito mais polêmico com o quebra de 7
terreiros e um templo do Vale do Amanhecer realizado por mais de 3 mil
vândalos do local do crime.
Alexandre L'Omi L'Odò fala sobre o termo "pai e mãe de santo" e diz que no candomblé nem na jurema se pratica sacrifícios humanos. Foto: Captura de tela.
A população, influenciada pela mídia e pelo
racismo histórico brasileiro, se rebelou de forma criminosa expulsando
os sacerdotes e sacerdotisas da Jurema e do culto aos Orixás da cidade
violentamente. Este fato envergonhou e escandalizou a todos nós membros
de terreiros de todo Brasil. A gravação deste programa, foi apenas uma
tentativa de amortizar os efeitos absurdos provocados na mentalidade dos
homens e mulheres do interior do Estado de Pernambuco, e também da
Capital. Tendo a maior audiência de seu horário, e assistido pelas
classes menos privilegiadas da pirâmide social, utilizamos o espaço para
tentar contribuir com informação de qualidade para que as pessoas
entendessem o que acontecia... Sabemos que este não é o melhor dos
caminhos a tomar, mas também foi um caminho válido e de amplo alcance
para as pessoas que precisavam escutar algo à contribuir em seu
entendimento individual sobre as religiões de matrizes africanas e
indígenas, consequentemente na quebra de preconceitos. Entendemos que
este e outros programas podem ser sim, instrumentos de informação ao
povo, mesmo que seus editores manipulem da forma que desejam as
informações e nossas falas de acordo com seus interesses. Demos uma
entrevista de quase uma hora, com falas importantes e de acordo com o
consenso nacional do povo de terreiro, infelizmente no programa só nos
deram poucos segundos... Mas foi válido e importante sem dúvidas.
Sacerdotiza Mãe Lu Omitòógún defendendo a religião de matrizes africanas. Foto: Captura de tela.
Juremeiro Sandro de Jucá fala da importância da criança para o candomblé e para a Jurema. Foto: Captura de tela.
Com
tanta violência e ódio retro-alimentado por estes programas, por
membros de outras religiões que satanizam nossas práticas teológicas e,
da despreparada polícia, tivemos que reafirmar em nossas falas que não
praticamos sacrifícios humanos e que não somos adeptos de "rituais
macabros nem de magia negra". A repercussão das falas foi completamente
positiva, muita gente entrou em contato para elogiar, agradecer e pegar
mais informações sobre os fatos.
Estudante Bábara Costa faz explanação sobre o que é a religião de matrizes africanas e indígenas. Foto: Captura de tela.
Infelizmente
não consegui os códigos (embed) para postar os vídeos diretamente aqui
no blog, mas os links estão em ordem para podermos ver como se deram as
falas e a forma que o programa dirigiu o contexto de nossas
reinvindicações coletivas. O link que mostra diretamente nossas falas é
este: (http://www.cardinot.com.br/parte-4-o-caso-do-menino-de-9-anos-assassinado-em-brejo-da-madre-de-deus/),
os demais links tratam da questão como um todo. É importante ver todos
eles para podermos ter melhor conhecimento sobre todo fato e também
observarmos a forma como nossa religião foi tratada pela mídia
irrresponsável de Pernambuco que sequer questionou se os criminosos
cruéis haveriam de ser de fato sacerdotes ou sacerdotisas de nossa
religião afro indígena.
Digitalização da chamada de capa do Jornal Folha de Pernambuco de 13 de julho de 2012.
Revolta contra rituais no Agreste
Disponibilizo digitalização da chamada de capa sobre o assunto do menino Flânio de 9 anos, assassinado brutalmente em suposto ritual macabro no Brejo da Madre de Deus, Agreste pernambucano.
Na matéria, podemos averiguar o quanto o povo de terreiro do Brasil está exposto à violências materiais/físicas e simbólicas sem sequer ter nada haver com os crimes executados por psicopatas que se passam por sacerdotes os sacerdotisas em nosso meio.
7 Terreiros foram destruídos por vândalos revoltados e instigados pelos rumores da mídia pernambucana (televisiva e escrita, também da polícia) em afirmar que o ritual (segundo depoimentos falhos dos suspeitos) seria de magia negra ou satanismo praticado com elementos materiais dos cultos de matrizes africanas e indígenas, como alguidais, garrafas de bebidas e outros objetos...
Ficou também evidente nas imagens expostas nas televisões que o local já era utilizado a muitos anos para rituais sagrados das matas do povo de terreiro. E os objetos ali encontrados em nada tinham haver com com o suposto ritual, já que todos os objetos se encontravam envelhecidos pelo tempo, não correspondendo ao período do crime praticado no local.
Isso só nos prova o quanto somos acusados intolerantemente e imergidos propositalmente em conceitos racistas e xenofóbicos pela sociedade brasileira que ainda alimenta o sentimento antigo de medo, desconfiança, e preconceito em relação a estas religiões, que pouco conhecem.
Quem pagará pelos crimes cometidos aos terreiros de Jurema, Umbanda e Candomblé daquela região? Cadê o Estado e o Ministério Público agora?
Digitalização de maétira da Folha de Pernambuco de 13/07/2012 - Grande Recife.
Povo de Matriz Africana se Defende
Juliana Veras
E Thomaz Vieira
Diante da violência que o crime desencadeou a praticantes do Candomblé, o
estudante de Ciências Sociais da UFPE e membro da comunidade Xambá,
Guitinho da Xambá, afirma que rituais de sacrifício não fazem parte das
tradições religiosas do Candomblé. “Nossa religião só prega a paz”,
afirmou.
Guitinho avalia que parte da desinformação da sociedade sobre a religião
se deve à maneira como os meios de comunicação e os órgãos de segurança
pública tratam os casos. “A abordagem demonstra o desconhecimento
dessas pessoas em relação à nossa cultura. A associação desses rituais
ao Candomblé é errônea e o discurso dos agentes de segurança criminaliza
a religião”, alega. Ele acha, inclusive, que os oficiais envolvidos no
caso que deram entrevista à mídia deveriam se retratar publicamente pela
utilização distorcida dos termos.
A coordenadora religiosa das Caminhadas de Terreiros de Pernambuco, Mãe
Eliza de Iemanjá, fez questão de ressaltar que as religiões de matrizes
africanas não são adeptas do satanismo e repudiam esse tipo de ato
criminoso. “Os povos de terreiros estão tristes e absolutamente
perplexos com esse caso. É importante ressaltar que, em nossos ritos,
nós reverenciamos a natureza, os rios, o mar, as florestas, o vento. Na
nossa tradição, o ser humano, e especialmente a criança é o maior
patrimônio. Não temos nenhuma relação com o satanismo. Essa é uma figura
que sequer existe em nossa fé”, argumentou.
__________________ Esta matéria é continuação da anterior de mesma data e jornal (Folha de Pernambuco de 13 de julho de 2012, cadeno Grande Recife). Após pressões os jornais começam a abrir espaço, mesmo que pequeno. Vamos reagir mais.
Digitalização de chamada de capa do Jornal Diário de Pernambuco de 12/07/2012.
População revoltada destrói terreiros e centro doutrinário no Agreste
Morte de menino de nove anos em ritual de magia negra gerou revolta na população que quer linchar os envolvidos
Publicação: 12/07/2012 19:01
Atualização: 13/07/2012 01:54
Nesta quinta-feira
(12), sete terreiros de umbanda e um centro doutrinário espiritualista
foram invadidos e saqueados por populares em São Domingos, no Brejo da
Madre de Deus e em Santa Cruz do Capibaribe. Na última cidade, até mesmo
um Vale do Amanhecer, centro de doutrina espiritualista cristã, foi
alvo da ira da população. Um funcionário do local, que preferiu não se
identificar, chegou a ser agredido pelos populares. O centro só não foi
incendiado porque policiais militares conseguiram impedir os
manifestantes.
A revolta popular começou depois que o corpo de
Flânio da Silva Macedo foi encontrado na tarde desta terça-feira (10). O
menino de apenas nove anos foi encontrado com mãos e pés amarrados,
calça abaixada e cabeça decepada, ladeado por garrafas de bebidas, velas
e bonecos de vodu. Desaparecido desde o dia 1º, ele foi localizado em
uma estrada no Sítio Olho D'Água. Quatro suspeitos já foram presos. A
população quer linchá-los. Segunda a polícia, o mandante do crime já foi
identificado, mas não localizado.
A Secretaria de Defesa Social
(SDS) está reforçando a segurança nas cidades para tentar amenizar a
fúria dos moradores. Cerca de três mil pessoas estão espalhadas pelo
distrito de São Domingos e prometem parar o distrito até que a polícia
prenda todos os suspeitos. Foram enviados dois helicópteros da SDS para a
cidade. Houve reforço ainda de equipes da Companhia Independente de
Operações e Sobrevivência na Área de Caatinga (Ciosac), Grupo de Ações
Táticas Itinerantes (Gati), Companhia Independente de Operações
Especiais (Cioe) e da Tropa de Choque.
Os presos são: Ednaldo
Justo dos Santos, o Pai Nau, de 33 anos; Edilson da Costa, conhecido
como pai Deni, de 31 e Genival Rafael Costa, o Pai Veio, de 63 anos;
além da companheira dele Mara Edileuza Silva, de 51 anos.
Imagem da matéria de jornal do Diário de Pernambuco de 5 de novembro de 2011. Caderno Vida Urbana*.
Caminhada
Terreiros pedem fim do preconceito
Kléber Nunes
O som dos tambores e o colorido dos Orixás tomou as ruas do Centro do Recife para pedir o fim do preconceito contra as religiões de matrizes africanas e indígenas. Ontem, milhares de pessoas participaram da 5° Caminhada dos Terreiros de Pernambuco. O evento abriu as comemorações do mês da Consciência Negra e marcou o lançamento da Rede Nacional da Jurema, que neste ano não participou da concentração. Os juremeiros foram proibidos pela coordenação do evento de fumarem seus cachimbos durante a caminhada. Eles se reuniram na Rua da Guia, e só depois se integraram ao grupo.
O juremeiro Alexandre Alberto Santos de Oliveira, mais conhecido como Alexandre L’Omi L’Odò, criticou o que ele chama de “nagocentrismo”. “Uma caminhada que deveria ser democrática se tornou só do candomblé”, denunciou. “Não queremos nos excluir. Queremos agregar, mas para isso é preciso que a coordenação reveja o evento no seu caráter político”, completou.
Os participantes da caminhada saíram da Praça do Marco Zero, no Bairro do Recife, em direção ao Pátio do Carmo, em Santo Antônio. Durante o percurso, foram executadas músicas em louvor às entidades sagradas da umbanda, do candomblé e da jurema.
De acordo com o coordenador do evento, Marcos Pereira, a manifestação “é uma prova da resistência a séculos de marginalização”.
A cabeleireira Otacília Leão, 55, esqueceu um pouco o luto pela morte do neto. “Acabei de vir do cemitério. Não podia deixar de participar. Se queremos mudar essa situação de exclusão que vivemos, temos que lutar”, disse.
Visite a matéria no site: www.diariodepernambuco.com.br
Fonte: Diario de Pernambuco – Recife, sábado, 5 de novembro de 2011. Caderno Vida Urbana A2 e A3.
Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com
_______________________
Compartilho aqui texto original da matéria acima citada. Como a matéria trata, o Povo da Jurema se reuniu na Rua da Guia e nesse mesmo dia fundou com a participação de mais de 50 pessoas a Rede Nacional do povo da Jurema, que trarei maiores informações em futuras postagens.
*Desculpem a digitalização tão borrada, mas não foi culpa minha, no sábado, dia que saiu a matéria, o jornal entrou em greve e quebrou uma das máquinas de impressão, daí saiu essa porcaria ai. Mas foi geral, pois nenhuma das cópias que comprei estava diferente dessa. Cliquem na imagem para vê-la em formato grande.
Sacerdote juremeiro e do culto aos Orixás (Egbomi), é mestrando em Ciências da Religião pela UNICAP, graduado em licenciatura plena em História, pela Universidade Católica de Pernambuco - 2014.
É membro do Comitê Nacional de Respeito à Diversidade Religiosa da Presidência da República, e do Conselheiro de Políticas Culturais do Recife. Milita nos campos das políticas públicas.
Tem experiência na área de educação, com ênfase em educação social, artística, musical e afro indígena teológica. Desenvolve trabalhos nas áreas de pesquisa, reconhecimento e preservação de patrimônio imaterial.
Tem publicado artigos científicos sobre temas relacionados a religiosidade da jurema sagrada, nos âmbitos de sua teologia e história. Ensina língua, história e cultura yorùbá, do coco e da Jurema sagrada. Desenvolve carreira de artistas e produz filmes/documentários.
É coordenador geral do Quilombo Cultural Malunguinho e desenvolve projetos de pesquisas com povo de terreiro.
Realizador há 10 anos do Kipupa Malunguinho (encontro nacional dos juremeiros), tem estimulado uma movimentação política de fortalecimento do Povo da Jurema entorno de sua história e religiosidade.