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quarta-feira, 14 de setembro de 2011

"O que significa Kipupa Malunguinho?" - Resposta.

Dois Malunguinhos incorporados se confraternizando. Esse é o espírito do Kipupa. V Kipupa Malunguinho 2010. Foto de Laila Santana.

"O que significa Kipupa Malunguinho?"

 "O que significa Kipupa Malunguinho?". Por essa pergunta ser muito frequente, decidi postar esse texto para sanar todas as dúvidas sobre os termos em línguas africanas e sobre esse evento religioso e cultural que acontece em matas fechadas ao som da percussão da Jurema Sagrada. Boa leitura.

Para ser logo direto, Kipupa significa união, agregação de pessoas, associação de indivíduos em prol de algum objetivo. Este termo também dá nome a uma localidade no Parque Nacional De l'Upemba (reserva de floresta tropical), próxima a cidade de Bukama, na antiga província de Katanga ao sul da República Democrática do Congo, no centro-oeste da África, que se formou pela agregação de refugiados da guerra civil para formarem um gigante quilombo de esperança e reconstrução de sua liberdade e identidade.

Observar no mapa, logo abaixo de Katanga o Lac Upemba, ao sul do país, proximidades do Parque Nacional De l'Upemba.


Em vermelho a indicação do Google Maps na cidade Kipupa, na extensa área de preservação do Parque Nacional De l'Upemba.


Malunguinho, vem do vocábulo Malungo que significa camarada, amigo, companheiro de bordo e de lutas. Estas duas palavras são pertencentes ao tronco lingüístico Kimbundo, língua falada em Angola, país de que vieram estes negros guerreiros. Malunguinho é o título dado aos líderes quilombolas pernambucanos que no século XIX fizeram ferver o Estado, em especial em toda Mata Norte, na luta por liberdade, reforma agrária e seus direitos. Este nome também é dado à Divindade patrona do culto da Jurema Sagrada, o Rei Malunguinho, que é caboclo, mestre e trunqueiro (Exú de jurema), tendo função essencial nessa religião de matriz indígena, praticada em especial no nordeste do Brasil.

Kipupa Malunguinho, portanto, significa a agregação de pessoas em torno dessa divindade e personágem da história negra e indígena de Pernambuco. Uma reunião de pensamentos em prol do fortalecimento e reconhecimento para a memória de nossos ancestrais que lutaram por nossa liberdade e pela perpetuação das tradições religiosas que herdamos.


Essa festa nasceu em 2006 do anseio do Quilombo Cultural Malunguinho, e da idéia de Alexandre L'Omi L'Odò (Eu. E quem pesquisou, pensou e deu o nome) e João Monteiro, em "resgatar" e dar visibilidade a nossas lideranças históricas negras/indígenas negadas pela historiografia oficial, a exemplo do líder negro Malunguinho e tantos outros, destacando o papel de Pernambuco nas lutas e resistência negra no Brasil. Determinamos o mês de Setembro para realização anual do evento em homenagem ao último líder do Quilombo do Catucá, o João Batista que teve sua data de morte comprovada a partir de documentos existentes no Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano. Foi em 18 de setembro de 1835, oficialmente informada sua morte.

Também, graças as pesquisas do PhD. historiador Marcus J. M. de Carvalho, em especial ao seu importantíssimo livro e tese "Liberdade, rotinas e rupturas do escravismo - Recife, 1822-1850", publicado em 1998 pela Ed. Universitária da UFPE, que nos inspiramos para a escolha do local onde a festa deveria acontecer - nas matas do Engenho Pitanga II, atual Abreu e Lima, que no passado chamava-se Maricota em PE. Essa localidade foi um dos pontos mais importantes de resistência do Quilombo do Catucá, que se estendia por toda Mata Norte do Estado, chegando até a cidadezinha de Alhandra, hoje na Paraíba. Também, local do assassinato em emboscada cruel desse último líder quilombola. 

Em 2007, nossa articulação, conseguiu aprovar a lei 13.298/07, a Lei Estadual da Vivência e Prática da Cultura Afro Pernambucana, a Lei Malunguinho, idealizada pelo Quilombo Cultural Malunguinho com diversas outras entidades dos movimentos negros e culturais e, apresentada e aprovada pelo Deputado Isaltino Nascimento do PT, que institui no calendário oficial do Estado uma semana para atividades relacionadas à Maluguinho e a cultura que o cerca, em especial a Jurema.

A partir da realização do I° Kipupa Malunguinho, ocorrido em setembro de 2006, um calendário permanente para comemorações e homenagens às lideranças negras históricas, foi fundando. 


A tradição do coco do Catucá, com a integração de diversos sacerdotes e sacerdotisas da Jurema e do candomblé, artistas, pesquisadores, políticos e estudiosos da cultura e das ciências humanas, além da comunidade onde acontece o vento, deu um novo fôlego aos movimentos, articulando inúmeras pessoas para pensar e vivenciar a cultura afro indígena pernambucana, com enfoque na valorização histórica desses personágens e divindades.

Zé de Teté e Mestre Galo Preto, cantando juntos coco no V Kipupa Malunguinho, 2010. Foto de Laila Santana.

O coco, como rítmo, música e dança forte em todo o nordeste, e também referência como rítmo sagrado no culto da Jurema, tem papel fundamental em todo esse processo. É o coco que anima a festa, que faz todos celebrar, que ajuda a todas e todos a vivenciar essas memórias e ideologias.

Assim, o objetivo do evento é manter viva a memória e história, além do imaginário que cerca toda essa cultura, construindo o sentimento de pertencimento e reconhecimento nacional a estes líderes negros e indígenas, através das discussões de temáticas sócios- educacionais,  culturais e religiosas, com a participação de toda comunidade, em especial os mestres e mestras da cultura tradicional e popular, pesquisadores (da academia ou não) e interessados, materializando em matas fechadas do antigo quilombo de Malunguinho uma possibilidade de imersão na experiência do corpo e espírito, através de debate, ritual (liturgia da Jurema) e o grande coco sagrado da mata, com mestres de renome como Mestre Galo Preto, Mestra Eliza do Coco, Mestre Ze de Teté, entre outros que tem na tradição cotidiana o contato com nossas matrizes fundadoras da identidade nacional.

Todo o evento é para homenagear e reconhecer Malunguinho, líder negro que elevou-se à divindade na Jurema Sagrada.

O Kipupa Malunguinho, Coco na Mata do Catucá é uma festa/evento única no gênero. Nele o participante poderá conhecer parte de nossa história que não está nas escolas nem nos livros. Poderá brincar e vivenciar coletivamente a experiência de adentrar nas tradições menos acessíveis ao público, por serem na maioria religiosas/culturais.

Todo roteiro da festa é feito para poder-se experienciar a vida daqueles negros e negras que ali (matas do engenho Pitanga II- Abreu e lima - Catucá) lutaram, viveram e morreram.


Hoje, após seis anos de realização da Festa, o Kipupa virou o encontro nacional dos juremeiros e juremeiras, trazendo gente de diversas partes do país para entrar nas matas sagradas. 

Entrada dos Juremeiros e Juremeiras na mata sagrada. V Kipupa Malunguinho, 2010. Foto de Laila Santana.

Quem quiser ver fotos e muito mais sobre o Kipupa Malunguinho e, saber informações sobre nossa entidade, entre em: 



Alexandre L'Omi L'Odò.
Quilombo Cultural Malunguinho
Coordenação
alexandrelomilodo@gmail.com

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Fontes:

Cultural Atlas of Africa. Andromeda Oxford Limited. 2004 The Brown Reference Group plc. (incorporating Andromeda Oxford Limited). 2007, Ediciones Folio, S. A. Rambla de Catalunya, 135, 08008 Barcelona.

Quintão, José Luiz. Gramática de Kimbundo. 1° Edição: 1934. Edições "Descobrimento".

Carvalho, Marcus J. M. de. Liberdade: rotinas e rupturas do escravismo no Recife. Ed. Universitária da UFPE, 1998.

Salles, Sandro Guimarães de. À sombra da Jurema encantada: mestres juremeiros na umbanda de Alhandra. Recife. Ed. Universitária da UFPE, 2010.

Quilombo Cultural Malunguinho

Quilombo Cultural Malunguinho
Entidade cultural da resistência negra pernambucana, luta e educação através da religião negra e indígena e da cultura afro-brasileira!