quinta-feira, 14 de outubro de 2010

V Kipupa Malunguinho por Pedro Stoekcli

Altar de Malunguinho.

No domingo do dia 19 de Setembro de 2010 aconteceu o V Kipupa Malunguinho Coco na Mata do Catucá, ocasião que tive o prazer de acompanhar e que comento brevemente a seguir.

Gira dentro da mata sagrada de Malunguinho.

O encontro organizado pelo Quilombo Cultural Malunguinho chegou à sua quinta edição com o objetivo de “homenagear e reconhecer Malunguinho, líder negro que elevou-se à divindade na Jurema, assumindo a patente de Rei da Jurema, se firmando na tradição oral e teológica nordestina como defensor espiritual”, como os próprios organizadores o definem.

Neste dia, Juremeiros que por vezes são também da Umbanda e/ou do Candomblé se reuniram para cantar, dançar, comer e homenagear Malunguinho, compondo uma diversidade religiosa muito bonita. Enquanto os ônibus chegavam aos poucos, as oferendas foram sendo colocadas no altar dedicado a Malunguinho, onde todos contemplavam e ajudavam nas preparações, cortando e dispondo as frutas em cestas e fumaçando-as para abençoá-las. Alguns desciam dos ônibus cantando pontos de Jurema e de homenagem a Malunguinho e outras entidades.

Para a grande maioria não era a primeira vez no encontro. Entre os presentes haviam neófitos no culto da Jurema e também pessoas que nasceram dentro da Jurema e que consideram-se juremeiros natos. Como nos disse Toninho de Malunguinho, um juremeiro nato é “aquele que é voltado à cultura e ao culto da Jurema por uma linhagem de família”.

Para alguns a Jurema é a primeira religião brasileira. Nessa concepção, ser juremeiro é ter preocupação com a natureza, é buscar o saber e a espiritualidade que essa proporciona. Ela é o saber da natureza. Para os juremeiros, a linha da Jurema e seus mestres têm ciência, ela ensina a viver, ilumina, enfim, doutrina. Dentre os vários significados associados à ciência da Jurema estão as ideias de conhecimento, complexidade, prática, consciência, auto-aprendizado, busca, saber, doutrina, procura de verdades. A Jurema é também o culto aos ancestrais índios e escravos.

Mestres na Jurema Sagrada. Seu Aílton de Trapiá.

E o Kipupa para as pessoas com quem conversei é a chance de reafirmar essa crença, entrar em contato e reforçar essa energia viva da mata. Segundo conta o pesquisador João Monteiro, o local do encontro foi escolhido em função dos recados do próprio Malunguinho, sendo a mata do encontro o provável centro de onde foi seu reinado.

Dentre os significados de Malunguinho para os participantes, encontram-se:

- "Guerreiro, Capitão da Mata, Chefe dos Quilombos".

- "Um mestre, uma pessoa libertadora".

- "A Jurema é Malunguinho"

- "Tem que ter Malunguinho para abrir a Jurema"

- "Malunguinho está presente na vida de muitos desde a infância".

- "Malunguinho nos torna irmãos na Jurema".

Depois das muitas preparações e falas oficiais, a abertura ritual do encontro foi extremamente forte e alegre. Após semanas, dias, muitíssimas horas de preparação, o início do V Kipupa representou o auge da concentração das energias de diversas pessoas e espiritualidades para que tudo desse certo. Nos rostos das pessoas presentes só se via alegria e felicidade. Os juremeiros jogavam sua fumaça para cima abençoando esse dia, elevando o recado da Jurema.

Malunguinho na mata é rei.

Procissão para entrar na Mata. Pai Tonho de Jaboatão.

Procissão e levando as oferendas.

E assim ele também foi no Kipupa, onde todos dançavam e cantavam para louvá-lo e homenageá-lo. E Malunguinho se fez presente, fosse incorporado nos médiuns ou na fluidez da energia que circulava entre as pessoas. A procissão para a mata se deu liderada pelo sacerdote Juremeiro Sandro de Jucá e a fumaça das ervas preparadas por Ary Banto. Todos seguiam em fila se concentrando para que a festa continuasse em meio à natureza, lugar de elementos tão caros a qualquer juremeiro. Lá todos puderam beber da bebida preparada da Jurema e abençoada por suas entidades.

Juremeiros, músicos, coquistas consagrados, políticos, população local, sacerdotes, estudantes, fotógrafos, cinegrafistas, historiadores, antropólogos e outros representantes da academia como o Doutor João José Reis da UFBA, vindos de vários cantos, vários lugares. Só por esse feito o encontro já merece o nome de Kipupa, uma reunião que agrega várias pessoas de diferentes origens e interesses que se juntam sob a energia espiritual da Jurema sagrada e de uma de suas entidades maiores, Malunguinho. Caboclo? Mestre? Tronqueiro ou mesmo um Exú… Cada juremeiro tem com Malunguinho uma relação única e muito pessoal, mas para todos ele representou nesse dia alegria e união.

Salve Malunguinho da Jurema sagrada!"

Entrando na Mata. Juarez e Ary Banto abrindo os caminhos.

Oferendas.

Oferendas.

Oferendas entregues à Jurema e Malunguinho. Mel dos Caboclos.

Tocadores de Ilú. Ogans.

Fé na fumaça da Jurema.

Malunguinho.

Malunguinho.

Confraternização de cumpadres na Jurema.

Mestres na Jurema.

Toninho de Malunguinho.

02 de Outubro de 2010.

Pedro Stoeckli.

Possui graduação em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais (2008) tendo realizado intercâmbio na faculdade de Sociale Wetenschappen - Vrije Universiteit Amsterdam (2006). Atualmente é bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e mestrando em Antropologia Social na Universidade de Brasília sendo orientando do antológico professor doutor José Jorge de Carvalho. Tem experiência na área de Antropologia, com ênfase em Antropologia e Religião, atuando principalmente nos seguintes temas: transe, corpo e consumo.
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Publico aqui, texto e fotos de Pedro Stoekcli, amigo de Belo Horizonte, atualmente morando em Brasília. A idéia deste texto a princípio era que ele, vindo de outro Estado, acadêmico que nunca havia participado de um ritual de Jurema, escrevesse suas impressões sobre o que vivenciou no V Kipupa Malunguinho. Assim o fez com muito sucesso e primor. As fotos são presentes para nós, povo da Jurema, que ao nos ver em tão sencível registro, marcamos na memória momentos de união, fé e celebração em mais um Kipupa, que ficou registrado na nossa história pessoal e coletiva. Peço aqui o muito obrigado a ele em nome do Quilombo Cultural Malunguinho, pela força dada, pelo empenho na pesquisa e por ter se incerido de corpo e alma na fumaça da consciência de nossa Jurema Sagrada.

Alexandre L'Omi L'Odò.
Juremeiro.
alexandrelomilodo@gmail.com

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