segunda-feira, 24 de julho de 2017

Muito obrigado, axé!

Alexandre L'Omi L'Odò no Até, no momento do ritual do Borí. foto de Thawany Costa.

MUITO OBRIGADO, AXÉ! 

Hoje, faço essa postagem para agradecer à toda minha família de axé e aos meus amigos e amigas que presentes ou ausentes, me ajudaram muito no cumprimento de mais um ciclo religioso dedicado à Oxum, dona de meu destino. 

Em especial agradeço ao meu eterno babalorixá e Mestre Paulo Braz Ifátòògùn, que com toda sabedoria nos permitiu cumprir as obrigações de Oxum, mesmo o terreiro estando de luto por sua partida para o mundo da verdade há seis messes. Kolofé babá mi. Adupé. 

Também agradeço especialmente a minha iyalorixá Maria Lúcia Omitòògùn​, que é uma grande sacerdotisa, cujo herança africana é plena e Orixá nos inspira. A senhora é muito forte e isso nos ajuda continuar com a mesma alegria de antes. Sua mão é doce e próspera. Adupé. 

Obrigado ao meu Ori por ter me dado o alaafiá. Obrigado à Oxum por ter me aberto toda as portas. Obrigado à Ògún por me trazer prosperidade, enfim, obrigado à todos os Orixás. Obixé pleno nos nossos caminho de vida. 

Obrigado à Felippe Opeatonã​, por ser meu padrinho e substituir pai Paulo nos afazeres religiosos de minhas obrigações. Vc já é um grande aborixá. Kolofé. 

Obrigado à clã nagô mais forte que já vi - Babizinha Costa Nascimento​, que com carinho me ajada muito nos caminhos do axé. Obrigado à pai José Jose Iguaracy Felipe Dacosta​ por ter feito toda obrigação. Suas mãos são de axé.  Obrigado à Júnior Boto​Boto por me inspirar tanto. Vc é um guerreiro do axé. Obrigado à Paulinho, Thauanny, Thalisson Luiz​, Endryus Avlis​, Robson, Pelado, Pelezinho, Juninho, as crianças e todos e todas as demais que participaram de todos os momentos dos rituais. Obrigadão à Olavo Souza​, um irmão sem igual. Sem vocês não há casa nem axé. Adupé. 

Obrigado à Kamilla da Costa​, você como sempre se demonstra uma mulher inteira e de verdade, uma amiga, acima de qualquer coisa. Não pela ajuda efetiva dada a mim, mas por nosso amor verdadeiro, que mesmo distantes caminhamos juntos de mãos dadas. Consideração é isso. Você vale a pena. Respeito e consideração. 

Obrigado à todos e todas afilhados e afilhadas da Casa das Matas do Reis Malunguinho. Em especial à Vanessa Farias​ que se jogou na luta comigo. À Henrique Falcão​, que também se jogou, me deixando muito orgulhoso. Vocês dois foram além de minhas expectativas. À Maria Betânia por sempre ser essa parceira firme e forte e Marcilio da Costa pó tudo. À Bia Bia Rodrigues por também ter acompanhado este processo com muita sensibilidade. Agradeço ainda à minha afilhada de SP Cidinha de Iyewá, Edson de Arranca-Toco e aos demais. Com a experiencia destes dias, pude ver vibrar a vocação religiosa de alguns e algumas. Despenar galinha é pros que tem caminho no axé e na Jurema. 

Enfim, obrigado aos amigos e amigas que vibraram pelo bem caminhar de todas as coisas. 

Estou bem, feliz e fortalecido para realizar mais um ano o Kipupa com muito axé. 

13 anos de axé muito bem comemorados. Muita alegria e fortalecimento de nossas lutas negras. Nossos sonhos, todos serão realizados em nome de Olorun e Oxum. Agô kolofé. 

O Ilé Iyemojá Ògúnté tem muito axé e nosso baluarte continua firme e forte com a gente. Axé axé e axé. 

Kosi Obá kan, afi Olorun! Não há outro rei senão Deus. 

Foto de Thauzinha Costa Nascimento.

Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

terça-feira, 18 de julho de 2017

XII Kipupa Malunguinho - Coco na Mata do Catucá 2017


XII Kipupa Malunguinho – Coco na Mata do Catucá 2017

Eis que as matas sagradas da Jurema no Quilombo do Catucá se abrem mais uma vez pra receber seu povo no XII Kipupa Malunguinho – Coco na Mata do Catucá. No dia 24 de Setembro de 2017, de 09 às 18h, em sua décima segunda edição, o maior encontro de juremeiros e juremeiras do Brasil, trará uma programação rica e diversa de religiosidade de matriz indígena e africana, com muitas novidades, além de seu caloroso grito por união, luta contra o racismo e intolerância religiosa.

Entre suas atividades, teremos o tradicional ritual coletivo às entidades e divindades das matas, que a cada ano concedem muitas graças na vida de quem com fé vai fazer suas oferendas e firmações. Também teremos a 1° Feira Malunguinho de Produtos Religiosos, o 1° Kipupinha com atividades educacionais, mini parque para as crianças, distribuição do tradicional “Cosme e Damião”, e, shows de alto nível da cultura popular com grandes mestres e mestras do coco e da mazurca.

O Kipupa é o lugar das possibilidades espirituais. Lá, quem busca respostas, pode esbarrar em uma entidade que lhe revele os caminhos da vida... Lá também, remédios podem ser lhe dados para a cura de todos os tipos. Nas matas sagradas, quem desejar sentir a força verdadeira das raízes da Jurema, vá com o coração limpo para receber a graça da força da natureza em sua mais pura essência. Pisar no chão, sentir o cheiro da fumaça da Jurema, beber seu sagrado vinho, sentir os tambores bater e vibrar na pisada do coco com todo povo de terreiro que se faz massiçamente presente, é uma chance de aprender e trocar saberes.  A espiritualidade Encantada, abraça todas e todos que a procuram, e no maior encontro de juremeiros e juremeiras do país, o que mais estará presente é a beleza dessa força milagrosa que transforma vidas.

Venha celebrar conosco a força da memória do Reis Malunguinho na Jurema Sagrada. O Nosso herói negro/índio pernambucano que com sua ciência mestra nos ensina a lutar juntos por união e amor entre os povos. O Kipupa é união, é coletividade e respeito, é resistência do Povo da Jurema. Vem kipupar!

Atrações artísticas:

Shows:

Fundação e batismo do Maracatu Nação Kipupa Malunguinho
Bacamarteiros Mandacarú
Chinelo de Iaiá
Mazurca da Quixaba
Mestre Zeca do Rolete
Sambada de Jurema com mestres e mestras

Homenageados do Prêmio “Mourão Que Não Bambeia”:

Dona Zefinha de Nanã
Mestra Alaíde de Benedito Fumaça (Caruaru)
Mestre Ciriaco de Alhandra
Mãe Jerusa do Pina
Mãe Alda de Pedro Pires
Mãe Djanete de Limoeiro

Informações gerais sobre o evento (leiam tudo para não terem dúvidas):

Evento gratuito. Para quem não vai em caravanas ou de carro, disponibilizamos ônibus que saem às 07h da manhã do Pátio do Carmo em Recife e do Nascedouro de Peixinhos, valos R$: 30 reais, que podem ser adquiridos no Mercado de São José, no box de Eliane. Ou, comprar nas mãos dos coordenadores. Os terreiro e grupos podem organizar suas caravanas individualmente.

ORIENTAçÃO PARA OS MOTORITAS E AS MOTORISTAS: Quem vai de CARRO, KOMBI, VAN, ETC. A entrada é pela rua Capitão José Primo, tendo como ponto de referência o Terminal dos Kimbeiros, na entrada de Caetés, no centro de Abreu e Lima. Todo o caminho estará sinalizado com banners nos postes e paredes. É só ficar atento, não há como se perder. Do centro de Abreu e Lima ao local do evento, que acontece no Sítio de Juarez, são 11km de estrada de barro, que estará completamente plana, sem buracos e sem riscos.

ÔNIBUS DE ACESSO AO EVENTO: Está à venda no Mercado de São José, no Box de Eliane, os bilhetes para quem desejar ir no ônibus do evento. O valor é R$: 30. Compras até o dia 21 de Setembro.

Os juremeiros e juremeiras devem ir com roupa tradicional da Jurema, homens de calça, camisa e chapéu. As mulheres de saias coloridas, torso ou chapéu. Levem seus cachimbos, maracás, ilús, pandeiros e todos os objetos que acharem necessário. Os ogans podem levar seus ilús. Vamos fazer uma festa bonita com o colorido tradicional da Jurema. Vamos manter vivas nossa raízes, a começar pelas roupas que são nossa identidade.

Quem desejar levar oferendas para Malunguinho fiquem a vontade, desde que sejam oferendas perecíveis, pois cuidamos muito da Mata Sagrada e não admitimos poluição no local. Portanto, confeitos, balas e doces: tirar das embalagens de plástico. Bebidas só o líquido é permitido oferecer (as garrafas recolher), Alguidares serão recolhidos após os atos de oferenda, Cigarro, é proibido deixar as piolas no chão. Animais não serão imolados no local. Favor respeitar todas estas regras do culto.

É PROIBIDO ACENDER VELAS DENTRO DA MATA. No altar de Malunguinho haverá local para firmarem seus pontos de luz.

O Kipupa é um evento cultural e religioso, e por estes motivos, quem não for da religião, favor não tirar camisa no local, não usar drogas, não entrar na mata para outros fins que não sejam louvar Malunguinho e a Jurema Sagrada. Estaremos atentos com vigilantes no local para manter o respeito à tradição da Jurema.

O Kipupa não é um “piquenique na mata”, portanto, não fiquem bêbados e não vão na intenção de arrumar qualquer tipo de problema, briga etc. Malunguinho estará recebendo suas oferendas juntos com as demais entidades e divindades. Cuidado...

Os fotógrafos profissionais que forem ao evento, assim como os que irão filmar, avisamos que todo material feito/captado no local deve ser repassado posteriormente (semana seguinte) em alta qualidade ao Quilombo Cultural Malunguinho, nas mãos de seus coordenadores. Não permitiremos fotografar sem esta condição.

No local haverá comida e bebida a vontade para vender. A comunidade da Mata do Engenho Pitanga II é nossa parceira e colocam bastante comida variada à venda. Portanto, não se preocupar com comida. Quem quiser levar sua comida fique a vontade.

HAVERÁ AMBULÂNCIA (UTI MÓVEL) NO LOCAL E SEGURANçA.

HAVERÃO BANHEIROS QUÍMICOS PARA TODOS E TODAS

As pessoas podem levar suas faixas e homenagens à Jurema e ao encontro sem nenhuma restrição.

É PROIBIDO USAR DORGAS NO EVENTO!

Sobô Nirê Mafá Reis Malunguinho!!
Trunfa Riá!!!

Contatos:

81. 98887-1496 (Oi) / 99525-7119 (Tim) / 99428-7898 (Vivo) / 99955-9951 (Tim)


Realização


Produção e Coordenação

Alexandre L’Omi L’Odò – alexandrelomilodo@gmail.com
Equipe do terreiro de Jurema - Casa das Matas do Reis Malunguinho

Alexandre L’Omi L’Odò
Coordenação Geral Quilombo Cultural Malunguinho

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Semana Estadual da Vivência e Prática da Cultura Afro Pernambucana da EREM Mariano Teixeira 2017


CONVITE
EREM MARIANO TEIXEIRA
SEMANA ESTADUAL DA VIVÊNCIA E PRÁTICA DA CULTURA AFRO-PERNAMBUCANA – LEI 13.298/07 – 12 a 18 de setembro de 2017

- DIA  12/09/17 (terça-feira)
Debates sobre a Lei Estadual  13.298/07
Semana estadual da vivência e prática da cultura afro-pernambucana
O quilombo do Catucá e Malunguinho
As ervas usadas nos quilombos
Trabalho em grupo com alunos do 1º, 2º e 3º anos
Apresentação  na sala de aula (manhã e tarde)

- DIA 13/09/17 (quarta-feira)
Apresentação audiovisual sobre Mestres e Mestras do Maracatu
Homenagem a Naná Vasconcelos, mestre dos mestres dos maracatus
Professora Célia Cabral e alunas do 3º ano A
Quilombos urbanos e quilombos rurais, antigos e atuais
Professora Andrea Medeiros e alunos dos 1º anos
Local: Auditório da Escola
Horário: 8h20 às 12h

- DIA 14/09/17 (quinta-feira)
Conhecendo e valorizando o Patrimônio Vivo de Pernambuco
Trabalho em grupo com alunos do 1º, 2º e 3º anos e a Professora Célia Cabral
Apresentação em sala de aula (manhã e tarde)
Debates sobre:
Movimentos negros nos EUA e lutas pelos direitos civis;
Lutas contra o racismo e outras formas de discriminação;
As políticas afirmativas de inclusão social no Brasil;
Rebeliões e resistência dos escravos no Brasil do século XIX;
Comunidades quilombolas de hoje.
Professora Andrea Medeiros e alunos do 1º anos em sala de aula com construção de textos.

- DIA15/09/17 (sexta-feira)
Momentos de conhecimento e reflexão
Os mestres cirandeiros de Pernambuco (com alunos do 2º ano A)
Malunguinho, herói pernambucano
Cordel ilustrado pelo aluno Álvaro Luiz e alunas do 3º ano C
Local: Auditório da Escola
Horário: 8h20 às 12h

- DIA 18/09/17 (segunda-feira)
Aprendendo e valorizando a cultura afro-pernambucana
Mestres e mestras do Coco de Pernambuco (com alunas do 3º ano A)
Mestres das Emboladas de Pernambuco (com alunos do 3º ano B)
Arte afro-pernambucana (banner) Professora Joviosete e alunos do 3º ano C

CONVIDADOS:
- Alexandre L’Omi L’Odò: Mestre em Ciências da Religião, historiador e coordenador da Instituição Quilombo Cultural Malunguinho (IQCM)
- Ricardo Nunes: jornalista e membro da IQCM
- Rui Silva: pesquisador
- Fernando Batista: UFPE
- Samuel da Luz: PCR
- Rivaldo Silva: amigo da escola

ENCERRAMENTO:
Gestor Romulo Peixoto, professores, alunos e convidados
Local: Áuditorio da Escola
Horário: 8h20 às 12h

Local do Evento: EREM Mariano Teixeira
Avenida Capitão Felipe Ferreira, s/n, Vila Cardeal Silva, Areias
Fone: 3181-2745

 Contamos com a sua presença!!!

Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

domingo, 16 de julho de 2017

A fé negra e o risco do branco dominador de mentes

Alexandre L'Omi L'Odò em 2004, com os elementos de sua religião (gèrè Ifá e gèrè won owo ti Osún). Foto de Aluísio Moreira.

A fé negra e o risco do branco dominador de mentes

Hoje em Recife (16/07), celebra-se Nossa Senhora do Carmo, a sua padroeira, festa que tem 321 anos de existência, portanto, muito antiga e tradicional na cidade.

O povo de terreiro, herdeiros da fé negra e da fé indígena, portanto, a fé da resistência contra o poder do dominador branco, em ato xenofílico (de agregação religiosa), celebra o sincretismo histórico de Nossa Senhora do Carmo com o Orixá Oxum, divindade yorùbá, responsável pela fertilidade da terra, pela força dos rios, pela beleza, pelo amor e prosperidade.

Devemos lembrar que o sincretismo afro religioso nos tempos da escravidão servia para que o senhor de engenho não mandasse matar os negros e negras que estivessem cultuando suas divindades africanas. Enganando esses seus algozes, colocavam uma imagem de um santo ou santa em um altar e cantavam em língua africana (que ninguém entendia), para ludibriá-los. Na realidade, ali estavam prestando culto aos seus orixás, voduns, inkises, encantados etc. Assim, os padres e os capatazes não identificavam o que de fato acontecia ali, e até achavam engraçado e bonito, mas foi isso que nos garantiu a sobrevivência de nossa religião. Hoje isso não é mais necessário, obviamente.

Este sincretismo a cada dia vem se enfraquecendo com o fortalecimento dos membros do candomblé (culto nagô de PE) e da jurema, que em busca de estudos, compreendem que a santa católica não é o Orixá, e vice e versa, e também entendendo que precisamos fortalecer nossa identidade religiosa própria, tendo em vista que o universo cristão historicamente destruiu quase todas as culturas dos negros e dos indígenas, utilizando-se de um processo violento de proselitismo e catequismo, objetivando a “salvação” das almas...

É difícil ser negro, pobre, de comunidade e assumir a fé negra de nossos ancestrais. O mundo ainda é racista o suficiente para fazer com que a maior parte da população negra se submeta a fé do dominador. Isso não é nada mais que uma conseqüência psicológica do quanto violento foi o processo de repressão de nossas fés e compreensão de mundo.  Se achar dentro da religião de terreiro, com toda a beleza e problemas que ela tem, é um desafio que tem que ser enfrentado por pessoas que desejam retomar suas raízes e sua verdadeira identidade ancestral.

O direito livre a escolha religiosa é um direito constitucional garantido. Sendo assim, qualquer pessoa pode escolher qual religião professar, ou até mesmo não ter nenhuma religião, ou ter várias. Contudo, esta breve reflexão, serve para tentarmos ampliar nossa concepção de lugar no mundo. Se nossos ancestrais sofreram o peso dessa conversão pesada e violenta trazida no bojo do cristianismo europeu, por que nos submetemos? Será que por termos uma estima muito baixa, preferimos acreditar no mais óbvio, no que está posto como o Deus cristão? Será que realmente conseguiram sujar/embranquecer nossas mentes e nos fazermos acreditar que Tupã, Olorun, Zambi, os Orixás, e os Encantados são demônios e que devem ser esquecidos? O dominador tem muitas estratégias... Ele tem poder ($) e tem grandes templos e concessões públicas de televisão ao seu dispor.

Se desconstruir é muito difícil. Seja em que contexto for. Mas se não nos propusermos a nos superar e mergulhar na força e energia das tradições de nossos ancestrais, jamais conseguiremos sentir o quão magnífico é a força de nossas entidades e divindades. Acordar para o axé e para a ciência da jurema é necessário. Romper respeitosamente com o sincretismo, muito mais! Temos que ter força e auto estima de afirmar que Oxum não está ligada a nenhuma santa da Igreja, ou templo que nos perseguiu historicamente. Oxum mora nos rios, na natureza e nos Ori (cabeças) de seus discípulos.

Nas comunidades, os terreiros competem com as igrejas evangélicas de garagem que substituindo o papel da Igreja Católica, promovem a perseguição à fé negra e indígena, satanizando e perseguindo os seguidores de terreiro. Esta é uma recapitulação histórica do que foi no passado o fazer religião cristão. O cristianismo não se renova, ele entra mais uma vez no ciclo da perseguição e da verdade única, do Deus único, e da lógica que o mal e o diabo está no outro, e não dentro deles mesmos, afinal, o diabo é cristão, não fazendo parte da história e nem da fé afro indígena.

Infelizmente, essas investidas religiosas de conversão tem dado muito certo... Muita gente de terreiro, ou negros e negras, por serem fracos ideologicamente e estarem vulneráveis e sem auto estima suficiente com o axé e a jurema, ou com a consciência negra, preferem acreditar que foram salvas e que irão para o céu, do que entender que desonraram seus ancestrais por terem se permitido desacreditar no bem maior deixado per todos àqueles e àquelas que lutaram para que pudéssemos estar aqui hoje.

A pobreza e a injustiça social também são responsáveis pela perda de auto estima na fé negra. As pessoas preferem acreditar na teologia da prosperidade, de que Deus pode nos abençoar e nos enriquecer, do que entender que religião é um lugar para o bem estar espiritual e para o equilíbrio de suas questões pessoais etc. Essa teologia da prosperidade é uma forte inimiga da fé negra e da luta contra o racismo. Ela apenas fortalece o capitalismo, que é uma filosofia vigente e pujante, muito negativa de concepção de mundo.

Ser descendente de negro e indígena e aceitar a fé do branco, é se tornar branco. Branco não na cor, mas na compreensão de mundo. Isso ao meu ver é uma das faces mais cruéis da realidade do negro pobre brasileiro, os negros e negras que viram brancos e brancas (ver Fanon). Os aperreios da vida os tornam brancos... A falta de dinheiro, a falta de oportunidades o tornam brancos... Isso é muito triste.

Respeitar a diversidade de opiniões e de religiões é fundamental. Este meu texto não trata de um desrespeito contra a opção religiosa dos negros e negras que se tornam evangélicos ou católicos. Este texto, fiz por entender que é necessário refletirmos mais sobre estas questões que são vitais para a manutenção das tradições de matrizes africanas e indígenas no Brasil.

Recife, hoje se veste de amarelo para homenagear Nossa Senhora do Carmo. Outros se vestem de amarelo para louvar Oxum... Prefiro louvar Oxum qualquer dia... Sem vinculá-la a nenhuma santa. Mas respeito quem o faz e até acompanho algumas vezes as procissões, pois sempre encontro pessoas maravilhosas lá. Afinal, lutar contra um processo de dominação de mais de 500 anos não é simples e requer muita paciência e respeito. Temos avançado bastante. As redes sociais tem sido uma excelente oportunidade de fortalecer nossos debates. Mas ainda temos muito o que contribuir  na discussão e no avanço das compreensões libertadoras de mundo. Não caiamos na lógica racista. Acordai!

Quando falta pretitude e consciência negra, o branco entra em nossas mentes e nos convence que estamos errados nas nossas práticas religiosas afro indígenas. Contra isso temos nossas raízes negras e indígenas. É só se permitir vivenciar e mergulhar sem preconceito.

Axé.

Oré Iyéiyé ooooooooo!

#FéNegra #FéIndígena #Oxum #NossaSenhoradoCarmo #IgrejasEvangélicas #IgrejaCatólica #Nagô #AlexandreLomiLodo #Racismo

Alexandre L’Omi L’Odò
Juremeiro e Candomblecista
Historiador e Mestre em Cientista das Religiões
alexandrelomilodo@gmail.com

terça-feira, 11 de julho de 2017

Defesa de mestrado sobre a Jurema Sagrada e sua cosmologia acontece dia 11 de Agosto de 2017 na UNICAP


 Defesa de mestrado sobre a Jurema Sagrada e seu cosmologia acontece dia 11 de Agosto de 2017 na UNICAP 

Convite para defesa de mestrado - Juremologia

Enfim chegou o momento da defesa de minha carinhosa dissertação de mestrado. Estamos a um mês da data que me levará ao título de mestre, ou não (rsrsrs). Será que sou o primeiro juremeiro a defender uma dissertação sobre a religião? Gostaria de saber...

Estou feliz com o trabalho. Escrevi muito, trabalhei muito, me dediquei até não poder mais. Quase me custou a alma, mas entreguei aos estudos e à Jurema tudo que pude para poder escrever cientificamente o que era um sonho há anos.

A dissertação tem quatro capítulos e trata basicamente de três pontos principais:

1 – Sistematização do debate bibliográfico e histórico sobre a Jurema;

2 – Etnografia da Jurema de Recife e Região Metropolitana, na busca de identificar e sistematizar os pontos que formam os elementos cosmológicos principais e estruturais da religião, e;

3 – A sistematização do debate sobre a juremologia e estudos acadêmicos teológicos afro indígenas, política pública e educação do povo de Terreiro em Pernambuco.

Conto com a presença dos amigos e amigas que me ajudaram. Àqueles e àquelas que me cobriram de luz nos momentos que quase entrava no escuro total. Aos que me respeitaram e me deram força de verdade, e conto com todas e todos que me desejaram o bem e o mal, afinal um não vive sem o outro, e a Jurema não é maniqueísta. ;)

 Salve a fumaça! Sobô Nirê Mafá!

Serviço:

UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO
PRÓ-REITORIA ACADÊMICA
COORDENAçÃO DE PESQUISA
MESTRADO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO

Mestrando: Alexandre L’Omi L’Odò

Tema: JUREMOLOGIA:
Uma busca etnográfica para sistematização de princípios da cosmovisão da Jurema Sagrada

Orientador: Sergio Douets
Co-orientadora: Zuleica Dantas

Banca:

Roberta Bivar Carneiro Campos – PPGA – UFPE
Gilbraz Aragão – PPGCR – UNICAP

Data: 11/08/2017

14h

Auditório do bloco G4 – 3° andar – UNICAP

Alexandre L’Omi L’Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

terça-feira, 4 de julho de 2017

Restos mortais de Dona Selma do Coco estão desprezados em Cemitério de Olinda

Túmulo de Zezinho, filho de Dona Selma do Coco, local onde foram colocados os restos mortais da grande mestra da cultura popular de Pernambuco que foi tombada como Patrimônio Vivo do Estado. foto de Alexandre L'Omi L'Odò.

Restos mortais de Dona Selma do Coco estão desprezados em Cemitério de Olinda

Acordei com uma mensagem que me dizia para eu ir visitar o túmulo de Dona Selma do Coco, hoje... Assim fiz.
Ao chegar no cemitério do Guadalupe em Olinda, me dirigi até o local de seu sepultamento. Observei que não havia mais seu nome em lugar nenhum e me preocupei de seus ossos terem sido retirados e jogados no depósito públicos de ossos para nunca mais serem achados...

Informei-me com os coveiros, e eles me direcionaram para a cova de Zezinho, filho carnal de Dona Selma do Coco, falecido alguns anos antes da mãe. Deparei-me com o total descaso com a memória dessa grande mestra da cultura popular, que inclusive era Patrimônio Vivo de Pernambuco.

Local onde estão os restos mortais de Dona Selma do Coco no Cemitério do Guadalupe em Olinda. Foto de Alexandre L'Omi L'Odò.

Fiquei arrasado com esta situação. Um desrespeito sem precedente contra a memória da maior artista do Coco de nosso tempo. Nem a família nem o Estado se responsabilizaram por dar um mínimo de dignidade aos restos mortais dessa grande conquista. Considero isso um crime à memória Cultural pernambucana e olindense. Um crime contra o patrimônio imaterial, desprezo a memória, racismo institucional e a ausência de políticas públicas de Cultura que de fato tratem da vida dos mestres e mestras. Não podemos esquecer que a cultura é o Mestre ou a mestra! Sem eles não há tradição. Mas ao que está posto, ninguém ligou para isso, neste caso.

Mestre Salustiano teve um enterro digno e seu túmulo está bem preservado. Reginaldo Rossi igualmente. Chico Science tem seu túmulo preservado e muito visitado... Mas para Dona Selma do Coco apenas restou o desrespeito, desprezo e ostracismo completo. Isso machuca a gente.

Essa minha denúncia tem o mesmo caráter da que fiz há dois anos atrás, quando seu túmulo não tinha sequer uma placa simples com seu nome. Cadê o Estado? O que vão fazer? Ignorar mais essa minha postagem? Pra que ser Patrimônio Vivo?

Como conselheiro de Políticas culturais de Olinda, levarei essa pauta para nosso pleno e exigirei atitude do governo de Olinda para com essa situação. É inadmissível que nos calemos perante tamanho desrespeito à memória de nossa cultura popular. Vamos pedir respeito, queremos reparação e um túmulo decente para Dona Selma do Coco!

Soube inclusive que seu dente de Ouro foi levado desrespeitosamente por um de seus parentes... Fiquei horrorizado com tamanho desrespeito a ela, que era uma senhora alegre e muito voa para com os seus. Construiu e deixou bom patrimônio material cantado Coco e dando sua saudosa gargalhada "hahay"... Mas a ingratidão foi seu fim...

Peço aos amigos e amigas dos jornais que me ajudem a divulgar esta grave denúncia.

Não vamos calar. Respeitem a Cultura Popular!

Quero ver se o povo da Cultura popular vai ficar calado!

Frase significativa pintada em parede dentro de capelinha no Cemitério do Guadalupe em Olinda. Foto de Alexandre L'Omi L'Odò.

"A morte permite a saudade. Nunca o esquecimento"!

#RespeitemaCulturaPopular #PatrimônioVivoPraQuê? 
#DonaSelmadoCoco

Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
Conselho Municipal de Políticas Culturais de Olinda
alexandrelomilodo@gmail.com

sábado, 1 de julho de 2017

Mais um ciclo anual dedicado à Oxum

Alexandre L'Omi L'Odò em épocas de sua iniciação para Oxum. Foto de Aluísio Moreira.

Mais um ciclo anual dedicado à Oxum

Mais um ciclo anual dedicado à Oxum se inicia. No nagô de Pernambuco, a grande mãe das águas doces é celebrada no mês de Julho, tendo nas terças-feiras seus dias devocionais. 

Este é um mês que dedico a reflexão de meu papel sacerdotal e que disponho-me a mergulhar nas práticas rituais dedicadas à minha Mãe. Abro-me à experiência do amor das águas... A água ama a terra. Dá vida a tudo... semeia a alegria por onde passa, refresca as almas, fertiliza os sexos, abençoa a existência, nos possibilita tudo. 

Oxum é generosidade e amorosidade. É poder absoluto, contudo, é acolhimento e sabedoria. Oxum vive no fundo dos segredos das águas doces... O doce de sua bênção é inesecivel. Quem é tocado pelo amor de Oxum, jamais será a mesma pessoa. Oxum lava a alma e purifica, renova e harmoniza. 

Essa foto foi feita há 13 anos, pela oportunidade de minha iniciação na nação jeje nagô de Pernambuco. Era um neófito feliz. Continuo feliz por ser eternamente uma iyawo de Oxum (ser iyawo significa ser a esposa do Orixá. Àquela pessoa iniciada para cuidar da tradição, como se cuida de quem se ama eternamente). Continuo cuidadando... Cuido de mim, dos meus afilhados, dos amigos e amigas, das pessoas que amo, de todos que posso... Cuido de Oxum. Ela mora em mim, dentro do meu Ori, ela caminha comigo todas as horas. Sou feliz por ter casado com minha mãe. Sou a pessoa mais feliz de meu universo, um eterno iniciante, buscador de bons caminhos para mim e para tudo que acredito. Vivo o tempo de meu axé com desapego ao tempo... O tempo de axé pra mim não é tempo, é água de rio, que corre e abre caminhos, que fura pedras, mas não tem vaidade. 

Inicia-se dia 22 de Julho minha contagem regressiva para as celebrações de meus 14 anos de axé. Esse novo ano que inicia, vai ser lindo, caminhando de mãos dadas com as pessoas que amo e que acreditam em meus sonhos coletivos. Ubunto. 

Difícil tem sido seguir sem meu Mestre maior Pai Paulo Braz Ifátòògùn, sua ausência me deixa inseguro, como se não pudesse aprender mais nada... Me sinto ainda uma criança perdida, contudo, seu Egun tem sido o mesmo Mestre de sempre, só que de uma forma distante... A saudade machuca, mas seguirei seus princípios, e levarei à frente nossas tradições. Tenho duas folhas para semeia o mundo, não o decepcionarei. 

Meu maior consolo é a existência de minha iyalorixá Maria Lúcia Felipe Tia Lú, depositária de todo saber e axé. Nas mãos de suas águas estou entregue, e navegaremos juntos até o mais absal segredo, até o mais profundo amor. 

Adupé! Agò kolofé iyámi Osùn! 
Oré iyéiyé oooooooooooo! 

Sigamos nos banhando de alegria na vida. 

Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

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Entidade cultural da resistência negra pernambucana, luta e educação através da religião negra e indígena e da cultura afro-brasileira!