Registro do V Kipupa Malunguinho, 2010. Foto de Pedro Stoeckli Pires. Firmação de Jurema para o Reis do Catucá.
Termo Jurema ganha
verbete na Enciclopédia de Antropologia da USP
O
verbete é um gênero textual que se encontra comumente em dicionários,
glossários e enciclopédias. Sempre escrito de forma técnica, formal e
impessoal, oferecendo o maior número possível de significados e interpretações
de uma palavra e exemplifica seu uso em diversos contextos, situações. Sempre é
uma nota, ou comentário que foi registrado, apontado por algum pesquisador ou pesquisadora
com fins de trazer à luz do mundo letrado o significado aprofundado do que se
apresenta.
Assim
nasce o verbete “Jurema” da Enciclopédia de Antropologia da USP, trazendo um
texto mais acadêmico e qualificado, pretendendo fazer uma revisão dessa palavra
que existe em nossas terras antes da chegada dos colonizadores com seus padres
jesuítas cronistas e “antropólogos”.
Fui
citado nesse verbete como um dos historiadores contemporâneos a ressignificar o
termo a partir das Ciências da Religião, com a contribuição de minha
dissertação de mestrado intitulada Juremologia – uma busca etnográfica para
sistematização de princípios cosmológicos da Jurema Sagrada. Estando ao lado de
Vandezande, de Câmara Cascudo entre outros, sinto-me realizado com o resultado
de meus esforços como cientista e sacerdote juremeiro e do candomblé. Já está no
ar, através do link que coloca abaixo para visitação:
http://ea.fflch.usp.br/conceito/jurema
Abaixo
coloco o verbete completo para conferência e estudo. Aproveitem, compartilhem. Foi
feito com muito esmero e preocupação científica por Marcus Vinícius Barreto,
doutor em antropologia pela USP e pesquisador competente.
CONCEITO
Jurema
O
termo Jurema aparece em obras de Ciências Sociais e Humanas para designar
determinadas espécies vegetais do gênero Acácia, a exemplo da Mimosa
tenuiflora. Indica também a bebida psicoativa feita a partir dos
componentes desse mesmo vegetal, utilizada em rituais de comunidades indígenas
e naqueles que integram uma parte das religiões de matriz africana; nomeia,
ainda, os próprios rituais cujos participantes ingerem a bebida. No que
concerne à cosmovisão da Jurema, uma plêiade de símbolos está presente nos rituais
que apresentam modos bastante variados de composição. Em linhas gerais, a
bebida, a fumaça expelida dos cachimbos, o maracá e os cânticos são elementos
comuns a quase todas as cerimônias realizadas, seja nas comunidades indígenas
seja naquelas que constituem as religiões de matriz africana. Entre os
indígenas, os ritos permitem que xamãs estabeleçam comunicações com o mundo dos
Encantados. Já no universo afro – mais recorrente em centros urbanos – ,
o cerimonial possui algumas semelhanças com as chamadas “giras de Umbanda” e as
divindades que caracterizam o métier juremeiro são os mestres
e as mestras. Outra particularidade desse cosmos são os ritos iniciáticos por
meio dos quais os praticantes tem acesso às “cidades” da Jurema onde, conforme
os relatos nativos, o iniciado constrói sua relação com uma divindade,
adquirindo os conhecimentos adequados para realizar trabalhos de cura e
prevenir-se de infortúnios.
Embora
existam diferentes pontos de vista acerca das religiões juremeiras, em quase
todas as pesquisas sobre o tema, os estudiosos concordam que a Jurema abrange
um universo mítico-ritual de origem indígena, frequentemente presenciado na
região Nordeste do Brasil desde o período colonial. Na década de 1930, surgem
os primeiros escritos sobre o uso ritualístico da Jurema. Mário de Andrade
(1893-1945) e os técnicos da Missão de Pesquisas Folclóricas, dedicada a
inventariar manifestações culturais brasileiras, catalogam músicas que são
gravadas, transcritas e comentadas pelo escritor modernista, por exemplo
em Música de feitiçaria no Brasil, conferência de 1933. Por meio de
uma análise melódica das cantigas do “catimbó” – nome utilizado na época
para denominar o uso da jurema em rituais realizados nas cidades de Natal e
Recife – , o pesquisador chama a atenção para a função hipnótica da
musicalidade e destaca a presença de alguns símbolos em cerimônias como “os
mestres” e a “árvore da jurema”. Nesse mesmo período, o médico e folclorista
Gonçalves Fernandes (1909-1986) utiliza as noções de “mistura religiosa” e
“sincretismo” em suas obras, Xangôs do nordeste: investigações sobre os
cultos negro-fetichistas do Recife, 1937 e O folclore mágico do
nordeste, 1938, para falar sobre a prática do catimbó no contexto
recifense, estabelecendo contraposições entre os ritos catimbozeiros e o
universo do Xangô que, assim como o candomblé, seria o culto fidedigno a uma
origem africana na visão de certos intelectuais. Em 1945, em Imagens do
nordeste místico em branco e preto, o sociólogo francês Roger Bastide
(1898-1974) descreve um ritual de catimbó, ratificando a origem indígena da
Jurema e estabelecendo oposições entre essa prática e o candomblé da Bahia. Na
sequência, Câmara Cascudo (1898-1986), ao tornar públicos alguns de seus
escritos sobre folclore, como Meleagro (1978) e o Dicionário
do folclore brasileiro (1969), faz coro às ideias de Mário de Andrade
propondo uma antologia das manifestações culturais brasileiras e difundindo um
tema que ocupou lugar de destaque no pensamento social e nas Ciências Sociais
brasileiras: o mito das três raças. Nesse sentido, vê o catimbó como resultado
de confluências entre a bruxaria ibérica, a farmacopeia indígena da Jurema e a
musicalidade rítmica das macumbas bantu.
Até
os anos 1990, os pesquisadores pouco se debruçam sobre as religiões juremeiras.
Na primeira metade do século XX, alguns autores definem a Jurema em termos de
“magia”, “feitiçaria” e “baixo espiritismo” e as análises, de maneira geral,
resumem-se a breves descrições dos rituais. Algumas exceções merecem destaque,
lembremos, entre outros, o trabalho de René Vandezande (1930-2017), que
investiga o uso da Jurema em terreiros de Umbanda da Paraíba e, que, em Catimbó:
pesquisa exploratória sobre uma forma nordestina de religião mediúnica (1975),
descreve relatos que remontam à trajetória da família Acaes, de Alhandra,
salientando o modo como esses atores construíram uma tradição, até hoje
reverenciada na região Nordeste, em torno do uso da Jurema. Nos anos 2000,
surgem novas pesquisas sobre o tema; algumas colocam em relevo o horizonte
histórico, caso de Guilherme Medeiros que, em O uso ritual da Jurema
entre os indígenas do Brasil colonial e as dinâmicas das fronteiras territoriais
do nordeste no século XVIII (2006), analisa documentos coloniais,
afirmando ser possível aventar o uso da Jurema a partir do XVIII. Outras
pesquisas – como Toré e jurema: emblemas indígenas no nordeste do
Brasil (2008), de Rodrigo de Azeredo Grünewald acerca do uso da Jurema
pelos índios Atikum – voltam-se para as identidades étnicas construídas pelos
grupos indígenas do Nordeste que, almejando reivindicar o reconhecimento da
autoctonia perante o Estado brasileiro e conquistar direitos, lançam mão da Jurema
como símbolo de seu status de “povos tradicionais”.
Dos
anos 2010 em diante, a literatura acadêmica sobre o uso da Jurema se amplia,
dando lugar a construções narrativas inéditas. Em 2017, o juremeiro e fundador
do Quilombo Cultural Malunguinho em Pernambuco, Alexandre L’Omi
L’Odò defende a dissertação de mestrado Juremologia: uma busca
etnográfica para sistematização de princípios da cosmovisão da jurema sagrada,
por meio da qual constrói um relato sobre a tradição da Jurema do ponto de
vista de seus praticantes, conferindo visibilidade à figura de Malunguinho, que
é tanto o nome do líder do Quilombo do Catucá – construído e destruído na
primeira metade do século XIX – quanto o de uma divindade do panteão das
religiões juremeiras.
Como
citar este verbete:
BARRETO, Marcus Vinícius. 2019. "Jurema". In: Enciclopédia
de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de
Antropologia. Disponível em: <http://ea.fflch.usp.br/conceito/jurema>
ISSN:
2676-038X (online)
Referências
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Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com