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quinta-feira, 14 de abril de 2011

Grupo Bongar Grava Música Para O Rei Malunguinho

Malunguinho (trunqueiro/Exú), recebendo oferendas na Jurema. Foto de Alexandre L'Omi L'Odò - 2009.
Grupo Bongar Grava Música Para O Rei Malunguinho da Jurema Sagrada

Com o entusiasmo do dobrado baque da alfaia do coco da Xambá, os jovens do grupo Bongar se colocam no cenário da música contemporânea como legítmos representantes da tradição que representam, exprimindo de forma cosnciente toda amplitude do significado das palavras, rítmo, cultura, história e religiosidade.

É interessante observar o vigor do grupo, em reverenciar elementos da tradição da Jurema Sagrada do nordeste. Em sua rica musicalidade, o grupo parte de seu imaginário proprio para compor e criar arranjos que estão profundamente ligados à percussão, mas isso não é o suficiente para mostrar toda musicalidade vivenciada por eles, que são músicos profissionais que tocam com outros artistas no país todo, portanto, transcendem a cada CD, seus limites e arte, com êxito e firmeza.

Empolga-mos ver as raízes afro indígenas estarem vibrando tão fortemente no público que tem total participação quando são tocadas as músicas do Grupo. O repertório mais antigo já é conhecido na ponta da língua dos fãs e, a pisada sempre mexe com todos e todas que vão assiduamente aos shows.

Falar de Malunguinho hoje, em Pernambuco, é também falar da trajetória de luta e resistência do Quilombo Cultural Malunguinho, que desmistificou este personagem histórico e divino no meio do povo de terreiro do Estado e no meio acadêmico através de eventos e grupos de estudos que acontecem dêsde 2004, tendo como ponto inicial a cede do Arquivo público Jordão Emerenciano, o Arquivo Público do Estado de Pernambuco, local onde está grande parte da documentação histórica oficial sobre este herói pernambucano, que felizmente tem vasta comprovação documental de sua existência de fato.

A música "Malunguinho" fala em metáforas e provérbios populares do povo da Jurema um pouco do que é o Maluguinho divino, a divindade protetora da Jurema, o Rei da Jurema, o Mensageiro da Jurema, chamado de Trunqueiro de Jurema ou Exú, Mestre, Caboclo e Reis que tem fundamental importância para todos os terreiros que tem culto a esta religião. Este Malunguinho da Jurema, a entidade espiritual que tem vários discípulos que o recebem, é a afirmação de que o Malunguinho histórico não morreu, pois ele mantem-se vivo no imaginário coletivo, essencialmente nos terreiros pernambucanos, onde ele, sendo negro, elevou-se a um cargo de grande importância no culto dos índios, fato este interessante de observar... A toada a seguir revela um pouco de como ele é louvado nos terreiros: 

"Mas Ele é preto,
Ele é bem pretinho,
Salve a corôa do rei Malunguinho." 
(toada da gira de Malunguinho, na Jurema).

Tendo em vista a forte movimentação que a visibilização da história de personagens da nossa tradição religiosa tem tido no nosso Estado nos últimos anos, além da clara influência religiosa dos integrantes, o Grupo Bongar decidiu fazer um CD especial, chamado de "Samba de Gira", que ainda não tem data de lançamento prevista, estando este ainda em processo de gravação. A música "Malunguinho" já foi pré-gravada, mas ainda não se encontra disponível, pois passará por edições e masterização para sua finalização. Com uma mistura de Toada de Jurema, e letra/poesia composta por Guitinho, vocalista do Grupo, a música tem forte energia, pois quem escuta, dificilmente não se arrepiará e sentirá a força dos ancestrais da Jurema presente. Entrevistando Guitinho sobre a música, temos maiores esclarecimentos sobre o por que, do Grupo ter se proposto a entrar nesta luta na preservação e valorização/visibilização do herói negro/índio Malunguinho:

Por que você decidiu fazer esta música? "Decidi por ser uma admirador do culto da jurema e por ser encantado pela magia e riquesa histórica que envolve a entidade de Malunguinho na Jurema Sagrada", diz Guitinho.

Quem vai produzir o CD? "Será produzido por mim e Juliano Holanda."

Quem serão os fotógrafos que irão fazer o registro? Beto Figueiroa e Laila Santana.

Onde será gravado o CD ? "Esta em fase de pregravação. A música Malunguinho foi gravada em um DVD de um ensaio que participamos,mas não foi para CD ainda..."
Confira a letra e o vídeo com a música:
 Música: Malunguinho
Autor: Guitinho da Xambá

*Firmei meu ponto sim,
No meio da mata sim,
Salve a corôa de, Rei Malunguinho.


Se você resolveu brincar mais eu
Tu vai ter que ser muito fiel
Pois a linha que eu traço,
Eu balanço, eu remendo, eu custuro, eu desmancho
Faço boi bravo ficar bem manso
Minha ciência não é maior que Deus
Mas o mundo o qual ele me deu
Você tem que entender que eu sou eu

Minha língua é ponta de espinho
Meu olhar é varante como lança
Tem cavalo-manco no samba
A rasteira quem lhe dá sou eu
Capoeira e ginga pai me deu
Não atravesse estrepe no caminho
Porque se não você vai esperimentar
o poder e o dendê de Malunguinho

* Trecho da música que é um ponto pertencente ao cancioneiro do culto da jurema
.


Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

quarta-feira, 4 de março de 2009

Os Orixás Pedem Passagem no Mundo Fonográfico!

Os Orixás Pedem Passagem no Mundo Fonográfico!
Um registro fidedigno de uma tradição bicentenária.


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Os Ilús (Iyàn, Melè e Melè Nkó), Agbè, Gàn, Palmas e Vozes, chamam as divindades africanas pra brincar na terra com seus adoradores e filhos a pelo menos 10.000 anos...

Alujá, Bata, Ego, Ebotá, Ijexá, Nagô, Jeje, Barra Vento, Sete Pancadas... Ritmos nossos que soam do Sítio de Tia Inês Ifatinuké... (a fundadora desta tradição em Pernambuco).

Com o título Sítio de Pai Adão, ritmos africanos no Xangô do Recife, o fonograma gravado em Janeiro de 2005- Recife, durante o projeto Turista Aprendiz, do grupo A Barca Maracá Estúdio, traz aos ouvidos do mundo uma produção fonográfica inovadora e arrojada de uma tradição até então não registrada em fonograma através da produção musical de Renata Amaral.

Tudo começou assim: Uma festa de Orixá, em uma tarde no terreiro mais tradicional de Pernambuco. Ali se encontravam grandes personalidades religiosas da tradição Nagô Egbá, ou Obá Omi, a tradição de Pai Adão, um antigo sacerdote que imprimiu sua dignidade e força espiritual no imaginário da tradição afro descendente do Brasil durante sua gestão religiosa na casa de Iyemanjá Ogunté, na Estrada Velha de Água Fria.

A proposta era captar a sonoridade e os cânticos sagrados deste povo. Cânticos estes que trazem em si um patrimônio vivo e dinâmico, uma musicalidade verdadeiramente afro ameríndia, coisa bem brasileira, música sacra de valor estético relevante. Através da coordenação dos engenheiros de gravação Ernani Napolitano e André Magalhães, a equipe de técnica levou os melhores equipamentos de captação de áudio para uma gravação em loco desta manifestação que só poderia ser registrada assim, pois "o Xangô não se leva pra estúdio", segundo os antigos sacerdotes.

O resultado desta mistura técnica de qualidade atenciosa e do real axé (força) da musicalidade dos orixás, gerou um surpreendente e esperançoso CD, que traz inéditos cânticos secretos, até então jamais ouvidos.

Cânticos para Ossain, para Orunmilá, para todos os Orixás, enchem nossos ouvidos de dúvida e interesse, de alegria e ritmo forte, cadente e vibrante.
Trazendo também a participação da última filha viva do babalorixá Pai Adão, a Tia Mãezinha, filha de Xangô, uma das iniciadas mais antigas vivas do Estado, nos revela aspectos particulares da relação de gosto por cânticos de seu pai, que logo na segunda faixa do CD, canta uma das toadas mais importantes cantada por ele, em sua época.

O que mais chama a atenção no fonograma é a qualidade da gravação, a captação, que, profissionalmente e cuidadosamente teve um requinte e refinação extremamente profissional, sendo este em minha opinião o melhor registro de música de terreiro já realizado no Brasil. Jamais se ouviu sons tão bem definidos e afinados de instrumentos como neste álbum, pois o cuidado na microfonagem e na edição destes sons, definem toda obra como um espetáculo de sons que nos levam a transcendência e principalmente ao saborear de uma verdadeira orquestra afro-brasileira, percutida pelas mão dos Ogans (sacerdotes tocadores).

O Cd tem todo um visual adequado e bem elaborado por seus artistas gráficos, o André Hosoi e Fabiana Queirolo, que no conteúdo agregaram o texto bem abalizado do atual Babalorixá do Sítio, o senhor Manoel Nascimento Costa, o Manoel Papai, Ogunté Farã, que traz dados históricos e informações essenciais sobre o contexto que se refere o disco. Todos os cânticos são na língua Yorùbá, e sendo assim, a tradução também feita pelo Sr. Manoel Papai nos leva a um conhecimento aprofundado desta tradição que muito o Brasil deve reparação e reconhecimento, sendo o próprio CD um material também didático e desmistificador.

Realmente vale a pena escutar este belo fonograma, pois se não há mercado no Brasil que o consuma, com certeza os melhores ouvidos, atenciosos a novidades musicais mundiais vão consumi-lo como um disco que é indispensável a qualquer acervo de qualidade.

*Tia Mãezinha (Iyá Midè) e Mãe Janda (Oxum Bakundè).

Xoxo obé xoxo obé - *Nosso pedido será atendido
Odara coma eyó - Legbará limpe o caminho
Xoxo obé odara koma seke - Exú não age ás pressas
Odara baba ebó - Ele toma todo tempo que precisa.

* (Toada para Exú. **Não é uma tradução literal)


Ficha Técnica:
Fonograma: Sítio de Pai Adão, Ritmos Africanos no Xangô do Recife
Direção geral: Manoel Costa Papai
Direção/Produção Musical: Renata Amaral
Direção Técnica: André Magalhães
Captação e Administração: Amélia Cunha
Produção Executiva: Patrícia Ferraz
Gravações Adicionais: Estúdio Fábrica, por Marcílio Moura e André Magalhães/ Recife, julho de 2005.
Mixado e Masterizado no Estúdio Zabumba, SP, por André Magalhães. Patrocínios: Governo do Estado de Pernambuco-Secretaria de Cultura/Fundarpe - Funcultura- Pernambuco.

*Alexandre Alberto Santos de Oliveira (*L'Omi L'Odò)

(alexandrelomilodo@gmail.com)
Aluno 1º período de Produção Fonográfica- AESO Barros Melo
Manhã.
Trabalho da cadeira de Indústria Fonográfica. Profª.: Débora Nascimento

Quilombo Cultural Malunguinho

Quilombo Cultural Malunguinho
Entidade cultural da resistência negra pernambucana, luta e educação através da religião negra e indígena e da cultura afro-brasileira!