Mostrando postagens com marcador Pai Paulo Braz Ifátòógún. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pai Paulo Braz Ifátòógún. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 22 de julho de 2019

15 anos de entrega à ancestralidade negra

Iyawo ti Osù - Alexandre L'Omi L'Odò. Foto de Aluísio Moreira - Julho de 2004.

15 anos de entrega à ancestralidade negra

Hoje, 22 de Julho de 2019, celebro e comemoro 15 anos de iniciado nos segredos (awo) da religião de matriz africana de Pernambuco, especificamente na tradição jeje nagô, onde mergulhei profundo em suas folhas (ewé) para renascer no oceânico saber de nossos ancestrais.

15 anos de lutas... Ao olhar para trás, me vejo em cada frente de batalha lutando pela minha religião, pois pra mim, pertencer às tradições de matriz africana e indígena é uma responsabilidade enorme, que envolve sobre tudo, a consciência política de lugar de luta e fala, onde não se cabe apoio aos nossos algozes colonizadores herdeiros da Casa Grande. Pertenço a terreiro há mais de 30 anos, e estando iniciado ou não, minha busca sempre foi a mesma, retomar o terreno roubado de meus ancestrais e refazer esse mundo não equânime.

15 anos é pouco tempo em nossa religião... Sou ainda uma criança perante meus mais velhos. Tenho prazer em dedicar-me a preservar a tradição oral ensinada por eles, afinal, Oxum me deu caminho para o campo intelectual da História, na perspectiva de contribuir para a preservação de nossas memórias. A academia para mim, é um lugar de poder que todas as pessoas de terreiro devem ocupar, afinal, vivemos em uma sociedade ocidental e colonizada, ao qual precisamos reagir imediatamente contra o racismo e o etnocídio de nossas tradições, pois o plano de dominação branca e judaico-cristã é vigente e avança a cada dia contra nós, portanto, devemos estar acordados contra isso, sendo assim, Oxum para mim também é guerra, luta e política, e por isso também me debruço na política para enfrentar esse processo que nos extermina todos os dias!!

Hoje, a nossa religião está envolta no capitalismo selvagem. Dar uma oferenda aos orixás é caro, fazer uma renovação mais ainda... É difícil lidar com uma religião que olha para o lado que os brancos querem (o lado do capital), contudo, historicamente perdemos território, bens, participação social, acesso à educação, enfim, perdemos vidas e quase tudo. Viver nesse universo opressor não é fácil, inclusive por que esse mesmo universo, é o que detém os bens materiais que nos escravizam. É uma triste constatação, que devemos enfrentar com maior dignidade e atenção. Se nossas obrigações estão tão caras, corremos o risco de termos as nossas tradições somente nas mãos dos que detém o capital (os brancos herdeiros da Casa Grande), e nosso povo negro e indígena, que no sangue trazem o axé ancestral, ficarão para trás, transformando nossos terreiros no palco dos dominadores, efetivando o plano de dominação que citei anteriormente. Nossa religião não tem discriminação de cor, raça, etnia, status social etc. mas essa reflexão que faço aqui, proponho uma análise maior sobre o tema, não ficando na subalternidade do entendimento. Vamos acordar! Se queremos libertação, temos que encarar de forma madura nossas próprias chagas histórica e criar o remédio (òògùn) correto para dar conta.

Nesses 15 anos de caminho no odú obisé, tive a honra de encontrar um pai grandiosíssimo, meu bàbá Paulo Braz Ifátòògùn, homem que me deu esperança e fez-me re-acreditar na religião como meio sustentável do saber oral unido ao saber acadêmico. Inteligente e crítico, Pai Paulo sempre nos demonstrou entusiasmo com o universo yorùbá. Fora grande professor de uma geração que pode vivenciar o que há de mais profundo e melhor em nosso nagô, ensinando-nos a amar os orixás e os egùn com integridade, inclusive com consciência linguística, pois ele nos foi valioso professor de yorùbá. Esse foi um dos maiores feitos de Oxum em minha vida, ter me levado para os pés de Iyemojá Ògùnté Mi, a mãe das mães, materializada na nossa grande sacerdotisa Mãe Lu Omitòògùn, que não diferente de seu nome, é a água que nos cura, é a água que é nosso remédio. Hoje, ela sozinha leva nossa casa, com auxílio de seus sobrinhos, e juntos vamos seguindo o antigo axé de Ifátinunké (Ignês Joaquina da Costa) a fundadora do Sítio de Pai Adão. Esse caminho, me traz alegria, me traz paz, me deu total harmonia. Amo o Ilé Iyemojá Ògúnté, casa que me acolheu há mais de 10 anos.

Tenho tanto o que viver ainda em minha religião. Olho para frente e vejo grande futuro. Temos muito o que fazer, a luta só começou. Muitas obrigações a derem dadas, terreiro de culto ao Orixá para abrir, filhos e filhas à iniciar, enfim, a vida na religião é uma glória, e essa glória dada por Olódùmarè enche meu peito de amor e plena felicidade.

Oxum é meu caminho, minha fonte de inspiração para enfrentar o mundo racista que estamos mergulhados até o pescoço. Nela descanso e renovo minha fé. Oxum é o berço que nina seus filhos. Ela é uma boa mãe, protege e ensina, guia e abre portas. O ouro que nasce/brota de suas mãos e pés, abençoa a vida dos que nela confiam e adoram. Oxum é maior do que podemos imaginar, é um orixá de grande sabedoria e poder, a rainha das feiticeiras, a célebre guerreira dos diretos das mulheres negras, a destemida rainha que cura com água fresca, a generosa comandante, que com comida vence a guerra... Nem só de beleza é Oxum, ela é o estrondo das águas doces, as águas que renovam, purificam, batizam, mata a cede e que perfura qualquer pedra, por mais forte que seja. Kolofé iyá mi, modupé!

Modupé à Oyá T’Ogun, por me iniciar!
Modupé à Ògún atí Esù wón bàbá mi!
Modupé Iyemojá Ògúnté Mi atí Ojé Bií!
Modupé iyálorisà mi Omitòògùn!
Modupé bàbálorisà mi Ifámuydè (Ifátòògún)!
Modupé gbogbo irùnmolé!
Modupé Olórun Olóore (Deus compassivo. Aquele que olha por todos com bondade e misericórdia)

Orò mì máa - minha obrigação habitual
Orò mi máa ‘yó – é feita com alegria
Orò mì máa - minha obrigação habitual
Àyaba ‘dò yeye o – para a rainha do rio

Kosí obá kan, afí Olorun!!!

Alexandre L’Omi L’Odò
Elegun atí Osùn


Foto de Aluísio Moreira (2004).

Alexandre L'Omi L'Odò
Elegun ti Osùn
alexanrelomilodo@gmail.com

domingo, 24 de dezembro de 2017

"Faltou para muita gente". Texto de reflexão sobre seu lugar de fala em relação aos temas afro indígenas

Alexandre L'Omi L'Odò fumando um cachimbo na Jurema, no X Kipupa Malunguinho. Foto de Carol Melo. Edição de L'Omi.

“Faltou para muita gente”. Texto de reflexão sobre seu lugar de fala em relação aos temas afro indígenas


Para compreender o que é liberdade negro indígena, faltou para muita gente, muita coisa. Portanto, decidi escrever este breve texto que aponta um pouco do que faltou para muita gente que quer assumir uma discussão e um lugar que não é seu, no campo da luta negra e indígena e do Povo de Terreiro.

Vejo pessoas apoiando o sincretismo religioso como um fato imutável. Vejo pessoas assumindo falas que jamais poderiam ter sido suas. Acompanho desenvolvimentos de teorias próprias e vazias que contribuem para o fortalecimento do racismo. Temos que conseguir debater melhor esses temas. Temos que nos posicionar e conversar sobre. Calar é o pior caminho. Na luta pelo Povo da Jurema, aprendi muito a ouvir e vivenciar a profundidade dos significados. Por isso, falo abaixo do que faltou para muita gente, na hora de uma fala sobre temas que envolvem nossas lutas, cultura, religiões e povos.

Faltou para muita gente:

Faltou para muita gente acordar ao som de tiros.

Faltou para muita gente ver o sol nascer em uma favela.

Faltou para muita gente ter lutado em Peixinhos.

Faltou para muita gente a possibilidade de ter trabalhado do GCASC – Grupo Comunidade Assumindo Suas Crianças.

Faltou para muita gente ter capinado e limpado o Nascedouro de Peixinhos.

Faltou para muita gente ter ouvido Rivaldo Pessoa falar sobre cultura negra.

Faltou para muita gente ter vivenciado os dias áureos do Alafin Oyó.

Faltou para muita gente ter ido à Colônia Z4 dançar o afoxé.

Faltou para muita gente debater com brancos e ser subestimado, mesmo estando certo, só por que você é pobre e de terreiro.

Faltou para muita gente ter ido ver o Maracatu Leão Coroado ensaiar em Águas Compridas.

Faltou para muita gente ter conhecido Dona Zuleide de Paula e ter conversado horas com ela sobre luta comunitária e história de base.

Faltou para muita gente ter vivenciado as atividades da Biblioteca Multicultural do Nascedouro de Peixinhos.

Faltou para muita gente ter podido ser do Boca do Lixo.

Faltou para muita gente ter ouvido o Ataque Suicida no palco.

Faltou para muita gente ter tido aulas de percussão com o genial mestre Toca Ogan.

Faltou para muita gente ter conhecido Sr. Matias, e seus filhos Marcos Matias e André Malê, mestres extraordinários.

Faltou para muita gente ter tocado no Bloco Mulambo.

Faltou para muita gente ter visitado terreiros paupérrimos nos morros e becos do Recife e Região Metropolitana.

Faltou para muita gente ter dado Cosme Damião e feito quebras panelas nas ruas dos bairros.

Faltou para muita gente ter passado um mês de quarto em recolhimento religioso para o Orixá.

Faltou para muita gente ter lutado pelas cotas raciais nas universidades.

Faltou para muita gente ter conversado com Massapê e visto suas músicas e poesias.

Faltou para muita gente ter saído de Peixinhos andando até Vila Popular para visitar o terreiro de Pai Raminho de Oxóssi.

Faltou para muita gente ter tocado ou dançado do Afoxé Ará Odé.

Faltou para muita gente ter ido às ruas lutar pela democracia.

Faltou para muita gente ter podido ouvir com atenção o Bloco Afro Lamento Negro.

Faltou para muita gente ter tocado ou dançado no Magê Molê.

Faltou para muita gente ter podido protestar contra o genocídio da juventude de Peixinhos em décadas passadas.

Faltou para muita gente ter ouvido Olodum com atenção.

Faltou para muita gente ter visto o Timbalada e sentido sua mensagem negra com profundidade.

Faltou para muita gente ter dançado dentro do Ilê Iyê e ter ouvido seus antigos LP's.

Faltou para muita gente ter podido participar de uma aula com Lepê Corrêa e ouvido seus ensinamentos.

Faltou para muita gente ter podido conhecer Sr. Luiz de França.

Faltou para muita gente ter conhecido o Mestre Dió (Deodato), gigantesco juremeiro.

Faltou para muita gente ter comido pirão de café, por falta de feijão.

Faltou para muita gente ter contribuído nos trabalhos em prol aos meninos e meninas de rua no Recife, a partir do CPP.

Faltou pra muita gente ter conhecido Demétrius e seus sonhos e coragem de transformar a realidade dos desvalidos.

Faltou para muita gente ter ouvido Chico Science com maior sensibilidade.

Faltou para muita gente ter conhecido o Sr. Amaro Fala Fina.

Faltou para muita gente ter conhecido João Meira de Peixinhos.

Faltou para muita gente ter visto o Balé Afro Akindelê e o Expressão Afro Brasil, ambos comunitários e feito por pessoas muito pobres.

Faltou para muita gente ter visto o Omo Lasó Àiyé nos palcos.

Faltou para muita gente ter visto Dito de Oxossi falando sobre povo negro.

Faltou para muita gente ter ouvido Cacique Chicão.

Faltou para muita gente ter lido os livros de Fanon e de Abdias Nascimento.

Faltou para muita gente ter conhecido a obra de Mestre Didi e ter-lhe pedido a benção.

Faltou para muita gente ter olhado com mais respeito para Carlinhos Brown.

Faltou para muita gente ter rasgado a bíblia de dentro de si.

Faltou para muita gente ter conhecido o insubstituível mestre negro Babá Paulo Braz Ifátòògùn.

Faltou para muita gente ter rezado com Mãe Lu Omitòògùn o mês mariano.

Faltou para muita gente ter visto o Mestre Sibamba incorporado na matéria da grande juremeira Dona Leide.

Faltou para muita gente ter conhecido Rolando Toro.

Faltou para muita gente ter lido os discursos de Osho.

Faltou para muita gente ter conhecido a Banda Etnia.

Faltou para muita gente ter gargalhado ao som de Dona Selma do Coco.

Faltou para muita gente ter sambado junto à Mestre Salustiano e visto suas aulas de Rabeca.
Faltou para muita gente ter estudado a língua Yorùbá.

Faltou para muita gente ter conhecido Oxum.

Faltou para muita gente o conhecimento sobre a luta de Malunguinho e do Quilombo do Catucá.

Faltou para muita gente ter acreditado que seria possível estudar e romper o status da pobreza a partir dos estudos.

Faltou para muita gente ter votado em Lula.

Faltou para muita gente ter lutado de fato contra o Golpe.

Faltou para muita gente ter ouvido e lido Lecí Brandão e Mertinho da Vila.

Faltou para muita gente ter lido umas poesias de Solano Trindade.

Faltou para muita gente ter vivenciado um verdadeiro Movimento Negro.

Faltou para muita gente ter fumado um cachimbo com os parentes indígenas.

Faltou para muita gente ter conhecido as poesias de Oriosvaldo de Almeida.

Faltou para muita gente parar para refletir sobre o sincretismo.

Faltou para muita gente ter tido coragem de romper com as correntes que nos escravizam no capitalismo.

Faltou para muita gente coragem de superar.

Faltou para muita gente sensibilidade.

Faltou para muita gente ter conhecido Mãe Ivanize de Xangô.

Faltou para muita gente ter parado para ouvir os saberes negros do Mestre Afonso do Maracatu.

Faltou para muita gente ter presenciado a incansável fé de Gilson Gomes na dança negra.
Faltou para muita gente vivenciar a mata sagrada de Malunguinho.

Faltou para muita descalçar os pés no Kipupa e receber a fumaça divina da Jurema.

Faltou para muita gente conhecer Paulo Queiroz e sua superação social através da dança.

Faltou para muita gente ter ouvido Chico Buarque de Holanda e refletir a partir de suas críticas musicais.

Faltou para muita gente ter participado das atividades do Axé Opô Afonjá, nos bons tempos.

Faltou para muita gente ter vivenciado as edições de ouro do Alaiandê Xirê.

Faltou para muita gente o convívio negro com Rita Honotório.

Faltou para muita gente ter conhecido a teologia da libertação.

Faltou para muita gente ter sentado aos pés do Iroko do Sítio de Pai Adão.

Faltou para muita gente ter ouvido Dona Mãezinha falando e cantando.

Faltou para muita gente ter visto Paulo Braz Ifátòògún dançando... Esse sim era inesquecível.

Faltou para muita gente ter prestado atenção no pensamento de Davi Kopenawa.

Faltou para muita gente ouvir os velhos incansavelmente.

Faltou para muita gente ter participado das edições do Congresso Nacional do Desfazendo Gênero.

Faltou para muita gente ter passado horas e horas limpando penas de galinha de uma cerimônia para os Orixás.

Faltou para muita gente ter visto o milagre de Ògúnté Mi, que materializou um peixe-boi no mar, em decorrência a entrega da Panela de Iyemojá.

Faltou para muita gente ver Ògúnté em terra dançando... Isso é Deus/Deusa puro.

Faltou para muita gente ter ouvido José Jorge de Carvalho e suas geniais lucubrações.

Faltou para muita gente ter amado pessoas loucas.

Faltou para muita gente ter se entregado à tudo que pode nos edificar em prol da luta contra o racismo.

Faltou para muita gente muita coisa negra e indígena.

Faltou para muita gente reconhecer que é branco ou branca e que seu lugar de poder é um desafeto para o povo que luta.

Faltou para mim tanta coisa, ainda assim...

Portanto, antes de falar, ou contestar o debate decolonial, antes de querer construir um discurso conformista sobre o sincretismo e a relação do cristianismo com o povo de terreiro, veja de onde, e em que condições você está falando. Mesmo sendo democrático o direito de opinar sobre qualquer coisa, creio ser necessário uma reflexo sobre seu lugar de fala. Calar por vezes é necessário. Abra-se para a desconstrução. Tem muita gente sábia que há anos luta para tentar realizar um processo de libertação ideológica ampla para o povo negro e indígena. Se junte a nós, venha caminhar conosco, venha ser parte de um mundo do bem viver e da harmonia social. Venha carregar um bombo nas costas e tocar um maracatu sem reclamar que está doendo os calos causados pelas baquetas na mão.

Salve a fumaça e que não falte para ninguém o direito da luta anti racismo.

Sobô Nirê Mafá!!
“Malunguinho no mundo, é meu braço direito”.

Alexandre L’Omi L’Odò
Quilombo Cultual Malunguinho

alexandrelomilodo@gmail.com 

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Muito obrigado, axé!

Alexandre L'Omi L'Odò no Até, no momento do ritual do Borí. foto de Thawany Costa.

MUITO OBRIGADO, AXÉ! 

Hoje, faço essa postagem para agradecer à toda minha família de axé e aos meus amigos e amigas que presentes ou ausentes, me ajudaram muito no cumprimento de mais um ciclo religioso dedicado à Oxum, dona de meu destino. 

Em especial agradeço ao meu eterno babalorixá e Mestre Paulo Braz Ifátòògùn, que com toda sabedoria nos permitiu cumprir as obrigações de Oxum, mesmo o terreiro estando de luto por sua partida para o mundo da verdade há seis messes. Kolofé babá mi. Adupé. 

Também agradeço especialmente a minha iyalorixá Maria Lúcia Omitòògùn​, que é uma grande sacerdotisa, cujo herança africana é plena e Orixá nos inspira. A senhora é muito forte e isso nos ajuda continuar com a mesma alegria de antes. Sua mão é doce e próspera. Adupé. 

Obrigado ao meu Ori por ter me dado o alaafiá. Obrigado à Oxum por ter me aberto toda as portas. Obrigado à Ògún por me trazer prosperidade, enfim, obrigado à todos os Orixás. Obixé pleno nos nossos caminho de vida. 

Obrigado à Felippe Opeatonã​, por ser meu padrinho e substituir pai Paulo nos afazeres religiosos de minhas obrigações. Vc já é um grande aborixá. Kolofé. 

Obrigado à clã nagô mais forte que já vi - Babizinha Costa Nascimento​, que com carinho me ajada muito nos caminhos do axé. Obrigado à pai José Jose Iguaracy Felipe Dacosta​ por ter feito toda obrigação. Suas mãos são de axé.  Obrigado à Júnior Boto​Boto por me inspirar tanto. Vc é um guerreiro do axé. Obrigado à Paulinho, Thauanny, Thalisson Luiz​, Endryus Avlis​, Robson, Pelado, Pelezinho, Juninho, as crianças e todos e todas as demais que participaram de todos os momentos dos rituais. Obrigadão à Olavo Souza​, um irmão sem igual. Sem vocês não há casa nem axé. Adupé. 

Obrigado à Kamilla da Costa​, você como sempre se demonstra uma mulher inteira e de verdade, uma amiga, acima de qualquer coisa. Não pela ajuda efetiva dada a mim, mas por nosso amor verdadeiro, que mesmo distantes caminhamos juntos de mãos dadas. Consideração é isso. Você vale a pena. Respeito e consideração. 

Obrigado à todos e todas afilhados e afilhadas da Casa das Matas do Reis Malunguinho. Em especial à Vanessa Farias​ que se jogou na luta comigo. À Henrique Falcão​, que também se jogou, me deixando muito orgulhoso. Vocês dois foram além de minhas expectativas. À Maria Betânia por sempre ser essa parceira firme e forte e Marcilio da Costa pó tudo. À Bia Bia Rodrigues por também ter acompanhado este processo com muita sensibilidade. Agradeço ainda à minha afilhada de SP Cidinha de Iyewá, Edson de Arranca-Toco e aos demais. Com a experiencia destes dias, pude ver vibrar a vocação religiosa de alguns e algumas. Despenar galinha é pros que tem caminho no axé e na Jurema. 

Enfim, obrigado aos amigos e amigas que vibraram pelo bem caminhar de todas as coisas. 

Estou bem, feliz e fortalecido para realizar mais um ano o Kipupa com muito axé. 

13 anos de axé muito bem comemorados. Muita alegria e fortalecimento de nossas lutas negras. Nossos sonhos, todos serão realizados em nome de Olorun e Oxum. Agô kolofé. 

O Ilé Iyemojá Ògúnté tem muito axé e nosso baluarte continua firme e forte com a gente. Axé axé e axé. 

Kosi Obá kan, afi Olorun! Não há outro rei senão Deus. 

Foto de Thauzinha Costa Nascimento.

Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

sexta-feira, 21 de abril de 2017

O milagre de Iyemojá Ògúnté Mi - O Peixe Boi e a celebração da natureza

Memorial do milagre do Peixe Boi. Arte Alexandre L'Omi L'Odò.

O milagre de Iyemojá Ògúnté Mi - O Peixe Boi e a celebração à natureza

Na data de 12 de Dezembro de 2015 (data da festa de Iyemojá em nosso Ilé Iyemojá Ògúnté), tivemos a maior das confirmações da natureza. Ao entregar a Panela de Iyemojá ao mar, um lindo e enorme peixe-boi veio nos saudar na beira do mar e ficou pertinho de nossa mãe Ògúnté... Foi a maior prova que ainda existe Orixá na terra, que ainda existe axé e pureza em nossa religião. 

Registro do aparecimento do Peixe Boi na madrugada do dia 12 de Dezembro de 2015 na beira mar da Praia de Olinda (por detrás dos Correios no Carmo). Na foto o irmão de axé Cristiano de Iyemojá. Foto de Alexandre L'Omi L'Odò.

Registro do aparecimento do Peixe Boi na madrugada do dia 12 de Dezembro de 2015 na beira mar da Praia de Olinda (por detrás dos Correios no Carmo). Na foto o irmão de axé Cristiano de Iyemojá. Foto de Alexandre L'Omi L'Odò.

Ele veio receber o presente e encaminhá-lo para a grande mãe Iyemojá. Acompanhou a oferenda que foi levada de barco até o fundo do mar e voltou para nos abençoar com seu carinho. Foi uma cena memorável e de puro encanto. Só quem vivenciou este momento guardará consigo o tamanho da força e beleza que teve. Um animal extremamente dócil... Nossas crianças ficaram encantadas... Afinal nunca tinham visto um peixe-boi pessoalmente... Ele brincou com todos e todas e deitou no colo de Ògúnté incorporada na nossa Iyá Máe Lu Omitòògùn.


Estamos todos muito agradecidos e emocionados com tamanho axé. Isso é tradição nagô, isso é amor e união. Ficamos muito felizes de ter vivido este momento de graça junto com nossa iyalorixá e família de axé. 

Obrigado Mãe Lu Omitòògùn e Pai Paulo Braz Ifátòògùn pelo amor e dedicação a nossa religião. Sabemos que a fé e pureza que vocês tem dentro do culto possibilita milagres como este. "A natureza só se revela e  se aproxima dos puros de coração", como sempre afirma nosso Babá Ifátòògùn. Isso pudemos confirmar na prática neste dia santo.

Nos encheu de vida o milagre e o encanto de Ògúnté Mi. Este fato entrou em nossa profunda memória histórica da tradição oral da casa e de nossa tradição como um todo. 

Nossa iyalorixá supõe que o peixe boi poderia ter sido a materialização de Iyemojá... Que ela teria vindo agradecer a obrigação realizada com tanto amor. Ainda diz que "sabemos que ela se revela também em peixes e outros seres do mar, quando quer nos mostrar algo ou agradecer"... Nunca iremos saber o que aconteceu de fato. Mas sabemos que foi verdade este dia. É de encher os olhos d'água ao lembrar de tudo isso. 

Registro do aparecimento do Peixe Boi na madrugada do dia 12 de Dezembro de 2015 na beira mar da Praia de Olinda (por detrás dos Correios no Carmo). Na foto o irmão de axé Cristiano de Iyemojá. Foto de Alexandre L'Omi L'Odò.

Registro do aparecimento do Peixe Boi na madrugada do dia 12 de Dezembro de 2015 na beira mar da Praia de Olinda (por detrás dos Correios no Carmo). Na foto o irmão de axé Cristiano de Iyemojá. Foto de Alexandre L'Omi L'Odò.


Ao chegarmos no terreiro, a festa foi maior do que havia sido antes. A comemoração da benção recebida teve saraivadas de fogos e muito toque de ilú para humildemente agradecermos tamanha graça. O terreiro veio abaixo com tantos gritos de "odò miiò" (saudação de iyemojá na tradição nagô)... Foi lindo ver o babá Paulo Braz dançando com Ògúnté e vibrando com ela a alegria de viver e de ser do axé. O dia amanheceu brilhando com tanta emoção. Nem consegui dormir... Tive que escrever este texto para registrar esta história real do povo de terreiro...

Odò Miiò Iyemojá!

Detalhes doo fato:

Não é comum aparecer às margens de águas salgadas e poluídas este animal que tem o hábito de buscar águas limpas e doces. Mesmo que por algum motivo climático ou biológico ele tivesse aparecido ali, cabendo uma explicação científica, jamais este animal agiria como o fez. Ele veio receber a Panela de Iyemojá, levou ao fundo do mar acompanhando o barco e voltou seguindo os Ogans. Em sua volta ele foi direto para os braços de nossa mãe Ògúnté que estava sentada na beira do mar. Um misto de medo e profunda sensação de contemplação me tomou e não sabia como agir. Até puxei a "matéria" de nossa mãe, tentando protegê-la... Mas logo Iyemojá foi em direção ao peixe-boi e passou a saia por cima dele. Com uma expressão de carinho e profunda calma o animal ficou ali... Quieto. Mesmo não tendo a permissão para fotografar os Orixás, em uma rápida reflexão decidi tirar o celular do bolso e fazer este registro fundamental para preservar a memória visual deste momento complexo, raro e espiritual. As fotos não saíram muito boas devido a própria condição de iluminação do local que estava completamente escuro, e também por se tratar de um equipamento amador e consequentemente inapropriado para fotos nestas condições. as fotos ficaram ruins, mas foi o que deu para fazer na hora. Eu poderia ter levado o "carão" que fosse... Mas jamais me arrependeria de ter ousado em fotografar este momento. Só não fiz fotografias de Iyemojá junto ao peixe-boi por que só após ao "acordar" da mágica do momento pude racionalizar algo e pensar em fotografar... mas, infelizmente não era mais possível  fazer este registro completo como merecia. Penso que foi tudo como Iyemojá quis...

Para mim e para todos os presentes, que inclusive estavam na praia participando de um coco (pessoas de fora, que não participaram das obrigações e que estavam ali se divertindo), este momento ficará marcado para todo sempre como o maior símbolo da presença do Orixá na terra. ainda há axé de verdade. Ainda há natureza viva que pode se revelar de forma tão contundente para nos afirmar sua aceitação ao nosso culto e fé.

Em minha trajetória dentro da religião de matriz africana e indígena, pude ter neste dia, a possibilidade de mudar minha vida e minha forma de ver e sentir a religião. Superei minhas expectativas de crença e fé.

Creio que algo desta magnitude jamais seria possível se não houvesse pureza e profunda dedicação e amor de nossos sacerdotes, Pai Paulo Braz Ifátòógún e nossa sacerdotisa Mãe Lu Omitòógún, que se dedicam profundamente à Casa e aos filhos e filhas. Duas pessoas de idade avançada de axé e biológica. irmãos sanguíneos que levam à frente a tradição nagô com o mais alto nível de responsabilidade e rigor na preservação dos elementos tradicionais que compõem nossa nação. Orgulho de ter o direito de viver um dia como este ao lado de minha família de axé que tanto amo. 

Para resguardar a memória deste momento especial na vida de todos nós, fiz um pequeno quadro que registra essas fotos e um texto sobre o fato para ficar a mostra na parede do terreiro como marco histórico deste momento. Foto de Bárbara Costa.

Este texto só hoje pude concluir. Depois de basicamente um ano e alguns meses. Acordei com esta lembrança e ao olhar meu blog vi que a postagem ainda esta vem rascunho. Terminei o texto e disponibilizo para todas e todos. Esta memória não pode morrer jamais. Isso é história do Povo de Terreiro. Axé.

Alexandre L'Omi L'Odò
Egbomi ti Òsún e Juremeiro
Quilombo Cultural Malunguinho 
alexandrelomilodo@gmail.com 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Babá Paulo Braz Ifátògún - Matéria da Revista Aurora 2013



Babá Paulo Braz Ifátògún 
Matéria da Revista Aurora - 2013

Com matéria de Marcionila Teixeira e fotografia/registro audiovisual de Alcione Ferreira, este é um dos raros registros públicos do histórico sacerdote Babá Paulo Braz Ifátòógún. 

Esta matéria que consta de três páginas na publicação da Revista Aurora do dia 05 de Março de 2013 e registro audiovisual publicado no link: http://aurora.diariodepernambuco.com.... traz com sensibilidade parte dos saberes africanos do Alapini que fez história em Pernambuco, por ser um dos últimos grandes anciãos da tradição nagô. 

Pai Paulo Braz, faleceu no último dia 27 de Dezembro de 2016, levando consigo uma das maiores e mais expressivas bibliotecas negras de nosso tempo. 

Axé!
Kolofé!

Alexandre L'Omi L'Odò 
Filho de axé e eterno admirador de seus saberes ancestrais. 
alexandrelomilodo@gmail.com

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

O Povo de Axé quer Babá Paulo Braz Ifátòógún como Patrimônio Vivo de Pernambuco

Babá Paulo Braz. Foto de Marcelo Curia. MDS. 2010.

O povo de Axé quer o Babá Paulo Braz Ifátóògún como Patrimônio Vivo de Pernambuco


Nosso Babá Alapini Paulo Braz Ifátòógún está concorrendo ao Premio do Registro do Patrimônio Vivo de Pernambuco 2016. Ele é uma proposta muito relevante para que este edital reconheça pela primeira vez um Mestre de Matriz Africana, um Mestre dos saberes de terreiro, um Mestre da cultura yorùbá no Brasil.

Vamos vibrar positivamente e compartilhar muito as informações do nosso sacerdote para que o Conselho Estadual de Políticas Culturais de Pernambuco enxerguem ele com bons olhos e faça essa justiça história para o povo de terreiro.

Salve Babá. O senhor é um diamante da nossa cultura e religião. Axé!

#PaiPauloBrazNossoPatrimônioVivodePernambuco!

Foto de Marcelo Curia.

Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

Quilombo Cultural Malunguinho

Quilombo Cultural Malunguinho
Entidade cultural da resistência negra pernambucana, luta e educação através da religião negra e indígena e da cultura afro-brasileira!