segunda-feira, 24 de maio de 2010

Terreiros terão a realidade mapeada em Pernambuco

Capa do Caderno Vida Urbana do Jornal Diário de Penambuco de 23/05/2010

Terreiros terão a realidade mapeada
Além de quantificar os locais, pesquisadores aplicarão questionário sobre habitação, relação com a comunidade e biografia do babalorixá

Rafael Dias
rafaeldias.pe@dabr.com.br


Quantos terreiros de religião de matriz africana e indígena existem em Pernambuco? Taí uma pergunta difícil, que nem entre os próprios pais e mães-de-santo há consenso. Há quem diga que são 400, 500 ou até milhares, mas tudo não passa de achismo. A verdade é que não existe um trabalho local até hoje que tenha catalogado as casas mantidas por descendentes de ex-escravos e/ou descendentes das etnias indígenas que cultuam religiões afro, como o candomblé, Juerma e umbanda. O que há de registro, são ações pontuais feitas em outras cidades, como Salvador, Porto Alegre (curiosamente a capital do Brasil com mais terreiros que se tem conhecimento, ao todo 1.290 unidades) e Belo Horizonte. Nesta semana Recife e Região Metropolitana passaram a entrar para esse clube. E, enfim, o projeto pode começar a responder, não todas, mas algumas dessas perguntas elementares sobre um universo que, mesmo cinco séculos depois, permanece desconhecido e discriminado.

Equipe de pesquisadores de Minas Gerais já está no Recife para visitar as casas. A maioria delas funciona na periferia do Recife e Região Metropolitana. Foto: Inês Campelo/DP/D.A Press

Com amplitude nacional, otrabalho de mapeamento dos terreiros é desenvolvido pela Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), vinculada à Presidência da República, e pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), em parceria com a Fundação Cultural Palmares e a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e a Cultura (Unesco). Em Pernambuco, a iniciativa está prevista para contemplar 14 municípios - Recife, Olinda, Jaboatão dos Guararapes, Cabo, Abreu e Lima, Igarassu, São Lourenço da Mata, Camaragibe, Moreno, Itapissuma, Itamaracá, Paulista, Ipojuca e Goiana. Nas últimas semanas, uma equipe de 15 pesquisadores, formada por representantes ligados aos diversos segmentos (movimento negro, universidades, entidades e dos próprios terreiros), foi treinada para visitar as casas, geralmente situadas nas periferias.

"Não se trata de uma pesquisa etnográfica, nem de um recenseamento. É claro que quantos mais nos aproximarmos do máximo de terreiros catalogados melhor. Mas nosso levantamento é mais qualitativo. Queremos identificar principalmente aqueles menos conhecidos ou aqueles que o poder público desconhece", explica o coordenador local da pesquisa, Rafael Barros, presidente da Filmes de Quintal, associação sem fins lucrativos de Minas Gerais e executora do projeto. Segundo Rafael, há uma lista prévia de 400 terreiros existentes no Recife, colhida junto à Diretoria de Igualdade Racial do Recife, que servirá como ponto de partida. Além disso, são pelo menos mais 290 em Olinda, Camaragibe, Paulista e Jaboatão. "À medida que visitaremos as casas, também podemos descobrir outras por indicação dos próprios terreiros", sinalizou.

No "censo" dos terreiros, será aplicado um questionário com 110 perguntas, que abordam assuntos como a condição de habitação das casas, a biografia dos babalorixás e yalorixás (pai e mãe-de-santo), as situações socioeconômica e fundiária, registro legal na prefeitura e filiação ao movimento negro ou indígena. Uma das questões mais importantes é saber como se dá a relação dos terreiros com a comunidade ao redor. "Existe um programa da Secretaria de Igualdade Racial que destina políticas de questão alimentar para os terreiros, porque se sabe que eles funcionam como locais de distribuição nas comunidades".

A expectativa a partir do mapeamento é que esses pontos passem a ser mais reconhecidos e a receber outras políticas não só governamentais e não-governamentais, mas também lutar por leis de financiamento cultural. "Isso é um presente para nós", comentou Mãe Marisa de Xangô, yalorixá do terreiro Ilê Obá Kosso Ogodô, em Jardim Paulista Baixo (Paulista). "Sofremos muito preconceito. Espero que depois do mapeamento todos nossos irmãos sejamos reconhecidos".

A pesquisa deve ser concluída em setembro. Além do Recife, também estão sendo mapeados, nesta etapa, Belo Horizonte (MG), Belém (PA) e Porto Alegre (RS). A expectativa é de identificar, no mínimo, 6 mil comunidades.

*Link da matéria no site do Dirio de Pernambuco: http://www.diariodepernambuco.com.br/2010/05/23/urbana1_0.asp

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Erratas da matéria:


*Lembro que nesta matéria tem algumas informações incorretas, como por exemplo a legenda da fotografia dos pesquisadores, que afirma sermos nós de Minas Gerais. Somos todos de Pernambuco, só o Rafael Barros que é mineiro.


*Outra informação sem contexto é a afirmação de que a Jurema é um culto afro. Ela é de Matriz indígena e se misturou ao passar dos tempos com a umbanda e o imaginário do candomblé, mas nunca perdeu sua identidade indígena verdadeira.


*Na fotografia, da esquerda para a direita: 1. Alexandre L'Omi L'Odò (pesquisador), 2. Rafael Barros (coordenador da pesquisa), 3. Dubinha (pesquisador), 4. Alex Nagô (pesquisador), 5. Rodrigo Dantas (pesquisador), 6. Surama Reis (pesquisadora) e 7. Prof. Jayro Pereira de Jesus (coordenador técnico da pesquisa).


Alexandre L'Omi L'Odò.
Iyawò de Oxum e Juremeiro
Pesquisador do Mapeamento dos Terreiros de PE
alexandrelomilodo@gmail.com
81. 8887-1496

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