sexta-feira, 7 de março de 2014

Reflexão sobre o patrimônio do carnaval do Recife – A cultura Popular

Registro do Bloco Bola Preta no Carnaval 2014 da Prefeitura do Recife. Foto: Alexandre L'Omi L'Odò.

Reflexão sobre o patrimônio do carnaval do Recife – A cultura Popular

Não detectei nenhuma política efetiva de preservação ou salva guarda do patrimônio material e imaterial de grupos que se apresentam todos os anos no desfile do Carnaval do Recife, como, agremiações, caboclinhos, ursos, bois, maracatus etc. que tem mais de 100 anos de existência como o bloco Vassourinhas e o Bola de Ouro entre inúmeros outros. É incrível ver a olhos nus o quanto é desprezada e desrespeitada nossa cultura. O Estado não se responsabiliza nem toma parte do que é de sua obrigação e ainda promove o racismo institucional de forma aberta na maior festa de nossa terra. Festa esta, que com a face e o colorido dos brincantes e fazedores da cultura popular, enchem os cofres públicos e privados de dinheiro do turismo, sem que este seja compartilhado de forma justa e equânime.

Roupas decadentes, alegorias entristecedoras... Pessoas sem auto-estima de desfilar... “Morgação total”. Tudo bem que são grupos privados, com CNPJ... Mas isso não significa que estes tenham que dar conta da tradição imaterial que mantém viva a duras penas por tantos anos... O Estado lucra com isso, e mais uma vez repito, esta grana tem que chegar às mãos dos grupos de verdade pra poder ajudar na manutenção caríssima de seus “brinquedos”.

Muitos idosos orgulhosos desfilando, provavelmente saudosos dos tempos de ouro do grande Carnaval... Mas hoje vestidos com trapos... Reaproveitando orquestras e grupos de dançarinos de frevo... Uma reciclagem amedrontadora, que sinaliza que temos poucos músicos/orquestras e dançarinos de frevo para compor os quadros destes grupos que funcionam nas periferias das cidades...

Cabe uma pesquisa de grande porte que traga números e orçamentos, que levante novas histórias e reescreva o que aparenta nos releases lidos pelos apresentadores algo estático e ultrapassado... Textos sem brilho... Antigos... Sem graça... O próprio quadro de funcionários é antigo... Não que isso os desqualifique, mas não estamos formando novas lideranças para dar conta deste espaço do Carnaval que é muito importante pra quem quer ver as agremiações de forma total.

Arquibancadas vazias... Horário esticado demais... Estrutura das piores... Tapumes sem pintura... Arquibancadas sem qualidade nem estética decente... Local perigoso e afastado dos grandes eventos... Tudo pra não favorecer a ida de turistas ao local. Que ainda é mal indicado (o local), pois podem haver assaltos entre outras coisas perigosas lá. A má iluminação também é um prejuízo imenso... Dá medo. Uma penumbra nos arredores da passarela que faz com que as pessoas saiam mais cedo do evento pra não correrem perigo de vida. Até que o som melhorou este ano. Já foi bem pior... Pelo menos ouvi bem os grupos de diversas partes do corredor dos desfiles.

Só vemos a comunidade presente neste evento. As comunidades que fazem o carnaval de verdade. Que confeccionam as roupas, que dançam, que brincam e que fazem viva e única esta grande festa. Vão para se verem. Para ver o trabalho que fizeram e, para competirem entre si por prêmios também não muito valorosos. Vejo esta situação quase como uma estratégia de afastar as periferias dos grandes pólos. Uma forma de deixar os pretos e pretas, os pobres longe dos lugares freqüentados pelos brancos com dinheiro...  Para bons leitores de símbolos, fica claro que aquele espaço é o local feito no Carnaval para o povo pobre e negro. Um lugar desvalorizado. Racista. Sem condições de comportar tamanhas riquezas culturais que merecem mais respeito e valorização.

Lá não há “mídia”. Não há visibilidade pública... Ninguém vai lá filmar e fotografar para jornais e noticiários.

Creio que os protestos que foram recorrentes no concurso dos passistas e do rei e rainha do carnaval do Recife, por parte dos brincantes, tenham importante impacto para uma possibilidade de mudança de mentalidade entorno de políticas públicas de valorização e preservação do patrimônio do Carnaval de Pernambuco. Tendo em vista, que os gestores, que como sempre estão com uma “cara de tacho” nestes espaços, viram com seus olhos a indignação do povo. O Prefeito do Recife saiu visitando os pólos por ai... Foi ver até o show do Mono Bloco... Mas pela arquibancada não apareceu. Por que terá sido isso? O que isso significa? Perguntas que são fáceis de responder, após ler este texto.

Temos um “Paço do Frevo” que custou milhões... Onde a Globo contribuiu na construção de forma decisiva, justamente para dominar este quinhão da cultura pernambucana. Um projeto construído quase sem pessoas daqui... Um projeto que desqualificou as pesquisas do povo daqui, que não valorizou ninguém daqui... Onde até (no Cais do Sertão) os eletricistas são de fora DAQUI... Toda esta “desatenção” com os DAQUI, acabou dando em resultados catastróficos, como o quase cemitério de estandartes onde as pessoas os pisam... Pisam em histórias vivas e outras extintas... Pisam naquilo que é de mais importante pra gente, pisam na nossa cara, na nossa moral, na nossa dignidade social... Tem gente at€ que acho lindo. Esteticamente é bonito sim, achei também, mas é feio e profundamente desrespeitoso com nossa história. Isso é resultado de pura falta de vivência com nossas tradições, deslanchando em um desrespeito terrível a estes patrimônios materiais – os estandartes.

Enfim, fico triste de ter que relatar estas coisas aqui. Sou um mero suplente do segmento de patrimônio e arquitetura do Conselho Municipal de Políticas Culturais de Recife. E tive que andar pela minha cidade para ser um dos olhos que puderam enxergar onde está o racismo – institucional ou não e, e a discriminação. Onde estão as estratégias de encurralamento do povo. Onde está a falta de respeito com as nossas tradições culturais. Saio do Carnaval 2014 com más impressões sobre as gestões públicas, tanto do Recife, quanto do Estado de Pernambuco. Os erros insistem em se manter. Não há pelo menos uma tentativa de melhorar o que está errado... Isso é um mau sinal para um ano eleitoral. Temos diversos documentos produzidos em conferências de cultura, tanto municipais, estaduais e federais. Não é possível que estes gestores desrespeitosos não leiam nada do que nós, o povo, contribuímos e produzimos para melhorar nosso convívio cultural.

Como não seria possível abordar todo o tema Carnaval e gestão, esta minha abordagem e visão é parte de algumas andanças em outros ambientes também, como pólos descentralizados nas comunidades, Marco Zero, Arsenal, Pólos de Olinda etc. Mas em suma, juntando isso aos relatos dos irmãos artistas que ocuparam outros espaços, vejo que estamos em consenso pleno sobre esta situação grave de racismo institucional.

Salve a fumaça da Jurema.

Alexandre L’Omi L’Odò
Quilombo Cultural Malunguinho

2 comentários:

Rodrigo Correia disse...

Lomi, meu velho você falou e disse. O carnaval do Recife está sendo elitizado está se tornando apenas para os turistas verem e ver o que a elite quer é preciso também uma reação por parte do povão, pois enquanto ficar aceitando calando as migalhas, eles vão continuar pisando até esmagar que faz o verdadeiro carnaval.

Ricardo Nunes disse...

Parabéns Alexandre pela personalidade firme em discutir uma temática que que precisa avançar sobre todos os aspectos que vç pontuou , inclusive sobre o preconceito institucional. temos o exemplo do maracatú rural,uma das mais belas manifestaçoes da nossa cultura, aplaudido e reverenciado aplaudido pelo prefeito e gonvernador, e quando essa pessoas tiram suas fantasias , os josés e as marias do maracatú . não se reconhecem como valor cultural, pois quem recebe as reverencias saõ as fantasia.as pessoas que vestem e que representam a cultura da resistencia. essas não se reconhecem nesse contexto de valor cultural.vale fazer uma reflexão mais aprofundada e se discutir uma politica de reconhecimento e respeito aos que fazem um carnaval que representa historia e tradição.salve.

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