terça-feira, 8 de abril de 2014

DENÚNCIA - Polícia investiga incêndio e destruição de imagens em terreiro de candomblé em Goiana



DENÚNCIA

Polícia investiga incêndio e destruição de imagens em terreiro de candomblé em Goiana

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O responsável pelo terreiro é o babalorixá conhecido como Pai Dedo, que acredita ser vítima de intolerância religiosa

Publicado em 08/04/2014, às 12h19

Atualizada às 15h15

A polícia investiga a depredação e incêndio ocorridos em um terreiro de candomblé na madrugada da segunda-feira, dia 1º de abril, em Goiana, na Zona da Mata Norte pernambucana. O local de culto à entidade Jurema teve suas dependências tomadas pelas chamas e várias imagens sagradas foram quebradas. O responsável pelo terreiro é o babalorixá conhecido como Pai Dedo.

Pai Dedo acredita que foi vítima de racismo e intolerância religiosa. Ele contou que apesar de deixar o terreiro em escombros, os bandidos não levaram nenhum objeto de valor. No local, havia geladeira, televisão, botijão de gás, joias e peças valiosas.

Na porta da casa, duas fitas zebradas demarcam o isolamento feito pela polícia. Em uma dependência chamada 'Quarto da Jurema', diversos objetos foram incinerados, mas a 'mesa da Jurema' ficou intacta. A televisão teve seu visor partido, partes de plástico da geladeira ficaram completamente derretidas, bacias plásticas deformadas. O teto do imóvel estava escurecido pela fumaça do incêndio.

O caso ganhou a atenção do Comitê Nacional de Respeito à Diversidade Religiosa, que enviou seu representante local, Alexandre L'Omi L'Odò para reconhecer a situação de Pai Dedo. "Nós consideremos esse caso como uma agressão coletiva a todos os terreiros do Brasil. Nós iremos pressionar o governo até dar cabo de situações como essa", disse Alexandre. Apesar de o laudo policial não ter confirmado a motivação como intolerância religiosa, Alexandre antecipa sua opinião baseado nos indícios. "Todo esse fogo não foi causado por fósforos. Certamente o vândalo utilizou gasolina para dar início ao incêndio", comentou.

Fotos: Alexandre L'Omi L'Odò/Cortesia.

Alexandre disse que Pai Dedo era pessoa bem quista na comunidade, mas que alguns moradores chegaram a fazer abaixo-assinado contra as atividades realizadas no terreiro dele. "Nós iremos esperar a investigação da polícia, mas também vamos pressionar, pois sabemos que o tratamento dado a religiões de matriz afro-brasileira deixa a desejar. Eles não darão a importância que o caso necessita. Mas nós consideramos esse crime como motivado por racismo e intolerância religiosa", declarou Alexandre.

As investigações estão sendo conduzidas pela Delegacia de Goiana, onde o responsável é o delegado Diego Pinheiro. Por e-mail, a Polícia Civil informou que o inquérito ainda não foi concluído. "O delegado de goiana ainda está em diligência."

Fonte - JC Online: 

Alexandre L'Omi L'Odò
Comitê Nacional de Respeito à Diversidade Religiosa da Presidência da República
alexandrelomilodo@gmail.com

domingo, 6 de abril de 2014

Terreiro de Pai Dedo em Goiana/PE é Incendiado por vândalos - Crime de racismo e violência religiosa contra a Jurema Sagrada

Pai Dedo mostrando o B.O (boletim de ocorrência) em frente ao seu terreiro que está interditado.

Terreiro de Pai Dedo em Goiana/PE é Incendiado por vândalos - Crime de racismo e violência religiosa contra a Jurema Sagrada

Carta de repúdio à Intolerância Religiosa contra os terreiros de Jurema em Pernambuco e demais religiões tradicionais de terreiro – Caso do terreiro de Pai Dedo de Goiana:

No último dia 31 de Março de 2014, no passar da noite para a madrugada do dia 1° de Abril, o terreiro de Jurema Tenda do Caboclo Boiadeiro de Tupi Goiá e Ilê Axé Ogum Toperinan, localizado no município de Goiana/PE, foi incendiado criminosamente por pessoas até então desconhecidas. O terreiro foi queimado cruelmente, em um ato evidente de racismo e intolerância religiosa por vândalos que destruíram imagens de mestras e mestras, objetos pessoais e sagrados. A situação do terreiro é alarmante e nada foi roubado do local.

Espero que este caso não seja mais um entre tantos que o Estado Brasileiro não dá suporte devido e nem ajuda a resolver as questões envolvidas, perpetuando a impunidade. Contudo, a criminalização dos casos de racismo e intolerância religiosa tem que se transformarem em metas concretas do Estado para contribuir efetivamente na extinção destes crimes que são cometidos cotidianamente contra a fé do outro de forma livre e inconsequente, talvez por se haver uma compreensão coletiva de que tais crimes não levam ninguém à cadeia. Evidencio que tais crimes ocorrem cotidianamente contra os terreiro de matriz africana e indígena, crimes estimulados muitas vezes por outras religiões que estimulam este tipo de violência contra os direitos humanos.

Imagem do Mestre Zé Pilintra com a cabeça decepada pelos vândalos. Prova de ódio religioso.

Convoco todo povo de terreiro do Brasil e demais religiões que desejam lutar a favor do respeito à diversidade religiosa e lutar conseqüentemente contra a intolerância religiosa para rediscutir este tema recorrente entre nós, e que estas imagens sejam compartilhadas por todos e todas que desejam ajudar na luta contra crimes desta natureza, revelando a face cruel do que é de fato a intolerância religiosa, e que esta destrói vidas e causa traumas profundos em suas vítimas.

Como membro do Comitê Nacional de Respeito à Diversidade Religiosa, saí de Recife para oferecer algum suporte ao juremeiro e babalorixá Pai Dedo, no intuito de compreender o que havia ocorrido em seu templo. Conversamos bastante e ele expôs toda questão e nos apresentou o contexto/panorama deste crime. Foi feito um B.O. (boletim de ocorrência) e a Polícia Militar está encaminhando os processos com empenho.

Porta do terreiro interditada pelos bombeiros. Há risco de desabamento no local. Ainda estão averiguando a situação predial.

Resto dos objetos sagrados do quarto da Jurema que foram atingidos.

Televisão depredada. Não roubaram nada do local. Apenas destruíram o templo.

Quarto onde eram guardadas as roupas do axé e da Jurema. Totalmente destruído.

Cozinha do terreiro totalmente destruída.

Estou chocado com o que vi naquele local. E fiquei muito feliz com a fé que encobre o Pai Dedo, que mesmo tendo seu patrimônio destruído, estava firme em sua fé na Jurema. Um fato impressionante, e que merece destaque, foi que a mesa sagrada da Jurema não foi queimada. Mesmo envolta de fogo, sequer o pano que a cobria foi queimado. Os assentamentos dos mestres e mestras, os troncos de Jurema, os príncipes e princesas etc. Tudo cheio de cinzas, mas inteiros e firmados. Isso nos fortaleceu na esperança de saber que nossos encantados e ancestrais estão ao nosso lado nos protegendo e nos incentivando nesta luta. O Juremeiro também foi orientado a ligar ao DISK 100 para registrar o caso neste espaço de combate aos crimes contra os direitos humanos, e assim foi feito.

Sequência de imagens que mostram como ficou o quarto da Jurema Sagrada após o incêndio. Atenção à mesa da Jurema. Totalmente preservada.




Se a mídia não veicula esta informação, cumpro meu papel de cidadão e disponibilizo fotos e dados para que pelo menos os que por aqui passarem se informarem da real situação do Povo de Terreiro no Brasil.

Mesmo perante a tamanha violência contra o sagrado em seu terreiro, Pai Dedo não perde a fé e continua dizendo que vai reconstruir tudo de novo.

Muito traumatizado com o ocorrido, Pai Dedo lamenta as percas materiais de seu patrimônio, fruto de muito trabalho.

Pai Dedo e eu em momento de reflexão sobre o caso de intolerância religiosa sofrida.

Fachada do terreiro.

Salve a fumaça! O trabalho do Quilombo Cultural Malunguinho está firme e continua com força e fé na luta contra a intolerância religiosa e o racismo! Sobô nirê!

Alexandre L’Omi L’Odò 
Membro do Comitê Nacional de Respeito à Diversidade Religiosa da Presidência da República
alexandrelomilodo@gmail.com

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Entidade cultural da resistência negra pernambucana, luta e educação através da religião negra e indígena e da cultura afro-brasileira!