quinta-feira, 28 de agosto de 2008

O SILÊNCIO DOS MESTRES. Sobre a destruição de um patrimônio em Alhandra

A História

Até meados do século XVII, toda história da Paraíba ocorreu ao sul da sua zona litorânea. Essa é, sobretudo, a história dos índios que lá habitavam e do contato destes com os colonizadores. Alhandra, antiga aldeia Arataguy, esteve diretamente ligada a esta história, tendo se tornado, em 1758, a primeira vila da capitania. Ao norte do referido município, está localizada a propriedade do Acais. Trata-se de uma das duas propriedades que pertenceram a tradicional família do último regente indígena do litoral sul da Paraíba, Inácio Gonçalves de Barros, pai da prestigiosa mestra Maria do Acais, falecida em 1937.

Contudo, quase um século após ter sido elevada à categoria de vila, Alhandra se manteve como aldeia indígena, como mostram documentos e diversos relatos da época, a exemplo do registro feito por Henry Koster¹, que por lá passou na primeira metade do séc. XIX. Os aldeamentos na região foram considerados oficialmente extintos em 1862. Trinta anos depois, contrariando os dados oficiais que proclamavam o desaparecimento dos índios, Joffily², em 1892, registrou a predominância do que chamou de “typo indígena puro”, que na Paraíba só seria encontrado na Bahia da Traição e em Alhandra.

O passado indígena, ao longo da história, foi perdendo suas referências. Parte desta memória, no entanto, foi mantida através do culto da jurema, fenômeno religioso, cuja complexidade vem desafiando historiadores e antropólogos. Para a comunidade de juremeiros de Pernambuco e Paraíba, Alhandra tem sido considerada o berço desta tradição. A propriedade do Acais, onde viveram os mestres descendentes do último regente dos índios da região, é considerada o símbolo maior do culto. Lócus de importantes estudos sobre o tema, a fazenda e seus moradores foram descritos, direta ou indiretamente, por nomes como Gonçalves Fernandes³, Roger Bastide[4], Arthur Ramos (5), além de pesquisadores mais recentes, como Vandezande (6), na década 1970, e Salles (7) nos ultimos anos.

O Lugar

O Acais é visitado freqüentemente por pesquisadores e religiosos, vindos de diversas partes do Brasil e até de outros países. A fazenda está localizada ao oeste de Alhandra, as margens da antiga estrada João Pessoa/Recife. Possui uma casa grande, um coreto e, na parte mais alta da fazenda, a capela de São João Batista. Por trás da capela, encontra-se uma escultura de um tronco de jurema, feita em concreto, na década de 1950, sobre o túmulo do mestre Flósculo, filho de Maria do Acais. Por trás da casa grande, vê-se uma das “cidades” da jurema mais antigas (consiste em um ou mais pés de jurema, considerados moradias dos antigos mestres), com aproximadamente um século de existência. No local, encontram-se raízes de antigas juremas, que são mantidas junto aos novos arbustos.

O silêncio

Nos últimos anos, após ficar desabitado, o Acais necessitou de reformas urgentes, tendo o coreto e parte da casa grande em ruínas. Com o falecimento da última proprietária, Maria das Dores, neta de Maria do Acais, os problemas aumentaram. A situação mobilizou pesquisadores, moradores da região e diversas entidades religiosas de João Pessoa e Recife (inclusive um deputado do PT de Pernambuco, que esteve na área acompanhado de vários juremeiros) empenhados na reforma e manutenção da propriedade. Neste mês de agosto, quando se revelou o novo proprietário da fazenda, com exceção da capela e o túmulo do mestre Flósculo, que estão localizados no lado oposto do resto da fazenda, separados pela estrada, o que restou da propriedade foi destruído, juntamente com os pés de jurema (as “cidades”) que lá existiam. O cenário é de devastação e indignação.

Outras Palavras

É possível reerguer a casa e o coreto a partir dos alicerces e parte do piso que foram mantidos, até mesmo reutilizando parte do material retirado das suas próprias ruínas (vale salientar que este pouco que restou deve-se à intervenção de pessoas de João Pessoa e Recife, que para lá se deslocaram assim que foram informados da destruição). Os pés de jurema e as raízes seculares estão sob os escombros de outras plantas, inclusive uma enorme mangueira, ambas derrubadas na mesma ocasião. Normalmente, ao lado dos antigos pés de jurema que compõem as cidades, e que com o tempo morrem, novos são plantados, garantindo, deste modo, a continuidade destes santuários. É possível, portanto, reconstruir, com a ajuda dos mestres locais, o santuário que lá existia. Uma vez recuperada a fazenda, ela deve finalmente receber os cuidados próprios de um patrimônio: placas informativas, segurança, manutenção, enfim, ser inserida em um projeto e uma discussão ampla, que inclua diversos setores da comunidade local, seus legítimos representantes, e que contribua com a implementação de uma educação patrimonial na região. Mas temos que agir rápido. Caso contrário, o Acais terá o mesmo destino de outros lugares considerados sagrados para os juremeiros de Alhandra, que, sob a omissão do Estado, desapareceram para dar lugar ao plantio da cana e outras lavouras.

Referências Bibliográficas
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¹ KOSTER, Henry. Viagens ao Nordeste do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1942.
² JOFFILY, Irenêo. Notas sobre a Parahyba. Rio de Janeiro: Tipografia do Jornal do Comércio, 1892.
³ FERNANDES, A. Gonsalves. O Folclore Mágico do Nordeste. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1938.
4 BASTIDE, Roger. Imagens do Nordeste Místico em Branco e Preto. Rio de Janeiro: Edições O Cruzeiro, 1945.
5 RAMOS, Artur. o Negro Brasileiro. Recife: Editora Massangana, 1988.
6 VANDESANDE, René. Catimbó. Dissertação apresentada ao P.I.M.E.S. do I.F.C.H da Universidade Federal de Pernambuco. Recife, 1975.
7 SALLES, Sandro Guimarãe de. À Sombra da Jurema: a tradição dos mestres juremeiros na Umbanda de Alhandra. AntHropológicas. Vol. 15 (1), p. 99-121, Ed. da UFPE, 2004.

Sandro Guimarães de Salles PPGA/UFPE























engajados na resolução deste equivoco sinistro histórico, junte-se a esta luta, salve a Jurema e sua História.
Quilombo Cultural Malunguinho, 173 anos Resistindo!


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