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segunda-feira, 1 de maio de 2017

Intolerância Religiosa: Direito de ir, vir e seguir suas crenças sem desrespeito

 Alexandre L'Omi L'Odò em frente ao Terminal Integrado Xambá. Foto de Rafael Martins/DP.

Direitos Humanos
Intolerância Religiosa: Direito de ir, vir e seguir suas crenças sem desrespeito

Marcionila Teixeira
Matéria impressa do Diário de Pernambuco, 
Sab. e Dom. 15/10/2016. Caderno 3, páginas 3.1, 3.2 e 3.3.

Uma regulamentação do Sistema de Transporte Público de Passageiros da Região Metropolitana do Recife (STPP/RMR) proíbe a atividade de vendedores ambulantes dentro dos veículos, assim como qualquer usuário falar em voz alta, seja para vender, anunciar, pedir ou pregar religiões. Se a regra fosse cumprida como deveria, o sacerdote da jurema Alexandre L’Omi L’Odò não teria vivido uma cena constrangedora dentro de um ônibus da linha TI Xambá, no Terminal Integrado de Xambá, em Olinda. O caso aconteceu em junho e foi parar no Ministério Público de Pernambuco (MPPE) depois de uma grande repercussão nas redes sociais. Quatro meses se passaram e ainda não houve conclusão.

Era noite quando Alexandre entrou no coletivo com um amigo com destino a Água Fria, no Recife. Dentro do ônibus, um vendedor de açaí começou a fazer uma pregação evangélica, citando, inclusive, a existência de um terreiro de macumba atrás da estação, o Xambá, comandado por um “negão pai de chiqueiro”, referindo-se ao babalorixá Ivo de Xambá.

Nesse momento, Alexandre, que é do Centro Cultural Malunguinho e estudante do mestrado em Ciências da Religião da Universidade Católica de Pernambuco, sentiu-se ofendido e reagiu, argumentando sobre desrespeito. “O MPPE me comunicou que já acionou o Grande Recife e que estão aguardando o tempo para ter audiência e conversa sobre o fato. No momento, só posso esperar, pois o lado acionado tem um prazo para se pronunciar”, lamenta Alexandre.

Digitalização da matéria impressa. Diario de Pernambuco 15/10/2016. Caderno 3, páginas 3.1, 3.2 e 3.3.

Segundo o Grande Recife, cabe aos motoristas solicitarem que as pessoas flagradas desrespeitando o regulamento se retirem. Quando são flagradas pelos fiscais, as empresas são autuadas. Em nota, o consórcio disse ter solicitado ao MPPE uma extensão no prazo da resposta. “O pedido foi necessário devido ao primeiro entendimento do órgão, que a princípio pensou se tratar de comércio informal dentro do veículo. No decorrer da ação, foi constatado que se tratava de intolerância religiosa, tema do qual o Grande Recife não tem competência”.

Uma das fundadoras do Comitê Nacional de Diversidade Religiosa, Marga Ströher orienta as vítimas a se defenderem. “A intolerância e o racismo muitas vezes são naturalizados e aceitos passivamente, apesar do enorme sofrimento que provocam”, reflete.

Para acessar a matéria no site do jornal, visite: http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/vida-urbana/2016/10/17/interna_vidaurbana,670422/direito-de-ir-vir-e-seguir-suas-crencas-sem-desrespeito.shtml  


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Publico só agora esta matéria em meu blog devido a não tê-la achando anteriormente no site do Jornal Diario de Pernambuco. Compartilho este texto super digno da jornalista Marcionila Teixeira para que fique-se sabendo que os processos de intolerância religiosa são muito violentos contra o povo de terreiro. Temos que reagir e nos impor perante este tipo de opressão. O Ministério Público ainda não resolveu o caso. Ainda estou buscando soluções para o crime que sofri. Com fé na Jurema Sagrada vamos vencer! Sobô Nirê Mafá!

Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

sábado, 9 de julho de 2016

Repercussão na mídia do caso de intolerância religiosa sofrida pelo juremeiro Alexandre L'Omi L'Odò

Alexandre L'Omi L'Odò em entrevista no programa Balanço Geral na TV Club Pernambuco no dia 20 de Junho de 2016.

Repercussão na mídia do Caso de intolerância religiosa sofrida pelo juremeiro Alexandre L'Omi L'Odò

A repercussão do caso de intolerância religiosa sofrida pelo sacerdote juremeiro Alexandre L'Omi L'Odò ocupou as redes sociais com o vídeo/registro do caso e relato escrito que "viralizou" no facebook. Ocupou ainda as páginas dos três jornais de Pernambuco e a mídia televisiva através do programa de alta audiência Balanço Geral da TV Club PE. O sacerdote ainda denunciou o caso ao Ministério Público do Estado - MPPE e aguarda respostas oficiais da instituição. 

Matéria impressa do Jornal Folha de Pernambuco. Ver texto no link abaixo.

Foi de grande importância toda esta movimentação que fez ferver as páginas dos jornais na internet com uma enorme diversidade de comentários a favor da luta contra a intolerância religiosa e contra o racismo. A repercussão do caso contribuiu para a reflexão da população como um todo, já que infelizmente todos os dias vê-se esta prática proselitista e proibida dos "evangélicos" nos ônibus, metrôs e dentro das estações e terminais integrados. Muitas também foram as mensagens de apoio dos evangélicos que são contra estas práticas racistas e intolerantes. Este foi outro ganho fundamental na luta pelos direitos humanos, afinal, com a exposição de apoio ao caso, fica mais claro que não são todas as denominações evangélicas que pregam e ensinam a intolerância e a arrogância cristã. O sacerdote também no seu dia a dia vem recebendo nas ruas grande apoio da população que é contra estes absurdos da nossa sociedade.

Seguem abaixo os links das três matérias que abordaram o tema tanto na internet como nos jornais impressos:




Também teve importante repercussão a reportagem do Programa Balanço Geral com Hugo Esteves que foi ao ar no dia 20 de Junho de 2016. Com grande audiência, a matéria cumpriu um excelente papel educativo contra estes crimes de racismo e intolerância religiosa cometidos cotidianamente dentro dos transportes públicos. O apresentador foi muito competente em ter tratado o delicado tema com respeito, focando na perspectiva de despertar na população o entendimento de que ações como as cometidas por "evangélicos" nos ônibus e metrôs não podem se repetir para que seja respeitada a liberdade de crença de todas e todos. Estamos solicitando as imagens ao programa para posteriormente publicar na internet com o objetivo de dar maior visibilidade ao caso e também contribuir para a educação dos membros de nossa sociedade.


Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

Discriminação dentro de ônibus desperta debate sobre intolerância religiosa

Alexandre L'Omi L'Odò denunciou o caso de intolerância religiosa ao MPPE. Foto de Rafael Martins.

Discriminação dentro de ônibus desperta debate sobre Intolerância religiosa


Sacerdote da Jurema foi execrado por evangélicos e denunciou o caso ao Ministério Público

Matéria de Adaíra Sene
Diario de Pernambuco, 17 de Junho de 2016.

Ele é amaldiçoado, macumbeiro, catimbozeiro, dessas religiões, víbora do inferno, illuminati do satanás. Não faltaram termos pejorativos para um grupo de evangélicos queimar Alexandre L'Omi L'Odò, sacerdote da jurema, na inquisição da pós-modernidade. E nos novos tempos, o julgamento vem em cliques. As imagens das ofensas caíram nas redes sociais e causaram inquietação. Se nos séculos passados as chamas ardiam sob alegação de combate à heresia, no último dia 09, as palavras incendiaram com o intuito único de exterminar o diferente. Em um país miscigenado, foi no terminal de ônibus de Xambá - assim denominado em respeito à Nação Xambá ainda viva em Olinda - que um seguidor da religião de matriz africana e indígena se viu coagido por suas crenças. A intolerância vivida por Alexandre - produtor cultural, fundador do Quilombola Cultural Malunguinho e estudante de mestrado em Ciências da Religião - agora é investigada pelo Ministério Público de Pernambuco.

"A maioria do nosso povo abaixa a cabeça e guarda para si quando nos agridem. Eles usam adjetivos para desqualificar nossa tradição, sacerdócio e nossos símbolos religiosos. Eu não saí de casa para brigar com ninguém, mas reagi. Tive que enfrentar isso como os velhos guerreiros malunguinhos enfrentavam", desabafou. 

No dia 09, por volta das 20h, ele entrou num ônibus que fazia a linha TI Xambá/Encruzilhada, no Terminal de Xambá, acompanhado do afilhado de jurema Henrique Falcão. Os dois seguiam para a casa de axé Ilé Iyemojá Ògúnté, em Água Fria. Mas, segundo o juremeiro, ao entrar no ônibus, um vendedor de açaí começou uma pregação e instigou os evangélicos que estavam no coletivo contra ele. Teria dito, inclusive, que sabia da existência de um grande terreiro de "macumba" por trás da estação, o Terreiro Xambá, comandado por "um negão pai de chiqueiro", citando o babalorixá Ivo de Xambá.  

"Ele falou do meu povo e de um sacerdote. Fui diretamente atingido e reagi. Ainda me chamou para brigar dizendo que o demônio não conseguiria atingir um filho de Deus. Sou pacifista, mas não abaixo minha cabeça. Rebati com argumentos convincentes sobre o desrespeito dele até mesmo aos princípios da religião que segue, que diz que não devemos julgar. Algumas pessoas concordaram, mas outras se manifestaram até com o Espírito Santo contra mim", detalhou. A confusão foi tamanha que até mesmo o vigilante do Terminal Integrado foi até o ônibus. "Seguranças e fiscais da estação mandaram que nos retirássemos. Óbvio que também os rebati dizendo que paguei a passagem e que eu era a pessoa que estava sendo violentada". Segundo Alexandre, a discussão só terminou quando ele chegou ao seu destino.

Indignado, o juremeiro publicou um vídeo que fez das ofensas no Facebook no último 12. A postagem alcançou grande repercussão e - até a noite desta sexta-feira - tinha mais de 500 compartilhamentos. Alexandre L'Omi L'Odò, então, levou a denúncia para o Ministério Público. O caso foi registrado nessa quinta-feira. O MPPE, por meio da Promotoria de Justiça de Transporte, colheu o depoimento dele e vai instaurar um procedimento investigativo. No prazo de 30 dias, o caso será analisado para que sejam tomadas as medidas cabíveis. O promotor de Justiça Humberto Graça foi designado para a ocorrência.
A equipe de reportagem entrou em contato com o Grande Recife Consórcio de Transportes para questionar a conduta do fiscal e o comércio irregular e pregação dentro do coletivo. Segundo o Grande Recife, quem interveio foi um vigilante patrimonial. Através da assessoria de imprensa, o funcionário afirmou que entrou no ônibus tentando apaziguar a discussão, mas que em momento algum pediu para que eles se retirassem. Doutrinações e vendas são proibidas dentro de ônibus e, segundo o Consórcio, cabe aos motoristas solicitarem que as pessoas parem ou se retirem. Quando são flagradas pelos fiscais, as empresas são autuadas. Não foi o que aconteceu no último dia 09.
Regulamentação do Grande Recife
De acordo com o anexo 15 do Regulamento do Sistema de Transporte Público de Passageiros da Região Metropolitana do Recife (STPP/RMR), não é permitida a atividade de vendedores ambulantes dentro dos veículos, assim como é proibido qualquer usuário de falar em voz alta (seja para vender, anunciar, pedir, pregar religiões, etc) de modo que perturbe o sossego dos demais usuários.

CASO REACENDE DEBATE QUE ANDA À ESPREITA NA SOCIEDADE: A INTOLERÂNCIA RELIGIOSA


Preconceito religioso foi tema de especial do Diario: Povos de Santos. http://diariode.pe/f0uc. Foto: Victor Germano

Para o psiquiatra Carl Jung, o papel dos símbolos religiosos é dar significação à vida do homem. A partir dessa consciência de fé, florescem as mais diversas crenças enraizadas por influências do meio e da colonização pela qual ele se formou. De acordo com a doutora em teologia especialista em políticas públicas e direitos humanos e uma das fundadoras do Comitê Nacional de Diversidade Religiosa, Marga Janete Ströher, no Brasil, a intolerância religiosa sempre existiu.

"Nossa colonização já veio acoplada a um projeto político e religioso. Há 516 anos, os índios não tiveram sua religiosidade reconhecida. Os povos ciganos já vieram expulsos da Europa. Os africanos foram escravizados. Lidamos com isso como convivemos com uma suposta democracia racial. Você só ouve falar quando chega a níveis extremos, com incêndios criminosos em terreiros e assassinatos".

A intolerância no país tem aumentado?
Eu trabalhei por quatro anos acompanhando de perto as denúncias do Disque 100, o Disque Direitos Humanos. Posso dizer que tem aumentado de forma sistemática e cada vez mais agressiva. O fascismo que cresce dentro do nível político e econômico também se transporta para o nível das relações e se prolonga pelo país inteiro. Para termos uma ideia, desde quando começamos a divulgar o Disque 100, de 2012 até 2013, houve um aumento de 600% no número de denúncias. 

Quem são as principais vítimas da intolerância religiosa?
A gente sabe que em primeiro lugar estão as pessoas de matrizes africanas, indígenas ou afro-indígenas. Mas também existem os muçulmanos que são diretamente vinculados ao terrorismo porque as pessoas não têm discernimento sobre o que é religião e o que é posição política radical. E ainda temos ateus e agnósticos nos país, cerca de 8%, que sofrem porque são julgados como sem caráter por não acreditar em Deus. 

Quem são os principais agressores?
É complicado você dizer isso, mas, de acordo com as denúncias, por via de regra são seguidores de religiões fundamentalistas, cristãos evangélicos. É importante deixar claro que não é apenas uma intolerância religiosa. Ela é um componente muito forte de racismo atrelado à violência. Não estamos mais apenas no nível do desrespeito. Chegamos ao ponto crítico de assassinatos. 

Onde as agressões mais acontecem?
Por incrível que pareça, muitos casos acontecem com crianças ainda nas escolas. Muitas são discriminadas e ofendidas verbalmente por estarem com vestimentas ou guias, por exemplo, que fazem parte dos rituais das tradições. Mas acontece em todos os lugares. Nas ruas, em supermercados. Os terreiros mesmo, considerado lugares sagrados, têm sido apedrejados e destruídos pelo país inteiro.

Essa violência motivou a criação do Comitê Nacional?
A motivação maior da criação do Comitê de respeito à diversidade religiosa veio a partir das denúncias que a gente recebia através do Disque Direitos Humanos. Mas, além disso, também recebíamos muitas informações nas visitas que fazíamos pelo país e decidimos criar algo para concentrar ações e reverter essa história.

Qual a missão do comitê?
O comitê é paritário e funciona em parceria do Governo Federal com a sociedade civil. Ele serve para ampliar o debate e fomentar a implantação de políticas públicas para atender essa demanda crescente. Ele tem essa função importante de trabalhar metodologias de conscientização.

Como as pessoas podem denunciar?
Se você se sentiu desrespeitado devido às crenças que segue, procure a delegacia mais próxima, registre a ocorrência. Vá ao Ministério Público, denuncie. Por todo o país existem órgãos de assistência e acolhimento para vítimas desse tipo de violência.

"É preciso problematizar a questão. Não é a primeira vez que isso acontece. E isso é fruto de um proselitismo religioso. O número de evangélicos vem crescendo e eles são doutrinados a pensar que apenas a religião deles é a correta. Muitas igrejas estão bombardeando ideologias racistas e preconceituosas sob uma perspectiva teológica que o Deus deles é melhor que o dos outros e formam pessoas preparadas para agredir nosso povo pelas ruas. É preciso uma intervenção enérgica de conscientização para que crimes de intolerância parem de acontecer. Sei que é uma ferida aberta e foi preciso que eu colocasse o dedo para ampliar o debate. Mas nossos terreiros estão sendo incendiados, os filhos de santo têm apanhado nas ruas. Se esse pensamento fascista se expandir, daqui a pouco vamos derramar sangue por religião", ponderou o juremeiro Alexandre L'Omi L'Odò.

Central de Atendimento Disque 100
Ligação gratuita 24 horas: 100


Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho 
alexandrelomilodo@gmail.com

MPPE apura caso de Intolerância Religiosa

Alexandre L'Omi L'Odò mostrando a denúncia feita ao MPPE. Foto de Bruno Campos.

MPPE apura caso de Intolerância Religiosa

Matéria de Priscila Costa.
Folha de Pernambuco, 17 de Junho de 2016.

O Ministério Público de Pernambuco (MPPE) abrirá investigação para apurar práticas de intolerância religiosa ocorridas no Terminal Integrado Xambá, em Olinda, Grande Recife. O órgão tem até 30 dias para concluir o caso. A denúncia foi oferecida na última quinta-feira (16) pela vítima, Alexandre L’Omi L’Odò, seguidor da Jurema Sagrada, uma religião de matriz indígena e africana. A queixa foi acatada pelo MP por estimular o preconceito o que, aos olhos do ministério, é crime. Quem está à frente do caso é o Promotor de Transporte da Capital, Humberto Graça.
Matéria impressa da Folha de Pernambuco de 17 de Junho de 2016, Caderno Cotidiano, Página 2.

Alexandre L’Omi L’Odò contou que os atos de intolerância começaram após o ambulante, que é evangélico, ver o colar da vítima.  Ele carrega o Signo Salomão que, na Jurema Sagrada, representa a estrela de Malunguinho. “Foi aí que comecei a ouvir ironias. Não me calei, claro. Daí, ouvi de tudo, desde que era filho do satanás, seguidor das trevas”. Ele contou que o ápice da confusão veio quando o homem insultou o Pai Ivo de Xambá e criticou os adeptos da religião.

“Pelo pouco que vi, já constatei irregularidades que vão além da intolerância religiosa. E como ele fez, de forma preconceituosa, pode ir também à esfera criminal”, adiantou o promotor Graça. O caso ocorreu no último dia 9, mas a denúncia foi oferecida na última quinta.


Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

Intolerância Religiosa de evangélicos contra juremeiro dentro do Terminal Integrado de Ônibus Xambá


Intolerância Religiosa de evangélicos contra juremeiro dentro do Terminal Integrado de Ônibus Xambá

Esta postagem que fiz no facebook no dia 12 de junho de 2016 ganhou enorme repercussão nacional. Viralizando na internet, este registro que fiz da intolerância e racismo religioso que sofri, deve servir para a reflexão do quão grave é a situação que o povo de terreiro cotidianamente vive nos transportes públicos (ônibus e metrôs). Vamos combater e educar. Assim contribuímos contra algo tão absurdo. Sigamos na luta pelo extermínio do racismo e dessa doentia intolerância religiosa praticada por parte dos "evangélicos". Denunciei no Ministério Público de Pernambuco - MPPE e aguardo resposta da promotoria de transporte desta instituição.

Segue relato:
No dia 11 de junho de 2016, por volta das 20h, eu e meu afilhado de Jurema Henrique Falcão estávamos dentro da Estação Xambá (TI) para pegar o ônibus TI Xambá Encruzilhada, pois íamos visitar a nossa casa de axé o Ilé Iyemojá Ògúnté, que fica em Água Fria/Recife. 

Ao entrarmos no ônibus, um vendedor ambulante iniciou um discurso aparentemente extrovertido para vender açaí... Contudo, ele, o tempo inteiro ficou reafirmando ser pertencente a Igreja Assembléia de Deus (pelo que entendi). Após identificar que eu era um "macumbeiro", começou a fazer o tétrico discurso evangélico de baixa estirpe se direcionando à mim. Falando com arrogância que conhecia a verdade e havia encontrado a luz, pois havia desistido de ser um "umbandista" e que conhecia tudo "dessas religiões", tentando provar isso, afirmou que sabia que tinha "um grande terreiro de Macumba" por detrás daquela estação de ônibus (o Terreiro Xambá) comandado por "um negão pai de chiqueiro" se referia obviamente ao querido e importante babalorixá Ivo de Xambá. 

Quando ouvi tamanho absurdo racista e intolerante me rebelei imediatamente falando: pai de chiqueiro nada, ele é um babalorixá, um sacerdote de respeito! Respeite a religião dos outros, por que eu sou um juremeiro, catimbozeiro, macumbeiro e candomblecista com muito orgulho e exijo respeito comigo e com minha religião (em voz estridente). 

Continuei: você é um ignorante racista e que desrespeita até os princípios de sua religião que diz que não deves julgar, portanto estais em pecado e vai pro inferno devido a sua falta de respeito para com os seus "irmãos"! E que devido a esta sua atitude ignorante e racista você se demonstra uma pessoa sem condições de refletir sobre absolutamente nada, e que este é o reflexo da má educação pública que embranquece as mentes e torna as pessoas vulneráveis a ideologias criminosas que não se justificam como esta sua (...). 

Ele rebateu: "a verdade dói" e ironicamente ele pediu desculpas e continuou a reafirmar este pensamento, ignorando o que eu falei, abriu assuntos paralelos com "evangélicos" presentes no ônibus que obviamente o apoiaram e iniciaram gritos contra a minha fé "pregações de salvação"... 

Rebati: afirmei que existem mais de dez mil religiões no mundo e questionei o por que só as dos evangélicos seria a certa, a única verdade ou que seria a religião que salvaria... E falei que este pensamento é falta de senso crítico que isso tem ligação direta com a situação política do país hoje, com Temer na presidência da República liderando um golpe antidemocrático sem precedente. 

Daí, uma "evangelica" indignada falou que a crise econômica do país não a afetava por ela "ser de Jesus". Sugeri um breve reflexão e disse, a crise não lhe pega e você andando de TI Xambá, o que a deixou raivosa. 

A esta altura do campeonato, os passageiros já estavam estressados com a briga de discursos em voz extremamente alta que estava acontecendo, e o ônibus não saiu do lugar até vir seguranças e fiscais da estação para mandar que nos retirássemos do ônibus. Óbvio que também os rebati dizendo que paguei a passagem e que eu ali era a pessoa que estava sendo violentada. Logo eles perceberam a situação e não insistiram, liberando a saída do ônibus para seu roteiro. 

Imaginei que as coisas iriam se acalmar, porém outras mulheres "evangélicas" não só levantaram a voz de forma arrogante, como também levantaram de seus lugares e direcionando a palavra a mim afirmaram que: "a salvação era única, e que eu e meu afilhado iríamos "queimar no fogo". A partir disso, uma série de xingamentos vieram a tona por parte deles contra mim como: "víbora do inferno, iluminatti do satanás, espírito sem luz, amaldiçoados" dentre outros, como se pode perceber neste vídeo que não representa nem 10% de toda essa odisseia repugnante do racismo e da intolerância religiosa. 

Não satisfeito, o vendedor me desafiou a entrar em conflito físico com ele. Afirmando que não seria possível tocá-lo por ele ser "filho de Jesus". Ficou exaltadíssimo querendo briga e eu falei que não era necessário aquilo, por que eu discuto argumentos e não precisaria de atos rudes para a resolução de meus problemas. Ele se manteve provocando até a hora de sua descida.

A viagem só teve paz praticamente quando desci. Onde fui surpreendido por uma evangélica que em um momento de lucidez veio até mim falar que o vendedor estava realmente errado e que não se pode julgar nem desrespeitar a religião dos outros. Os demais passageiros que não eram evangélicos ficaram todos do meu lado, concordando e expressando com falas, gritos, e olhares de apoio a situação que eu estava passando. 

Por ironia do destino, quando voltamos para casa, pegamos o mesmo ônibus (TI Xambá - Encruzilhada), e a primeira coisa que ouvi ao subir no veículo foi "vai fazer show novamente?", daí percebi que havia pego o mesmo transporte com o mesmo motorista e a mesma cobradora... Daí respondi com segurança: Se eu me sentir ofendido novamente irei sim! 

O que passei ontem, serve para refletirmos que devemos reagir contra a opressão dos racistas e intolerantes religiosos sempre. Nós não podemos nos calar perante os opressores, nosso silêncio e omissão não condiz com nosso histórico de resistência, e também esta mesma omissão outorga aos opressores o pensamento de que eles podem fazer o que quiserem contra nós sem que reajamos. 

#NãoaoRacismo! 
#NaoaIntoleranciaReligiosa! 
#Nãoaodiscursodeódionotransportepúblico!

Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho

alexandrelomilodo@gmail.com

Quilombo Cultural Malunguinho

Quilombo Cultural Malunguinho
Entidade cultural da resistência negra pernambucana, luta e educação através da religião negra e indígena e da cultura afro-brasileira!