terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Segunda de terror no Carnaval 2016 do Recife Antigo

Palco do Marco Zero 2016. Foto de Alexandre L'Omi L'Odò.

Segunda de terror no Carnaval 2016 do Recife Antigo

Saldo de uma noite de segunda feira no Carnaval do Recife 2016 (desculpem a linguagem aqui empregada, mas foi pertinente):

Foi uma Merda! Adianto logo para não tomar muito o tempo de vocês com o relato que vou fazer abaixo. 

Saio eu de minha humilde casinha em Peixinhos, rumo ao Recife Antigo para ver os shows de Nação Zumbi, O Rappa e Jota Quest... E quem disse que eu consegui?! 󾌽

Parecia que o mundo estava se acabando em toda parte. Menos no Recife Antigo... sendo esta a única rota de todos os refugiados do planeta. Nunca vi na minha vida tanta gente socada no mesmo espaço como vi nesta segunda feira. Gente, foi um absurdo. Não havia logística que desse conta do quantitativo de pessoas que foram pro Marco Zero. Há inúmeros anos brinco carnaval no Recife e nunca vi isso. Foi foda! 

Não se conseguia nem chegar perto do Marco Zero. Das ruas mesmo se voltava... nem perto do péssimo telão de led dava pra ficar na rua Marquês de Olinda... um tumulto sem fim... 

A coisa estava tão séria que até as galeras de menores infratores não estavam conseguindo dar conta de promover seus saques e arrastões... Não tinha como. Muita confusão e empurra-empurra... Mas nada de arrastão. Não tinha nem pra  onde fugir hahahahhaha

Observando esta situação da besta fubana, me dirigi ao Rec Beat. Lá estava mais tranquilo... vi shows ótimos, sobre tudo de um senegalês que arrasou na noite. Foi o melhor show em minha avaliação. Me esqueci o nome dele, alguma coisa Koyatê... Eu acho. 

Mas... de repente o povo sem ter pra onde ir, começaram a migrar para o Rec Beat... Daí decidi fugir e vir embora pra casa... Afinal, pensei como tanta gente iria voltar. E antes que eu assistisse e fosse incluído na catástrofe da volta para casa, piquei a mula. 

Me perdi da namorada, perdi um paquera, desencontrei dos amigos... Foi um horror. 

Lá me vou andando sacrificadamente até o 13 de Maio (longe pra caralho do Marco Zero) para tentar pegar um busão mais vazio... isso eram 00:30... quando o tal busão chegou, ja eram uma e meia.. 

O tal do amaldiçoado do Águas Compridas Bacurau já veio cheio e ao abrir a porta na parada quase explodiu de gente. Me enfiei logo no meio deste pandemônio. Afinal, de táxi não rola vir pra casa do Centro... Os nojentos dos taxistas tem racismo e preconceito com minha comunidade e não me deixam nunca em casa. Daí pra evitar problema e preservar a minha mao de dsr murro na cara de gente, prefiro enfrentar a caceta do Bacurau... 

o curto trajeto até o Cais de Santa Rita demorou mais de uma hora para chegar. Coisa que em no máximo 5 minutos se faz a partir do ponto que subi no ônibus... Um caos total. A passarela dos desfiles dos blocos, maracatus, escolas de samba etc... na Av. Nossa Senhora do Carmo, estava impedindo o fluxo do trânsito de andar. Inclusive colocando muita gente em perigo... Senhoras de idade e crianças que ali estavam se vestindo após os desfiles (a Prefeitura do Recife não cria vergonha na cara mesmo. Já falei sobre este racismo institucional contra a cultura popular em textos anteriores...). O Cais de Santa Rita estava parecendo uma cena do filme "Os Mortos-Vivos"... uma multidão selvagem solta ao relento e sem ônibus. Pessoas quebrando os coletivos para entrar... todas e todos querendo se salvar daquela situação bestial. Daí, em meio a este quiproquó, estavam policiais violentos batendo em todo mundo... Inclusive em inocentes... tudo isso sem nenhum pudor. Ao vivo e a cores na frente de todo mundo... ficamos passados com as cenas gratuitas de violência. Murros, tapas na cara, cacetetadas em tudo que era canto etc. Foi uma degustação do imaginário do inferno cristão, com a versão policiais bestas-feras,  Estas longas horas dentro do Cais... 

Neste processo todo.... levaram-se mais de três horas para eu conseguir chegar em casa após ter pego o ônibus. 

Isso faz sentido? Minha casa fica a vinte minutos do Centro... Teve gente até passando mal é caindo pelas tabelas... 

Para completar, o motorista estava com ódio de estar trabalhando em pleno carnaval, decidiu queimar inúmeras paradas. Isso gerou uma gritaria triste dentro do ônibus... E ainda o amortecedor traseiro quebrou devido a super lotação. E sem nenhum pudor, ele empurrou o pé e meteu em tudo que era buraco. Fazendo o povo de saco de cocô transportado pelo coletor de lixo. 

Nunca havia passado por isso em um carnaval. Perdi a noite toda, não vi os shows que queria. Perdi a namorada no meio do inferno... deixei de pegar gente... Me perdi de todo mundo e cheguei em casa agora, arretado com essa putaria! 

Ainda bem que comigo nem com os meus não houve nada de ruim. Apenas as desgastantes esperas e situações de horror. Afinal quem anda comigo, tem um manto de folhas de jurema para proteger de tudo. Mas...

Erraram em ter colocado 3 grandes bandas de peso e aceitação popular gratuitamente em um palco só. O povo sem ter coisa boa pra ver nos bairros, desceram todos pro Centro. Daí fudeu! 

Raciocinem Prefeitura do Recife. Este foi um erro grave. Se eu tivesse pensado um pouquinho mais, teria ficado em casa mesmo e visto esta catombe pela televisão, bebendo minha Coca-Cola e comendo meus salgadinhos nos braços de quem me ama... 

Pra finalizar, ainda vi um "maracatu" com quase 80 pessoas, de evangélicos. Véi, essa foi demais. Mas falarei isso em outra postagem. 

Quando lá em cima falei que foi uma Merda esta noite de segunda feira de Carnaval, eu errei. Simplesmente foi um carái de asa da gota serena bubônica dos infernos de Judas! Tô arretado! Queria ter visto O Rappa, mesmo que Falcão não valha nada... Rsrsrsrsrsrs

Alexandre L'Omi L'Odò L'Odò
Historiador e Mestrando em Ciências da Religião
Quilombo Cultural Malunguinho 
alexandrelomilodo@gmail.com 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Afoxé Omo Nilê Ogunjá – Um exemplo Afrocentrado no Carnaval do Recife

 Afoxé Omo Nilê Ogunjá. Eu no cantinho acompanhando essa linda luta! Foto: Acervo do grupo.

Afoxé Omo Nilê Ogunjá – Um exemplo Afrocentrado no Carnaval do Recife

Ontem, dia 03 de fevereiro de 2016, presenciei uma das atitudes mais interessantes na perspectiva do posicionamento da cultura popular na luta contra a falta de respeito para com as tradições de matrizes africanas e indígenas no Carnaval de Pernambuco.

O Afoxé Omo Nilê Ogunjá tomou uma atitude afirmativa muito importante: Realizou seu cortejo de forma independente abrindo seu carnaval apenas construindo parcerias e apoios. Levou seu grito de luta de forma exemplar. Saiu grande, bonito, vigoroso e empoderado, vale ressaltar.

Em minha avaliação, vejo nesta posição política do grupo, uma esperança no caminho de re-organizar o conceito de liberdade da cultura popular em nosso Estado. Se o Afoxé conseguiu sair tão forte sem apoio da prefeitura do Recife e do Governo do Estado, isso é sinônimo de que a comunidade pode se organizar com qualidade e força para colocar nas ruas seus ideais e sua identidade ancestral.

Contudo, isso não é tudo! Ainda o Omo Nilê, abrilhantou o Carnaval do Recife dando à Cidade a oportunidade de ver algo muito bonito sem pagar nada! Isso mesmo, sem pagar nada (a gestão da cidade do Recife não pagou nada por isso)! A cultura popular traz quantias enormes de dinheiro, que somam bilhões para o Estado em turismo etc. E o Omo Nilê fez os turistas que se encontravam na Praça do Arsenal e em todo percurso até a Rua da Moeda no Recife Antigo vibrarem com a força negra do Ibura (comunidade periférica do Recife).

A coragem do grupo me encantou. Me deixou encorajado e fortalecido. A força de Ogun que emanou dessa luta fez brilhar minhas idéias e me empreteceu mais ainda. Fortaleceu mais ainda meu entendimento sobre a afrocentricidade!¨

Afoxé Omo Nilê Ogunjá na avenida. Foto: Acervo do grupo. 

Sou crente na força da cultura popular e no imensurável poder dos povos e comunidades tradicionais. Contudo, creio ser urgente nós todos ACORDARMOS e tomarmos atitudes como esta de forma coletiva! Não devemos nos submeter ao Estado sem que este nos respeite como devido. Somos ainda tratados como negros e indígenas sem valor e quase sem alma – relembrando o conceito de homem e mulher negra e indígena nos tempos da escravidão-. A estrutura racista do Carnaval do Recife é só um pequeno exemplo do que aqui também esta sendo discutido (ler texto de anos anteriores sobre este tema em meu blog www.alexandrelomilodo.blogspot.com).

Ogunjá AFROCENTRADO! Isso mesmo, a força de um Orixá levando todo um grupo de negros e negras e afro descendentes à consciência, ao seu papel e função social. Temos que tomar nosso lugar neste processo! Sermos negros e negras e entendermos qual nossa função no mundo capitalista e ocidental: temos que ser AFROCENTRADOS!

Com estas breves palavras parabenizo o Afoxé Omo Nilê Ogunjá pelo belo exemplo para os demais afoxés e grupos de cultura popular! Vamos somar nesta proposta e vamos crescer esta energia!

Parabenizo ainda pela importante homenagem ao nosso grande Tata Raminho de Oxóssi, que ao completar 80 anos de idade em janeiro de 2016, teve uma justa homenagem por toda sua contribuição na história do povo de terreiro do Brasil. Bariká oooooo!

 Família negra de afirmação e força!O Afoxé Omo Nilê Ogunjá é afirmação! Foto: Acervo do grupo.

Ògún yé! Ogum é vida!

Alexandre L’Omi L’Odò
Historiador e Mestrando em Ciências da Religião
Quilombo Cultural Malunguinho

 alexandrelomilodo@gmail.com 

Fala ao Povo de Terreiro na Noite para os Tambores Silenciosos de Olinda 2016



Fala ao Povo de Terreiro na Noite para os Tambores Silenciosos de Olinda 2016

Fala de empoderamento dos povos e comunidades tradicionais de terreiro de Olinda na Noite Para Os Tambores Silenciosos da cidade. 

Foi um orgulho enorme falar para o grande público de axé presente neste evento lindo. Me senti abençoado pela força das Kalungas e pela força dos Orixás de cada Maracatu. Obrigado pelo respeito à minha pessoa e confiança na minha fala que segundo seus organizadores era uma "fala de qualidade para o povo de terreiro". 

Parabéns à Igreja do Rosário dos Homens Pretos de Olinda. Instituição que no passado ajudou muito nossos ancestrais a se organizar. Temos que reconhecer este fato histórico! 

Que Olinda acerte seu caminho político! 

VAMOS FAZER UM! 

QUEM É DE TERREIRO VOTA EM QUEM É DE TERREIRO!!! 

Obrigado Tiago Nago. 

Vídeo de Noshua Amoras. 
Obrigado Alfredobello Kaiowá Djtudo pela edição.

Alexandre L'Omi L'Odò
Historiador e Mestrando em Ciências das Religiões
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Amor ao nosso Mestre Maior - Pai Paulo Braz Ifátòógún

Parte das pessoas presentes no aniversário de 75 anos de Pai Paulo Braz Ifátòógún. Foto: Acervo do terreiro.

Amor ao nosso Mestre Maior - Pai Paulo Braz Ifátòógún

A família Iyemojá Ògúnté em comemoração aos 75 anos de vida do nosso Alapini Pai Paulo Braz Ifátòógún.

A festa foi linda, cheia de axé e com pessoas de diversos lugares. A casa parece que tem uma força de convergência espiritual muito forte... Juntando tantos intelectuais, religiosos, artistas e pessoas de bom coração, todos convivendo em harmonia e contribuindo em atividades revolucionárias em diversos âmbitos. Isso nos alegra bastante!!!

A força de Iyemojá, nossa mãe suprema, se fez presente nas invocações feitas por Pai Paulo Braz no memento de seu parabéns. Ele nunca deixa barato quando se trata em cantar e rezar para as divindades africanas. Cantou tão forte em louvor à Iyemojá que emocionou a todos e todas presentes, nos abençoando mais uma vez com a grandiosidade de seu espírito de fé e amor.

Nossa família agradece sua existência e roga à Olorun que sua presença entre nós se mantenha por muitos e muitos anos ainda. Precisamos aprender com o senhor!! Seu saber é oceânico!

Alexandre L'Omi L'Odò
Filho Deste Grande Mestre Nagô!
alexandrelomilodo@gmail.com  

Comemoração dos 75 anos de vida do nosso Alapini Pai Paulo Braz Ifátòógún

Pai Paulo Braz Ifátòógún. Foto de Alcione Ferreira.

Comemoração dos 75 anos de vida do nosso Alapini Pai Paulo Braz Ifátòógún

Hoje, nós, membros do Ilé Iyemojá Ògúnté, comemoramos o aniversário de 75 anos do nosso patriarca, do nosso Alapini, do nosso Babá Ifamuydè, o nosso pai Paulo Braz​ Ifátòógún. 

Ele é minha inspiração de vida. Uma meta a ser alcançada dentro da religião de matriz africana e indígena. Um sacerdote como nunca vi e senti...  Sou um buscador e andarilho da fé... já fui em muitos lugares no mundo... mas nunca encontrei alguém com uma alma tão pura para o culto aos Orixas, e uma sabedoria tão grandiosa. 

Para mim é um orgulho ter sua mão sob minha cabeça, integrando-me à sua família ancestral. Este foi um dos maiores presentes que Oxum me deu nesta vida. O senhor é a concretização do que é ser AFROCENTRADO. É a soma das filosofias sankofa e ubunto. És a África verdadeira no Brasil. 

Que babá Olorun lhe dê muitos mais anos de vida. Precisamos aprender mais e mais com o senhor. És um tesouro de valor inestimável em todos os sentidos. Principalmente no sentido do coração... e do amor à ancestralidade negra! Axé e kolofé meu pai. Te amo. 

Alexandre L'Omi L'Odò
Filho deste grande Meste Nagô!
Quilombo Cultural Malunguinho 
alexandrelomilodo@gmail.com 

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

III Encontro de Juremeiros e Juremeiras em Alhandra


III Encontro de Juremeiros e Juremeiras em Alhandra

Dia 06 de Março de 2016 às 09h
No Clube Gilberto Valério, Alhandra/PB

O terceiro encontro de juremeiros e juremeiras em Alhandra tem como objetivo, levar religiosos de diversos lugares para celebrar a ciência mestra, trocar saberes e semear a união entre os terreiros em um dos lugares mais importantes da história da Jurema Sagrada: Alhandra/PB. Também, objetivamos abrir o calendário anual das atividades do Povo da Jurema no Brasil, fortalecer nossa Rede Nacional do Povo da Jurema e discutir coletivamente o papel político do povo de terreiro que precisará se posicionar fortemente nas eleições 2016 em todo nosso país.

Dando continuidade aos encontros realizados em 2008 (primeiro encontro de juremeiros e juremeiras realizado ainda nas terras do Sítio do Acaes) e o segundo realizado em 2015, continuamos unindo o povo da Jurema na missão da preservação de nossas tradições religiosas e culturais, além de manter acesa a luta pela preservação do Sítio do Acaes que foi destruído em 2008. Temos uma missão moral de cobrar do Estado ações de reconstrução e preservação da Casa de Maria do Acaes e outros patrimônios materiais e imateriais da Jurema.

Nosso Encontro, favorece a articulação e o respeito à diversidade religiosa interna de nossa religião, propiciando o encontro de povos e comunidades tradicionais de terreiro do Nordeste que nunca antes haviam se conhecido. Cada um com seus ritmos específicos, toadas particulares, formas de ser próprias trocando saberes sem preconceitos. Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Alagoas, Sergipe e Ceará... Estados fortes do culto da Jurema unidos por que A JUREMA MERECE RESPEITO!

Temos um foco forte em 2016: Somos um povo pungente e uniremos forças para eleger nossos representantes políticos. Esta é uma necessidade coletiva nossa. QUEM É DE TERREIRO, VOTA EM QUEM É DE TERREIRO!

Salve a Jurema Sagrada!

Informações Gerais

Saída dos ônibus
06h
Em frente ao Memorial Zumbi dos Palmares, no Pátio do Carmo, centro do Recife.

Valor da passagem: R$: 45

Para comprar os bilhetes:
Ligue para: 81 99901-3736 (TIM/Zap) – Falar com a Secretária Bethânia.

Programação:

09h - Chegaremos em Alhandra e realizaremos uma grande gira de culto à Jurema Sagrada, abrindo o evento – Podem levar ilús, maracás e irem vestidos com roupas tradicionais.

10h – Gira de Diálogos – A Jurema Sagrada, patrimônio e a luta contra a Intolerância Religiosa (momento da diversidade religiosa com representantes de diversas religiões).

10h40min – Debate.

11h Gira de Diálogos – A posição política e religiosa do Povo da Jurema nas Eleições 2016.

11h45min – Debate.

12h30min - Almoço – Faremos uma parada no Restaurante Teto Verde em Alhandra. Valor da comida: entorno de R$: 13.  Self Service. Cada pessoa paga o seu.

14h e 30min - Após o almoço, visita à casa da Mestra Jardecilha para celebração de Jurema e troca de saberes debaixo dos Sagrados pés de Jurema.

17h – Retorno das Caravanas - Parada na Igrejinha do Acaes e no Memorial Zezinho do Acaes

Realização: Quilombo Cultural Malunguinho (idealização e coordenação geral), Rede Nacional do Povo da Jurema e Casa da Mestra Jardecilha.

Parcerias e Apoios: Prefeitura de Alhandra, Casa das Matas do Reis Malunguinho, Terreiro de Jurema do Mestre Benedito Fumaça – Pai Freitas/RN, Tenda de Umbanda Pai Francisco – Pai Messias/PE, Templo Afro Brasileiro José de Aruanda – Pai Vamberto/PB, Templo de Jurema Zé Rosas/PB, Casa de Caridade de Candomblé Ilê Axé Dará Xangô Oyá – Pai Alex de Arapiraca/AL, Terreiro de Jurema do Mestre Zé Vieira – Juremeiro Arthur/PE, Associação Espírita dos Juremeiros de Alhandra/PB.

Capa para facebook. Coloque em sua página e nos ajude a divulgar o evento.

Alexandre L’Omi L’Odò
Coordenador Geral
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

"MALUNGUINHA DA SORTE" e as contradições juremológicas

 Imagem em gesso da suposta "Malunguinha da Sorte", registrada no Mercado de São José dia 21 de Janeiro de 2016 por Alexandre L'Omi L'Odò.

"MALUNGUINHA DA SORTE"
e as contradições juremológicas

Por mais que eu compreenda que a nossa tradição religiosa seja aberta a novos acolhimentos juremológicos e afrológicos, não consegui absorver ainda a ideia de haver uma representação de gesso, do gênero feminino, de Malunguinho. Esta estatueta esta sendo chamada pelos vendedores do Mercado de São José de "Malunguinha da Sorte".

Ao fazer compras no Mercado de São José, no dia 21 de Janeiro de 2016... Deparei-me com esta imagem que vos apresento na fotografia acima. Fiquei abismado de ver a mesma estátua que representa o Malunguinho trunqueiro/Exú, com brincos, um suposto batom dourado e um laço muito estranho vermelho na cabeça... Fui tomado por um sentimento confuso de surpresa e grande rejeição... 

Nunca pensei que o imaginário popular pudesse ser capaz de criar algo assim. Afinal, sabemos que a tradição oral preserva os fatos históricos por milênios através dos cânticos, danças, provérbios, comidas, liturgias, contos, mitos, etc. Sendo assim, podemos constatar claramente a confiável metodologia de preservação da história dos indígenas e dos africanos observando o que se conhece hoje na Jurema Sagrada, no tocante ao culto à Malunguinho, que na primeira metade do século XIX foi (ou foram) líder do quilombo mais forte depois do de Palmares na história do Brasil - o quilombo do Catucá -. A história oficial não preservou a memória de Malunguinho, mas os terreiros de jurema preservaram de forma muito forte. Hoje, a Jurema em Pernambuco tem em Malunguinho uma de suas maiores divindades. Ele ocupa o cargo de Reis da Jurema, o Reis das Matas, que se "manifesta nos terreiros nas quatro linhas: Caboclo, Trunqueiro/Exú, Mestre e Reis. Esta preservação da memória de Malunguinho, é um indício muito forte de que o povo da jurema sabe o que faz e valoriza seus heróis. No caso de Malunguinho, ele foi deificado, recebendo devoção do povo da Jurema cotidianamente decorrente a sua importante contribuição na luta por liberdade de seu povo (o negro e indígena).

Isto posto, já nos ajuda a desconfiar de que a invenção atual de uma suposta "Malunguina da Sorte", seja um equívoco profundo. Afinal, não se manteve até então na tradição oral nenhuma menção à uma "Malunguinha" na história do Catucá ou em qualquer outro lugar. Como não se canta e não se mantém culto à "Malunguinha" na jurema, ela não existiu... Mas este argumento pode ser insuficiente, embora para mim bem convincente. 

Este texto não é um discurso machista! Aqui não quero negar a existência de mulheres importantes dentro da luta no quilombo do Catucá. Pelo contrário, a própria documentação histórica revela alguns nomes que tiveram importante relevância na luta por liberdade dos quilombolas de Malunguinho. Elas eram: Joana, Luzia, Maria, Antonia e Genoveva, guerreiras que batalharam junto nesta luta por liberdade e reforma agrária.Sem mulheres jamais haveria um quilombo forte. Elas foram base essencial para o longo tempo de lutas bem sucedidas do Catucá. Contudo, elas jamais forma chamadas de "Malunguinhas" ou algo similar.

Me desafiei a pensar mais para não resumir este fato da "Malunguinha" a uma crítica leviana para a sua desconstrução. Em minha análise imediata compreendi que esta imagem representava uma distorção completa da história de Malunguinho: ou por parte dos vendedores que estão unicamente interessados em vender. Ou por parte dos artesãos que fazem as imagens... Ou ainda por parte de algum sacerdote ou sacerdotisa que tenham inventado esta personagem...

Procurei também averiguar as variações linguísticas gramaticais do kibundo (língua bantu falada ainda hoje em Angola). No kimbundo não há flexão para a palavra malungo (que significa amigo de bordo, parceiro de luta, amigo, companheiro etc.). Não há um feminino de malungo nos dicionários desta língua que consultei. A palavra malungo deu origem ao título dado aos líderes do Catucá: Malunguinho. O título Malunguinho não é nome próprio, é bom lembrar. E a palavra malunga tem diversos significados, como demonstro agora:

1 - Segundo a Wiki Pedia, malunga é um instrumento parecido com um berimbau: https://pt.wikipedia.org/wiki/Malunga

2 - Segundo o dicionário Informal da internet, malunga significa pessoa que nasceu no mesmo dia, que tem a mesma idadehttp://www.dicionarioinformal.com.br/malunga/  

3 - Segundo a Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana de Nei Lopes, Malunga é uma espécie de dobradiça de porta...

Contudo, na língua portuguesa do Brasil é possível transformar Malunguinho (palavra híbrida formada no nosso país) em Malunguinha. As flexões de nomes do masculino para o feminino são correntes nas normas de nossa língua coloquial e culta. O "inho" e "inha", no sentido de diminuitivo carinhoso ou pejorativo são comuns, daí falar "malunguinha" é possível sim, pelo menos em termos linguísticos.

Afinal, na história dos líderes do Catucá jamais houve uma MALUNGUINHA citada nos documentos históricos pesquisados pelo PhD em História Marcus Carvalho, que fez uma enorme pesquisa que foi sua tese. Em seu livro, "Liberdade, rotinas e rupturas do Escravismo do Recife - 1822-1850" não existe menção alguma a qualquer líder feminina do Catucá com o nome de "Malunguinha", muito menos menção à uma "MALUNGUINHA da Sorte". Vale ressaltar.   

Ainda me foi informado pelos vendedores do Mercado que esta imagem é vendida no catálogo oficial das Imagens Bahia, coisa que me deixou mais preocupado ainda... Fui a busca de mais informações e achei as seguintes referências no site oficial da empresa:

1 - Lá tem à venda uma imagem chamada de Pretinha da Sortehttp://imagensbahia.com.br/?s=pretinha+da+sorte  Que é um "erê" cujo nome é Pita, e história não remete em nada ao quilombo do Catucá;

2 - Lá também tem à venda a imagem do Pretinho da Sortehttp://imagensbahia.com.br/?s=pretinho+da+sorte  Que é um "erê" chamado Miguel, cujo história não tem nada a ver com Malunguinho;

3 - Não existe em seu catálogo nenhum tipo de imagem de MALUNGUINHO: http://imagensbahia.com.br/?s=malunguinho 

4 - Também não existe nenhuma imagem chamada de "Malunguinha da Sorte": http://imagensbahia.com.br/?s=malunguinha 

5 - Ainda achei uma imagem muito interessante de uma Calunguinha a Cavalo, que é a mesma imagem do "Erê" Pretinho da Sorte em outra posição em cima de um cavalo: http://imagensbahia.com.br/?post_type=produtos&p=1824 mas esta não tem anda a ver com esta discussão... Apenas achei interessante por ser o mesmo pretinho representado de forma diferente.

Imagens da Pretinha da Sorte e do Pretinho da Sorte juntos. Segundo informações de alguns amigos de SP estas imagens são compradas para dar sorte nos terreiros de umbanda. Foto: acervo pessoal.

Ainda vale apena fazer uma comparação entre a imagem do Pretinho da Sorte com a imagem conhecida de Malunguinho Trunqueiro/Exú em Pernambuco... O Pretinho da Sorte embora seja totalmente pretinho e sentado na mesma posição do Malunguinho, ele tem um boné azul na cabeça, está olhando para frente e tem uma base quadrada que o sustenta. No caso da Imagem de Malunguinho, não há boné, ele está olhando sempre para o lado e não há base de sustentação, como podemos ver nas imagens abaixo:

Imagem de Malunguinho Trunqueiro/Exú na Jurema Sagrada de Pernambuco. Foto de Alexandre L'Omi L'Odò.

 Malunguinho Trunqueiro/Exú. Foto retirada do blog do Juremeiro Fábio de Cabedelo.

Ainda é um mistério o por quê de Malunguinho, um herói do povo negro e indígena, ser representado na Jurema como uma criança. Talvez isso seja o reflexo do próprio diminuitivo de seu nome, dando a entender que ele é pequeno... Existem outras representações dele como caboclo, mestre e Reis, mas não vem o caso apresentá-las aqui agora.

As representação imagética mais forte dele é a do Trunqueiro/Exú. Na jurema pernambucana vê-se em praticamente todas as mesas de jurema ou nos quartos dos tunqueiros, Ele sempre colocado em posição privilegiada. Seu culto é essencial, não se faz nada na Jurema sem antes ofertar cânticos e oferendas à ele. Seu culto tem similaridades grandes com o culto da divindade Exú do candomblé. Quase as mesmas funções míticas... Mas há diferenças que os separam completamente.

Após esta breve reflexão e pesquisa sobre o fato da "Malunguinha", concluo (desconfio) que os próprios vendedores do Mercado de São José introduziram este equívoco sem entenderem que há uma diferença cosmológica entre os erês Pretinhos da Sorte e o nosso Malunguinho. os Pretinhos da Sorte nunca foram cultuados na Jurema. Não se vê esta devoção nos terreiros daqui. Também, já que não há imagens catalogadas com o nome de Malunguinho no site das Imagens Bahia, sendo este o maior portal de vendas de imagens do Brasil, podemos entender que na umbanda não há culto à Malunguinho, e que os vendedores ou os artesãos daqui (PE) criaram a "Malunguinha" apenas para vender deliberadamente sem nenhuma responsabilidade com o contexto e percurso histórico de cada imagem. Simplesmente disseminaram no Mercado e os juremeiros cujo o conhecimento ainda é escasso sobre a história de sua religião, compram inocentemente acreditando que possa haver uma "Malunguinha" e que ela possa trazer sorte... Com os fatos apresentados neste texto, não é difícil perceber que há sim contradições juremológicas profundas. E exatamente por isso não podemos permitir que este culto se mantenha, afinal a existência da "Malunguinha" é uma afronta a toda tradição da jurema e a história do Catucá.

Se fossemos seguir a lógica que os mestres e mestras sempre terão um correspondente oposto ao seu gênero, vamos ter o feminino de Zé Pilintra - A Josefa Pilintra, ou Zefa Pilintra. Vamos ter o feminino do mestre Tertuliano, conhecido como Terto - A Tertuliana, ou Terta... Teremos o masculino da mestra Paulina - O Mestre Paulino... E assim sucessivamente. Não há lógica nisso... Aviso logo, para que não haja confusão na leitura deste texto. Devemos refletir muito sobre este tipo de problema que a cada dia aumenta em nosso meio...

Sabemos também que Malunguinho não é cultuado na Umbanda. Esta divindade pertence ao cosmo da Jurema e não há registros de seu culto em nenhum terreiro fora do Nordeste. Hoje, após o trabalho de divulgação da jurema sagrada e do Reis Malunguinho através da instituição Quilombo Cultural Malunguinho, já recebemos notícias de que alguns médiuns na umbanda já estão "recebendo" Malunguinho... Mas este é outro assunto...  

Bom... Creio que este encontro com a "MALUNGUINHA da Sorte" possa nos dar panos pras mangas para refletir e discutir sobre como nosso povo da Jurema vem recriando sua prática religiosa e mitológica. 

Sobô Nirê Mafá! Me ajude PAI Malunguinho a não ser preconceituoso com coisas que desafiam meu senso juremológico ortodoxo! 

Vou ali fumar um cachimbo de angico para tentar pensar mais... Sobô Nirê Mafá!

Alexandre L'Omi L'Odò
Historiador e Mestrando em Ciências da Religião
Quilombo Cultural Malunguinho 
alexandrelomilodo@gmail.com

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Reflexões afro-indígenas-tradicionais-políticas: Distância entre o discurso e a prática

Alexandre L'Omi L'Odò. Pré candidato a vereador em Olinda 2016. Foto de Henry A.Y.N.

Reflexões afro-indígenas-tradicionais-políticas:

Distância entre o discurso e a prática

Vê-se frequentemente nos palcos onde a cultura popular e tradicional esta atuando, discursos contra gestões e formas de atuação políticas de partidos etc.

Sempre motivando indignações e instigando muitos aplausos, estes discursos ao meu ver se tornam vazios e incoerentes quando estes artistas, grupos, bandas etc. não se comprometem com a luta de transformação efetiva da política, contribuindo de verdade (não só com blá, blá, blá) na mudança destes paradigmas que nos oprimem.

Criticar e “meter o pau” é muito fácil. Entrar na discussão e efetivar ações políticas coletivas... Aí a coisa já se distancia do tal discurso bonitinho dos palcos...

Acredito que devemos alinhar nossos discursos com as práticas. Devemos de fato fazer uma práxis para conseguirmos sair de nossa atual situação de total inércia e dificuldade para alcançar melhor situação e recursos para a cultura popular e tradicional. 

Apoiar candidaturas com plataformas confiáveis e que pautem de verdade nossas necessidades a partir de dentro, é uma obrigação coletiva nossa. Claro que nada obrigado é bom... O voto é livre e merece ser respeitado. Contudo, se não nos unirmos e elegermos representantes capazes de levar a frente o desejo coletivo de nosso povo, não estaremos fazendo nada! Estaremos nos enterrando na nossa própria ignorância e incapacidade de mudar o que esta ruim para todos.

Vamos acordar e nos libertar das grades dos pequenos favores. Tem gente apoiando políticos por ai, só por que este deu um som para um evento... Isso é um absurdo. Temos que fazer nossos próprios quadros para exigirmos deles a resolução de nossas necessidades.

Quero ver mais grupos e pessoas apoiando nossa luta. Vamos construir uma candidatura nossa! Vamos efetivar nossos sonhos. Já passou o tempo de confiarmos em pessoas que não são de dentro e não tem trajetória junto conosco. Ou fazemos agora vereadores do povo de terreiro, da cultura popular, da luta pelos direitos humanos, das lutas contra o racismo etc... Ou então ficaremos mais 4 anos sem nenhuma resposta das câmaras municipais de vereadores.

VAMOS FAZER UM! VAMOS FAZER VÁRIOS! 

QUEM É DE AXÉ, VOTA EM QUEM É DE AXÉ!

VAMPOS ELEGER OS NOSSOS!

Alexandre L’Omi L’Odò
Historiador e Mestrando em Ciências da Religião 
Quilombo Cultural Malunguinho 
alexandrelomilodo@gmail.com 

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Sou Pré-Candidato 2016 a Vereador em Olinda! É oficial!

Alexandre L'Omi L'Odò, pré-candidato a vereador em Olinda 2016. Foto de Joannah Luna.

Sou Pré-Candidato 2016 a Vereador em Olinda! É oficial! 

Foi lançada a candidatura de Alexandre L'Omi L'Odò à vereador de Olinda no dia 03 de Janeiro de 2016 na internet. Vamos beber a Vitória da vida celebrando a Jurema, o Povo de Terreiro, a cultura popular e as comunidades tradicionais. 

PRECISAMOS FAZER UM! 

Já acabou o tempo de termos que votar em pessoas de fora de nossa religião para nos representar. Temos que construir nossa plataforma política de forma coletiva e olhando para o futuro dos povos e comunidade tradicionais e Cultura popular!  Temos grandes chances de vencer, isso é real! 

Voto a voto vamos CHEGAR LÁ! 

Acorda Povo de terreiro de Olinda!!!

Alexandre L'Omi L'Odò
Historiador de Mestrando em Ciências da Religião
Quilombo Cultural Malunguinho 
alexandrelomilodo@gmail.com

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Vamos construir uma candidatura Afro Indígena, focada nos direitos humanos e na luta pela cultura popular?

Iyawò Alexandre L'Omi L'Odò. Foto de Aluísio Moreira. 2004.

Vamos construir uma candidatura Afro Indígena, focada nos direitos humanos e na luta pela cultura popular?

Vejo artistas e grupos reclamando a vida toda que não têm representantes e que as políticas públicas não nos favorecem. Já passou da tempo de ficarmos apenas nas críticas.  Vamos construir algo concreto e eficaz contra o que nos oprime. 

Dentro da democracia, temos a possibilidade de usar a politica para isso. Vamos unir forças e não dividir votos. 

QUEM É DE AXÉ, VOTA EM QUEM É DE AXÉ! 

VAMOS FAZER UM! OLINDA! 

Vamos construir essa vitoria juntos! 

*Esta foto foi quando me iniciei ao Orixá Oxum. A rainha entronada em minha cabeça! Foto de Aluisio Moreira. 2004.

Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho 
alexandrelomilodo@gmail.com 

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Jurema Sagrada, Dengue – Zica – Chikungunya e Responsabilidade com a Tradição de Matriz Indígena e Africana

Altar de Jurema com príncipes e princesas e imagens de índios e caboclos. Foto de Marcelo Curia.

Jurema Sagrada, Dengue – Zica – Chikungunya e Responsabilidade com a Tradição de Matriz Indígena e Africana

Há pelo menos um ano um surto de Dengue, Zica e Chikungunya assolam o Brasil de forma alarmante causando profundos problemas de saúde pública, sobre tudo com a suposta ligação do aumento dos casos de microcefalia em crianças recém nascidas dos municípios do Sertão com o vírus da Zica. Esta situação de risco coletivo, nos impulsiona a responsabilizarmo-nos no combate ao mosquito transmissor dessas doenças, o Aedes Aegypti, afinal, estamos todos em eminente risco de vida.

Esta responsabilidade não seria diferente para o povo de terreiro, que em suas práticas tradicionais e religiosas acondicionam em quartinhas e outros recipientes como assentamentos de Orixás, água limpa. No caso específico da Jurema Sagrada, religião de matriz indígena do Nordeste do Brasil, acondiciona-se água em assentamentos chamados de príncipes e princesas (taças e copos dispostos em mesas/altares).

É fundamental os sacerdotes e sacerdotisas, zeladores e zeladoras darem atenção redobrada a estes assentamentos, quartinhas etc. Não podemos permitir que o mosquito da dengue se prolifere dentro de nossos terreiros, prejudicando a nossa saúde, a da nossa comunidade religiosa e entorno. Terreiro é saúde, é acolhimento, é um hospital tradicional de medicina ancestral. Não podemos permitir que a doença expanda-se a partir de nosso ambiente sagrado de cura.Temos que dar o exemplo.

Contudo, dar atenção redobrada, e sempre trocar as águas, cumprindo o calendário interno dos terreiros que de sete em sete dias são despachadas e renovadas, além de durante o período dos sete dias sempre observar se existe alguma larva ou qualquer outro tipo de inseto nos recipientes, não significa mudar a tradição! Não significa que devemos secar nossos assentamentos para nos prevenir das larvas do mosquito da dengue.

A NOSSA TRADIçÃO é o nosso maior documento histórico. Nela esta todo o discurso de nossos ancestrais, e também nela reside o conhecimento e a sabedoria. A tradição jamais deve ser modificada de forma brusca sem que o clã dos mais velhos possa opinar de forma abrangente. Também, jamais podemos deixar de escutar nossas entidades e divindades, eles nos orientam e podem nos garantir a segurança. Tradição tem significado, e não pode ser tratada como brinquedo.

Não devemos esvaziar o significado afrológico ou juremológico de nossas práticas esvaziando nossas águas sagradas. Apenas devemos ter cuidado redobrado e nos responsabilizar efetivamente com a questão em pauta.

Vale a pena saber um pouco o significado da água para nossas tradições afro indígenas:

A água para nosso povo, é o elemento da natureza mais sagrado e mais antigo. Propiciador da vida, portanto, um elemento cheio de ciência e axé, utilizado praticamente em todos os rituais tanto da Jurema como do culto às divindades africanas. É a água que nos possibilita tudo na vida, portanto, como nos revela a cosmovisão/tradição oral da Jurema, nela se encontram as Cidades e Reinos Encantados, ou Cidades e Reinos Sagrados. Nas águas moram os caboclos e caboclas, os encantos de luz, os mestres e mestras, os Reis, etc. Na mesa da Jurema, altar mor desta religião, a água é vida literalmente, e também é a ponte de contato com o mundo dos encantos, o mundo espiritual. Portanto, sem água não há ritual, e também não há contato espiritual com a ciência mestra. Secar os assentamentos é uma agressão à espiritualidade...

Sendo assim, o impacto de modificações irresponsáveis em nossas liturgias, pode apagar a memória essencial de nosso povo. Além de depor negativamente contra nossa condição sacerdotal. Afinal, como podemos simplesmente secar nosso recipientes sagrados? Ali não existe ciência ou axé? Não existe um dono ou regente? As entidades não existem? Estas perguntas nos servem para refletir sobre determinadas opiniões que estamos vendo na internet e na grande mídia. Recentemente, pudemos assistir na Rede Globo uma orientação por parte de uma Iyá, de secarmos os príncipes e princesas, quartinhas etc. Considerei isso grave. Mesmo que a intenção tenha sido positiva, na perspectiva de nos proteger do mosquito e de suas doenças, mas esta “orientação” agride profundamente a nossa história/TRADIçÃO.

Não quero aqui dizer que temos que ser estáticos. Que nossa religião não dialoga com as questões mundiais sociais etc. Estou apenas criticando e refletindo sobre atos desnecessários e descabidos entorno de nossas práticas.
Às vezes penso que o povo de terreiro é facilmente manipulável (não podemos ser!). Chegando perto da inocência... Há algum tempo atrás, foi disseminado em seminários etc. que não deveríamos mais beijar as mãos dos nossos filhos quando eles nos pedissem a benção... Isso sob a orientação de que beijar a mão transmite bactérias e conseqüentemente doenças... Daí, vê-se hoje babás e iyás, juremeiros e juremeiras não mais beijando as mãos dos filhos e afilhados. A mão é encostada no queixo ou na testa... Compreendo isso como algo não refletido criticamente. Essa deformação na tradição não livra ninguém de doença nenhuma. Durante séculos beijamos as mãos de nossos mais velhos com muito amor em ato de troca de energia, e, não se tem casos registrados de doenças transmitidas por este ato tradicional. Se for assim, devemos também deixar de bater cabeça para os Orixás, afinal entramos em contato com o chão, e o chão, na concepção ocidental é sujo... Não sei se me fiz entender!? ;)

Enfim, este texto, foi feito para nos ajudar a pensar sobre nosso papel na preservação de nossa memória. A tradição é um patrimônio imaterial de valor insubstituível. É com a tradição oral que mantemos nossa cultura e religião vivas. Temos que ter amor redobrado com o que herdamos da ancestralidade. Devemos amar e preservar até as tradições que ainda não nos foram permitidas compreender, ou ensinadas. Um dia quando compreendermos mais profundamente os significados dos atos e liturgias, veremos que sua importância sempre foi fundamental para a manutenção do equilíbrio do todo.

Vamos nos proteger do Aedes Aegypti com consciência afro indígena. Não vamos conceder ao ocidente o prazer de verem nossas tradições sumirem por causa de suas orientações imperialistas. Estejamos acordados e lutando contra o racismo!

Alexandre L’Omi L’Odò
Juremeiro, historiador e mestrando em ciências da religião – UNICAP
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

Quilombo Cultural Malunguinho

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Entidade cultural da resistência negra pernambucana, luta e educação através da religião negra e indígena e da cultura afro-brasileira!