quarta-feira, 25 de maio de 2011

Uma Vida Kipupa - João José Reis (UFBA)

Kipupa Malunguinho, o povo da Jurema Sagrada entrando no Catucá. Foto de Adeíldo Massapê.

Uma Vida Kipupa

João José Reis*

Fui levado ao Kipupa por meu amigo Marcus Carvalho, professor de História da UFPE. Marcus escreveu páginas que, antes deste Kipupa, eu já tinha lido sobre Malunguinho, o líder quilombola e senhor das matas do Catucá que atormentou os escravistas do Recife e seus arrabaldes no século XIX. Malunguinho se transformaria numa entidade espiritual cultuada pelo povo de santo em Pernambuco. Até aí eu sabia. Marcus também me disse, ao me convidar para o Kipupa, que Malunguinho era o dono da festa. O que não sabia era que a invenção do Kipupa, pelo que entendi, resultou em parte do interesse gerado pelas pesquisas desse grande historiador. É um excelente exemplo de boas relações entre universidade e sociedade, entre cultura acadêmica e cultura popular.


Professor João José Reis ao Lado de Juarez  (camisa amarela) e Prof. Marcus Carvalho (braços cruzados) Foto de Anne Cleide.

Kipupa tem tudo a ver. Nada como cultuar um espírito guerreiro para enfrentar a batalha do dia a dia, que hoje inclui a luta contra a intolerância religiosa em reação à atitude de alguns grupos evangélicos que agridem com palavras e atos os adeptos das religiões afro-brasileiras em todo o país. O Kipupa me impressionou como símbolo e atitude de resistência, um verdadeiro movimento político construído em torno de uma festa que celebra a abundância, a solidariedade e, é claro, celebra Malunguinho.


Prof. João Reis ao fundo, na gira de abertura do V Kipupa Malunguinho, Setembro de 2010. Foto de Anne Cleide.

Em minha cidade, Salvador, onde o candomblé é tão forte, não temos coisa como o Kipupa. Seria bacana que existisse algo parecido em cada canto do país, porque o exemplo dessa festa, dessa bonita manifestação cultural e religiosa precisa ser imitado. Acho até que o termo Kipupa tem vocação pra virar adjetivo do que acontece de bom no mundo: uma pessoa kipupa, uma amizade kipupa, uma comida kipupa, um terreiro kipupa, uma festa kipupa, uma vida kipupa... Ah uma vida kipupa, é tudo que a gente quer!
  
Professor João José Reis


*Professor Titular de História do Brasil da Universidade Federal da Bahia, autor de Rebelião Escrava no Brasil: a história do levante dos Malês (1835).


_____________
Para nós do Quilombo Cultural Malunguinho, ter recebido o professor e historiador João José Reis em nossa festa anual foi uma honra muito grande. Sua presença nos deu a possibilidade de receber um texto tão carinhoso como este que escreveu. Nós agradecemos e que nos anos vindouros, a UFBA possa vir ao evento. O Kipupa, é um evento que tem como objetivo, agregar pessoas entorno de Malunguinho e da Jurema Sagrada, para poder de diversas formas, contribuir para o avanço na luta contra o preconceito, o racismo, a intolerância religiosa e a discriminação. O Kipupa também é um espaço para as pessoas irem para se curar, vivenciar sua fé plenamente, mergulhar no mais profundo sentimento de pertencimento à tradição da Jurema. A cada ano, crescemos mais, o povo (de todos os segmentos), intelectuais, artistas, jornalistas, gente de todo país se voltam às matrizes afro indígenas, dentro da mata fechada para saudar a ancestralidade.


Alexandre L'Omi L'Odò
Coordenador do QCM
alexandrelomilodo@gmail.com

Labi-hidro - Marina Ferreira

Labi-hidro, desenho/pintura de Marina Ferreira - UNICAP.

Labi-hidro

Hoje ganhei um presente inusitado: Uma pintura feita com hidrocor em um papel parecido com um cartão postal. Esta arte singela e muito interessante, é da minha companheira de curso (História - UNICAP) Marina Ferreira, uma menina negra linda, cheia de axé (percebe-se). Ao olhar o desenho/pintura, me deparei com um labirinto coloridíssimo, cheio de saídas e não saídas, de vais e vens, de conturbação e serenidade... Cores e mais cores... Um rio, uma mata pegando fogo, a mente brincando consigo mesma, uma árvore vista por dentro... Olhar e ver é algo sempre inovador, pois o que vi foi arte.  

Não tinha nome o presente, daí o batizei de Labi-hidro, em uma alusão direta ao labirinto e ao hidrocor que coloriu e desenhou esta obra. 

Obrigado Marina, são simples coisas que falam muito sobre quem somos. Beijos.


Alexandre L'Omi L'Odò.
Aluno de História da UNICAP.

“Ele mobilizou a mocidade negra, é um exemplo de esforço e de resistência. Foi a figura essencial do movimento”, Mãe Stella de Oxossi, ialorixá.

 
Abdias Nascimento 
 
“Ele mobilizou a mocidade negra, é um exemplo de esforço e de resistência. Foi a figura essencial do movimento”, Mãe Stella de Oxossi, ialorixá.

Decidi não escrever muito sobre a partida para Orun do queridíssimo guerreiro visionário Abdias Nascimento. Apenas faço minhas as palavras de Mãe Stella de Oxóssi, que com pucas linhas sintetizou muita coisa importante a se dizer.

Ele desde sempre foi um exemplo. Todos nós devemos seguir os pensamentos deste intelectual que nos presenteou com a arte de ser e viver negro. Contudo, se ele se iniciou no culto aos Orixás algum dia em sua vida, teremos mais um ilustre Esá, um Babá Egún dos mais celebrados como herói na luta pela liberdade do povo negro.

Axexê Mojubá Abdias Nascimento. É Bariká Òlorún Fè Malè! 

Alexandre L'Omi L'Odò.
Quilombo Cultural Malunguinho.

sábado, 21 de maio de 2011

Mini-seminário sobre Culturas de Matrizes Africanas e Indígenas na Escola Estadual Engenheiro Lauro Diniz no IPSEP, Ibura - Recife.

Alunos, Alunas e professores da Escola Lauro Diniz.

Escola Estadual Engenheiro Lauro Diniz recebe Mini-seminário sobre Culturas de Matrizes Africanas e Indígenas

Ah convite da Professora Micheline Pina, e com a indicação de Valéria Costa, doutoranda pela UFBA, fui à Escola Estadual Engenheiro Lauro Diniz, no bairro do IPSEP - Recife, para realizar mais uma etapa do processo de formação e informação na cultura e prática afro indígena brasileira, missão do Quilombo Cultural Malunguinho, entidade que coordeno junto ao historiador João Monteiro a mais de sete anos.

Com o tema: Seminário sobre Culturas de Matrizes Africanas e Indígenas, levei o acervo de informações e imagens organizadas por mim em um Power Point para apresentar aos alunos do I e II períodos da Escola. Foram basicamente 12 alunos que participaram, representando suas salas. O sentido do seminário, foi levar informações organizadas para que eles e elas pudessem produzir trabalhos no campo da história e cultura para em outro momento apresentarem na própria entidade.

Os alunos e alunas filmaram e anotaram tudo.

Segundo a fala da professora Micheline, os alunos, tinham grande resistência em tratar estes temas, por considerarem coisas do "diabo", ou coisas obscuras, que davam medo e repugnância. Na verdade o que todos eles e elas sentiam nada mais é do que o racismo histórico brasileiro e a intolerância religiosa construída durante toda história do país, que colocou as culturas do negro e do índio no patamar da inferioridade nos campos sociais, culturais, religiosos e filosóficos. Como todos e todas sabem, o lema dos cristãos e colonizadores era: "O negro e o índio não tem alma", portanto, quem não tem alma não é gente, é objeto e pode ser manipulado como queira... Este pensamento antigo e retrógrado ainda paira de forma disfarçada nas nossas mentes, portanto, para alunos e alunas adolescentes, se faz imprescindível ações como essa, promovida no dia 20 de maio de 2011 na biblioteca da instituição.

Na imagem - Candomblé e suas Nações: Dona Olga de Alaketu, gilberto Gil, Mãe Stella de Oxóssi, mãe Biu do Porto do Gelo (Xambá).

Os comentários foram diversos entre os meninos e meninas de todas as salas. Quando viram um homem (Eu) chegar todo de branco, com um colar amarelo no pescoço, com chapéu etc. Foram até perguntar a diretora se a Escola ia virar um "Xangô", ou se na biblioteca estava "rolando macumba"... Muitos deles foram brechar pela porta o que estava acontecendo lá dentro da sala... Este fato me alarmou mais uma vez para o quanto nossas escolas estão carentes da implementação oficial e integral das leis federais 10.649/03 e 11.645/08, que estabelecem as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”.

O termo "Macumba", "Xangô" e "Catimbó" foram desmistificados no seminário.

A "Diáspora Africana" foi demonstrada e debatida entre os alunos.

Propus a professora Micheline levar esta proposta para a diretora. Além da implementação das duas citadas leis, ainda sugeri que a Escola implementasse também a lei Malunguinho, de número 13.298/07, a lei estadual da Vivência e Prática da Cultura Afro Pernambucana, proposta pelo Quilombo Cultural Malunguinho e diversas entidades dos movimentos negros de Pernambuco. A professora adorou a idéia e se responsabilizou em encaminhar esta proposta. Ainda convidei a Escola a participar do VI Kipupa Malunguinho, Coco na Mata do Catucá, evento que neste ano acontecer no dia 18 de setembro. 

Os elementos do culto da Jurema Sagrada foram demosntrados como forma conscientizar os alunos sobre seus significados teológicos.

 
A árvore sagrada também foi demonstrada com imagens.

Fui ainda entrevistado pelo aluno ... sobre o significado do que é Orixá e outras divindades. Gravaram e anotaram muitas informações. Espero que os trabalho sejam bem legais e que a partir do dia deste seminário, entre nós todos, o racismo, a intolerância religiosa e o preconceito tenham pelo menos diminuído, e que a consciência sobre o que são as culturas e religiões de matrizes africanas e indígenas estejam fortalecidas e desmistificadas na cabeça de todos que participaram deste momento.

O professor de teatro Marivaldo Buarque de Holanda, a professora Jaqueane Abreu e a funcionária Cristina (bibliotecária) também participaram e contribuíram muito nas discussões. Foi de fato um momento rico de troca de saberes entre alunos, professores, e funcionários da Escola. Pretendemos ainda este ano voltar a realizar mais uma destas ações no local, estamos já negociando.

Veja mais fotos do evento:
 
 Alunos e professores.
 
Na biblioteca da Escola, entre livros e trabalhos de alunos, discutimos juntos racismo, preconceito, intolerância religiosa e cultura.

 
 A participação de todos e todas foi muito interessante.

 A professora Micheline instigou bastante as discussões com questionamentos e relatos sobre sua vivência na Escola.

 Professores, alunas e alunos.

Alexandre L'Omi L'Odò.
Graduando em História - UNICAP.
Coordenador do Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com 

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Trailer do Filme "Galo Preto O Menestrel Do Coco"


Trailer do Filme/Documentário "Galo Preto, O Menestrel Do Coco", 46'min. de Wilson Freire e produção de Alexandre L'Omi L'Odò.

Lançamento oficial dia 24 de Junho de 2011, no Nascedouro de Peixinhos - Olinda - Pernambuco - Brasil. 20h.

Apoio: Refinaria Multicultural Nascedouro de Peixinhos - CTCD - ITEP - Quilombo Cultural Malunguinho.

Informações: 

alexandrelomilodo@gmail.com
55 81 8887-1496 / 3244-2336

Alexandre L'Omi L'Odò
Produção do Mestre Galo Preto

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Palestra/Seminário sobre Religiões de Matrizes Africanas e Indígenas na FAFIRE

Palestra/Seminário para alunos e alunas da FAFIRE.
  Palestra/Seminário sobre Religiões de Matrizes Africanas e Indígenas na FAFIRE.

Ha convite da aluna Kamilla da Costa, estudante de Psicologia do I período da FAFIRE - Faculdade Frassinetti do Recife, fui incitado a realizar mais um seminário sobre Religiões de Matrizes Africanas e Indígenas. Kamilla, iniciada na Jurema e Abian no culto nagô de Pernambuco, decidiu me convidar por me conhecer e acompanhar meu trabalho junto ao Quilombo Cultural Malunguinho na luta para a preservação, visibilidade, formação e respeito à essas religiões afro-inígenas. 

Kamilla da Costa, Bruna Ledo Tasso, Professor Luiz Moura e Alexandre L'Omi L'Odò
 
O professor da cadeira Cidadania e Fé, Luiz Moura, organizou a sala para receber o seminário. Com bastante entusiasmo, os alunos e alunas foram se acomodando e preparando naturalmente o ambiente para receber as informações que tanto não conheciam mas que desejavam entender para poder quebrar seus preconceitos. Foram duas turmas juntas no mesmo auditório (I e II), ambas do primeiro período. Haviam cerca de 80 alunos na sala, que garantiram a diversidade de crenças, religiões e religiosidades para compor as discussões.

Tiveram mais dois trabalhos que antecederam minha palestra, todos eles com temas das religiões de matrizes afro indígenas. Um deles, apresentou um vídeo muito bem feito sobre a Casa Xambá, terreiro e quilombo urbano do bairro de São Benedito em Olinda. O vídeo foi muito aplaudido, pela qualidade e contexto.

Toda palestra se deu de forma intensa e interrompida apenas por alguns alunos que tinham curiosidades em algumas questões, como por exemplo nas nomenclaturas dos rituais e objetos dos cultos, que na maioria são em línguas africanas.

Levei uma camisa para sortear com a turma, e os alunos decidiram presentear o Pastor Demétrius. 

O pastor Batista Demétrius e Alexandre L'Omi L'Odò no momento da entrega da camisa de brinde aos participantes do seminrio. Camisa símbolo Sankofa (Nkonsonkonso) - por "Direitos Nergos Negras"

O Pastor da Igreja Batista Demétrius, também estudante de psicologia, solicitou esclarecimentos acerca da escatologia das religiões de matrizes africanas e indígenas, sobre tudo em relação ao destino da alma, quando o indivíduo morre. Também perguntou sobre o conceito de pecado e condenação nestas religiões. A explicação circulou entorno da explicação que o entendimento teológico das religiões de matrizes africanas e indígenas não é como o entendimento de mundo dos judaico-cristãos, portanto apontei as diferenças.  Ele ainda colocou não ter "nenhum preconceito com estas religiões" e que nos estudos de teologia de sua Igreja, sempre convidam "pessoas de outras religiões pra discutirem nos seminários internos".

Por fim, finalizei minha fala com a frase: "Se wo were fi na wo Sankofa a yenkyi" - Nunca é tarde para voltar e apanhar o ficou para trás. 
Símbolo da sabedoria de aprender com o passado para construir o futuro.  Sankofa.

Vejam algumas fotos:
 
Alunos e Alunas da FAFIRE.

Alexandre L'Omi L'Odò recitando parte do poema de Castro Alves - Navio Negreiro

Alexandre L'Omi L'Odò explicando a "diáspora" africana.

Palestrando...

Alexandre L'Omi L'Odò explicando as teologias de matrizes africanas e indígenas.

Alexandre L'Omi L'Odò explicando as teologias de matrizes africanas e indígenas.


 Alexandre L'Omi L'Odò explicando as teologias de matrizes africanas e indígenas

Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

terça-feira, 17 de maio de 2011

Dona Célia do Coco – “Cai mais uma raiz de nossa cultura”.

 Capa de seu primeiro CD, autografada e dedicada à mim. 

Dona Célia do Coco – “Cai mais uma raiz de nossa cultura”.

Na manhã do dia 28 de Abril de 2011 faleceu de complicações neurológicas causadas por um derrame cerebral, a mestra coquista Dona Célia do Coco (Célia Maria de Oliveira Correia) com 76 anos de idade. Uma das cantoras e compositoras da cultura popular mais criativas e afinadas da tradição do coco praieiro de Olinda.

Herdeira de uma tradição de coco fortemente consolidada de seu pai, o senhor Joaquim Marcolino - “Joaquim Breve Morre”, zabumbeiro conceituado e restaurador de talhas de madeira, Dona Célia, desde criança brincava nas sambadas promovidas por ele, a inspirando a seguir a tradição de sua família. Com nove anos de idade já entoava os “sambas” de roda – cocos.

 Dona Célia Coquista. Foto de Laila Santana - 2008.

Dona de uma trajetória cultural admirável, esta mestra coquista deixou como patrimônio seu único CD gravado, intitulado “Nasci Com Dois Dentes”, que aos 72 anos de idade realizou este antigo sonho.

“Nasci Com Dois Dentes”, é uma alusão ao verídico fato de sua vida, pois ela, já nasceu com um diferencial natural, dois dentes formados e expostos, sendo este um acontecimento muito badalado no Alto da Sé de Olinda, onde nasceu sendo esta noticia pauta até em rádios comunitárias e levando à sua casa todos da localidade para ver os tais dentes da menina que veio ao mundo para brilhar.

Seu CD, produzido por Lígia Verner, possui um repertório que remonta o imaginário dos cânticos antigos do coco da cidade, também com composições autorais como as faixas de número 04- “O Sapo” e a faixa 02- “Amor Deixa o Cantor Cantar”, além do famoso “Macumbeba”, coco entoado por diversos cantores e cantoras – “Não vá, não vá não vá, menina não vá, não vá, eu vou para a Sé mamãe, vou jogar capoeira, eu vou passear”...  

 Dona Célia do Coquista no lançamento do DVD e do CD Coquistas de Olinda Contra a Violência. 2008. Foto de Laila Santana. 

Gravou ainda o CD Coquistas de Olinda Contra A Violência, de 2007. Este projeto foi da Secretaria de Saúde da Prefeitura de Olinda, que convidou os tradicionais mestres e mestras do coco para juntos participarem de uma capacitação sobre a prevenção contra a violência. A partir destas aulas, os coquistas, como o Mestre Galo Preto, Dona Selma do Coco, Aurinha do Coco, tiveram que produzir músicas que tratassem do tema, contribuindo com a musicalidade da cultura popular para a diminuição das diversas formas de violência na Cidade. Este projeto inovador inclusive foi premiado e copiado por outras Secretarias de outros Estados do Brasil, gerando ainda um documentário com mesmo nome.



Seus cocos neste trabalho foram “Mané”, a faixa 10 e, “As Águas Do Mar Leva”, faixa 12, que teve como parceria Alexandre L’Omi L’Odò, que fez a música e o refrão, e Wilson Freire. Neste último, podemos ver parte da sensibilidade desta mestra que com simplicidade compunha e aumentava enriquecia nossa cultura:

“As águas do mar leva
Leva pro fundo domar
A violência contra a mulher
E contra a criança o mar vai levar (refrão).

A criança vem da mulher
E a mulher é pra se amar
A violência está muito grande
E a mulher ninguém vai maltratar

Estou dizendo isso agora
Com muita satisfação
Porque essa criatura
Mora dentro do meu coração

Esse coco minha gente
Não é pra ficar à toa
Esse coco minha gente
Interessa a qualquer pessoa

 
O enterro seguiu pelas ladeiras de Olinda acompanhado de muitoa amigos e amigas, parentes, artistas e curiosos.  

Seu enterro na tarde do dia 29 de Abril de 2011, teve muita gente acompanhando. Teve reza de terço do Apostolado da Oração da Igreja de Nossa Senhora do Guadalupe de Olinda, templo e apostolado que era integrante assídua. Em sua procissão, acompanhada por mais de 150 pessoas, com muitas coroas de flores de diversos órgãos do governo e da sociedade civil seguiu de ladeira acima para o Cemitério do Guadalupe. Os sinos da Igreja tocaram para ela... Vários artistas se fizeram presentes. Seguiu onde teve seu repouso eterno selado, na mesma terra que a recebeu quando nasceu com dois dentes - Olinda.

O Mestre Galo Preto em seu enterro me falou em tom triste: “Caiu mais uma raiz do coco e de nossa cultura popular”... Essa frase me levou a fazer este texto, que para marcar minha saudade e amor por esta mestra, quis deixar estas linhas para agradecer a ela que me ensinou e compartilhou alguns dias de sua vida animada comigo.

 
Mestre Galo Preto, Dona Célia e Arnaldo do Coco em apresentação do projeto Coquistas de Olinda Conta a Violência. Olinda - 2008. Foto de Laila Santana.

Obrigado Dona Célia, a senhora é inesquecível. Agora o Orun samba mais afinado e ritmado com sua presença. Seus filhos, irmãos, netos, bisnetos, amigos e admiradores sempre lhe respeitarão pela grande mãe que a senhora foi, sobre tudo pelo axé de amor que guardava dentro de seu peito enorme.

Axexê mojubá o!

Alexandre L’Omi L’Odò
10 de Maio de 2011.
Peixinhos – Olinda – PE.   
alexandrelomilodo@gmail.com

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Faleceu o histórico Pai Edú.

 Pai Edú em seu terreiro - Palácio de Yemanjá, no Alto da Sé em Olinda- PE. Foto de Alexandre L'Omi L'Odò.

Hoje Faleceu um dos maiores sacerdotes do Candomblé e Jurema do Brasil - Pai Edú.

Gente, hoje 04 de Maio 2011, pela manhã faleceu no hospital um dos maiores sacerdotes do Candomblé e Jurema do Brasil, o grande Pai Edú, conhecidíssimo no meio do povo de terreiro, quase uma lenda viva. Escreverei mais em breve sobre esta grande pessoa.

O velório será realizado hoje o dia e a noite toda no Mercado Eufrásio Barbosa em Olinda. O enterro será realizado nesta quinta feira no Cemitério do Guadalupe, também na cidade de Olinda, às 10h.

Aguardamos todo povo de terreiro e pessoas lá, para prestar a última homenágem a um dos ultimos grandes sacerdotes que lutaram de forma aguerrida pela valorização das religiões de matrizes africanas e indígenas.

Iyemojá Sesú, era seu Orixá... Hoje o mar o recebe pelos braços de Oyá.

Ajudem a divulgar estas informações.

Alexandre L'Omi L'Odò.
Iyawò de Oxum e Juremeiro.
alexandrelomilodo@gmail.com

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Mestre Galo Preto no Programa Som na Rural - "Nunca Fui Repentista de Rua"!

 
Mestre Galo Preto cantando com seu coral de ouro (Valéria, Jaene Jay e Mariana). Foto de Xirumba Amorim.

Mestre Galo Preto no Programa Som na Rural - "Nunca Fui Repentista de Rua"!

Convidado a participar da gravação do programa da TV Brasil, Som na Rural, o Mestre Galo Preto foi incitado a realizar uma de suas apresentações mais empolgantes e inéditas: cantar na praça; na Pracinha do Diário, no centro do Recife exatamente, local onde no passado se negou a cantar embolada e nunca o fez até a data de 26 de Janeiro de 2011, momento da gravação do Programa. 

Palco e templo de históricos cantadores de coco e embolada, como o Mestre Preto Limão, irmão sanguíneo de Galo Preto, Curió, seu outro irmão sanguíneo já falecido, de Pinto e Rouxinol, Treme Terra entre inúmeros outros. Esta Pracinha, foi transformada em local de "trabalho" onde estes antigos Mestres fizeram a cidade se adaptar a cultura que foi muito bem aceita em seu tempo pelos amantes da música tradicional da terra.
 
 Sambando e sapateando. Foto de Xirumba Amorim. 

Com a arte da cantoria de rua, muito tradicional até a década de 80 naquele local, os repentistas emboladores "disputavam talento" com poesia de altíssimo nível e rimas incríveis. Realizavam momentos que levavam o público ao deliro ao assistir verdadeiras batalhas de inteligência poética.

Mas..., o Mestre Galo Preto fez um caminho inverso ao dos seus irmãos cantadores, decidiu ser artista de palco, de rádio e de televisão, decisão essa que o levou aos mais altos níveis da mídia nacional, trazendo-o reconhecimento pela sua arte, arte esta que eu considero genética, tendo em vista que todos e todas de sua família tinham o dom da cantoria e da arte do improviso rimado. pois mesmo no sendo geneticista, consigo perceber que a tradição de sua família é muito própria deles.

Galo nunca quis cantar e "passar o pandeiro" para pedir dinheiro, segundo ele "eu tinha vergonha, não achava que àquilo fosse pra mim", mas sempre respeitou e admirou seus irmãos que seguiram esta carreira.

 Matéria do jornal Diário de Pernambuco - Recife, domingo, 14 de outubro de 1979. Caderno Gente. entrevista de Lêda Rivas.

Por ironia do destino, quem sabe, aos 75 anos de idade, cantou pela primeira vez em uma praça pública, a céu aberto com público o cercando para escutar o que em outrora foi naquele local motivo e ponto de parada para se ouvir a música dos pandeiros, do desafio de poesia, do coco, da embolada.

Não passou o pandeiro. Mas fez de fato uma linda apresentação em memória de todos os cantadores que por ali passaram. Falou isso na entrevista que concedeu ao Programa. O apresentador Roger de Renór, o entrevistou um dia antes dentro da Rural e no dia da gravação do show fez mais perguntas sobre a emoção dele em estar num local que no passado não o agradava... Daí o Mestre deu respostas emocionantes, que todos e todas puderam assistir na TV Brasil, entre os meses de junho e julho, acreditamos...

Público na Pracinha do Diário. Foto de Xirumba Amorim.

Público. Foto de Xirumba Amorim.

Ainda com a participação do coquista Zé Neguinho do Coco, o programa se propôs a realizar uma edição especial só sobre o coco e sua diversidade. Todo programa será pautado com entrevistas, falas e show. 

 
Zé Neguinho do Coco e Mestre Galo Preto. Foto de Alexandre L'Omi L'Odò.

 Zé Neguinho do Coco e a banda O Tronco da Jurema (do Mestre Galo Preto). Foto de Xirumba Amorim.

Eu, fui convidado pela produção da Rural, especialmente pela jornalista Alice Chitunda/Tila, responsável pelo núcleo de reportagem da Rural para ser um cicerone na entrevista à dona Ana Lúcia do Coco, do Alto do Sarapião, no Amaro Branco - Olinda. minha fala foi de pesquisador, que criou um roteiro sobre a história do coco no nordeste e sua migração ao litoral. Também foram pautadas as questões de gênero no coco, além da presença de mulheres protagonistas na cantoria desta cultura.

O Programa está rico em informações e musicalidade. De fato está imperdível esta produção local para a televisão mundial. O programa será transmitido a mais de 20 países e terá espaço na televisão nacional através da TV Brasil. Portanto, mesmo sem nunca ter tido cantado em uma praça, o Mestre Galo Preto realizou em sua carreira um sonho que no passado não foi aceito por ele, e que depois de tantos anos fincou seus pés como cantador de rua, colocando em seu vastíssimo currículo mais esta atividade histórica para ele e pra o coco. 

Mestre Galo Preto e O Tronco da Jurema. Foto de Xirumba Amorim.

E como em uma matéria do passado ele disse: "Nunca fui repentista de Rua", hoje esta afirmação está terminantemente quebrada para o bem desta tradição que a cada dia está mais escassa na nossa cidade. Agradecemos a Roger de Renór e toda sua produção pela oportunidade e reconhecimento da importância da música do coco para o Brasil/mundo. Obrigado Tila em especial.

 Roda de coco no final da gravação com os coquistas e reppers que estavam no local. Da esquerda para a direita: Adiel Luna, Zé Brown, Mestre Galo Preto, ..., Pinto e Zé Neguinho do Coco. Foto de Leandro Tavares.

Visitem o Facebook do Som na Rural:  


Alexandre L'Omi L'Odò
Produção do Mestre Galo Preto
alexandrelomilodo@gmail.com

domingo, 1 de maio de 2011

Hoje, a Festa da Lavadeira vai acontecer por que o povo quer!


 
Hoje, a Festa da Lavadeira vai acontecer por que o povo quer!

Pessoal, hoje é dia da Lavadeira, a Festa que agrega fundamental parte da cultura brasileira. e uma festa do sagrado, uma festa onde o interior do ser é contemplado pela energia pura da natureza, das divindades da Jurema, do Candomblé...

Vamos todos e todas nos irmanar com esse processo histórico de luta pela liberdade da cultura.

Simbora lutar e brincar! Fazer valer nossos direitos enquanto cidadãos, pois estamos vivendo uma ditadura com este caso da Festa da Lavadeira, e não vamos dormir com isso, pois a questão é muito séria e merece pós Festa, um fórum para fazer deste caso um marco na luta contra o racismo, intolerância religiosa ao povo negro de terreiro e índio, a cultura. Afinal, Pernambuco vive seu auge na política de copitação... Vamos nos unir!

Salve a Jurema Sagrada, Salve os Orixás, Salve Iyemojá a dona da Festa!

Alexandre L'Omi L'Odò.
Quilombo Cultural Malunguinho.
alexandrelomilodo@gmail.com

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Quilombo Cultural Malunguinho

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Entidade cultural da resistência negra pernambucana, luta e educação através da religião negra e indígena e da cultura afro-brasileira!