terça-feira, 17 de maio de 2011

Dona Célia do Coco – “Cai mais uma raiz de nossa cultura”.

 Capa de seu primeiro CD, autografada e dedicada à mim. 

Dona Célia do Coco – “Cai mais uma raiz de nossa cultura”.

Na manhã do dia 28 de Abril de 2011 faleceu de complicações neurológicas causadas por um derrame cerebral, a mestra coquista Dona Célia do Coco (Célia Maria de Oliveira Correia) com 76 anos de idade. Uma das cantoras e compositoras da cultura popular mais criativas e afinadas da tradição do coco praieiro de Olinda.

Herdeira de uma tradição de coco fortemente consolidada de seu pai, o senhor Joaquim Marcolino - “Joaquim Breve Morre”, zabumbeiro conceituado e restaurador de talhas de madeira, Dona Célia, desde criança brincava nas sambadas promovidas por ele, a inspirando a seguir a tradição de sua família. Com nove anos de idade já entoava os “sambas” de roda – cocos.

 Dona Célia Coquista. Foto de Laila Santana - 2008.

Dona de uma trajetória cultural admirável, esta mestra coquista deixou como patrimônio seu único CD gravado, intitulado “Nasci Com Dois Dentes”, que aos 72 anos de idade realizou este antigo sonho.

“Nasci Com Dois Dentes”, é uma alusão ao verídico fato de sua vida, pois ela, já nasceu com um diferencial natural, dois dentes formados e expostos, sendo este um acontecimento muito badalado no Alto da Sé de Olinda, onde nasceu sendo esta noticia pauta até em rádios comunitárias e levando à sua casa todos da localidade para ver os tais dentes da menina que veio ao mundo para brilhar.

Seu CD, produzido por Lígia Verner, possui um repertório que remonta o imaginário dos cânticos antigos do coco da cidade, também com composições autorais como as faixas de número 04- “O Sapo” e a faixa 02- “Amor Deixa o Cantor Cantar”, além do famoso “Macumbeba”, coco entoado por diversos cantores e cantoras – “Não vá, não vá não vá, menina não vá, não vá, eu vou para a Sé mamãe, vou jogar capoeira, eu vou passear”...  

 Dona Célia do Coquista no lançamento do DVD e do CD Coquistas de Olinda Contra a Violência. 2008. Foto de Laila Santana. 

Gravou ainda o CD Coquistas de Olinda Contra A Violência, de 2007. Este projeto foi da Secretaria de Saúde da Prefeitura de Olinda, que convidou os tradicionais mestres e mestras do coco para juntos participarem de uma capacitação sobre a prevenção contra a violência. A partir destas aulas, os coquistas, como o Mestre Galo Preto, Dona Selma do Coco, Aurinha do Coco, tiveram que produzir músicas que tratassem do tema, contribuindo com a musicalidade da cultura popular para a diminuição das diversas formas de violência na Cidade. Este projeto inovador inclusive foi premiado e copiado por outras Secretarias de outros Estados do Brasil, gerando ainda um documentário com mesmo nome.



Seus cocos neste trabalho foram “Mané”, a faixa 10 e, “As Águas Do Mar Leva”, faixa 12, que teve como parceria Alexandre L’Omi L’Odò, que fez a música e o refrão, e Wilson Freire. Neste último, podemos ver parte da sensibilidade desta mestra que com simplicidade compunha e aumentava enriquecia nossa cultura:

“As águas do mar leva
Leva pro fundo domar
A violência contra a mulher
E contra a criança o mar vai levar (refrão).

A criança vem da mulher
E a mulher é pra se amar
A violência está muito grande
E a mulher ninguém vai maltratar

Estou dizendo isso agora
Com muita satisfação
Porque essa criatura
Mora dentro do meu coração

Esse coco minha gente
Não é pra ficar à toa
Esse coco minha gente
Interessa a qualquer pessoa

 
O enterro seguiu pelas ladeiras de Olinda acompanhado de muitoa amigos e amigas, parentes, artistas e curiosos.  

Seu enterro na tarde do dia 29 de Abril de 2011, teve muita gente acompanhando. Teve reza de terço do Apostolado da Oração da Igreja de Nossa Senhora do Guadalupe de Olinda, templo e apostolado que era integrante assídua. Em sua procissão, acompanhada por mais de 150 pessoas, com muitas coroas de flores de diversos órgãos do governo e da sociedade civil seguiu de ladeira acima para o Cemitério do Guadalupe. Os sinos da Igreja tocaram para ela... Vários artistas se fizeram presentes. Seguiu onde teve seu repouso eterno selado, na mesma terra que a recebeu quando nasceu com dois dentes - Olinda.

O Mestre Galo Preto em seu enterro me falou em tom triste: “Caiu mais uma raiz do coco e de nossa cultura popular”... Essa frase me levou a fazer este texto, que para marcar minha saudade e amor por esta mestra, quis deixar estas linhas para agradecer a ela que me ensinou e compartilhou alguns dias de sua vida animada comigo.

 
Mestre Galo Preto, Dona Célia e Arnaldo do Coco em apresentação do projeto Coquistas de Olinda Conta a Violência. Olinda - 2008. Foto de Laila Santana.

Obrigado Dona Célia, a senhora é inesquecível. Agora o Orun samba mais afinado e ritmado com sua presença. Seus filhos, irmãos, netos, bisnetos, amigos e admiradores sempre lhe respeitarão pela grande mãe que a senhora foi, sobre tudo pelo axé de amor que guardava dentro de seu peito enorme.

Axexê mojubá o!

Alexandre L’Omi L’Odò
10 de Maio de 2011.
Peixinhos – Olinda – PE.   
alexandrelomilodo@gmail.com

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Faleceu o histórico Pai Edú.

 Pai Edú em seu terreiro - Palácio de Yemanjá, no Alto da Sé em Olinda- PE. Foto de Alexandre L'Omi L'Odò.

Hoje Faleceu um dos maiores sacerdotes do Candomblé e Jurema do Brasil - Pai Edú.

Gente, hoje 04 de Maio 2011, pela manhã faleceu no hospital um dos maiores sacerdotes do Candomblé e Jurema do Brasil, o grande Pai Edú, conhecidíssimo no meio do povo de terreiro, quase uma lenda viva. Escreverei mais em breve sobre esta grande pessoa.

O velório será realizado hoje o dia e a noite toda no Mercado Eufrásio Barbosa em Olinda. O enterro será realizado nesta quinta feira no Cemitério do Guadalupe, também na cidade de Olinda, às 10h.

Aguardamos todo povo de terreiro e pessoas lá, para prestar a última homenágem a um dos ultimos grandes sacerdotes que lutaram de forma aguerrida pela valorização das religiões de matrizes africanas e indígenas.

Iyemojá Sesú, era seu Orixá... Hoje o mar o recebe pelos braços de Oyá.

Ajudem a divulgar estas informações.

Alexandre L'Omi L'Odò.
Iyawò de Oxum e Juremeiro.
alexandrelomilodo@gmail.com

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Mestre Galo Preto no Programa Som na Rural - "Nunca Fui Repentista de Rua"!

 
Mestre Galo Preto cantando com seu coral de ouro (Valéria, Jaene Jay e Mariana). Foto de Xirumba Amorim.

Mestre Galo Preto no Programa Som na Rural - "Nunca Fui Repentista de Rua"!

Convidado a participar da gravação do programa da TV Brasil, Som na Rural, o Mestre Galo Preto foi incitado a realizar uma de suas apresentações mais empolgantes e inéditas: cantar na praça; na Pracinha do Diário, no centro do Recife exatamente, local onde no passado se negou a cantar embolada e nunca o fez até a data de 26 de Janeiro de 2011, momento da gravação do Programa. 

Palco e templo de históricos cantadores de coco e embolada, como o Mestre Preto Limão, irmão sanguíneo de Galo Preto, Curió, seu outro irmão sanguíneo já falecido, de Pinto e Rouxinol, Treme Terra entre inúmeros outros. Esta Pracinha, foi transformada em local de "trabalho" onde estes antigos Mestres fizeram a cidade se adaptar a cultura que foi muito bem aceita em seu tempo pelos amantes da música tradicional da terra.
 
 Sambando e sapateando. Foto de Xirumba Amorim. 

Com a arte da cantoria de rua, muito tradicional até a década de 80 naquele local, os repentistas emboladores "disputavam talento" com poesia de altíssimo nível e rimas incríveis. Realizavam momentos que levavam o público ao deliro ao assistir verdadeiras batalhas de inteligência poética.

Mas..., o Mestre Galo Preto fez um caminho inverso ao dos seus irmãos cantadores, decidiu ser artista de palco, de rádio e de televisão, decisão essa que o levou aos mais altos níveis da mídia nacional, trazendo-o reconhecimento pela sua arte, arte esta que eu considero genética, tendo em vista que todos e todas de sua família tinham o dom da cantoria e da arte do improviso rimado. pois mesmo no sendo geneticista, consigo perceber que a tradição de sua família é muito própria deles.

Galo nunca quis cantar e "passar o pandeiro" para pedir dinheiro, segundo ele "eu tinha vergonha, não achava que àquilo fosse pra mim", mas sempre respeitou e admirou seus irmãos que seguiram esta carreira.

 Matéria do jornal Diário de Pernambuco - Recife, domingo, 14 de outubro de 1979. Caderno Gente. entrevista de Lêda Rivas.

Por ironia do destino, quem sabe, aos 75 anos de idade, cantou pela primeira vez em uma praça pública, a céu aberto com público o cercando para escutar o que em outrora foi naquele local motivo e ponto de parada para se ouvir a música dos pandeiros, do desafio de poesia, do coco, da embolada.

Não passou o pandeiro. Mas fez de fato uma linda apresentação em memória de todos os cantadores que por ali passaram. Falou isso na entrevista que concedeu ao Programa. O apresentador Roger de Renór, o entrevistou um dia antes dentro da Rural e no dia da gravação do show fez mais perguntas sobre a emoção dele em estar num local que no passado não o agradava... Daí o Mestre deu respostas emocionantes, que todos e todas puderam assistir na TV Brasil, entre os meses de junho e julho, acreditamos...

Público na Pracinha do Diário. Foto de Xirumba Amorim.

Público. Foto de Xirumba Amorim.

Ainda com a participação do coquista Zé Neguinho do Coco, o programa se propôs a realizar uma edição especial só sobre o coco e sua diversidade. Todo programa será pautado com entrevistas, falas e show. 

 
Zé Neguinho do Coco e Mestre Galo Preto. Foto de Alexandre L'Omi L'Odò.

 Zé Neguinho do Coco e a banda O Tronco da Jurema (do Mestre Galo Preto). Foto de Xirumba Amorim.

Eu, fui convidado pela produção da Rural, especialmente pela jornalista Alice Chitunda/Tila, responsável pelo núcleo de reportagem da Rural para ser um cicerone na entrevista à dona Ana Lúcia do Coco, do Alto do Sarapião, no Amaro Branco - Olinda. minha fala foi de pesquisador, que criou um roteiro sobre a história do coco no nordeste e sua migração ao litoral. Também foram pautadas as questões de gênero no coco, além da presença de mulheres protagonistas na cantoria desta cultura.

O Programa está rico em informações e musicalidade. De fato está imperdível esta produção local para a televisão mundial. O programa será transmitido a mais de 20 países e terá espaço na televisão nacional através da TV Brasil. Portanto, mesmo sem nunca ter tido cantado em uma praça, o Mestre Galo Preto realizou em sua carreira um sonho que no passado não foi aceito por ele, e que depois de tantos anos fincou seus pés como cantador de rua, colocando em seu vastíssimo currículo mais esta atividade histórica para ele e pra o coco. 

Mestre Galo Preto e O Tronco da Jurema. Foto de Xirumba Amorim.

E como em uma matéria do passado ele disse: "Nunca fui repentista de Rua", hoje esta afirmação está terminantemente quebrada para o bem desta tradição que a cada dia está mais escassa na nossa cidade. Agradecemos a Roger de Renór e toda sua produção pela oportunidade e reconhecimento da importância da música do coco para o Brasil/mundo. Obrigado Tila em especial.

 Roda de coco no final da gravação com os coquistas e reppers que estavam no local. Da esquerda para a direita: Adiel Luna, Zé Brown, Mestre Galo Preto, ..., Pinto e Zé Neguinho do Coco. Foto de Leandro Tavares.

Visitem o Facebook do Som na Rural:  


Alexandre L'Omi L'Odò
Produção do Mestre Galo Preto
alexandrelomilodo@gmail.com

domingo, 1 de maio de 2011

Hoje, a Festa da Lavadeira vai acontecer por que o povo quer!


 
Hoje, a Festa da Lavadeira vai acontecer por que o povo quer!

Pessoal, hoje é dia da Lavadeira, a Festa que agrega fundamental parte da cultura brasileira. e uma festa do sagrado, uma festa onde o interior do ser é contemplado pela energia pura da natureza, das divindades da Jurema, do Candomblé...

Vamos todos e todas nos irmanar com esse processo histórico de luta pela liberdade da cultura.

Simbora lutar e brincar! Fazer valer nossos direitos enquanto cidadãos, pois estamos vivendo uma ditadura com este caso da Festa da Lavadeira, e não vamos dormir com isso, pois a questão é muito séria e merece pós Festa, um fórum para fazer deste caso um marco na luta contra o racismo, intolerância religiosa ao povo negro de terreiro e índio, a cultura. Afinal, Pernambuco vive seu auge na política de copitação... Vamos nos unir!

Salve a Jurema Sagrada, Salve os Orixás, Salve Iyemojá a dona da Festa!

Alexandre L'Omi L'Odò.
Quilombo Cultural Malunguinho.
alexandrelomilodo@gmail.com

terça-feira, 26 de abril de 2011

PLENÁRIA POPULAR EM DEFESA DA FESTA DA LAVADEIRA


PLENÁRIA POPULAR EM DEFESA DA FESTA DA LAVADEIRA

HORÁRIO: 19h
DATA: 27/04/2011 (quarta-feira)
LOCAL: CLUBE DE ENGENHARIA (atrás do Mercado da Madalena)

Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Carta de apoio integral à Festa da Lavadeira - Quilombo Cultural Malunguinho.


Festa da Lavadeira, raiz que vem do mar!
O maior evento/festa de cultura popular, tradicional e de terreiro de nosso Estado é sem duvida a Festa da Lavadeira.
Nesta poderosa reunião de diversos segmentos da cultura brasileira surge o Axé do Orixá Iyemojá como o agregador de todas as cores, etnias, pensamentos, lutas, amores e transcendências. Percebe-se que o Axé deste Orixá quebra barreiras e reorganiza todo um povo que historicamente foi apartado e ceifado de sua cidadania plena e de seu direito de colocar-se no cenário cultural, como atrações e manifestações de valor estético plausível. Este recalque chama-se racismo histórico, intolerância e pré-conceito de uma sociedade embranquecida pelos fatos e planos históricos que conhecemos bem.
 Mestre Galo Preto cantando para um público de mais de 10 mil pessoas. Foto de Mariana Lima.
Em Pernambuco a cultura popular e tradicional é mantida pelo povo negro e índio. Que com orgulho mantém viva a chama da originalidade única que só o Brasil possui. Portanto, podemos desde já perceber que as teorias gilberto-freyianas que instituíram a partir da academia em nós o pensamento de “democracia racial” nunca existiu e se vir a se tornar realidade, deverá se chamar  “democracia étnico social”, visto que o conceito de raça perdeu sua legitimidade frente aos estudos culturalistas realizados pela academia.

A idéia de transformar um terreiro de candomblé em um ponto que emana agregação entre povos do mundo é o confronto com a antiga idéia de que no período do escravismo brasileiro era plano para destruir estes povos negros que, aqui em nossas terras, foram submetidos a um processo de separação familiar, étnica e cultural. A Festa faz o caminho inverso, agrega, chama pra junto, reafirma amizades, congrega os povos. Isso é muito forte e revolucionário, porque disso emana a esperança de uma nova era para o povo que tem no sangue e na pele o registro da riqueza ancestral da cultura. A Lavadeira é instrumento dos Orixás, Mestres, Mestras, Caboclos, Exús e Trunqueiros, no resgate do que no passado foi vilipendiado pelo sistema de dominação dos povos da Europa, e por isso merece respeito de toda sociedade, que ainda não reparou os danos históricos que a grande maioria deste país sofreu. A Lavadeira também é reparação!
 
 Gira de Candomblé para Iyemojá dentro do Terreiro da Lavadeira
Não percebemos a Festa como território do “sagrado” e do “profano”. Vai muito além disso. Nela, tem a própria transcendência da polissemia sagrado e não sagrado, profano e não profano. A Festa é o território da experiência da transcendência completa das linguagens, onde as pessoas vão para reverenciar a vida em sua totalidade, a vida que veio da água, a vida que está na natureza e em tudo, quase uma concepção deísta de mundo, coisa rara hoje no nosso universo, que ainda insiste em separar o sagrado do compreendido como não sagrado, na Festa, é mais...  
Iyemonjá a grande homenageada reina absoluta como a grande iyá dúdú ti ara ayé (Mãe negra do povo da terra), que com seu Odú verdadeiro de Mãe abre os braços para mais de 20 mil pessoas de diversas tribos, diversos segmentos, diversos pensamentos, diversos gostos, abre os braços para a diversidade cultural enfim.
Público.
Como o Estado pernambucano e os empresários não enxergam isso? Por que acabar com essa Festa? Isso logo nos remete ao pensamento do período colonial, onde o negro e o índio não podiam tocar seu tambor, fazer seus rituais, viver em liberdade... Liberdade essa que com as atitudes tomadas no espaço o Paiva, onde acontece a Festa, se apresentam de forma assustadora, com uma suposta “privatização da praia”, dos espaços legalmente públicos, como atesta nossa constituição sobre o uso público das praias. públicos... Nossa, onde estamos, na colônia de novo?
Isso tudo é muito perigoso. Esta situação ressuscita os fantasmas do passado, do tempo que o poder dos ricos e da Igreja imperava sobre os “sem espírito” nas terras de “ninguém”. Absurdo em todos os âmbitos, não há argumentos que justifiquem o processo para destruir esse evento, a não ser o racismo, coisa que infelizmente compões nossa sociedade e que aflora todos os dias. Muitas vezes tal racismo toma proporções tão grandes que somente os olhos azuis podem enxergar com naturalidade, pois no passados de seus ancestrais isso tudo era natural, matar, acabar, destituir  a liberdade, ceifar a alma sem pena...
Sabemos que nos discursos mais recentes, os gestores públicos alardeiam sobre a implementação de políticas públicas para Promoção da Igualdade Étnico “Racial”, portanto, onde estão os órgãos que eram pra intervir neste caso? Na verdade, não existem em Pernambuco de fato, pois sequer uma secretaria foi pensada no plano de governo atual. Isso também revela a face do nosso Estado. 
Mas não se iludam, Iyemonjá Ogunté (àquela que possui Ògún) protege Eduardo Melo, o idealizador da Festa da Lavadeira. Ele sempre foi instrumento desta divindade. Esperamos e confiamos que a justiça se coloque contra o racismo, a exclusão, a arbitrariedade, e também contra a repetição da história dos poderosos que massacraram e massacram os “miseráveis”.
As raízes vêm do mar... 25 anos de tradição é a afirmação de que a cultura popular junta tem força, assim seguiremos.
 Malunguinho está de ronda na Jurema, nas fronteiras com seus Estrepes!
Salve o povo e a cultura que é nossa. Fé e irmandade!
Olinda/Recife 22 de Abril de 2011
  
Alexandre L’Omi L’Odò
Pesquisador, Produtor Cultural, Músico, Sacerdote Iyawò e Juremeiro.

 
João Monteiro
Historiador, Especialista em Preservação de Patrimônio,  Sacerdote Iyawò e Juremeiro.

QCM.
_____________________

 
Visitem o site da Lavadeira: www.festadalavadeira.blogspot.com 

terça-feira, 19 de abril de 2011

A Igreja Evangélica e a Cultura Afro Brasileira


A Igreja Evangélica e a Cultura Afro Brasileira
Uma breve comparação de discursos...

Esta é uma discussão muito interessante. O mais interessante ainda é observar os discursos diferenciados dos evangélicos e dos que fazem cultura popular negra, ou de terreiro.  Quando se trata de assuntos relativos a vida e a liberdade de crença, o assunto parece ferver mais, as opiniões se acerram e o antigo racismo se revela sempre em linhas quase imperceptíveis. O povo do candomblé e da Jurema quando falam, pode-se perceber um tipo de entendimento sobre o mundo, sem racismo e sem preconceito, ficando a fala sempre na perspectiva de um coletivo livre de crença, visando sempre o discurso não teocrático, e sim focado nos aspectos do social, nos levando a perceber o quanto o povo negro e de terreiro ainda pensam em uma sociedade onde os indivíduos possam  caminhar sem o peso da condenação, miséria etc. Observando o discurso e a teocracia evangélica, podemos perceber que o lado social da humanidade não está contemplado, pelo menos em primeiro plano, já que só Deus ou Jesus "salvam" ou que podem dar uma vida digna a um crente, a uma pessoa.  Isso vale a pena prestar atenção nesta reportagem digna de parabéns a todos e todas que a fizeram.

Como uma "filosofia de vida" pode mudar uma vida? Esta pergunta é por si só um paradigma complexo, que comporta a consciência do homem e mulher que aceita por motivos diversos estas "filosofias" e, também os esquemas de dominação de mentes.  Poucas pessoas param para pensar sobre estas propostas e discursos, pois a filosofia ainda é pouco estudada e aprofundada por nós, dando-nos fragilidades em enfrentar e avaliar estas propostas de forma aprofundada e madura. 

Nesta tele-reportagem, poderemos confrontar e comparar esses discursos interessantes: o dos evangélicos neopetencostais e, o dos grupos e artistas das culturas tradicionais, que são pertencentes a um conceito de mundo norteado pela compreensão cosmológica afro-indígena. Separei algumas frases para vermos o quanto é diferente o discurso e, como são adversas as críticas de um para o outro, na verdade dos evangélicos para os grupos e artistas não cristãos como eles.

Decidi fazer esta postagem para expor esses discursos,  na intenção de provocar uma reflexão maior sobre o tema, portanto, decidi transcrever alguns depoimentos importantes da reportagem, pra que possamos analisar de forma mais fácil o que ambos personagens dessa matéria falam e refletem. Minha intenção é que possamos conversar sobre o que percebemos nas linhas vindouras...

Observem as falas:

Josinaldo Junior “Preto”-Batuqueiro
Josinaldo Junior “Preto” – Batuqueiro do Maracatu Leão Coroado - “Hoje mesmo agente pode dizer que ta muito difícil encontrar um Maracatu como o Leão Coroado, tradicional, e assim: um maracatu de respeito, você pode chegar, pode confiar. Tem um pessoal ai, tem dentro dos batuqueiros todinhos, tem batuqueiros que dá aulas tudinho, passa percussão, ensina, e os jovens que chegam para tocar, ele não vai só tocar não, ele vai aprender a história do Maracatu, vai aprender a tocar, vai aprender alguma coisa... 

Mestre Afonso falou sobre os projetos e trabalhos do Leão... 


Mestre Afonso, Sacerdote Nagô e Mestre de Maracatu

"Ajudava muito se a comunidade quisesse aprender, por que hoje aqui o Leão Coroado trouxe muitas coisas, hoje aqui o Leão Coroado é Ponto de Cultura, ele oferece à comunidade aqui umas aulas de informática, oferece umas aulas de percussão, aula de dança, corte e costura, crochê, estendesse? Isso ai tudo tirando os jovens aqui que estão mais interessados levando para ali pro espaçozinho que agente tem e mostrando esse aprendizado pra eles, entendesse? Só que, pouco aqui estão procurando aprender, entendesse? (...) As famílias tem um pouco de preconceito que não quer deixar que os jovens participem nessa ligação conosco."
O que o Maracatu influenciou diretamente em sua vida? “Ele me ensinou muitas coisas velho, hoje mesmo fiz um projeto, foi aprovado, eu vou dar umas aulas aqui no Alto da Macaíba, em outra comunidade entendesse? Por que lá não tem pessoas pra fazer a história”.
 

Baque do Maracatu Leão Coroado









Gilson Gomes - Coreógrafo
Gilson Gomes, coreógrafo e coordenador do Balé Afro Raízes e Magê Molê – Como é o impacto do Balé aqui na comunidade de Peixinhos, onde vocês estão localizados? “Há, é com certeza aqui é super legal né, a turma apóia né, a nossa comunidade apóia o trabalho que a gente faz aqui, não só com o Raízes, também com o Magê Molê”.

E quais são as transformações que acontecem ai dos participantes desse Balé? "É assim, primeiro também tem que estudar né, se não estudar eles não dança, eu pego muito no pé deles, que é..., primeiro é o estudo mesmo, pra depois dançar”.


Paulo Sérgio - Bailarino
Fala de Paulo Sérgio - Bailarino do Balé Afro Raízes

"Mais um fazendo a diferença no Brasil... Por que hoje em dia, a droga tá aí, a prostituição, a violência, eu fazendo parte de uma arte, estou fazendo a diferença na humanidade. Através do grupo, nas dinâmicas, nas conversas, trabalhos sociais, a gente vai desenvolvendo cada vêz mais o que está dentro de si".


Edvaldo Ezídio – Pastor 
Edvaldo Ezídio – Pastor da Igreja Evangélica Tocha Viva (Peixinhos)Como é que a Igreja tem transformado a vida das pessoas que vivem aqui ao redor? 

“Tem gente que chega aqui viciado na bebida, agente orou, a pessoa aceitou e hoje não é mais... não bebeu, está aqui na Igreja a muitos anos, dá bom testemunho, por que Deus ainda opera nesse tempo né?! 
  
Luiz Antônio Costa – Cantor Evangélico
Luiz Antônio Costa – Cantor Evangélico - “Eu venho aqui para louvar à Deus, no tempo que eu era alcoólatra, passei oito anos retendo água para beber, passei um bom tempo da minha vida dormindo bêbado. Mas um dia Jesus, ele terminou a promessa comigo e mudou minha história. Hoje eu sou análogo da Igreja, graças a Deus”.


Luiz Antônio Costa – Cantor Evangélico - Em culto.

Pedro de Oliveira-Pastor
Pedro de Oliveira – Pastor – Igreja Evangélica Água da Vida - Como é que a Igreja pode transformar a vida de uma pessoa?  - Há onze anos atrás eu era um feiticeiro, trabalhava com Vudú, trabalhava com todo tipo de trabalho. Há onze anos atrás, eu devorava um animal nos dentes, e matava uma pessoa com 72h. Mas para a glória de Deus, hoje, Deus amostrou para mim que é possível um homem mudar, é possível um homem transformar. Foi transformada a vida da minha mãe que era macumbeira, que era feiticeira como eu, e que hoje ela se encontra no caminho do Senhor. Meu filho era garçom de Satanás, hoje ele levita na Igreja.”

Pedro de Oliveira – Pastor – Igreja Evangélica Água da Vida - Louvando.

Pedro de Oliveira Neto
Pedro de Oliveira Neto – Filho do pastor Pedro de Oliveira – “O único Deus da vida de um pai, era minha mãe. Onde ela largava muito tarde, todos as noites agente ia pra lá, pra ver se ela tava traindo, toda essa perseguição... Então, contudo isso, aconteceu uma crise familiar, onde meu pai tentou se enforcar, mas a transformação na vida do meu pai partiu do momento que ele perdeu minha mãe. Ele era uma pessoa grossa, uma pessoa ignorante, uma pessoa que infelizmente me dava vergonha de dizer que era meu pai, e a transformação na vida dele foi uma transformação radical, então hoje, meu pai é analfabeto, não sabe ler, certo? E pela misericórdia do Senhor, está conduzindo a Igreja. Para você, o evangelho tem o poder de transformar a vida de uma pessoa e de uma comunidade? Eu tenho uma total convicção que o evangelho, ele tem o poder de fazer isso.

 Bom, deixo à custódia dos que se interessarem em discutir e realizarem futuras falas que vão delinear um pensamento sobre estes discursos. Minha opinião já expus, conto com todos e todas para crescermos nossas análises sobre tudo que lemos/refletimos aqui.

Alexandre L'Omi L'Odò
 Iyawò e Juremeiro
Graduando História na UNICAP
alexandrelomilodo@gmail.com

Mestre Galo Preto na Agenda Cultural do Recife - Abril 2011.


Mestre Galo Preto - Foto de Alexandre L'Omi L'Odò 2010.

Este ano, um dos grandes ícones da cultura popular de Pernambuco completou 65 anos de luta e resistência a favor do coco. Tomás Aquino Leão, de 76 anos, conhecido por Mestre Galo Preto, é bem mais do que um exemplo de vida. Ele que é músico, coquista, cantador, repentista e embolador tem uma trajetória cheia de altos e baixos. Nascido no quilombo de Rainha Isabel localizado no município de Bom Conselho, ele é o último remanescente vivo, que cultua a tradição do coco de seus antepassados. Na década de 70, esse artista popular de voz inconfundível, levou o coco pernambucano ao mais alto nível, que o fez receber o título de um dos maiores / ou maior repentista do Nordeste.  O Mestre Galo ficou conhecido pela criatividade de criar jingles políticos. Entre os políticos para quem ele trabalhou está o Miguel Arraes. Galo, também é sinônimo de luta social, com as melodias que falam sobre preconceito contra cor e a homofobia, alertas sobre o HIV, direitos dos idosos, entre outros.  O pesquisador de línguas africanas e produtor cultural Alexandre L’Omi L’Odò classifica o Mestre Galo como um "jazz man, pois, assim como o jazz é um estilo livre em que o artista pode improvisar, o mestre Galo consegue fazer a mesma coisa. Ele desenvolve e execulta ritmicamente qualquer estilo de música e toca ao lado de qualquer artista".  Mesmo com todo esse sucesso e competência, o artista acabou caindo no esquecimento do publico, passando 15 anos, afastado da música. Em 2007, ele deu início a sua luta contra o esquecimento popular, que culminou na elaboração de um filme que será lançado em breve. Em reconhecimento a esse grande artista injustiçadamente esquecido, a repórter Erika Fraga da Agenda Cultural do Recife conversou com Mestre Galo Preto, que falou um pouco sobre o início da sua carreira, o legado de seguir com o coco e os planos futuros.    

Quando você começou a cantar coco e embolada? Eu comecei a cantar aos nove anos de idade. A região onde eu morava era muito envolvida com a música, e isso me influenciou. Também fui influenciado pela minha família, pois os meus tios e os meus avôs gostavam muito de uma roda de coco e de embolada, então a música sempre esteve em meu sangue. E aos 12 anos de idade comecei a ganhar um trocado com a música.
E quando a música tornou-se profissão em sua vida? Foi quando sai do quilombo de Rainha Isabel, localizado em Bom Conselho de Papa Caças e vim morar em Garanhuns.  Na época eu fazia dupla com o meu irmão Curió e lá comecei a ter reconhecimento do meu trabalho. Com o tempo a dupla acabou mas as minhas cantorias continuaram fazendo sucesso e eu passei a me apresentar em casa de família, depois em boates, televisão e rádio. Nessa época existia apenas a rádio clube de Pernambuco. É bom lembrar que nunca fui cantador de rua, daqueles que passa o pandeiro cobrando dinheiro. Eu até admiro quem faz isso. 
Mestre Galo Preto na Feira da Música do Ceará 2009. Foto Jacques Antunes.
Mestre Galo Preto no REC BEAT 2010. Foto Maíra Gamarra.
E porque essa dupla acabou?  Porque na época eu fui convidado para fazer uma turnê com os artistas da Rádio Clube. Viajei muito cantando e isso fez com que a dupla acabasse.  

No início da sua carreia, você teve apoio do escritor Ascenso Ferreira. Como foi esse contato?
O Ascenso Ferreira foi um dos meus primeiros incentivadores, é até uma história engraçada de lembrar.
Quando sai de Bom Conselho e vim morar no Recife, fiquei na casa do meu irmão, nessa época, não existiam grandes mercados e bodegas, então as pessoas tinham que vender as mercadorias nas ruas. E para ajudar com as despesas de casa, o meu irmão me colocou para vender verduras nas ruas, e a melhor forma que eu encontrei para vender foi criar rimas. Só assim eu chamava a atenção dos meus clientes.  E todos os dias eu passava na frente da casa do Ascenso vendendo minhas batatas, e ele sempre me via cantar. Até que um dia ele me chamou e perguntou se eu também fazia rimas com outros assuntos. Ele me testou rapidamente mandando fazer uns versos improvisados. Quando terminei, ele disse que a minha cabeça não servia para carregar batatas, que eu tinha uma cabeça de mestre. Ele falou com o meu irmão me deu um cartão da Rádio Clube onde eu comecei a me apresentar.
Mestre Galo Preto 2011 - Foto de Erika Fraga.
Como surgiu o nome Mestre Galo Preto? O nome Mestre eu peguei há pouco tempo, foi em 2007 quando voltei a cantar. Mas o nome Galo Preto é antigo. Esse nome eu não ganhei nas cantorias, ganhei “arengando” quando eu era pequeno. Lembro que certo dia eu estava brigando com o meu irmão chamado Curió, mesmo ele sendo cinco anos mais velho que eu, parti para cima dele com tudo. Nisso, um senhor veio separar a briga e quando ele me segurou, olhou para mim e disse: Tu estás que só um galinho preto de briga não é? Desse dia em diante todas as pessoas passaram a me chamar de Galo Preto.

Nos anos 70 você foi considerado um dos maiores repentistas do Nordeste. Chegando a se apresentar ao lado de grandes ícones da música como Luiz Gonzaga, Lourival Batista e Jackson do Pandeiro, mas de uma hora para outra você sumiu do cenário musical e passou 15 anos distante dos palcos. O que causou o seu afastamento?     
Nessa época eu realmente fiz muito sucesso. Cheguei a me apresentar em programas de rádio e TV. Fui para o programa do Chacrinha, Flávio Cavalcanti e Silvio Santos. Mas em 1991 tive uma grande rasteira profissionalmente falando. Fui envolvido em um escândalo que jamais eu pertencia e isso me tirou a vontade de continuar cantando. Mas há quatro anos voltei a cantar.

E como foi esse recomeço?Foi em 2007, quando a Secretaria de Saúde de Olinda, na época representada por Dr. João Veiga, me fez um convite para fazer a música de uma campanha sobre a Aids e a violência, então reuni vários cantadores e repentistas e formei o grupo Mestre Galo e Preto e o Tronco da Jurema.

Como você se sente sabendo que é o último remanescente do quilombo de Rainha Isabel a preservar e passar e a continuar ensinado a tradição do coco? Eu me sinto muito feliz e honrado, pois estou deixando uma história e uma raiz para os jovens que desejam continuar com os costumes de antigamente. Mas é bom lembrar que eu sou o último daquela região, pois ainda existem muitas pessoas da minha época que têm o coco no coração e continuam carregando e ensinando esse legado.
Mestre Galo Preto na paisagem do Recife 2011 - Foto de Erika Fraga.
Você tem 65 anos dedicados ao coco, porque nunca gravou um CD? Na minha época era tudo muito difícil. Nunca tive uma oportunidade para isso. Mas o meu produtor Alexandre L’Omi L’Odò está elaborando um projeto, e acredito que ainda esse ano gravarei o meu primeiro CD.

Esse mês será lançado o filme “Galo Preto, o Menestrel do Coco”, que conta um pouco da sua história. Como foi o processo de realização do filme? O filme é um média metragem, mas ainda não tem uma data certa para o lançamento. Creio que ainda esse mês, a data será decidida. Ele tem roteiro e direção de Wilson Freire e aborda toda a minha trajetória na música especialmente no coco. No ano passado exibimos uma edição pré-acabada na Mostra Internacional de Música de Olinda, e foi um grande sucesso.  
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Re-publico aqui a matéria da Agenda Cultural do Recife do mês de Abril de 2011, feita pela repórter Erika Fraga. Corrigi alguns erros de informação, portanto todo texto segue com erratas. Dêsde já agradesço a toda Agenda Cultural do Recife pela atenção e respeito em todo processo desta matéria.

Quem desejar acessar estas informações no site da Agenda, visite o link: http://agendaculturaldorecife.blogspot.com/2011/04/mestre-galo-preto-65-lutando-pelo-coco.html
 
Alexandre L'Omi L'Odò
Produtor Geral do Mestre Galo Preto
alexandrelomilodo@gmail.com

Quilombo Cultural Malunguinho

Quilombo Cultural Malunguinho
Entidade cultural da resistência negra pernambucana, luta e educação através da religião negra e indígena e da cultura afro-brasileira!