segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Reflexão Afro Teológica Sobre Críticas ao Ilé Iyemojá Ògúnté

Detalhe do bolo de Iyemojá. Foto de Joannah Luna. 2012.

Reflexão Afro Teológica Sobre Críticas ao Ilé Iyemojá Ògúnté


As vezes me pego pensando que a mal formação dos sacerdotes e sacerdotisas no culto aos Orixás deve-se em parte (fundamental creio) a pressa dos iniciados em ter terreiro aberto. Afinal, ter terreiro além de ser um símbolo forte de poder, garante sobrevida financeira a alguns e algumas... Daí acontece que muitos não dominam todos os rituais corretamente, cantam mal, não aprendem as invocações certas, não leem os odús certos, e fazem deste culto um emendado de coisas... Remendos... Aprendizados contínuos... Claro que todas e todos tem que começar algum dia, ninguém aprende tudo, afinal nossa religião ninguém a domina por completo... Mas me veio agora a dúvida: Será mesmo que pessoas novas de idade podem questionar fatos dos mais velhos sérios? De quem vem a raiz? De quem aprende-se? Oq se faz remendando coisas é parte ou não é parte de uma tradição forte viva e vibrante da qual se dá subsídios para os rituais nas diversas casas de culto até hoje? Como poder falar mal de de algo que não se conhece?

Eu mesmo como sou infimamente fraco na parte prática do culto (não que eu não saiba fazer ebó, invocação, falar yorùbá, pois estudo desde os meus 13 anos de idade e já dei muitos cursos, ler odú, e realizar os desejos dos Orixás, cantar etc.), observo, aprendo, avalio, critico intimamente e tiro oq de melhor haver para minha cultura... 
Jamais falo do que não sei, afinal, vivo aprendendo de muitas fontes exatamente para não correr o risco de um dia abrir um terreiro sem ter aprendido como deveria as coisas no axé. Não tenho pressa, Oxum que sabe oq fará comigo no futuro...

Porém, vejo muitos e muitas de nossa religião, tecerem comentários maldosos sobre o Ilé Iyemojá Ògúnté - Terreiro Nagô, casa de culto nagô, de onde faço parte com muito orgulho. Meu pai Paulo Braz e minha Mãe Lu, são pessoas íntegras demais. Pessoas que lutaram e ainda lutam para manter viva a tradição do nagô em PE. Muitos lutam também, mas ali naquela casa tem o sangue de Pai Adão e Malaquias seu filho, correndo nas veias de muitos, vivos e fortes, ensinando e reeducando da cosmovisão do axé a nossa tradição. Todos bebem daquela fonte. Quem tem menos de 50 anos de idade, ou até 60 anos mesmo, bebem dali, mesmo levando pra suas casas partes do que não conseguiram aprender por completo por falta de humildade e capacidade de aprender.Meu pai é um homem complexo. Sábio, velho, e que sabe estudar e não tem vergonha de aprender mais e mais. Ele é um exemplo de perseverança no axé. Mesmo tendo todos os ensinamentos de seu pai, ainda hoje ele pede agô pela sua ousadia de levar a frente a tradição nagô, pedindo sempre agô kolofé a todas e todos ancestrais por estudar e colocar em prática fundamentos perdidos pelo tempo.

Daí, pessoas falarem que a casa é uma confusão, que tem brigas em panela de Iyemojá, que a família não presta, que é muita doidisse, etc. etc. etc. Só me demonstra o quanto estes mais novos não aprenderam... O quanto eles pouco observaram a dinâmica do axé, o quanto estes não absorveram a tradição dos nossos ancestrais mais ilustres de forma correta. Falar da casa que é regida por Ogunté, é falar mal de si próprio. É falar mal daquilo que vc tem dentro de seu pejí... É falar mal de vc mesmo. É negar oq vc ganhou de presente pela luta destes que vieram muito antes de vc.

Morrerei defendendo que ali naquelas simples paredes, naquele pequeno terreiro sem pompa, naquelas simples pessoas de grande axé reside a tradição mais preservada de PE. Pois que os pesquisadores abram os olhos e procurem escrever certo as coisas e parem de fazer pesquisa de gabinete e parem também de entrevistar apenas um lado dos personagens desta história. Aprendam a fazer antropologia ampla e contemporânea. Pois o axé de nossa casa é forte e irradia saberes pra todas e todos. Saberes que com certeza morreram com poucos, que se aventuraram de encarar o vivenciar no axé de forma completa e íntegra. 

Fui aqui muito prolixo para falar de algo simples... Apenas quero dizer que respeite os cabelos brancos dos mais velhos que detém o axé de fato. E procurem falar melhor a língua dos Orixás, pois nossa religião não é apenas pedir por intercessão. Nós somos guardiões de uma memória africana que merece toda e irrestrita dedicação para se manter viva e conservada. Não podemos ser íntegros, dignos e inabaláveis em nossa ética se não aprendermos isso.

Axé e agô kolofé!
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Esta postagem foi feita primeiramente no meu facebook em 27 de dezembro de 2013 por motivos de provocar uma reflexão sobre críticas que o Ilé Iyemojá Ògúnté está sofrendo devido ao incidente ocorrido no ritual da Panela de Iyemojá, em 14/12/2013. Esta mesma postagem gerou grande polêmica nesta rede social e para registrar a coloquei aqui para que mais pessoas tenham acesso. Salve a fumaça e a consciência!

Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

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