Espaço internacional de discussão e troca de saberes. Local para estreitar nossas negras discussões e lucubrações sobre a Música Percussiva (Yorùbá/afro-descendente e nordestina) e as religiões das matrizes indígenas e africanas, além de todo o seu imaginário histórico, social, cultural e pedagógico. Local de exposição de vivências práticas com a religião negra!!!
Não havia data melhor. Em plena semana da Consciência Negra, a teledramaturgia global reafirma, mais uma vez, a pura reprodução de imagens, palavras e ideais racistas em horário nobre.
Ao elencar a atriz negra Thaís Araújo para protagonista de sua novela das nove, a TV Globo, através de seu funcionário Manoel Carlos, parecia querer responder ao Estatuto da Igualdade Racial idealizado pelo movimento negro que não seria necessário estabelecer cotas para atrizes e atores negros; bem, parece não ter sido à toa que justamente no momento de uma decisão histórica quanto ao conteúdo do referido Estatuto, a Globo tenha lançado ao ar duas novelas com protagonistas negras, atrizes que inclusive têm uma postura racial condizente às suas trajetórias, como são Thaís Araújo e Camila Pitanga. Nas entrelinhas, previa-se uma forjada justificativa à sociedade das "desnecessárias" cotas raciais para os meios de comunicação, já que este espaço vem sendo ocupado pelo núcleo negro da Globo. Convenhamos, uma jogada de mestre; assim, evita-se o "mal maior" para a Consciência Branca do comando global, que é obedecer a lei e fazer cumprir os direitos da pessoa, da população e dos povos negros.
Pois então que nesta semana, no capítulo que foi ao ar na noite do 17 de novembro, com precisão cirúrgica o autor desenhou a cena mais representativa possível da ópera racista contra o verdadeiro protagonismo negro. A suposta protagonista da novela, a personagem de Helena, após ser retirada de seu núcleo familiar negro para transitar exclusivamente num núcleo branco e assim ser sujeita a traições e humilhações, é posta de joelhos diante de uma de suas antagonistas brancas - já que, para uma negra, não basta uma só antagonista, devendo vir elas em número de três: a amante do marido, a filha mimada e infantilizada do marido e a ex-mulher do marido. Não apenas de joelhos, deve pedir perdão de cabeça baixa; não apenas de cabeça baixa, sob o olhar duro e inflexível de sua então dominadora; não apenas isso, como se já não fosse o bastante, deve pedir perdão e ter por resposta uma bofetada no rosto. Para finalizar a cena, a personagem desabafa com uma das melhores amigas que "devia ser assim".
A idéia de protagonista negra, na Globo, enfim foi definida claramente. Uma heroína que, se inicialmente surgia diante de um drama familiar, afirmando um núcleo negro protagonista, como âncora, marco e raiz, veio sendo reduzida dramaturgicamente a pobre vítima de suas três antagonistas brancas, tendo estas enfim recebido mais espaço de visibilidade que a suposta protagonista. O papel, de central, tornou-se periférico, apoio para a virada de jogo das outras atrizes, que passam a receber os aplausos da população e das "críticas" noveleiras de plantão, prontas para limar a atriz negra por seu papel "sem graça".
Ou talvez, pensa o autor que pode salvar o papel de Helena pondo-a no lugar em que acha pertencer à mulher negra. Agora sim, a Globo assinou embaixo de suas verdadeiras posturas ideológicas - mais diretamente, de seu racismo.
Rebeca Oliveira Duarte
Advogada e Cientista Política do Observatório Negro
"Não me digas que não podes; querendo Deus e dando-te coragem, poderás." (Sócrates, em Platão, "Teeteto")
Rebeca Oliveira Duarte Observatório Negro Rua do Sossego, 253 - sala 02 - Boa Vista Recife-PE - CEP 50.050-080 F: 00 55 81 34231627/94211435 observatorionegro@gmail.com _________________________
Publico aqui o texto da companheira Rebeca Oliveira do Observatório Negro de PE. De fato se faz necessário uma avaliação crítica dos conteúdos que as emissoras de televisão fazem em suas programações. Um fato detes deve ser levado ao conhecimento público, pois o racismo sempre aparece nestas novelas acredito eu por patrocínio de racistas que utilizam o meio para efetivarem seus crimes.
Vamos discutiondo e ficar antenado é o melhor a se fazer nestes dias de "Consciência Negra"!!!
O documentário Festa da Lavadeira - Sou do Povo, Sou a Festa - lançado na Casa da Rabeca do Brasil em Olinda (PE) -, mostra como uma manifestação que começou como uma brincadeira entre familiares e amigos se tornou patrimônio cultural de Pernambuco. A festa reúne cerca de 60 mil pessoas todos os anos e já faz parte do calendário turístico do estado. Acontece desde 1987, no dia 1° de maio .
O vídeo traz depoimentos de moradores da comunidade pesqueira da Região do Paiva e, ainda, personalidades, como o ator e presidente da Fundação Nacional de Artes (Funarte), Sérgio Mamberti, o deputado federal Fernando Ferro, e a pesquisadora Rúbia Lossio, entre outros. Além de englobar todos os aspectos tradicionais e religiosos dessa manifestação cultural, o documentário também ressalta e justifica a importância de se preservar e valorizar as culturas populares.
Realizado com o patrocínio da Secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural do Ministério da Cultura (SID/MinC), por meio do Fundo Nacional de Cultura (FNC), tem roteiro de Amin Stepple, direção de Teta Barbosa e direção executiva de Mário Rios.
Considerada uma das festas mais populares de Pernambuco, a Festa da Lavadeira foi um dos selecionados do Prêmio Culturas Populares 2007 - Edição Mestre Duda - 100 Anos de Frevo desenvolvido pela SID/MinC. Também foi reconhecida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan/MinC) como o melhor projeto da Região Nordeste para a divulgação e difusão da Cultura Popular.
*Esta festa é um patrimônio de Pernambuco, nunca poderá acabar por causa do racismo e do preconceito com as nossas tradições. Peço aqui que o poder público brasileiro se coloque frente na defesa de nosso patrimônio cultural, pois se faz injustificável qualquer interferência ou impedição na realização desta Festa, que é a maior festa da cultura popular do mundo.
Amigos, é com enorme prazer que anexamos o convite da PASSEATA DA VITÓRIA, concernente ao TOMBAMENTO DO SÍTIO DO ACAÍS, Alhandra/PB, que será realizada no próximo dia 15 de novembro, com a saída do onibus prevista para 08 hs, da Praça do Coqueiral.
Só nos resta agradecer o Governador da Paraíba, Dr. José Tarjino Maranhão e o Diretor do IPHAEP, Prof. Damião Ramos Cavalcanti, que tornaram um grande sonho denominado ACAIS em realidade.
Esse sonho não pertence à Sociedade Yorubana Teológica de Cultura Afro-Brasileira, mas de todos aqueles que se manifestaram e lutaram em prol do tombamento.
Atenciosamente, Eduardo Fonseca Jr. & Joseane Garcia Abrahao
Candomblé à Francesa segunda-feira, 9 de novembro de 2009por Jefferson Loyola
O candomblé tem raízes milenares e chegou ao Brasil pelas mãos dos escravos vindos da África, trazidos pelos portugueses.
Naquela época, o candomblé foi proibido e até 1946 foi considerado crime.
Para continuarem cultuando sua religião no Brasil, os escravos tiveram que usar o sincretismo dos orixás (guardião de cada existência humana) com os santos católicos, colocando no mesmo altar Ogum e São Jorge, Oxum e Nossa Senhora da Conceição e Nossa Senhora Aparecida, Oxossi e São Sebastião, entre outros.
Durante todo esse tempo, só sabiam dos ritos que ocorriam dentro do Candomblé as pessoas que o freqüentavam, o que acabava gerando inúmeros mitos sobre o que acontecia dentro dele.
Os rituais religiosos eram passados de Babalorixás (Pais de Santo) ou Iyalorixás (Mães de Santo) para os filhos que frequentavam o Ilê (casa de santo ou terreiro).
Porém, as coisas foram evoluindo e a maneira de se passar tradições religiosas mudaram, coisas que eram passadas apenas oralmente de pai para filho, agora também são passados a partir da escrita e do audiovisual.
Um grande exemplo disso é a escritora e Iyalorixá Giséle Omindarewá Crossard, 87 anos, que publicou vários livros divulgando a religião afro-brasileira, como “Awô: O Mistério dos Orixás”.
Publicado em 2007 pela editora Pallas, suas 216 páginas relatam os mitos e lendas dos orixás, os rituais sagrados dentro do ronkó (quarto de santo onde se recolhem as pessoas para obrigações de tempo de santo ou iniciação) e outros detalhes desta religião que para muitos ainda é um mistério e que por isso é alvo de muitos preconceitos.
Primeira estrangeira a se tornar mãe de Santo no Brasil, sua trajetória se iniciou no final dos anos 60.
Na época esposa de um embaixador francês, ela foi a uma festa de candomblé a convite de sua empregada, em Duque de Caxias.
Era dia 5 de dezembro de 1959 e na noite anterior o terreiro fizera uma festa em homenagem a Oyá (orixá feminino, dominadora dos raios, ventos e tempestades).
Giséle era católica e não tinha nenhuma ligação com a cultura africana, mas desde o momento que entrou naquele lugar soube que dali para frente sua vida seria diferente.
“Quando os ogãs tocaram para Yemanjá, eu me senti estranha e fui parar no chão, sem consciência”, conta ela em entrevista por e-mail.
Bolada
Giséle havia “bolado no santo” (quando um determinado orixá escolhe e mostra para todos os presentes que você está sendo indicada para ser iniciada). “No início resisti, mas, após constantes dores de cabeça, acabei cedendo”, lembra. Assim, ela foi iniciada no santo pelo famoso Babalorixá Joãozinho da Gomeia.
Após 21 dias de recolhimento dentro do ronkó, nasceu para outra vida e dentro da casa de santo deixou de ser conhecida como Giséle para ser chamada por sua digina (nome dado à pessoa quando se inicia para o santo): Omindarewá, que significa “água límpida”.
Giséle se separou, passou uma temporada na França e em 1972 voltou para trabalhar como conselheira pedagógica do Serviço Cultural Francês.
Quando voltou, Joãozinho já havia falecido há um ano e a ex-embaixadora estava decidida a manter-se afastada do santo.
Entretanto, sofreu um grave acidente de carro e foi levada pelo antropólogo Pierre Fatumbi Verger, igualmente francês e ligado ao santo, à casa do babalorixá Balbino Daniel de Paula, que se propôs a ajudá-la.
Onze dias depois do acidente, era aniversário de seu santo e ele fez questão de preparar oferendas a Yemanjá – seu santo de cabeça.
Mesmo sem poder se mexer, o orixá veio e dançou em seu corpo, deixando Balbino encantado por seu santo. Ela acabou dando continuidade de sua vida de santo com Balbino de Xangô e hoje tem uma casa de santo chamada “Ilé Àsé Ìyá Atara Magba”, na Rua Almirante Tamandaré, nº 8, Parque Eqüitativa, localizado em Santa Cruz da Serra.
Michel Dion lançou um livro falando sobre ela, também da editora Pallas, que se chama “Omindarewá: Uma francesa no candomblé”. E este ano estreou o filme "Giséle Omindarewá", na Maison de France (RJ), um evento inserido nos festejos do ano da França no Brasil.
___________________ *Publico aqui esta matéria enviada para meu email por minha amiga iyá Iane, sacerdotisa de Oyá de Macaé-RJ. Recomendo à todas e todos acistirem o filme. Ele tem uma qualidade grandiosa e coloca uma discussão em pauta: O candomblé é uma religião livre literalmente!
Elizabeth de França Ferreira, a inesquecível Mãe Betinha para todo o seu povo, nasceu em 29.11.1909. Há cem anos, a cultura afrodescendente brasileira ganhou um nome de força comparável apenas à das águas de Iemanjá Sabá que lhe guiavam os passos. O Pólo de Saúde e Saberes Afro Brasil lança o projeto Memorial Mãe Betinha, para que este grande exemplo continue vencendo o tempo e perpetuando os seus ensinamentos. O Memorial Mãe Betinha, Elizabeth de França Ferreira, é um projeto do Pólo Nacional de Saúde e Saberes Afro Brasil, que tem como metas, estimular e apoiar as comunidades terreiro no desenvolvimento de atividades ligadas à saúde e cidadania em seu entorno social.
O Memorial Mãe Betinha se integra às demais atividades desenvolvidas pelo Pólo na valorização de um personagem de grande importância em diversas esferas. Para o Candomblé, Mãe Betinha representou a resistência da religião à intolerância no período do Estado Novo e a preservação de um formato de culto de origem iorubana, o xangô recifense ou nagô em sessenta e cinco anos de sacerdócio. Em sua atuação à frente da comunidade do Ilê Axé Yemanjá Sabá Bassamí, Mãe Betinha representou liderança, consciência e força na defesa dos direitos e da posição da mulher na sociedade. Seu exemplo ainda vai além da esfera religiosa, quando trouxe para um dos bairros mais populosos e carentes da Região Metropolitana do Recife, olhares nacionais e internacionais que transformaram o seu terreiro em uma reconhecida fonte do saber popular.
O Memorial contará com exposição permanente de fotografias, vídeos e objetos que ilustrem a figura da yalorixá Betinha de Yemanjá Sabá e sua tradição. O acervo será construído a partir da disponibilização de material por familiares, amigos, descendentes na religião e pesquisadores que a tomaram como referência. A estrutura física cedida para o Memorial será o antigo local reservado por Mãe Betinha para atender e aconselhar os que lhe procuravam. O espaço foi preservado em suas características básicas, mesmo após o fechamento do terreiro, decorrente do falecimento da sua zeladora.
A inauguração do Memorial será realizada no dia 29.11.2009, em comemoração pelo centenário de Mãe Betinha. O local ficará aberto para visitas individuais ou em grupo de segunda a sexta-feira, das 9h às 16h, mediante agendamento, nos dias de funcionamento do Pólo Afro Brasil e das atividades religiosas públicas do terreiro.
A inauguração do Memorial contará com a presença de autoridades, pesquisadores, lideranças sociais e religiosas, familiares e descendentes do axé de Elizabeth de França Ferreira, além da comunidade que cresceu ao redor do terreiro que conta aproximadamente 70 anos de história. Neste dia serão promovidas palestras sobre a história de Mãe Betinha e sua atuação na valorização e preservação da identidade afro-descendente em 70 anos de sacerdócio, debates sobre a luta histórica contra a intolerância racial e religiosa, exibição do premiado vídeo As Yalorixás do Recife, que reúne mulheres ícones da cultura negra recifense desde o século XIX, apresentações do Afoxé Omim Sabá, do Projeto Capoeira São Salomão, feira de arte, literária e coquetel aos convidados. Após os debates e coroando o evento, acontecerá a Festa de Iemanjá do Ilê Iyá Axé Ogê L´Awô, dentro da tradição Ketu, que sucedeu o Ilê Axé Yemanjá Abassami, do qual Mãe Betinha foi sacerdotisa.
O CD Korin Orixá foi dedicado á Mãe Betinha, sacerdotisa do Maestro professor da UFPE José Amaro. Valhe a pena adiquirir o produto, pois enle estão os cãnticos mais tradicionais do terreiro da Iyá Betinha de Iyemojá sesú.
Texto original do blog: http://povodoaxe.blogspot.com/2009/11/mae-betinha-elizabeth-de-franca.html
Nós do Quilombo Cultural Malunguinho convidamos todos e todas Juremeiros e Juremeiras para estarem em nossa concentração na Rua da Guia, Recife Antigo às 14h. Para podermos organizar nosso grupo na III Caminhada dos Terreiros de Pernambuco que acontecerá no próximo dia 03/11/2009.
pedimos que todos e todas possam levar seus chapéus, seus lenços de Jurema, seus cachimbos (Gaitas), seus Maracás, fumo e tudo mais que identifique nossa religião.
Vamos mostrar a força da Jurema nessa caminhada e exigir respeito entre as religiões e indivíduos.
Lembramos que a roda de Jurema será no término da caminhada, com gira completa cantada pelos sacerdotes Juremeiros mais antigos de Pernambuco. Esta ação se realizará no monumento Zumbí dos Palmares na Praça do Carmo no Recife às 18h.
Salve todos os Mestre e todas as Mestras da Jurema sagrada. Salve Maluguinho o Rei da Jurema!
Alexandre L'Omi L'Odò. Coordenador do Quilombo Cultural Malunguinho. quilombo.cultural.malunguinho@gmail.com Fones: 81 8887-1496 / 9428-4898
Coloco aqui a matéria da jornalista Silvia Leitão, que está promovendo uma série de reportagens sobre a diversidade religiosa do Estado. Nesta matéria poderemos ver um pouco do nosso universo religioso, com forte ênfase na discussão do preconceito que sofremos como fiéis dos candomblés e Juremas.
Publico texto integral da matéria com apenas algumas alterações ortográficas pertinentes.
Boa leitura e vamos discutir o conteúdo deste texto, pois se faz importante (aviso dêsde já) um olhar mais crítico sobre o que escrevem sobre nós.
Nós do Quilombo Cultural Malunguinho também contribuímos com o trabalho da jornalista. levamos ela à uma cerimônia de Ossé para Oxalá na casa tradicional de Dona Dora de Oyá, no Jordão, lá também podemos discutir questões sobre a cosmovisão da Jurema e parte de sua teologia que ainda não foi desmistificada, e que com esforços estamos tentando fazê-la.
Lembro ainda que quando nesta matéria se fala de Umbanda, fica-se muito inteligível a compreensão da diferença entre a Jurema e a Umbanda, portanto sugiro que todos e todas possam avaliar e rediscutir este conceito importantíssimo para afirmarmos a Jurema como um culto independente da Umbanda, já que ela é a Religião Primaz do Brasil.
L'Omi.
Nguzo Malunguinho.
Boa Leitura!
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Domingo 01 de Novembro de 2009.
Cultura e Magia das Religiões Afro Brasileiras
Sílvia Leitão.
É só falar em religiões afro-brasileiras que se escutam conceitos pejorativos sobre seus cultos, tão enraizados na história do Brasil, desde a escravidão colonial. Sincréticos, os credos são capazes de reunir magia, espiritualidade e um politeísmo com resquício monoteísta, por acatar um Deus supremo. Demonizados pelo desconhecimento, chega a ser um paradoxo o ainda persistente preconceito em tempos de tolerância religiosa. No próximo domingo, a série da Folha de Pernambuco continua com Judaísmo.
Na chegada à rua do Terreiro Santa Bárbara Xambá, em Olinda, vê-se toda a comunidade se preparando para aquele dia festivo. De longe, sob a condução dos ogans (tocadores), a batida forte e contagiante dos ilús (tambores) é um chamado para o corpo e para o espírito. O vaivém nas portas das casas é intenso, incluindo troca de roupas e badulaques, travessia de bandejas com iguarias, além de recolhimento para preces de concentração e proteção. A tarde do domingo seria sagrada para aqueles homens, mulheres e crianças, que, com orgulho, preparavam-se para homenagear seus orixás (santos).
Impressionantemente, a tarefa se faz cumprir dos mais velhos aos mais novos, com o mesmo afinco e respeito. No meio dos mais experientes, o pequeno Gabriel Rocha, de 5 anos, mostra seu conhecimento precoce. Como quase todos os presentes, o sobrinho do Pai de Santo Ivo já nasceu ali dentro. “Minha avó e tia-avó me trazem”, adiantou. O som do ilu, que entre os xambás é chamado de ingome, o menino aprendeu a tirar com os ogans do lugar. “Também sei tocar o abê (cabaça) e agogô”, orgulha-se.
A roda do salão para onde Gabriel leva a música se enche de azul, amarelo, vermelho, branco e rosa, cores que representam, nesta ordem, Iemanjá, Oxum, Ogum, Orixalá, Oyá e Xangô. Nas paredes, as fotos de antigos integrantes do terreiro dão o tom de tradição ao ritual que carrega a história dos negros ancestrais, embora ali não seja um espaço de restrição racial, onde brancos não ficam de fora das cerimônias nem da crença espiritualista.
Se o coro em yorubá (língua africana) era para chamar os orixás, que viessem. E eles chegavam. Àqueles corpos em meio a um transe ritmado. Os incorporados pelos espíritos que personificam uma força da natureza dançavam e cumprimentavam a roda. Naquela tarde, a dona de casa Adriana de França, de 30 anos, recebeu Obaluayê, da doença e da cura, herdado, aliás, da avó Mãe Biu. “É como se fosse um casamento, uma festa de gala. Tem que deixar a emoção da batida do ilu entrar em você. Em mim, começa com dormências nos pés e nas mãos. Sinto falta de ar, o coração acelera, a respiração fica ofegante, mas, é um sentimento tão bom que a gente se emociona”, definiu.
O antropólogo da UFPE Roberto Motta diz que o “bom” nome para o Candomblé pernambucano é Xangô. “É a religião da festa, da dança, do entusiasmo popular e da obrigação, compreendendo o sacrifício de bichos”, classificou. Historiador e frequentador dali, Hildo Leal explica o cenário do domingo. “Os dias de toque são em homenagem a um ou todos os orixás. Hoje (domingo passado) é o toque do inhame, para todos os 14 da casa. Neste mês (outubro), não há oferenda animal”.
Pernambuco tem Centros Tradicionais.
Difícil mensurar a penetração das religiões afro-brasileiras em números no solo pernambucano. Roberto Motta ratifica a prevalência de centros em Salvador, na Bahia, sem desconsiderar nossa força. “Lá a influência africana é maior que no Recife, daí, existem mais. Contudo, não devemos subestimar o Estado, nem Alagoas”. Teólogo da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), Gilbraz Aragão diz que temos pelo menos dois mais antigos, de matrizes transplantadas da África para cá: o de Pai Adão, no Recife, cuja primeira festa pública foi em 1875, e o de Xambá, em Olinda, fundado em 1930. “Uma religião que veio do povo Nagô Yorubá, que na África cultuava espíritos da natureza”, completou.
Entre os de origem nagô, no Recife, a Folha conheceu um pouco dos rituais do terreiro de Mãe Dora, no bairro de Jordão, com mais de 40 anos de história. Para comungar com os orixás o final da semana e reforçar os laços da casa, numa sexta-feira à noite, faz-se o Ossé. Sobre o alá (lençol branco), uma vela, garrafa de barro com água e as oferendas: arroz cozido sem sal com mel e milho branco, de igual preparo. Às mãos do babalorixá e da yalorixá, Pai e Mãe de Santos, espécies de sinos para chamar os orixás. “Paz, saúde, fé e segurança no caminho de todos, além de felicidade, proteção e união”, pedia o babalorixá Sandro de Jucá.
Dedicado a Iemanjá, o Sítio de Pai Adão foi fundado pela nigeriana Ifá Tinuké, recebendo, no Brasil, o nome de Ignês Joaquina da Costa. “Mais uma mulher, pois, os primeiros terreiros de Candomblé brasileiros foram criados por elas - na Bahia, no Maranhão e aqui. Dos seus três filhos, foi Felipe Sabino da Costa, o Pai Adão, quem deu grande impulso à história do Xangô no Recife. Juntamente com o Pátio do Terço, a Casa de Badia, manteve a força do império nagô em Pernambuco”, frisou Manoel Papai, neto carnal do Pai Adão, Pai de Santo à frente do lugar.
Misticismo é Marca Presente
Por trás do Convento de Santa Tereza, no bairro olindense de mesmo nome, só quem é morador pode imaginar ser aquele o endereço de uma casa de Umbanda. Pai Ivon apresenta os elementos quase místicos sem rodeios: assentamento com ferro e bandeira da paz e as oferendas logo ao portão, onde por pouco não se pisa. Para dirimir qualquer visão preconceituosa, trata de esclarecer um mito. “Não trabalhamos com sacrifícios de animais; oferecemos flores, frutas, perfumes e velas”, adiantou.
Nada de calçado para entrar no quarto sagrado, também chamado de peji, como no Candomblé. De terra batida, nele encontram-se pequenos altares para preto-velhos (sábios escravizados vindos da África), caboclos (curadores, donos da mata), ciganos (andarilhos), Malunguinho (revolucionário quilombola), Zé Pilintra (um grande mestre curador) e o canto quase sombrio, em que não se pode entrar, onde estão Exu e a Pombogira. “Não é o diabo. Seus tridentes servem para cavar as coisas boas para perto ou levar as negativas, defendendo as pessoas”, garantiu Pai Ivon.
A cabeleireira Patrícia*, de 36 anos, está ali pela primeira vez. Com os negócios sem lucros e o casamento rompido repentinamente, apesar de católica, espera a mudança de seus anseios no pátio onde as incorporações espirituais logo começam, ao som de cantos e batidas no atabaque, tudo regado a fortes cachimbadas e muita bebida. Após diálogo com uma mestra da casa que apareceu no transe de olhos revirados do Pai de Santo, Patrícia* compartilha. “Disse que eu estava carregada, deu uma baforada do cachimbo para desatar os nós. E eu realmente já estava ficando fraca”.
O antropólogo Roberto Motta explica que na Umbanda existe ênfase na “doutrinação” entre as pessoas e os espíritos, bem como sobre a reencarnação e o progresso espiritual. “Essas religiões começaram a chegar ao Brasil com os escravos africanos, mas, têm também grande influência européia, seja a que vem da devoção popular portuguesa, seja a que deriva do kardecismo francês. Elas ganham espaço à proporção que o Catolicismo se torna uma religião mais intelectualizada, abandonando a devoção mais festiva, como procissões, festas de padroeiro e novenas”, considera.
*Nome fictício para preservar a identidade da personagem, que preferiu não se identificar.
Preconceito Sempre Gerou Várias Intrigas
A Jurema é considerada como parte dos rituais da Umbanda. Crença de matriz africana, onde elementos das tradições indígenas são misturados, o que mudam são algumas práticas. “Aqui existem sacrifícios de animais nas oferendas, como pássaros, preás; há quem oferte galinha, cabra, mas também frutas”, explica o Pai Quinho, de 49 anos, 36 deles na religião, hoje babalorixá de terreiro no Córrego do Jenipapo, no Recife.
“Não há fronteiras nítidas entre Umbanda, Candomblé (Xangô) e Jurema”, reflete o antropólogo Roberto Motta. Talvez não haja mesmo. Segundo o Censo de 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 397.431 pessoas no Brasil disseram seguir a Umbanda e 127.582 o Candomblé, mas, não há números precisos de juremeiros. Em Pernambuco, o levantamento apontou que 12.988 pertenciam a esses cultos mais presentes, sem, novamente, citar em separado a Jurema. O nome, inclusive, está ligado à planta de mesmo nome, de onde se extrai a bebida sagrada ingerida ao início do ritual, também pontuado por incorporações de entidades.
Seriam os números precisos? Talvez não e, por isso, seja difícil quantificar essas religiões. Porque a sua história está fortemente ligada ao preconceito, tendo se expressado mais fortemente durante a ditadura militar. “Em 1938, o terreiro de Xambá, em Olinda, foi fechado por Getúlio Vargas, só sendo reaberto em 1950”, contou o historiador Hildo Leal. O Pai de Santo Manoel Papai lembra que isso também aconteceu no Terreiro de Pai Adão. “Foram dez anos fechado”.
A yalorixá Juberleide da Silva soube por seu pai como foram difíceis aqueles tempos. “Ele falava de reuniões de portas fechadas, falando baixo, temendo a polícia. Os toques, inclusive, só aconteciam se houvesse quem acobertar”. Mas se a democratização ajudou a dar fim a esses atos extremos, hoje, pode ser a intolerância religiosa que inibe a livre declaração dos seguidores dessa fé. “Só falo se me perguntar. Uma amiga evangélica quando soube que eu era do Candomblé se afastou de mim e de meus filhos e disse que eu era do demônio”, desabafou Adriana de França.
A professora Maria Cristina mostra desenhos feitos por alunos após a leitura: mães evangélicas se rebelaram. Foto: Paulo Alvadia / Agência O Dia
Livro sobre Exu causa guerra santa em escola municipal. Professora umbandista diz que foi proibida de dar aulas em unidade de Macaé, dirigida por diretora evangélica
POR RICARDO ALBUQUERQUE, RIO DE JANEIRO
Rio - As aulas de Literatura Brasileira sobre o livro ‘Lendas de Exu’, de Adilson Martins, se transformaram em batalha religiosa, travada dentro de uma escola pública. A professora Maria Cristina Marques, 48 anos, conta que foi proibida de dar aulas após usar a obra, recomendada pelo Ministério da Educação (MEC). Ela entrou com notícia-crime no Ministério Público, por se sentir vítima de intolerância religiosa. Maria é umbandista e a diretora da escola, evangélica.
A polêmica arde na Escola Municipal Pedro Adami, em Macaé, a 192 km do Rio, onde Maria Cristina dá aulas de Literatura Brasileira e Redação. A Secretaria de Educação de lá abriu sindicância e, como não houve acordo entre as partes, encaminhou o caso à Procuradoria- Geral de Macaé, que tem até sexta-feira para emitir parecer. Em nota, a secretaria informou que “a professora envolvida está em seu ambiente de trabalho, lecionando junto aos alunos de sua instituição”.
A professora confirmou ontem que voltou a lecionar. “Voltei, mas fui proibida até por mães de alunos, que são evangélicas, de dar aula sobre a África. Algumas disseram que estava usando a religião para fazer magia negra e comercializar os órgãos das crianças. Me acusaram de fazer apologia do diabo!”, contou Maria Cristina.
Sacerdotisa de Umbanda, a professora se disse vítima de perseguição: “Há sete anos trabalho na escola e nunca passei por tanta humilhação. Até um provérbio bíblico foi colocado na sala de professores, me acusando de mentirosa”.
Negro, pós-graduado em ensino da História e Cultura Africana e Afro-Brasileira, o diretor-adjunto Sebastião Carlos Menezes aguardará a conclusão da procuradoria para opinar. “Só posso lhe adiantar que a verdade vai prevalecer”, comentou. Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Sebastião contou que a diretora Mery Lice da Silva Oliveira é evangélica da Igreja Batista.
ATÉ CINCO ANOS DE PRISÃO
“Se houver preconceito de religião, acredito que deva ser aplicado todo o rigor da lei”, afirmou o coordenador de Direitos Humanos do Ministério Público (MP), Marcos Kac. O crime de intolerância religiosa prevê reclusão de até 5 anos. Em caso de injúria, a pena varia de 3 meses a 2 anos de prisão. O MP poderá entrar com ação pública penal se comprovar a intolerância religiosa. “Caso contrário envia à delegacia para inquérito”, explicou Kac.
Alunos do 7º ano leram a obra: referências ao folclore
Em 180 páginas, o livro ‘Lendas de Exu’, da Editora Pallas, traz informações sobre uma das principais divindades da cultura afro-brasileira. O autor da obra, Adilson Martins, remete ao folclórico Saci Pererê para explicar as traquinagens e armações de Exu.
Na introdução, Martins diz que ele é “um herói como tantos outros que você conhece”. Em Macaé, 35 alunos do 7º ano do Ensino Fundamental leram o livro.
Nas religiões afro-brasileiras, Exu é o mensageiro entre o céu e a terra, com liberdade para circular nas duas esferas. Por isso, algumas pessoas acabam o relacionando a Lúcifer.
O presidente da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, Ivanir dos Santos, garantiu que outros autores de livros, como Jorge Amado e Machado de Assis, sofrem discriminação nas escolas: “As ideias neopentecostais vêm crescendo muito, desrespeitando a lei”.
Ivanir explicou que o avanço da discriminação religiosa provocou o agendamento de um encontro, dia 12 de novembro, com a CNBB: “Objetivo é formar uma mesa histórica sobre os cultos afro e estabelecer uma agenda comum”.
VIVA VOZ Até mães de alunos me proibiram de falar sobre a África
“Acusam-me de dar aula de religião. Não é verdade. No livro ‘Lendas de Exu’, de Adilson Martins, há histórias interessantes, são ótimas para trabalhar com os alunos. Li os contos, como se fosse uma contadora de histórias, dramatizando cada uma delas. Praticamos Gramática, e os alunos ilustraram as histórias de acordo com a imaginação deles. Não dá para entender por que fui tão humilhada. Até mães de alunos, evangélicas, me proibiram de falar sobre a África”.
MARIA CRISTINA MARQUES, professora, 48 anos
*Exú está de ronda... Ele quer organizar o que está fora do lugar. Fim ao racismo institucional, fim à intolerância religiosa na escola, fim aos evangélicos desprovidos de dicernimento e cultura. vamos inplementar a Lei 10.639/07 com virtude e perceverança!
Alexandre L'Omi L'Odò. Quilombo Cultural Malunguinho alexandrelomilodo@gmail.com
Do Olho do Peixe, Peixinhos mostrando ao mundo sua cara!
Grupo Fotográfico Do Olho do Peixe - Peixinhos – PE - BR
Foto: Suco
Apresentação
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O Grupo Fotográfico Do Olho do Peixe é formado por nove jovens de Peixinhos, em Olinda, e há dois anos vem desenvolvendo um trabalho de reflexão sobre o cotidiano do bairro por meio da interação entre a população local e a fotografia. O grupo tem sido responsável, nesse período, por uma renovação da memória visual da localidade, por meio do registro cotidiano das ações e modo de vida da comunidade, e pela elaboração de um novo olhar sobre o bairro que vem sendo tema de mostras e debates promovidos pelo grupo através de parcerias com fotógrafos e instituições.
Foto: Ana Paula
O foco na relação que cada um constrói com o espaço em que mora está entre as discussões propostas pelo Do Olho do Peixe. O grupo tem procurado dar visibilidade aos personagens e às atividades sociais e artísticas do bairro por meio de mostras realizadas nos principais pontos de circulação da comunidade, a exemplo do Centro Cultural Nascedouro de Peixinhos e do Mercado Público. É nesses locais, também, que os integrantes procuram despertar o interesse da população local para a fotografia enquanto ferramenta de expressão e canal de diálogo sobre a vivência no bairro.
Foto: Alexandre L'Omi L'Odò
Dessas trocas surgiu a necessidade de ampliar a iniciativa começada em 2007, quando o grupo foi formado em uma oficina ministrada por integrantes do grupo Um Outro Olhar, de Minas Gerais, e buscar novas formas de participação social. Assim, o Do Olho do Peixe buscou o apoio da fotógrafa Michelle Soares, que integrou o grupo Um Outro Olhar, e agora reside na Espanha, e da conversa surgiu o projeto Peixinhos / La Mina. O objetivo da atividade é criar um intercâmbio entre os jovens de Peixinhos e os jovens do bairro de La Mina, em Barcelona, em que eles conversem, por meio da fotografia, sobre suas respectivas formas de viver e se relacionar com a comunidade em que vivem.
Foto: Alexandre L'Omi L'Odò
A iniciativa gerou uma nova oficina de fotografia em cada localidade, agregando novos integrantes ao Do Olho do Peixe e iniciando a formação de um coletivo no bairro de La Mina, e o resultado dessa nova produção fotográfica vai proporcionar, nos próximos meses, uma troca de percepções sobre o cotidiano de cada bairro. O projeto prevê, ainda, a realização de exposições em Peixinhos e em La Mina com o resultado da conversa entre os jovens dos dois bairros e a visita de cada grupo ao país de origem do outro como fechamento do intercâmbio. A efetivação dessa última etapa está em negociação por meio de parcerias com instituições e com o Consulado Espanhol e de resultados de editais de incentivo realizados na Espanha.
Foto: Adeíldo Massapê
Histórico
O grupo Do Olho do Peixe surgiu em 2007 durante uma oficina de fotografia realizada no bairro de Peixinhos pelo grupo Um Outro Olhar, de Minas Gerais. O grupo mineiro foi convidado pelo coordenador da Semana de Fotografia do Recife, Mateus Sá, para ministrar a oficina depois de conhecer o projeto naquele ano no Encontro de Inclusão Visual do Foto Rio. A convergência desse projeto resultou em uma oficina que despertou em alguns dos jovens moradores o desejo de continuar o trabalho, que agora completa dois anos.
O Do Olho do Peixe é formado por Adeildo Massapê, Joyce Hakinahua, Leonardo Barbosa, Jéssica Ewelyn de Souza, Willington Gomes, Sérgio Lisian, Alexandre L’Omi L’Odò, Ana Paula Cruz e Ivan Oliveira Jr. O grupo conta, hoje, com o acompanhamento de Ana Lira, do Grupo Paspatu de Fotografia.
Este antigo cartaz confeccionado na tora por Alexandre L'Omi L'Odò e Sandro Santana, nem chegou à ser impresso, mas é memória nossa também. Coloco aqui apenas por registro, talqual assim a logomarca que está no topo desta matéria.
*O texto fundamental é de Ana Lira.
**Todas as fotografias foram tiradas com máquinas Plac-plac sem flach, com ISO 100 e no horário da tarde.
Alexandre L'Omi L'Odò De Peixinhos para o mundo! alexandrelomilodo@gmail.com
IV Kipupa Malunguinho, Coco na mata do Catucá 2009.
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Uma tradição dinâmica
Kipupa significa união, agregação de pessoas, associação de indivíduos em prol de algum objetivo, este termo também dá nome a uma cidade na República Democrática do Congo , que se formou pela agregação de refugiados da guerra civil para formarem um gigante quilombo de esperança e reconstrução identitária, Malunguinho, vem do vocábulo Malungo que significa camarada, amigo, companheiro de bordo e de lutas, palavras pertencentes ao tronco lingüístico Kimbundo, língua falada em Angola, país de que vieram estes negros guerreiros. Malunguinho é o título dado aos líderes quilombolas pernambucanos que no século XIX fizeram ferver a capital , na luta por liberdade e seus direitos.
O KIPUPA Malunguinho nasce em 2006 do anseio de resgatar e dar visibilidade a nossas lideranças históricas negras/indígenas negadas pela historiografia oficial, a exemplo do líder negro Malunguinho e tantos outros, destacando o papel de Pernambuco na resistência negra no Brasil. Determinamos o mês de Setembro para realização anual do evento em homenagem ao ultimo líder Malunguinho do Quilombo do Catucá, o João Batista que teve sua data de morte comprovada a partir de documentos existentes no Arquivo Publico Estadual Jordão Emerenciano, em 18 de setembro de 1935.
O Quilombo Cultural Malunguinho- Histórico e Divino, entidade idealizadora e realizadora do evento, implanta a partir da realização do I° Kipupa Malunguinho, ocorrido em setembro de 2006, um calendário permanente para comemorações e homenagens as lideranças negras históricas. Sobre tudo por que em setembro de 2007 aprovamos a lei estadual 13.298/07, a Lei da Semana Estadual da Vivência e Pratica da Cultura Afro Pernambucana, a Lei Malunguinho, que ainda não foi sancionada pelo governador, que a o fará ainda este mês.
O objetivo do evento é manter viva a memória e história dos líderes quilombolas, construindo o sentimento de pertencimento e reconhecimento nacional a estes líderes negros, através das discussões de temáticas sócios- educacionais e culturais, com a participação de sacerdotes e sacerdotisas da Jurema Sagrada, do Candomblé (Xangô), pesquisadores, estudiosos, mestres e mestras da cultura tradicional e popular, músicos e interessados, materializando em matas fechadas do antigo quilombo de Malunguinho um a possibilidade de imersão na vivência e prática na cultura afro indígena pernambucana, através de debate, ritual (liturgia da Jurema) e o grande coco da mata, com mestres de renome como Mestre Galo Preto, Mestra Eliza do Coco, Bongar e outros que tem na tradição cotidiana o contato com nossas matrizes fundadoras da identidade nacional.
Todo evento é para homenagear e reconhecer Malunguinho, líder negro que elevou-se à divindade na Jurema assumindo a patente de Rei da Jurema, se firmando na tradição oral e teológica nordestina como defensor espiritual, posto este que o diferencia de Zumbí dos Palmares que não “baixa” nos terreiros.
O Kipupa Malunguinho, Coco na Mata do Catucá é um evento único no gênero. Nele o participante poderá conhecer parte de nossa história que não está nas escolas nem nos livros. Poderá brincar e vivenciar coletivamente a experiência de adentrar nas tradições menos acessíveis ao público, por serem na maioria religiosas/culturais.
Todo roteiro é feito para poder-se experienciar a vida daqueles negros e negras que ali (matas do engenho Pitanga II- Abreu e lima - Catucá) lutaram, viveram e morreram.
Roteiro e Programação:
*Mestras e Mestres convidados: Mestre Galo Preto, Dona Eliza do Coco, Bongar, O Tronco da Jurema, dentre outros artistas do coco pernambucano.
7h. Saídas dos ônibus (Memorial Zumbí- Carmo Recife) e dos terreiros e municípios de Paulista, São Lourenço da Mata, Recife, Goiana etc;
8h. Encontro na Prefeitura de Abreu e Lima dos ônibus e pessoas;
9h. Chegada na mata.
9h. e 20min. Abertura com diálogo e palestra sobre Malunguinho (normas do evento)...
10h. Entrada na mata com ritual e grupos de capoeira, maracatu e caboclinho saudando Malunguinho;
10h. e 30min. Ritual para Malunguinho com Juremeiros e povo de terreiro (gira, cânticos, louvações e obrigação);
11h e 40min. Descida ao centro da Mata do Catucá, arrastão do coco de mata à dentro...
12h. e 20min. Coco na Mata com os mestres e mestras do coco e da Jurema.
15h retorno para almoço tradicional da Jurema;
15... Mais coco...
17. Fechamento e retorno do comboio de Malunguinho.
Serviço:
IV Kipupa Malunguinho, Coco na Mata do Catucá 2009.
Onde? Matas do Engenho Pitanga II, Área Rural de Abreu e Lima (Catucá).
Colaboração? 10 reais o ônibus e Almoço grátis.
Que horas? Saída as 7h da manhã no Memorial Zumbí dos Palmares. Carmo Recife.
Contatos e informações:
Alexandre L’Omi L’Odò- 81 8887-1496 / João Monteiro- 81 9428-4898
Sacerdote juremeiro e do culto aos Orixás (Egbomi), é mestrando em Ciências da Religião pela UNICAP, graduado em licenciatura plena em História, pela Universidade Católica de Pernambuco - 2014.
É membro do Comitê Nacional de Respeito à Diversidade Religiosa da Presidência da República, e do Conselheiro de Políticas Culturais do Recife. Milita nos campos das políticas públicas.
Tem experiência na área de educação, com ênfase em educação social, artística, musical e afro indígena teológica. Desenvolve trabalhos nas áreas de pesquisa, reconhecimento e preservação de patrimônio imaterial.
Tem publicado artigos científicos sobre temas relacionados a religiosidade da jurema sagrada, nos âmbitos de sua teologia e história. Ensina língua, história e cultura yorùbá, do coco e da Jurema sagrada. Desenvolve carreira de artistas e produz filmes/documentários.
É coordenador geral do Quilombo Cultural Malunguinho e desenvolve projetos de pesquisas com povo de terreiro.
Realizador há 10 anos do Kipupa Malunguinho (encontro nacional dos juremeiros), tem estimulado uma movimentação política de fortalecimento do Povo da Jurema entorno de sua história e religiosidade.