sexta-feira, 29 de maio de 2015

Índios e Caboclos na Jurema Sagrada - Não em nome do “nosso Senhor Jesus Cristo”!

Primeira Missa no Brasil - Pintura de Victor Meirelles (1861). Fonte: Internet.

Índios e Caboclos na Jurema Sagrada 
Não em nome do “nosso Senhor Jesus Cristo”!

Hoje acordei com um pensamento que há alguns anos vêm me perturbando... Decidi problematizar um aspecto religioso interno da Jurema Sagrada que muito me incomoda e faz refletir. Irei tratar aqui exclusivamente da realidade da Jurema por conceber não ser pertinente a mim falar de umbanda e demais religiões de terreiro neste momento. Contudo, é constatável que em outras práticas como no Nagô, no Jeje, no Ketu etc. ainda as questões aqui discutidas, estão fortemente presentes e vigentes.

O aspecto ao qual me refiro é um dos mais comuns da nossa prática religiosa. É o da “chegada” dos índios(as) e caboclos(as) nas reuniões de mesa ou em festas de salão, cujo ao qual falam antes de qualquer ato: “salve nosso Senhor Jesus Cristo” e todos presentes respondem: “para SEMPRE seja louvado”. Não só os índios e caboclos se expressam dessa forma, também os mestres e mestras e outras entidades e divindades... Mas foco aqui neste texto as entidades e divindades indígenas, porque eles e elas foram os primeiros a sofrerem o massacre do catequismo cristão, que resultou nesta permanência e louvor aos valores do opressor em nossa fé religiosa.

Não só as entidades e divindades repetem estes predicados cristãos. Os juremeiros e juremeiras também repetem, fazem o sinal da cruz, rezam o Pai Nosso e reproduzem outros elementos simbólicos dos colonizadores. Muitos, mesmo tendo acesso há um pouco mais de informação, se mantém fechados a repensar estas questões teológicas nossas...

Este não é um texto que tem como missão determinar nada para ninguém. Não é um texto que se encerra em si, e muito menos que quer violentar e desrespeitar ou expor ninguém. Sou um sacerdote que respeita todas as fés e todas as formas de interpretar o sagrado e divino, porém, isso não me impede de refletir criticamente sobre os diversos elementos que envolvem questões culturais, sociais e teológicas nossas.

Altar dos índios e caboclos na Jurema. Foto de Marcelo Curia. MDS - UNESCO. Mapeamento dos Terreiros 2010 - Recife/PE.

Os índios foram catequizados. Sabe o que significa isso? Significa que tiveram sua cosmovisão de mundo delida por outra de valores completamente diferentes e violentos... Tiveram suas famílias violentadas, estupradas, corrompidas, suas crenças destruídas, suas línguas desaparecidas, sua cultura morta e sua fé e práticas litúrgicas próprias para sempre apagadas. Tantas cosias que jamais saberemos que existiram um dia, pois não houve tempo sequer de haver um registro escrito sobre divindades e entidades que povoavam estes povos indígenas em séculos passados... Isso tudo é profundamente terrível e infelizmente faz parte de nossa história. O holocausto indígena, financiado e proporcionado pela Igreja Católica e outros parceiros políticos, deixaram marcas, feridas históricas e sociais que jamais poderão ser esquecidas ou relevadas por todos nós. Não podemos ser cúmplices, omitindo os fatos.

Isso tudo é muito doloroso. E mais doloroso ainda é ver o quanto o massacre dos povos indígenas foi cruel e mesmo assim a passividade que foi introduzida na alma dos ancestrais, fazendo-os repetir os símbolos cristãos por medo e risco de morte, se mantiveram e até hoje são repetidas com apego profundo por todos nós. Por isso, creio que este é um ponto que devemos rever, mesmo que doa e fira àquilo que toda vida aprendemos de nossos padrinhos e madrinhas mais antigos na religião.

Vamos compreender mais: Mantemos vivos cotidianamente os valores do opressor. O colonizador que nos violentou, usou das mais diversas metodologias para nos convencer de que somos todos submissos a eles, e isso é muito sério e verdadeiro. Tão sério que nem percebemos o quanto somos manipulados cotidianamente por este plano de dominação que deu parcialmente certo em co-parceria com todos nós. Também somos culpados de nossa submissão! Somos tão culpados que insistimos em manter “valores alienígenas” em nossas práticas religiosas.

Não é de purismo religioso ou tradicional/cultural que falo. Afinal, não existe religião pura, ou cultura pura. Todos nós bebemos das fontes de diversas fontes que a trajetória histórica do homem/mulher deixou para a posteridade. Falo aqui que devemos enxergar que determinados elementos devem ser mudados, ou melhor, entendidos. Que devemos buscar os elementos mais próximos de nossas raízes ancestrais e tentar reconstruir (se possível ainda) uma identidade da Jurema mais ligada a valores de sua história indígena (mesmo grande parte dos terreiros hoje serem e estarem no mundo urbano).

Catolicismo popular, fés imbricadas, re-elaborações ritualísticas, sincretismos, hibridismo etc. tudo isso é pouco para acharmos que é assim mesmo que se devem manter as coisas como estão. Nada disso explica, justifica ou dá conta de nossa demanda histórica de resgate do que foi perdido. Nenhum desses argumentos científicos citados servem de fato para esta discussão, mesmo estes elementos sendo considerados como parâmetros que devemos também considerar. Por outro lado, o que foi perdido talvez não possa ser mais recuperado... Mas o que der pra recuperar, podemos fazer um esforço redobrado para resgatar, ou mesmo re-interpretar. E ainda repito, o que proponho aqui não é que todos nós saiamos agora de nossas casas e partamos em busca desesperada de valores indígenas originais etc. Ou que abandonemos nossas práticas tradicionais... Tudo que neste breve artigo escrevo é focado na proposta de uma provocação que espero que sirva para refletirmos amplamente e sem preconceito sobre este tema.

Quando vejo em uma mesa de Jurema um índio(a) ou caboclo(a) “baixar” e repetir o tradicional “salve nosso senhor Jesus Cristo”, inevitavelmente em meu coração se dissemina uma tristeza profunda. Também inevitavelmente meu tino racional me coloca a pensar no nosso passado e ver que é triste ainda hoje entidades tão sábias e antigas manterem traços da repressão violenta católica jesuíta. Sei que este “dizer” é muito pequeno perante a força das espiritualidades ali presentes. E que esta minha crítica pode não fazer sentido nenhum para as entidades tão antigas e juremeiros e juremeiras velhos de idade e de Jurema... Mas vejo que temos amor, e valorizamos os símbolos que nos violentaram e mataram (creio que ainda continuam matando e violentando simbolicamente e socialmente). E isso me revolta. Me dá uma inquietação profunda... E ao mesmo tempo me acalmo quando vejo que para além dos planos de dominação da Igreja, tudo que ela quis fazer não conseguiu por completo, pois se ainda existimos como juremeiros, é porque não venceram completamente e nem concluíram seu pano de dominação/colonização de almas e território geográfico. 

Na visão geral interna da Jurema, um índio ou caboclo quando “baixa” e repete o “salve nosso Senhor Jesus Cristo”, significa que ele foi doutrinado. Pois, nos processos de “evolução” dentro das mesas brancas de jurema (e lembro que esta palavra branca tem vários significados onde um deles é embranquecer as práticas ancestrais indígenas e africanas), os índios que “chegam” falando Tupi, ou outras línguas indígenas, devem saudar o “Senhor Jesus Cristo”, pra mostrar que ele é bom e está regenerado de sua condição selvagem. Portanto, as mesas de evolução ou desenvolvimento, como são chamadas, também são uma reprodução do catequismo católico jesuíta. Por vezes as mesas de desenvolvimento, mais parecem mesas de catecismo, do que, de Jurema. Daí percebemos mais uma vez que nossas práticas ainda reproduzem e perpetuam os valores do opressor colonizador cristão... Isso considero uma violência simbólica muito estruturante dentro de nossas liturgias. Por tanto, pergunto, será que “evolução” só pode ser considerada como algo dentro dos padrões cristãos? Pra mim evolução (não gosto desta palavra, pois pra mim não existe evolução) é o índio ou o caboclo “baixar” falando Tupi ou qualquer outra língua indígena existente nas Américas, livre dos signos ocidentais que os violentaram e mataram. Seria uma retomada do território simbólico/linguístico que perdemos em séculos passados.

Altar de Jurema demonstrando a presença do catolicismo popular convivendo com a tradição indígena. Foto de Marcelo Curia. MDS - UNESCO. Mapeamento dos Terreiros 2010. Recife/PE.

Por mais que a saudação seja re-significada, ou que seja apenas uma frase repetida sem muito aprofundamento teológico por parte dos juremeiros (aparentemente), ou que seja algo mecânico e sem uma reflexão profunda do que se fala, contudo, mesmo assim ainda compreendo que não devemos repetir inconscientemente estes elementos. Temos Tupã, Mãe Tamain, e tantos outros deuses e deusas da tradição indígena que podemos conhecer, por que nos mantermos louvando para SEMPRE Jesus Cristo, perpetuando a memória da fé cristã?

Será mesmo que estamos agindo de forma benéfica para com nossa memória ancestral? Será que nos mantermos passivos e conformados a este processo de (ao meu ver) de vilipêndio é algo saudável para nosso futuro religioso? Penso que devemos reagir. Sei que a prática do desapego é algo muito difícil. E sei que romper com valores historicamente estabelecidos é mais difícil ainda. Mas temos o tempo a nosso favor... Ele pode dar conta de nos ajudar a perceber e resolver nossas questões mal discutidas internamente. Temos um futuro, e este, deve ser muito melhor do que é hoje para nossos ascendentes, com mais liberdade humana e crítica com acesso a história.

Toda reza é bem vinda. Toda fé merece ser respeitada. A força da Jurema “também” está nas rezas cristãs, nos santos católicos, na hóstia etc. Mas o “TAMBÉM” aqui exposto nos dá a possibilidade de entender que isso é apenas uma parte do todo, e que o todo em seu pilar fundamental tem outros elementos mais fortes do imaginário indígena. Estes elementos nos ajudam a perceber o conflito por espaço de ambos os cosmos dentro da Jurema, portanto, é bom TAMBÉM enxergarmos de fora um pouco para percebermos o quanto ainda lutam por espaço os elementos simbólicos religiosos de ambas as tradições. Este conflito por espaço é importante, pois revela a ininterrupta transformação dos símbolos e sincretismos. “As religiões e as tradições não são estáticas”.

Gostaria muito de ver um dia em uma mesa de jurema “baixar” caboclos e caboclas, índios e índias, pajés, caciques, caboclinhos e outros encantos de luz falando em língua original e saudando seus deuses próprios, seria revolucionário... Também aprenderíamos muito mais com isso. Pois, estaríamos forçados a re-aprender a falar estas línguas para nos comunicarmos melhor com os ancestrais.

Só penso na filosofia Adinkra, cujo o símbolo Sankofa serve para interpretar ou dar caminho a este dilema. Sankofa é aprender com o passado para construir o futuro, em uma tradução livre minha. E acredito nisso profundamente.

Que estas provocações sejam entendidas pela comunidade do Povo da Jurema. E que possamos construir novos horizontes de discussão, com respeito e sabedoria. Ainda digo que este é um tema que pode dar margem a uma pesquisa de mestrado ou doutorado no campo das ciências da religião, antropologia, história ou sociologia. Busquem pesquisar mais sobre nossa religião, precisamos olhar pra nós mesmos!

Talvez eu fale todas estas coisas por ser um jovem juremeiro (em meu tempo e em meu lugar) e ter tido acesso, e ter buscado outras informações que me deram condições de refletir desta forma sobre nossas questões internas. E que a frieza racional que algumas vezes sobressai em minha escrita seja fruto de um processo de “academificação” que eu mesmo decidi aderir... Mas falo aqui como religioso, como sacerdote que deseja que sua comunidade se fortaleça e estabeleça uma prática permanente crítica sobre todas as cosias. Sei que tradição é tradição, e que conceitos não se mudam facilmente. Respeito tudo isso. E gostaria que este texto fosse lido por todos os juremeiros, para que as demais críticas ao mesmo e ao tema fossem registradas para completar a missão deste escrito.

Lembro que este “artiguete” provocativo não diz respeito a nenhuma outra religião e que deve interessar diretamente aos juremeiros. Isso aqui é uma discussão teológica interna, que publico na internet por este ser o único veículo de comunicação hoje capaz de fazer estas linhas chegarem a uma parte dos sacerdotes e adeptos que usam redes sociais e outros meios on line.

Salve a fumaça!!!
Sobô Nirê!

Alexandre L’Omi L’Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

sábado, 9 de maio de 2015

Pernambuco e a cultura popular estão de luto - Falece Dona Selma do Coco

Dona Selma do Coco e Alexandre L'Omi L'Odò em seu aniversário de 82 anos em Olinda. Foto: Acervo pessoal.

Pernambuco e a Cultura Popular de Luto 
Falece Dona Selma do Coco

Hoje, dia 09 de Maio de 2015, Pernambuco e a cultura popular estão de luto. Falece a Rainha do Coco, a mestra mais querida de toda cultura popular, a mulher de maior carisma que os palcos do mundo já viram - Dona Selma do Coco.

Artista de carreira internacional, popularizou o coco praieiro de Olinda, inspirando artistas de todos os segmentos à olhar a musica da cultura popular de forma respeitosa, reconhecendo a grandiosidade deste gênero musical.

Dona Selma, dona do sorriso mais irreverente que já vi. Uma artista reconhecida pelo seu sorriso, o popular "Hahay" que conquistou o coração de todos, partiu deixando netos e bisnetos e um grande número de fãs e amigos que hoje publicamente já começaram a postar nas redes sociais seus pesares e homenagens.

Dona Selma do Coco. Foto de Costa Neto.

Eu sou um discípulo de Dona Selma do Coco. Quando adolescente, ouvi pela primeira vez sua fita K7 tocando na feira de Peixinhos/Olinda... Cantando "A Rolinha - o corre corre pega a minha rola" pelos idos do início da década de 1990. Aquele som revolucionou minha vida. Foi como se eu estivesse me encontrado com tudo que precisava para dar destino à meu caminho. De estudar violão clássico no CEMO, passei a aprender percussão com Toca Ogan, Marcos Matias e André Malê... Percussão essa que me tornou coquista... Devo isso a Dona Selma também, a contribuição que ela deu indiretamente para a minha vida foi revolucionária. Cheia de força da Jurema, do tambor e voz que me fizeram acreditar que era possível fazer cultura popular.

Calou-se a risada e a voz afinada mais querida das Olindas... Cheguei a estremecer quando sua neta Andreza Karla publicou na net poucos minutos depois de sua morte esta triste notícia. Passou um filme em minha cabeça. Tudo que fizemos juntos... Tive o prazer de gravar com ela. De fazer parte de projetos com ela e de dividir palcos... Sempre estive junto em seus shows. nunca perdia um. Sempre reconheci que naquele palco estava uma das maiores estrelas que já vi. E por isso não perdia suas apresentações... Só para aprender, para sentir a emoção que ela causava em meu coração. 

Vá em paz minha mestra. Que Tupã, mãe Tamain e o Reis Malunguinho abram as portas dos encantos para a senhora passar. Que sejas bem recebida por todos os pajés, caciques, ancestrais africanos e encantos de luz. Seja guiada pela força maior da alegria. Hoje a roda de coco do céu da Jurema vai ser animada, os mestres e mestras vão sambar guiados pelo eterno "hahá, hahá, thá, thá, thá, thá... Êh... Hahay".

Estarei junto neste último momento. Foste um marco em minha vida. E vou lhe ver e dar um até breve. Te amo minha avó de coração. Mulher que mesmo calada estava me ensinando e me moldando dentro e para o cosmo da felicidade. 

Seguem algumas memórias desta grande artista:




Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com 

Malunguinho - O Guerreiro do Catucá, O Rei da Jurema



Malunguinho
O Guerreiro do Catucá, o Rei da Jurema

O vídeo, que foi fruto da conclusão do curso de jornalismo (TCC) dos Diretores João Batista, Diogo Mendes e Luíz Otáviodo na Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP) 2008, recebeu nota máxima da banca examinadora, que fizeram comentários de grande valia sobre o filme e reafirmaram a importância de tal documentário na contribuição da afirmação do papel do negro em Pernambuco no século XIX, além da importância histórica do tema, já que poucas pessoas conhecem Malunguinho como personagem forte da construção da personalidade e forma de vida socio-político-cultural do Estado.

O documentário mostra a relação do Malunguinho Histórico, e o embate afirmativo do povo da Jurema Sagrada de Pernambuco, através do Quilombo Cultural Malunguinho, na preservação da memória deste grande líder quilombola no imaginário da Jurema do Nordeste, deificando-o e fazendo dele o Malunguinho Divino, o Rei da Jurema, título este pertencente unicamente a ele, pois é o único a se apresentar espiritualmente em três formas: Mestre, Caboclo e Exú dentro do culto. A relação fortemente indígena da divindade remonta claro a vivência cotidiana dos negros do Quilombo do Catucá com os índios dos entornos da localidade que se iniciava as margens do Rio Beberibe entre Recife e Olinda (próximo ao Nascedouro de Peixinhos) e se estendia até a Cidade de Goiana na Zona da Mata Norte pernambucana.

Em 18' minutos o publico poderá presenciar a mais requintada qualidade jornalística e cinematográfica já feita nos vídeos pernambucanos, contando com falas de muita importância e depoimentos de de professores como o Marcus Carvalho PhD em História e um dos primeiros a escrever sobre os Malungos do Recife em seu antológico e importantíssimo livro Liberdade - Rotinas e Rupturas do Recife 1822 a 1850. Também a fala do historiador e agitador cultural João Monteiro, que pontua detalhes fundamentais do contexto histórico de Malunguinho. Babalorixás e Iyalorixás, Mestre e Mestras Juremeiras também tiveram suas falas garantidas no documentário, sacerdotes como Sandro de Jucá, Mãe Lúcia de Oyá deram um toque muito especial ao tema religiosidade, tema transversal e crucial do documentário.

O trilha sonora foi feito e produzido pelo juremeiro, historiador e produtor cultural, percussionista, Alexandre L'Omi L'Odò, que realizou grandes temas de percussão para compor o clima ideal para o vídeo. Participações como a do professor Sandro Guimarães de Sales (com seu violão de ouro) e do Mestre Galo Preto, além do Coral da Jurema Sagrada de Malunguinho, organizado pelo produtor do trilha, dão sem dúvidas uma cara de novidade e dinamismo à película. Diz o produtor do trilha que "lançaremos depois de terminar a produção o CD com o trilha completo, que está lindo, em especial porque registramos cantigas ainda não conhecidas e muito antigas de Malunguinho na Jurema".

Contando com o apoio integral, e até mesmo o "dedo no bolo" do Quilombo Cultural Malunguinho, e em especial, de Alexandre L'Omi L'Odò, a parceria na construção da obra foi super relevante, sabendo que os pesquisadores do Quilombo são os melhores especialistas no momento sobre Malunguinho, tanto histórico quanto Divino, pois todos da entidade são iniciados nos cultos afro indígenas e vivenciadores da construção da memória do líder Quilombola Malunguinho em PE. "O vídeo tem um perfil pedagógico, podendo se enquadrar perfeitamente ao uso da Lei 11.465/2008, e da lei estadual 13.298/2007 a lei da Semana da Vivência e da Prática da Cultura Afro Pernambucana, a lei de Malunguinho aprovada com total iniciativa na assembléia Legislativa do Estado de Pernambuco pelo Dep. Isaltino Nascimento e o Quilombo Cultural Malunguinho, com apoio de diversos movimentos culturais e sociais, e não poderemos perder esta oportunidade de passar ele nas escolas", diz Alexandre L'Omi L'Odò.

www.qcmalunguinho.blogspot.com 

Texto de João Batista Jr. - Diretor do documentário.

Compartilhem. Este foi o primeiro documentário feito revelando a história de Malunguinho.

Sobô Nirê!!!
Salve a fumaça!!

Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

I Kipupa Malunguinho - Coco na Mata do Catucá



I Kipupa Malunguinho
Coco na Mata do Catucá

Este breve registro audiovisual de 21'min. feito por Felipe Peres Calheiros em 2005, registrando a fundação da tradição do Kipupa Malunguinho, Coco na Mata do Catucá, é uma joia rara na nossa história. 

O vídeo traz falas e mostra como começamos esta linda luta de respeito e valorização à Malunguinho e consequentemente à Jurema Sagrada. Foram vividos momentos muito ricos com a ajuda de Mãe Lucia de Oyá que na época nos ajudou a realizar as obrigações, e também a parceria sempre maravilhosa de Juarez, nosso melhor parceiro das matas. 

É uma felicidade no ano que completamos 10 anos de história (2014) com o Quilombo Cultural Malunguinho publicar este arquivo que nos orgulha a todos. Salve a Jurema Sagrada e vamos firme nessa luta que só se acabará no dia em que a ciência não existir mais. 

Sobô nirê Reis Malunguinho!!

Para saber mais sobre o que significa o Kipupa Malunuginho, leiam o texto:http://alexandrelomilodo.blogspot.com... 

Compartilhem, este foi o Primeiro Kipupa Malunguinho, momento fundamental na reviravolta histórica do Povo da Jurema.

Salve a fumaça! Salve o povo da Jurema! Salve o Reis Malunguinho!

Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

A ciência dos Encantados - Documentário 22'min



A Ciência dos Encantados

Uma viagem ao universo encantado da Jurema Sagrada. A árvore, o culto, as cidades, a bebida, os caboclos. Uma tradição religiosa que teve início com os índios que habitavam a região do Nordeste brasileiro e recebeu influência dos cultos afro-brasileiros e do cristianismo europeu. Quem bebe a Jurema, vê o mundo inteiro. É o encanto dos vivos e a ciência dos encantados. 

Ficha técnica:

Documentário Etnográfico TCC curso de Jornalismos da Universidade Católica de Pernambuco - 2007.

Direção/Produção/Roteiro: Joanna Mendonça, Roberta Pena, Talita Corrêa.

Imagem: Nildo Ferreira
Edição: Leo Alfinete.
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Este lindo documentário foi muito elogiado pela bancada examinadora da universidade Católica de Pernambuco e teve ampla divulgação por parte do QCM - Quilombo Cultural Malunguinho, através de um de seus coordenadores, o Alexandre L'Omi L'Odò. Como entrevistado, o pesquisador contribuiu para a formação do contexto de roteiro deste trabalho, pontuando nas suas falas elementos que possibilitaram um melhor aproveitamento e entendimento do tema, que em 2007 era muito pouco discutido e conhecido. Este documentário é revolucionário por trazer parte fundamental da teologia da Jurema, mostrando inclusive sacerdotisas deste culto com mais de 100 anos de idade, como é o caso da saudosa Mãe Biliu, juremeira falecida aos 107 anos de idade.

Após mais de 7 anos guardado no acervo do QCM, decidi publicar para contribuir na formação intelectual e teológica do Povo da Jurema. Que precisa a cada dia mais de trabalhos que ajudem a termos auto-estima com esta religião tão discriminada historicamente.

Salve a Jurema Sagrada e Salve Malunguinho. Este trabalho é motivo de orgulho para todos nós.

Divulguem!

Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com 

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Verbo Oxunzar - definição e sentido

Alexandre L'Omi L'Odò oxunzando. Acervo pessoal.

Verbo OXUNZAR. 

Hoje decidi dar uma definição oficial ao neologismo criado por mim há algum tempo. O verbo OXUNZAR tem sido utilizados por muitos filhos e filhas desta grandiosa mãe de diversas formas... Outros até já o re-adaptaram à outros orixás, ao exemplo de xangozar, iemanjazar, ogunzar etc. (Nenhum fica tão bem quanto o da Oxum rsrsrrs). 

Verbo é a classe de palavras que se flexiona em pessoa, número, tempo, modo e voz. Pode indicar, entre outros processos: ação (correr); estado (ficar)... 

Portanto, OXUNZA
R significa estar em estado de Oxum. Ou realizar ações inspiradas por este Orixá. Ex: sair de casa bem vestido e feliz, é uma forma de Oxunzar... de estar em estado de Oxum (Belo, feliz e cheiroso... ); trazer felicidade para um coletivo... também é Oxunzar, pois a pessoa levou o odú ayó para todos... e isso é coisa de Oxum. Neste contexto tudo que é de "obixé" (odú de total felicidade e riqueza no jogo de Ifá do nagô de Pernambuco) é Oxunzar. Fazer amor gostoso... passar no vestibular, amar grandiosamente, fazer boa comida, se divertir, brincar, ser inteligente, ficar rico, se amostrar e "dar pinta"...  (rsrsrsrs), ser sensível, brigar por causas nobres, ser maternal, incomodar os recalcados etc. tudo isso e mais um monte de coisa pode pertencer ao significado em ação e forma deste verbo.

Conjugação no presente (conjuga-se em todos os tempos):

Eu oxunzo
Tu oxunzas 
Ele oxunza 
Nós oxunzamos 
Vós oxunzais 
Eles oxunzam

Façam o devido uso deste neologismo em seus cotidianos. Afinal, Oxunzar é fundamental para uma vida feliz em harmonia com a força maior de nossa grande mãe Oxum,  dona das águas doces, fonte de vida e de amor. 

COMPARTILHEM.

Alexandre L'Omi L'Odò​
Quilombo Cultural Malunguinho
www.alexandrelomilodo.blogspot.com

Derrubada de baobás agride tradição ancestral e fere princípios da sustentabilidade



Ancestralidade

Derrubada de baobás agride tradição ancestral e fere princípios da sustentabilidade
Comunidades afrodescendentes ressaltam importância de preservação da árvore trazida para o Brasil pelos escravos e alertam para o descompasso com os anseios da sociedade 

Patrícia Fonseca - Diario de Pernambuco
Publicação em: 24/04/2015

Em Olinda, a Promotoria de Justiça e Cidadania tenta impedir a continuação de uma obra que, sem realizar o Relatório de Impacto Ambiental (Rima), iniciou a supressão de 13 hectares de área de preservação permanente nos bairros de Jardim Atlântico e Jardim Fragoso. Entre as mais de 1.300 árvores apontadas no inventário de destruição da Via Metropolitana Norte para a construção de uma via de 61,1 quilômetros ligando as PEs 15 e 01, estão dois baobás plantados na Sementeira Municipal de Olinda. A cobrança da promotora Belize Câmara lança luz sobre importantes discussões da sociedade atual e oferece uma reflexão sobre a luta do indivíduo em não esquecer de suas origens, sua identidade, por mais fortes que sejam o argumento do progresso, a especulação imobiliária, o processo de aculturação, o preconceito.

"Hoje o que assistimos é um grande culto ao concreto, que vem desconfigurando as cidades, as deixando totalmente sem vida, sem alma, ao ponto de não entenderem a importância histórica, simbólica e espiritual de um baobá", diz Quitinho de Xambá. Foto: Karina Morais/ Esp. DP/ D.A.Press

Para os povos de matrizes africanas, o baobá é a arvore que guarda os ancestrais. "É uma agressão à nossa história, à nossa ancestralidade e religiosidade, e demonstra o quanto a mentalidade dos nossos gestores e instituições públicas está desconectada com o clamor do mundo, que grita por um modelo de sociedade mais sustentável. Hoje o que assistimos é um grande culto ao concreto, que vem desconfigurando as cidades, as deixando totalmente sem vida, sem alma, ao ponto de não entenderem a importância histórica, simbólica e espiritual de um baobá", explica Guitinho de Xambá, o filho de santo do Terreiro Xambá, que agrega cerca de 500 fieis em São Benedito, em Olinda.

Segundo Guitinho, a construção do novo para os povos de matrizes africanas não passa pela destruição do seu passado, mas é resignificado, oferecendo possibilidades de construção de cidades harmônicas: "No candomblé não se tira uma folha de uma árvore e não se planta uma árvore sem que haja um sentido para a coletividade, sem contemplar o todo, para agregar valores à sociedade. Pensar que uma cidade inteligente e moderna é enchê-la de pontos de internet nas praças, é uma engano. A humanidade sobrevive sem o facebook, sem o whatsapp, mas não sobrevive sem a sombra das árvores", atesta.

 Amaro Luiz da Silva plantou, há 30 anos, as árvores agora ameaçadas: "Quando soube que iam derrubar, corri, fui pra casa. Não consegui mais ficar aqui". Foto: Karina Morais/ Esp. DP/ D.A.Press

O engenheiro agrônomo Raul Soares, diretor geral de Paisagismo da Prefeitura de Olinda, guarda, há cinco anos, três mudas de baobá no que restou da sementeira municipal e que pretende replantar em breve. A árvore vai representar a "pedra fundamental" do novo espaço, que ainda não tem local definido. Diretor do local, ele diz que apesar de saber do projeto da Via Metropolitana, foi surpreendido com a forma de retirada tão intempestiva. "Foi feita uma comunicação verbal. Não nos mostraram notificação. É uma história de 35 anos jogada no lixo de uma hora para outra. Aqui era um viveiro florestal, onde plantamos matrizes para fazer a multiplicação por sementes ou de forma vegetativa em todas as praças, parques, canteiros centrais da cidade. Há três anos paramos de produzir mudas e estamos mantendo apenas o estoque, enquanto está sendo negociada outra área para a sementeira Pedro Jorge, batizada em homenagem ao procurador assassinado nas proximidades", conta Soares.

Cerimônia de plantio de uma muda de baobá no giradouro dos Bultrins, em Olinda, reuniu a comunidade Xambá e a Confraria do Rosário dos Homens Pretos. Foto: Jedson Nobre/ Divulgação

O agrônomo lembra que é possível, sim, fazer o transplante dos baobás. No entanto, a proposta do projeto da Secretaria Estadual das Cidades que não realizou Estudo de Impacto Ambiental é fazer a compensação de cerca de 2.600 mudas nos municípios de Camaragibe e Jaboatão dos Guararapes e não na mesma bacia hidrográfica afetada. Segundo ele, em Pernambuco não existe esta tecnologia, mas empresas de São Paulo, por exemplo, são especialistas no processo que obtém êxito em quase 100% dos casos.

A notícia enche de esperança o jardineiro Amaro Luiz da Silva, de 66 anos, 25 deles atuando na Prefeitura de Olinda. Foi ele quem plantou na sementeira, há 30 anos, os dois baobás ameaçados de serem derrubados. "Plantei com minhas mãos esses baobás e mais 50 árvores que foram derrubadas aqui. Tinha pé de jambo, fruta-pão, azeitona, manga. Os animais se alimentavam das frutas. Tinha saguis, passarinhos. Todos fugiram, ninguém sabe onde estão. É muito gratificante plantar uma árvore, cuidar, ver crescer. É como uma criança, um filho. Tem que cuidar pra ver ficar bonito. Estou muito triste, angustiado. Foi como se tivessem me dado um tapa na cara. Quando soube que iam derrubar, corri, fui pra casa. Não consegui mais ficar aqui", conta Seu Amaro, sem tirar a mão do "filho" de 23 metros de altura e quatro metros de circunferência.

História
Conta-se que, antes de serem embarcados nos navios negreiros, os africanos feitos escravos eram obrigados a dar voltas em torno de um baobá. Os algozes acreditavam, com o ritual realizado ao redor da "árvore do esquecimento", que eles perderiam da memória seus vínculos de família, língua, costumes, seu pertencimento. Uma maneira também de tentar livrá-los da culpa por imporem tanto sofrimento. O que se sabe é que os negros colheram e trouxeram escondidas para o Brasil sementes da árvore sagrada que representa resistência, longevidade.

Alexandre L'Omi L'Odò, sacerdote juremeiro, historiador e mestrando em ciências da religião pela UNICAP. Foto de Karina Morais.

"Nossos ancestrais plantaram os baobás em locais propícios para a formação de aldeias, para que em torno deles fossem construídas comunidades. Infelizmente, não conseguiram por causa da escravidão e da falsa abolição. Mas eles se preocuparam em deixar sinais: por aqui passaram os africanos. Os baobás ficaram e representam a resistência, a perenidade de um povo", aponta o historiador Alexandre L'Omi L'Odò, sacerdote da religião Jurema, candomblecista e mestrando em Ciência da Religião com o tema Jurema Sagrada.

Não por acaso, Pernambuco é considerada a segunda "pátria" dos baobás. Concentra a maior quantidade de exemplares em todo o mundo, depois da África, seu continente de origem. O estado possui 110 pés catalogados em um mapeamento realizado em 2011 pelo jornalista e fotógrafo Marcus Prado. "Comecei em Paulista e fui até o Sertão do Araripe, de carro, sobretudo de ônibus, moto e até em cima de um burro. Os acessos são os piores possíveis. Rodei 700 quilômetros para fotografar um único baobá em Araripona. Muitos são centenários e a maioria está ameaçada. Um deles, num engenho tombado no interior do estado, foi queimado. Em frente ao Cemitério de Santo Amaro, no Recife, derrubaram um baobá centenário há cerca de sete anos", denuncia o jornalista, que cadastrou espécies na Ilha de Itamaracá, São José do Belmonte, Serra Talhada, Arcoverde, Sanharó, Caruaru, Limoeiro, Gravatá, Vicência, Itambé, Ribeirão, Carpina, Buenos Aires, Vitória de Santo Antão, Recife, Ipojuca e Olinda. 

Link da matéria: 


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Publico aqui matéria do Diário de Pernambuco que tive muito prazer em contribuir. Um tema de suma importância para todo povo de terreiro e afro descendente do Brasil. Desculpem pelo texto com essa cor, pois isso é sinônimo de que foi copiado do site do Jornal. Ainda não aprendi a tirar isso... Mas dá pra ler tranquilamente. A toada que cantei no vídeo me foi ensinada pelo meu pai Alapini Paulo Braz Ifátòógún, o mesmo que me autorizou a cantar esta bela melodia do repertório sagrado de Orunmilá. Boa leitura e salve a fumaça!!

Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

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