Espaço internacional de discussão e troca de saberes. Local para estreitar nossas negras discussões e lucubrações sobre a Música Percussiva (Yorùbá/afro-descendente e nordestina) e as religiões das matrizes indígenas e africanas, além de todo o seu imaginário histórico, social, cultural e pedagógico. Local de exposição de vivências práticas com a religião negra!!!
Fora Michele Collins! Alexandre L'Omi L'Odò faz apelo público em defesa do Povo de Terreiro
#ForaMicheleCollins!
Vídeo
denúncia e de apelo à justiça para que sejam cumpridas as leis contra o racismo
e a intolerância religiosa.
Nós,
Povo de Terreiro, fomos profundamente violentados pela vereadora do Recife,
Michele Collins, que em um ato coletivo de racismo, realizou um ato, dia 3 de
fevereiro, na beira mar, para "quebrar a maldição de Iemanjá sobre a
Terra". Este crime, ficou explícito e público a partir de uma publicação
em seu facebook, onde orgulhosamente ela para mostrar sua maligna ousadia,
perante os adeptos da fé intolerante, violenta e desrespeitosa, escreveu e
publicou uma fotografia deste ato.
Nós,
do Quilombo Cultural Malunguinho, hermanados com todos os movimentos de luta do
Povo de Terreiro e dos direitos humanos, dizemos publicamente #ForacheleCollins
Esse
crime não pode ficar impune! Queremos a criminalização pela lei destes atos de
racismo, intolerância religiosa e incitação ao ódio e à xenofobia.
Não
queremos as desculpas dela! Ela retirou a postagem do ar e em matérias de
jornal falou que escreveu de forma equivocada... MENTIRA! Sabemos que todos os
dias dentro das quatro paredes das "igrejas evangélicas", é ensinado
o ódio e a intolerância religiosa. O desrespeito ao próximo... Isso tudo a
partir de interpretações equivocadas do livro sagrado dos cristãos - a bíblia.
Rogo
à Iyemojá, à Oxalá e à Xangô, que a justiça seja feita. Um crime público e de
tão grande repercussão não pode passar impune de forma alguma! Se a Justiça
permitir a impunidade, estará nos condenando à todas e todos, que fomos vítimas,
e abrindo o precedente para conflitos religiosos onde a violência será
protagonista.
Ajudem
a COMPARTILHAR esse apelo!
Axé! Agô Kolofé!
Vídeo
produzido pela Aláfia Filmes - Instituição de luta pelos povos tradicionais.
Alexandre L'Omi L'Odò
Coordenador
Geral do Quilombo Cultural Malunguinho
O poder das Iabás - Mãe Lu Omitòògùn e Barbara Costa na luta das mulheres negras
O poder
das Iabás
Para comemorar o Mês da Consciência Negra, a
Revista mostra como a força herdada dos poderosos orixás femininos leva as
mulheres a comandar a dura luta ancestral por respeito, igualdade e justiça
social
Elas não são Eva, nem Maria, muito menos Amélia. Os
orixás femininos — as iabás —, que inspiram o arquétipo de suas filhas na
dimensão terrena, foram (e ainda são) mulheres imprevisíveis. Guerreiras,
sempre prontas para defender os reinos que governam. Na história antiga e na
contemporânea, não faltam exemplos de figuras femininas que não aceitam ser
subjugadas pelo sexo oposto.
Elas batalham com uma garra incomum, o que as faz
se destacar no cenário onde se encontram. Insurgem-se contra sistemas injustos
e não negam disposição para transformar realidades negativas. Quando comparadas
com os itans (em iorubá, o conjunto de lendas, mitos e músicas dos orixás) das
seis principais divindades cultuadas no país pela umbanda e pelo candomblé — as
iabás Nanã Buruku (ou Buruque), Iemanjá, Oxum, Iansã, Obá e Euá —, vê-se que
elas estão atuando na sociedade. E deixando contribuições valiosas para as
mudanças e os avanços almejados pelos cidadãos.
Ao contrário de Eva, elas não vivem no paraíso. Não
têm a santidade de Maria, figura icônica da fé cristã. Estão longe de ser a
Amélia, da famosa canção criada, em 1942, pelos consagrados artistas Ataulfo
Alves e Mario Lago, que conquistou as paradas de sucesso com o grupo musical
Demônios da Garoa.
As iabás contemporâneas são, como suas ancestrais,
batalhadoras nas infindáveis jornadas contra o machismo, a violência doméstica,
sexual, o preconceito, a misoginia e todas as outras expressões de violência e
opressão, que buscam subjugá-las, ou impor-lhes condições de inferioridade. As
seis divindades iabás remontam à cultura herdada dos iorubás, um dos maiores
grupos étnico-linguísticos da África.
De acordo com o sociólogo e professor da
Universidade de São Paulo Reginaldo Prandi, eles acreditam que homens e
mulheres descendem dos orixás. “Cada um (pessoa) herda do orixá de que provém
suas marcas e características, propensões e desejos, tudo como está relatado
nos mitos”, explica Prandi, no livro Mitologia dos orixás, uma pesquisa
profunda que reconta 301 mitos africanos e afro-americanos. Todos eles, parte
importante da alma brasileira.
Força
espiritual
Na umbanda e no candomblé, as duas principais
religiões de origem nas tradições africanas, elas são respeitadas e tratadas
por mãezinhas — ou simplesmente mães — e reverenciadas como autoridades. A
natureza, pródiga de sabedoria, deu a todas o poder da maternidade, e isso as
tornam pessoas respeitadas como essenciais à preservação da vida e à perenidade
da raça humana. Mais do que isso: são consideradas pela força espiritual que
carregam e que lhes confere singularidade nos terreiros.
Dentro de uma sala de aula do Instituto de Inclusão
no Ensino Superior e na Pesquisa da Universidade de Brasília, a historiadora
pernambucana Bárbara Costa, 29 anos, critica a higienização do movimento negro
no Recife e suas palavras mostram a garra e a força que herdou da orixá Iansã.
“Eu topo qualquer parada, enfrento qualquer coisa. Homem ou mulher”, afirma,
logo após encerrar uma aula sobre a história do culto Nagô em Pernambuco.
Sentada ao lado, a pernambucana Lúcia Costa, 65,
mais conhecida como Mãe Lu, mostra o amor que herdou de Iemanjá. “Ela é a minha
mãezinha, me acolhe, me tira da solidão e me acalenta”, conta. Para explicar a
relação com a mãe Iansã, Bárbara deixa de lado a postura rígida e fala com
carinho. “É para a mãe que a gente pede tudo, né? Acreditamos que eles (os
orixás) são nossos intermediários com Deus. Podemos estar com o filme queimado
lá em cima, mas, no meu caso, Iansã chega lá e fala: ‘sei que a Bárbara errou,
mas ela vai melhorar’. Ela intercede por mim”, diz.
A relação com a mãe iabá é forte em todos os que
fazem parte das religiões de matrizes afro-brasileiras. “Quando alguém tem três
orixás masculinos, dizemos que é algo muito triste, porque todo mundo tem que
ter uma mãe. No meu caso, eu só tenho uma iabá, Iansã. Mesmo ela não sendo a
dona do meu ori (cabeça, destino, em iorubá), eu sou muito parecida com ela.
Quem me vê logo a encontra”, explica Bárbara.
“Eu tenho a concepção de que a nossa Iemanjá toma
conta daqueles que só têm (orixás) homens na cabeça. Ela é sempre a mãe, que dá
proteção. É uma qualidade que Deus deu para ela”, acrescenta Mãe Lu.
Visões
próprias
Os itans, ou lendas, variam em cada nação e estão
ligados à cosmovisão de cada uma delas. A diferenciação é bem nítida entre os
candomblés de Angola, Keto e Jejê. Tanto é assim que os orixás têm outras
designações. No candomblé de Angola, Inkisi é orixá; Iansã, Matamba ou
Bamburucema; Oxum, Ndandalunda (leia-se dandalunda); Iemanjá, Kaiá, Mikaiá ou
Kaiala; Nanã, Nzumbarandá, Nzumba, Zumbarandá, Ganzumba.
IEMANJÁ
É a rainha de todas as águas do mundo. O seu nome
vem da expressão “YéYé Omó Ejá”, que significa mãe cujo filhos são peixes. Ela
é o espelho do mundo, que reflete todas as diferenças. Mostra os caminhos,
educa e sabe explorar as potencialidades que estão dentro de cada um.
Características dos filhos:
São imponentes, belos, calmos, sensuais, fecundos,
têm dignidade e irresistível fascínio (o canto da sereia). São voluntariosos,
fortes, rigorosos, protetores e, por vezes, impetuosos e arrogantes. Têm o
sentido da hierarquia, preocupam-se com os outros. Sem a vaidade de Oxum,
gostam de luxo.
Dia: Sábado
Cor: Branco, Prateado, Azul e Rosa
Símbolo: Abebé prateado.
Elementos: Águas doces que correm para o mar, águas
do mar
Domínios: Maternidade (educação), saúde mental e
psicologia
Saudação: Odó-Iyá
Fonte: https://ocandomble.com
OXUM
Na Nigéria, corre o rio Oxum, a morada da mais bela
Iabá, a rainha de todas as riquezas, a protetora das crianças, mãe da doçura e
da benevolência. Generosa e digna, Oxum é a rainha das águas doces. Vaidosa, é
a dona da fecundidade das mulheres, do grande poder feminino.
Características dos filhos de Oxum
Oxum é o arquétipo dos que agem com estratégia e
são obstinados na busca dos seus objetivos. Atrás da imagem doce se esconde uma
forte determinação e um grande desejo de ascensão social. Dão muito valor à
opinião pública e preferem contornar as suas diferenças com habilidade e
diplomacia.
Dia: Sábado
Cores: Amarelo e ouro
Símbolo: Leque com espelho (Abebé)
Elemento: Água doce (rios, cachoeiras, nascentes,
lagoas)
Domínios: Amor, riqueza, fecundidade, maternidade
Saudação: Òóré Yéyé ó!
Fonte: https://ocandomble.com
NANÃ
Deusa dos mistérios, é de origem simultânea à
criação do mundo. Nanã é o começo, porque é o barro e o barro é a vida.
Sintetiza em si morte, fecundidade e riqueza. Designa pessoas idosas e
respeitáveis. Entender Nanã é entender o destino, a vida e a trajetória do
homem sobre a terra.
Características dos filhos:
São pessoas extremamente calmas, lentas no
cumprimento das tarefas. Agem com benevolência, dignidade e gentileza. Gostam
de crianças, as quais educam com excesso de doçura e mansidão. No modo de
agir e até fisicamente aparentam mais idade.
Dia: Terça-feira
Cores: Anil, branco e roxo
Símbolo: Bastão de hastes de palmeira (Ibiri)
Elementos: Terra, água, lodo
Domínios: Vida e morte, saúde e maternidade
Saudação: Salubá!
IANSÃ
Saudada como a deusa do rio Níger, o maior da
Nigéria, é filha do fogo-Omo Iná. É a rainha dos raios, das ventanias, do tempo
que se fecha sem chover. Guerreira por vocação, sabe defender o que é seu e
conquistar, seja nas guerras, seja no amor. Iansã é a mulher que acorda de
manhã, beija os filhos e sai em busca do sustento.
Características dos filhos:
Para eles, viver é uma grande aventura, e enfrentar
riscos e desafios, um prazer. Escolhem os caminhos mais por paixão do que por
reflexão. Não escondem os seus sentimentos, seja de felicidade, seja de
tristeza. Entregam-se a súbitas paixões e de repente esquecem, partem para
outra.
Iyá Iyemojá Ògúnté na reabertura do Ilé Iyemojá Ògúnté em maio de 2012. Foto de Joannah Luna.
Iyemojá Ògúnté Mudou Minha Vida mais Uma Vez
Ontem minha vida mudou mais uma vez... Não sou preso em, ou a padrões estáticos, gosto de me jogar e viver o que for possível no corpo e em tudo....
Ver nos rituais de axé anuais de nossa casa Iyemojá Ògúnté no corpo de minha iyá Mãe Lu Omitòógún foi profundamente transformador mais uma vez para mim. Ver sua dança tão inusitada, inesperada, quase difícil de compreender, solta, leve, íntegra, viva, forte e africana, me tirou do eixo comum da vida e me colocou defronte a mais maravilhosa possibilidade de ser feliz com o corpo, com a alma e com a consciência. Iyemojá me fez flutuar em mim mesmo, voar nos campos livres do passado da Nigéria e mergulhar nas suas águas, que ela dançava brincando com elas... Essa dança tão atípica só pude ver no Ilé Iyemojá Ògúnté - Terreiro Nagô... Já andei em muitos terreiros do Brasil todo, mas só lá existe este traço da dança de Iyemojá, creio. Nada de dança coreografada, com requintes de passos marcados... Nada marcado, nada esperado, nada ordenado... Simplesmente livre e vibrante...
Fui pego em momento de plena contemplação por Mãe Zite de Ipondá, que da janela me olhou naquela situação e chamou minha atenção com as mãos e fez sinal de "legal" com elas, avisando que estava adorando ver aquilo também... Logo ela veio para o salão e começou a dançar junto com Iyemojá e todo o terreiro veio abaixo em dança coletiva, cânticos, palmas, vibrações e fé. Foi um momento profundo do axé da casa que muito me honra em ter me aceito...
Vi Deus e Deusa em tudo aquilo. Deus e Deusa dentro de Mãe Lu, dentro de todas as crianças que estavam ali tocando, dançando e cantando, dentro de meu pai Paulo Braz, dentro dos tambores, dentro das comidas.... De tudo... Uma vibração tão profunda de paz e misericórdia, de absolvição, de respeito ao sagrado, de harmonia, de transcendência humana dos padrões ocidentais e cristãos que aquilo me salvou mais uma vez... Me salvou do risco de crer num Deus fora de nós, que está acima de nós, e que nos condena. Nuca acreditei por opção própria nessa teologia cristã, e após ter vivenciador tudo isso, pude entender mais ainda que pular fora do barco do sofrimento da vida proposto pela condenação mental do cristianismo me renasceu mais uma vez, reafirmou-me e me fez entender que de fato estou no lugar certo.
Tinha também muito Deus e Deusa dentro do abraço forte e intenso profundo de Xangô no meu irmão Júnior Boto. Um abraço tão consciente que me fez meditar. Me purificou... Me deu redenção e me elevou ao espírito da terra e do fogo.
Hoje é a festa de Iyemojá... Vai ser maravilhoso poder estar junto com esta família que tem o que sempre procurei na vida, ciência profunda do amor e África.
Kolofé, Kolofé, Kolofé! Agô Kolofé!
“Eu só poderia crer em um Deus que soubesse dançar” | Nietzsche.
Postagem de grande repercussão no facebook. Datada do dia 14 de Dezembro de 2013. Fiz este texto após chegar em casa da abrigação de Iyemojá Ògúnté. E de fato, minha vida mudou. Só poderia mudar perante tanta beleza e divindade pura e transcendente. Minha Mãe Lu é uma mulher inspiradora, e ela também é parte desta transformação linda. Axé e adupé Iyemojá. Kolofé!
Sacerdote juremeiro e do culto aos Orixás (Egbomi), é mestrando em Ciências da Religião pela UNICAP, graduado em licenciatura plena em História, pela Universidade Católica de Pernambuco - 2014.
É membro do Comitê Nacional de Respeito à Diversidade Religiosa da Presidência da República, e do Conselheiro de Políticas Culturais do Recife. Milita nos campos das políticas públicas.
Tem experiência na área de educação, com ênfase em educação social, artística, musical e afro indígena teológica. Desenvolve trabalhos nas áreas de pesquisa, reconhecimento e preservação de patrimônio imaterial.
Tem publicado artigos científicos sobre temas relacionados a religiosidade da jurema sagrada, nos âmbitos de sua teologia e história. Ensina língua, história e cultura yorùbá, do coco e da Jurema sagrada. Desenvolve carreira de artistas e produz filmes/documentários.
É coordenador geral do Quilombo Cultural Malunguinho e desenvolve projetos de pesquisas com povo de terreiro.
Realizador há 10 anos do Kipupa Malunguinho (encontro nacional dos juremeiros), tem estimulado uma movimentação política de fortalecimento do Povo da Jurema entorno de sua história e religiosidade.