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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Querem nos levar ao caos teológico!

 
Juarez, integrante do QCM. Em sua fala no VI Kipupa Malunguinho sua emoção estava a flor da pele. Fé na Jurema. Foto de Laila Santana. 

Querem nos levar ao caos teológico!
Sou de uma religião complexa. Mas, as pessoas que a compõem, formam um quadro de maior complexidade que a própria religião. Portanto: Paradoxo mesmo é aceitar calado os abusos sem tornar mais complexa ainda toda situação que a circunda.

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Ao que me parece, o formato do pensamento do povo de terreiro de Pernambuco anda meio confuso em relação a sua teologia e lógica histórica cultural. Hoje, ouvi da boca de um homem de terreiro que a tradição teológica de nossa religião é feita de individualidades e “que cada terreiro tem sua forma, seu método, sua maneira de fazer as coisas”. Isso me chocou, assumo...

Quando alguém afirma algo deste porte, ainda redundando dizendo que todo caminho leva à mesma coisa (no caso de que qualquer ritual pode ser feito da maneira que for que surtirá o mesmo efeito para o Orixá ou para as divindades e entidades da Jurema), ainda aludindo a clássica popular “todo caminho leva à Deus”, podemos identificar uma situação crítica na identidade e tradição das religiões de terreiro.

A tradição oral é sim uma “faca de dois gumes”! Isso se prova no pensamento revelado acima. Afinal, podemos mesmo fazer qualquer coisa dentro de nossos terreiros? Podemos mesmo afirmar que “eu fiz desse jeito e deu certo, então tá certo”? Ou temos uma tradição que tem uma lógica antiga que rege a liturgia e o formato sagrado de fazer as coisas, ensinada oralmente pelos nossos mais velhos?

Enfim, as religiões de terreiro são jogadas ao descaso do imaginário, viagem, entendimento livre de qualquer um?

Estes questionamentos faço por perceber que o ego individual de cada um tem feito dos mal iniciados e formados, e, esvaziados teologicamente uma máxima na recriação esvaziada da tradição.

Isso se prova na prática do Iaô-Deká, Bori de Caboclo, entre outras aberrações...

Tem muito cacique para pouco índio! São muitos maus discipulados. São muitos os que acreditam piamente que não existe limite na prática religiosa. Acreditam de fato que a religião é um jogo infantil onde qualquer coisa que dê certo por qualquer motivo, em sua concepção é o correto ou verdadeiro para seu Orixá ou entidade de Jurema.

Isso é um absurdo!

Infelizmente nossos mais velhos não se dão a estas discussões como gostaríamos, mas no fundo, todos eles reprovam essas práticas de extermínio da memória ritual do povo de terreiro, conseqüentemente de seu patrimônio imaterial. Devemos refletir mais sobre nós mesmo. Colocações e concepções como as exposta aqui para análise, são formas aprofundadas do pensamento coletivo do povo de terreiro, influenciados pelo pensamento pós moderno das religiões no ocidente capitalista que vivemos e nos enjaulamos.

Povo de terreiro acorde! Respeitem aqueles que por nós lutaram e morreram. Respeitem as tradições. Essa estória de que “as coisas são ao meu modo”, fica para a relação familiar individual de cada um, não para uma religião que tem uma teologia profunda e complexa, onde seus rituais são regidos por odús e métodos ancestrais. Acordem. Muita coisa já se deformou, temos que salvar o que resta daquilo que foi pensado para a preservação e recriação da África mítica e da terra livre indígena brasileira. Somos uma sociedade alternativa em meio ao mundo cristão americano, portanto, temos que nos colocar no lugar que foi criado por aqueles que tiveram estratégia de sobrevivência de sucesso, os nossos ancestrais negros e negras e indígenas.

Ainda, o que percebo é que as questões de política e meio social, tem interferido de forma danosa aos terreiros e suas práticas. É ruim demais ver um dito sacerdote afirmar com veemência coisas tão depreciativas e que vão de contra a toda lógica da religião de matriz africana e indígena.

Assim como sempre afirma o teólogo afro professor Jayro Pereira de Jesus: “o povo de terreiro tem fome de cidadania, portanto, é massa fácil de manobra na mão dos que querem” nos levar ao caos teológico.

Portanto, falar de minha religião, lucubrar, discutir, fomentar debates, questionar, provocar, pesquisar e ser combativo aos equívocos que por ventura venha a perceber faz parte de minha fé. Minha fé também é tornar complexo tudo que circunda nossa religião. Religião que para quem adentra com o coração, espírito e consciência, nunca desiste de salvar. Por isso postei a foto de nosso querido enviado de Malunguinho, o Juarez, nosso guia da mata. Assim como ele, minha fé também está a flor da pele.

Agô, agô, agô! Ficar calado é covardia e falta de respeito e amor por minha religião/religiosidade!
 Salve a fumaça! 
 
Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

Quilombo Cultural Malunguinho

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Entidade cultural da resistência negra pernambucana, luta e educação através da religião negra e indígena e da cultura afro-brasileira!