Mostrando postagens com marcador folha de pernambuco. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador folha de pernambuco. Mostrar todas as postagens

sábado, 9 de julho de 2016

MPPE apura caso de Intolerância Religiosa

Alexandre L'Omi L'Odò mostrando a denúncia feita ao MPPE. Foto de Bruno Campos.

MPPE apura caso de Intolerância Religiosa

Matéria de Priscila Costa.
Folha de Pernambuco, 17 de Junho de 2016.

O Ministério Público de Pernambuco (MPPE) abrirá investigação para apurar práticas de intolerância religiosa ocorridas no Terminal Integrado Xambá, em Olinda, Grande Recife. O órgão tem até 30 dias para concluir o caso. A denúncia foi oferecida na última quinta-feira (16) pela vítima, Alexandre L’Omi L’Odò, seguidor da Jurema Sagrada, uma religião de matriz indígena e africana. A queixa foi acatada pelo MP por estimular o preconceito o que, aos olhos do ministério, é crime. Quem está à frente do caso é o Promotor de Transporte da Capital, Humberto Graça.
Matéria impressa da Folha de Pernambuco de 17 de Junho de 2016, Caderno Cotidiano, Página 2.

Alexandre L’Omi L’Odò contou que os atos de intolerância começaram após o ambulante, que é evangélico, ver o colar da vítima.  Ele carrega o Signo Salomão que, na Jurema Sagrada, representa a estrela de Malunguinho. “Foi aí que comecei a ouvir ironias. Não me calei, claro. Daí, ouvi de tudo, desde que era filho do satanás, seguidor das trevas”. Ele contou que o ápice da confusão veio quando o homem insultou o Pai Ivo de Xambá e criticou os adeptos da religião.

“Pelo pouco que vi, já constatei irregularidades que vão além da intolerância religiosa. E como ele fez, de forma preconceituosa, pode ir também à esfera criminal”, adiantou o promotor Graça. O caso ocorreu no último dia 9, mas a denúncia foi oferecida na última quinta.


Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Jurema Sagrada, uma religião de matriz indígena do Nordeste do Brasil



Jurema Sagrada, uma religião de matriz indígena do Nordeste do Brasil

Re-publico aqui no nosso blog a matéria/vídeo feita com muito carinho e atenção do Jornal Folha de Pernambuco. Agradeço a bela abordagem da jornalista Priscila Costa e a produção de fotografias e audiovisual de Bruno Campos. Materiais como este devem circular para contribuir na diminuição do racismo e da intolerância religiosa causada pela ignorância e falta de oportunidade da população.


Compartilha!

#JuremaSagrada
#Catimbó
#PovodaJurema

Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com 

domingo, 19 de junho de 2016

O meio ambiente e o divino

Alexandre L'Omi L'Odò é sacerdote da Jurema Sagrada: "Só alcançamos o sagrado quando nos aproximamos da natureza". Foto de Bruno Campos.

O meio Ambiente e o divino

A natureza é o altar para muitas religiões de matriz afro-indígena, como a umbanda e a Jurema Sagrada

Matéria de Priscila Costa
Folha de Pernambuco, 19 de junho de 2016. Cotidiano, p. 4.

Do cajado, feito do tronco da jurema, o discípulo ganha forças. Nas plantas extraídas do pé de aroeira, busca-se a limpeza espiritual e a cura. A fumaça, que vem da queima das ervas, é a alma que viaja até os ancestrais. A natureza é o altar para muitas religiões de matriz afro-indígena, que encontram no meio ambiente a ligação com o divino. Não é à toa que a expressão em Yorùbá “Kò sí ewé, kò sí omi, kò sí òrìsà” quer dizer “Sem folha, sem água, não existe orixá”. Esse equilíbrio surge da convivência harmoniosa entre todos os seres vivos, dos quais o homem é apenas uma pequena semente. E o sagrado pode estar, sim, no mundo natural que nos cerca.

Sacerdote da Jurema Sagrada e do candomblé Jeje-Nagô desde os tempos de criança, Alexandre L’omi L’odò carrega a sua entidade no sobrenome. “L’omi L’odò” significa “das águas dos rios”, em louvor a Oxum, seu orixá. “Só alcançamos o sagrado quando nos aproximamos da natureza, o que inclui pedra, água, folha, raiz, caule, frutos e o nosso próprio corpo. Somos a morada verdadeira da natureza”. A vida em torno do juremeiro ou catimbozeiro, explica L’omi L’odò, é como a própria árvore. “Somos o tronco, as folhas, os galhos, a flor. Que um dia vai tombar, mas voltará dando frutos e levando a cura”, diz. É na mata do Engenho Pitanga II, em Abreu e Lima, na RMR, onde a Jurema Sagrada, representada por uma árvore, é reverenciada.

Digitalização da matéria impressa da Folha de Pernambuco.

Os cânticos ganham ritmo com o barulho das sementes presentes dentro do maracá (chocalho). O fumo mestre, preparado com até 28 ervas, é a ponte de chegada às entidades que defendem o terreiro - índios, pajés, caciques. Um dos elementos mais sagrados durante um ritual é o momento de beber o vinho da Jurema Sagrada. Sua essência vem das entrecascas da raiz da árvore misturada a outras ervas.
Antepassados

As várias religiões que existem hoje no Brasil com origem nos antepassados afro-indígenas, como a própria Jurema Sagrada, Umbanda e o Candomblé, segundo o professor do Departamento de História da UFPE, Severino Vicente, são produtos de rearranjos culturais da época da escravidão colonial brasileira, na qual o sincretismo religioso existia como forma de resistência para que a população negra pudesse manter sua fé.

“O sincretismo é uma característica de toda religião porque nenhuma surge do nada. Mas, neste caso específico, há uma cultura de resistência ao colonialismo”, afirma o estudioso.  
Existem orixás ligados às plantas de água: aquelas que têm as folhinhas mais verdinhas, mais gordinhas ou plantas que crescem dentro d’água e nas beiras dos rios. Por exemplo, aquele jasmim que nasce em charco e na beira das cachoeiras é oferecido a Oxum. Há espécies relacionadas ao inchaço, à amamentação e ao parto, que seriam plantas femininas ligadas a Iemanjá e Oxum. As que ardem e queimam são de Exu, que é o fogo. Xangô também é fogo e suas plantas são quentes. As plantas da terra, de grande porte, remetem a Oxóssi, como a aroeira, o cajueiro e a mangueira.
Porém, essa relação do homem com a natureza requer cuidados. É o que explica o Egbomi de Iemanjá, Marconi Bispo. “Tomar um banho, por exemplo, tem várias vertentes. Uma delas é purificar. Mas há outras implicações: banhar quem? purificar do quê? E por quê? Não há receita pronta. Todo pai e mãe de santo deveriam ter esse cuidado.” Segundo Bispo, antes de tudo é preciso saber qual orixá rege a pessoa para saber quais as ervas escolher para o banho.
Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

sábado, 14 de julho de 2012

Adeptos do Candomblé estão indignados

Matéria do jornal Folha de Pernambuco de 14-07-2012. Caderno REGIONAL, p. 4. QCM na luta contra intolerância religiosa. Alexandre L'Omi L'Odò, João Monteiro e Carlos Tomaz.
 RegionalAdeptos do Candomblé estão indignados

14/07/2012 - THOMAZ VIEIRA  (jornalista)

Os atos de vandalismo cometidos pela população na região do crime de Flanio, de 9 anos, provocaram indignação entre os adeptos do Candomblé. O coordenador do Quilombo Cultural Malunguinho (entidade que representa os povos de terreiro e o povo negro), Alexandre L’Omi L’Odò, disse que o órgão já se articula junto a instituições de Direitos Humanos e estuda iniciar ação judicial coletiva por danos morais.

A grande reclamação dos religiosos é que os acusados pelo crime foram tidos como praticantes do Candomblé, o que não é verdade. “O Candomblé é uma religião que agrega muito as pessoas. Daí, indivíduos mal-intencionados usufruem disso para se aproveitar da carência das pessoas”, denuncia Alexandre. Ele conta, inclusive, que o processo de formação de líderes da crença é bem rígido e dura vários anos.

 João Monteiro, Alexandre L'Omi L'Odò e Carlos Tomaz, Representantes do Quilombo Cultural Malunguinho. Foto de Hesíodo Góes.

Para o historiador João Monteiro, o fato de a polícia ter apresentado, erroneamente, os suspeitos como pais de santo teria causado a reação de ódio na sociedade. “Quando a polícia prende esses marginais e os coloca com seus títulos sacerdotais em vez de seus nomes, demonstra o despreparo dos agentes no trato desses temas”, afirma. Ele aponta que o Governo desenvolve um programa de combate ao preconceito dentro das instituições públicas, mas que o mesmo não funciona adequadamente.

A associação do termo “magia negra” ao crime e à religião também revoltou os povos de terreiro. Para o membro do Fórum Estadual de Educação Étnico-Racial de Pernambuco, Carlos Tomaz, a expressão é, além de tudo, racista. “Mesmo que inconscientemente, tudo relacionado à etnia negra é tido como ruim”, reclama. O termo vem, na verdade, da Idade Média, das práticas de culto ao demônio originadas de religiões de matriz europeia.

___________________
Devido as solicitações de disponibilisação do texto da matéria, digitei e posto aqui.
*Acima texto integral do jornal Folha de Pernambuco de 14-07-2012. Caderno REGIONAL, p. 4. Quilombo Cultural Malunguinho na luta contra intolerância religiosa. Na foto João Monteiro, Alexandre L'Omi L'Odò e Carlos Tomaz. 


Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

domingo, 1 de novembro de 2009

Folha de Pernambuco publica matéria sobre A Fé Afro Pernambucana.

****

Coloco aqui a matéria da jornalista Silvia Leitão, que está promovendo uma série de reportagens sobre a diversidade religiosa do Estado. Nesta matéria poderemos ver um pouco do nosso universo religioso, com forte ênfase na discussão do preconceito que sofremos como fiéis dos candomblés e Juremas.


Publico texto integral da matéria com apenas algumas alterações ortográficas pertinentes.

Boa leitura e vamos discutir o conteúdo deste texto, pois se faz importante (aviso dêsde já) um olhar mais crítico sobre o que escrevem sobre nós.

Nós do Quilombo Cultural Malunguinho também contribuímos com o trabalho da jornalista. levamos ela à uma cerimônia de Ossé para Oxalá na casa tradicional de Dona Dora de Oyá, no Jordão, lá também podemos discutir questões sobre a cosmovisão da Jurema e parte de sua teologia que ainda não foi desmistificada, e que com esforços estamos tentando fazê-la.

Lembro ainda que quando nesta matéria se fala de Umbanda, fica-se muito inteligível a compreensão da diferença entre a Jurema e a Umbanda, portanto sugiro que todos e todas possam avaliar e rediscutir este conceito importantíssimo para afirmarmos a Jurema como um culto independente da Umbanda, já que ela é a Religião Primaz do Brasil.

L'Omi.
Nguzo Malunguinho.

Boa Leitura!


_________________

Domingo 01 de Novembro de 2009.


Cultura e Magia das Religiões Afro Brasileiras

Sílvia Leitão.


É só falar em religiões afro-brasileiras que se escutam conceitos pejorativos sobre seus cultos, tão enraizados na história do Brasil, desde a escravidão colonial. Sincréticos, os credos são capazes de reunir magia, espiritualidade e um politeísmo com resquício monoteísta, por acatar um Deus supremo. Demonizados pelo desconhecimento, chega a ser um paradoxo o ainda persistente preconceito em tempos de tolerância religiosa. No próximo domingo, a série da Folha de Pernambuco continua com Judaísmo.

Na chegada à rua do Terreiro Santa Bárbara Xambá, em Olinda, vê-se toda a comunidade se preparando para aquele dia festivo. De longe, sob a condução dos ogans (tocadores), a batida forte e contagiante dos ilús (tambores) é um chamado para o corpo e para o espírito. O vaivém nas portas das casas é intenso, incluindo troca de roupas e badulaques, travessia de bandejas com iguarias, além de recolhimento para preces de concentração e proteção. A tarde do domingo seria sagrada para aqueles homens, mulheres e crianças, que, com orgulho, preparavam-se para homenagear seus orixás (santos).

Impressionantemente, a tarefa se faz cumprir dos mais velhos aos mais novos, com o mesmo afinco e respeito. No meio dos mais experientes, o pequeno Gabriel Rocha, de 5 anos, mostra seu conhecimento precoce. Como quase todos os presentes, o sobrinho do Pai de Santo Ivo já nasceu ali dentro. “Minha avó e tia-avó me trazem”, adiantou. O som do ilu, que entre os xambás é chamado de ingome, o menino aprendeu a tirar com os ogans do lugar. “Também sei tocar o abê (cabaça) e agogô”, orgulha-se.

A roda do salão para onde Gabriel leva a música se enche de azul, amarelo, vermelho, branco e rosa, cores que representam, nesta ordem, Iemanjá, Oxum, Ogum, Orixalá, Oyá e Xangô. Nas paredes, as fotos de antigos integrantes do terreiro dão o tom de tradição ao ritual que carrega a história dos negros ancestrais, embora ali não seja um espaço de restrição racial, onde brancos não ficam de fora das cerimônias nem da crença espiritualista.

Se o coro em yorubá (língua africana) era para chamar os orixás, que viessem. E eles chegavam. Àqueles corpos em meio a um transe ritmado. Os incorporados pelos espíritos que personificam uma força da natureza dançavam e cumprimentavam a roda. Naquela tarde, a dona de casa Adriana de França, de 30 anos, recebeu Obaluayê, da doença e da cura, herdado, aliás, da avó Mãe Biu. “É como se fosse um casamento, uma festa de gala. Tem que deixar a emoção da batida do ilu entrar em você. Em mim, começa com dormências nos pés e nas mãos. Sinto falta de ar, o coração acelera, a respiração fica ofegante, mas, é um sentimento tão bom que a gente se emociona”, definiu.

O antropólogo da UFPE Roberto Motta diz que o “bom” nome para o Candomblé pernambucano é Xangô. “É a religião da festa, da dança, do entusiasmo popular e da obrigação, compreendendo o sacrifício de bichos”, classificou. Historiador e frequentador dali, Hildo Leal explica o cenário do domingo. “Os dias de toque são em homenagem a um ou todos os orixás. Hoje (domingo passado) é o toque do inhame, para todos os 14 da casa. Neste mês (outubro), não há oferenda animal”.


Pernambuco tem Centros Tradicionais.


Difícil mensurar a penetração das religiões afro-brasileiras em números no solo pernambucano. Roberto Motta ratifica a prevalência de centros em Salvador, na Bahia, sem desconsiderar nossa força. “Lá a influência africana é maior que no Recife, daí, existem mais. Contudo, não devemos subestimar o Estado, nem Alagoas”. Teólogo da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), Gilbraz Aragão diz que temos pelo menos dois mais antigos, de matrizes transplantadas da África para cá: o de Pai Adão, no Recife, cuja primeira festa pública foi em 1875, e o de Xambá, em Olinda, fundado em 1930. “Uma religião que veio do povo Nagô Yorubá, que na África cultuava espíritos da natureza”, completou.

Entre os de origem nagô, no Recife, a Folha conheceu um pouco dos rituais do terreiro de Mãe Dora, no bairro de Jordão, com mais de 40 anos de história. Para comungar com os orixás o final da semana e reforçar os laços da casa, numa sexta-feira à noite, faz-se o Ossé. Sobre o alá (lençol branco), uma vela, garrafa de barro com água e as oferendas: arroz cozido sem sal com mel e milho branco, de igual preparo. Às mãos do babalorixá e da yalorixá, Pai e Mãe de Santos, espécies de sinos para chamar os orixás. “Paz, saúde, fé e segurança no caminho de todos, além de felicidade, proteção e união”, pedia o babalorixá Sandro de Jucá.

Dedicado a Iemanjá, o Sítio de Pai Adão foi fundado pela nigeriana Ifá Tinuké, recebendo, no Brasil, o nome de Ignês Joaquina da Costa. “Mais uma mulher, pois, os primeiros terreiros de Candomblé brasileiros foram criados por elas - na Bahia, no Maranhão e aqui. Dos seus três filhos, foi Felipe Sabino da Costa, o Pai Adão, quem deu grande impulso à história do Xangô no Recife. Juntamente com o Pátio do Terço, a Casa de Badia, manteve a força do império nagô em Pernambuco”, frisou Manoel Papai, neto carnal do Pai Adão, Pai de Santo à frente do lugar.


Misticismo é Marca Presente


Por trás do Convento de Santa Tereza, no bairro olindense de mesmo nome, só quem é morador pode imaginar ser aquele o endereço de uma casa de Umbanda. Pai Ivon apresenta os elementos quase místicos sem rodeios: assentamento com ferro e bandeira da paz e as oferendas logo ao portão, onde por pouco não se pisa. Para dirimir qualquer visão preconceituosa, trata de esclarecer um mito. “Não trabalhamos com sacrifícios de animais; oferecemos flores, frutas, perfumes e velas”, adiantou.

Nada de calçado para entrar no quarto sagrado, também chamado de peji, como no Candomblé. De terra batida, nele encontram-se pequenos altares para preto-velhos (sábios escravizados vindos da África), caboclos (curadores, donos da mata), ciganos (andarilhos), Malunguinho (revolucionário quilombola), Zé Pilintra (um grande mestre curador) e o canto quase sombrio, em que não se pode entrar, onde estão Exu e a Pombogira. “Não é o diabo. Seus tridentes servem para cavar as coisas boas para perto ou levar as negativas, defendendo as pessoas”, garantiu Pai Ivon.

A cabeleireira Patrícia*, de 36 anos, está ali pela primeira vez. Com os negócios sem lucros e o casamento rompido repentinamente, apesar de católica, espera a mudança de seus anseios no pátio onde as incorporações espirituais logo começam, ao som de cantos e batidas no atabaque, tudo regado a fortes cachimbadas e muita bebida. Após diálogo com uma mestra da casa que apareceu no transe de olhos revirados do Pai de Santo, Patrícia* compartilha. “Disse que eu estava carregada, deu uma baforada do cachimbo para desatar os nós. E eu realmente já estava ficando fraca”.

O antropólogo Roberto Motta explica que na Umbanda existe ênfase na “doutrinação” entre as pessoas e os espíritos, bem como sobre a reencarnação e o progresso espiritual. “Essas religiões começaram a chegar ao Brasil com os escravos africanos, mas, têm também grande influência européia, seja a que vem da devoção popular portuguesa, seja a que deriva do kardecismo francês. Elas ganham espaço à proporção que o Catolicismo se torna uma religião mais intelectualizada, abandonando a devoção mais festiva, como procissões, festas de padroeiro e novenas”, considera.

*Nome fictício para preservar a identidade da personagem, que preferiu não se identificar.

Preconceito Sempre Gerou Várias Intrigas

A Jurema é considerada como parte dos rituais da Umbanda. Crença de matriz africana, onde elementos das tradições indígenas são misturados, o que mudam são algumas práticas. “Aqui existem sacrifícios de animais nas oferendas, como pássaros, preás; há quem oferte galinha, cabra, mas também frutas”, explica o Pai Quinho, de 49 anos, 36 deles na religião, hoje babalorixá de terreiro no Córrego do Jenipapo, no Recife.

“Não há fronteiras nítidas entre Umbanda, Candomblé (Xangô) e Jurema”, reflete o antropólogo Roberto Motta. Talvez não haja mesmo. Segundo o Censo de 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 397.431 pessoas no Brasil disseram seguir a Umbanda e 127.582 o Candomblé, mas, não há números precisos de juremeiros. Em Pernambuco, o levantamento apontou que 12.988 pertenciam a esses cultos mais presentes, sem, novamente, citar em separado a Jurema. O nome, inclusive, está ligado à planta de mesmo nome, de onde se extrai a bebida sagrada ingerida ao início do ritual, também pontuado por incorporações de entidades.

Seriam os números precisos? Talvez não e, por isso, seja difícil quantificar essas religiões. Porque a sua história está fortemente ligada ao preconceito, tendo se expressado mais fortemente durante a ditadura militar. “Em 1938, o terreiro de Xambá, em Olinda, foi fechado por Getúlio Vargas, só sendo reaberto em 1950”, contou o historiador Hildo Leal. O Pai de Santo Manoel Papai lembra que isso também aconteceu no Terreiro de Pai Adão. “Foram dez anos fechado”.

A yalorixá Juberleide da Silva soube por seu pai como foram difíceis aqueles tempos. “Ele falava de reuniões de portas fechadas, falando baixo, temendo a polícia. Os toques, inclusive, só aconteciam se houvesse quem acobertar”. Mas se a democratização ajudou a dar fim a esses atos extremos, hoje, pode ser a intolerância religiosa que inibe a livre declaração dos seguidores dessa fé. “Só falo se me perguntar. Uma amiga evangélica quando soube que eu era do Candomblé se afastou de mim e de meus filhos e disse que eu era do demônio”, desabafou Adriana de França.

Lincs para as matérias:

Cultura e Magia das Religiões Afro Brasileiras: http://www.folhape.com.br/index.php/caderno-grande-recife/534736?task=view

Pernambuco tem Centros Tradicionais: http://www.folhape.com.br/index.php/caderno-grande-recife/534737?task=view

Misticismo é Marca Presente:
http://www.folhape.com.br/index.php/caderno-grande-recife/534738?task=view

Preconceito Sempre Gerou Várias Intrigas: http://www.folhape.com.br/index.php/caderno-grande-recife/534739?task=view

Alexandre L'Omi L'Odò.
alexandrelomilodo@gmail.com

Quilombo Cultural Malunguinho

Quilombo Cultural Malunguinho
Entidade cultural da resistência negra pernambucana, luta e educação através da religião negra e indígena e da cultura afro-brasileira!