terça-feira, 19 de abril de 2011

A Igreja Evangélica e a Cultura Afro Brasileira


A Igreja Evangélica e a Cultura Afro Brasileira
Uma breve comparação de discursos...

Esta é uma discussão muito interessante. O mais interessante ainda é observar os discursos diferenciados dos evangélicos e dos que fazem cultura popular negra, ou de terreiro.  Quando se trata de assuntos relativos a vida e a liberdade de crença, o assunto parece ferver mais, as opiniões se acerram e o antigo racismo se revela sempre em linhas quase imperceptíveis. O povo do candomblé e da Jurema quando falam, pode-se perceber um tipo de entendimento sobre o mundo, sem racismo e sem preconceito, ficando a fala sempre na perspectiva de um coletivo livre de crença, visando sempre o discurso não teocrático, e sim focado nos aspectos do social, nos levando a perceber o quanto o povo negro e de terreiro ainda pensam em uma sociedade onde os indivíduos possam  caminhar sem o peso da condenação, miséria etc. Observando o discurso e a teocracia evangélica, podemos perceber que o lado social da humanidade não está contemplado, pelo menos em primeiro plano, já que só Deus ou Jesus "salvam" ou que podem dar uma vida digna a um crente, a uma pessoa.  Isso vale a pena prestar atenção nesta reportagem digna de parabéns a todos e todas que a fizeram.

Como uma "filosofia de vida" pode mudar uma vida? Esta pergunta é por si só um paradigma complexo, que comporta a consciência do homem e mulher que aceita por motivos diversos estas "filosofias" e, também os esquemas de dominação de mentes.  Poucas pessoas param para pensar sobre estas propostas e discursos, pois a filosofia ainda é pouco estudada e aprofundada por nós, dando-nos fragilidades em enfrentar e avaliar estas propostas de forma aprofundada e madura. 

Nesta tele-reportagem, poderemos confrontar e comparar esses discursos interessantes: o dos evangélicos neopetencostais e, o dos grupos e artistas das culturas tradicionais, que são pertencentes a um conceito de mundo norteado pela compreensão cosmológica afro-indígena. Separei algumas frases para vermos o quanto é diferente o discurso e, como são adversas as críticas de um para o outro, na verdade dos evangélicos para os grupos e artistas não cristãos como eles.

Decidi fazer esta postagem para expor esses discursos,  na intenção de provocar uma reflexão maior sobre o tema, portanto, decidi transcrever alguns depoimentos importantes da reportagem, pra que possamos analisar de forma mais fácil o que ambos personagens dessa matéria falam e refletem. Minha intenção é que possamos conversar sobre o que percebemos nas linhas vindouras...

Observem as falas:

Josinaldo Junior “Preto”-Batuqueiro
Josinaldo Junior “Preto” – Batuqueiro do Maracatu Leão Coroado - “Hoje mesmo agente pode dizer que ta muito difícil encontrar um Maracatu como o Leão Coroado, tradicional, e assim: um maracatu de respeito, você pode chegar, pode confiar. Tem um pessoal ai, tem dentro dos batuqueiros todinhos, tem batuqueiros que dá aulas tudinho, passa percussão, ensina, e os jovens que chegam para tocar, ele não vai só tocar não, ele vai aprender a história do Maracatu, vai aprender a tocar, vai aprender alguma coisa... 

Mestre Afonso falou sobre os projetos e trabalhos do Leão... 


Mestre Afonso, Sacerdote Nagô e Mestre de Maracatu

"Ajudava muito se a comunidade quisesse aprender, por que hoje aqui o Leão Coroado trouxe muitas coisas, hoje aqui o Leão Coroado é Ponto de Cultura, ele oferece à comunidade aqui umas aulas de informática, oferece umas aulas de percussão, aula de dança, corte e costura, crochê, estendesse? Isso ai tudo tirando os jovens aqui que estão mais interessados levando para ali pro espaçozinho que agente tem e mostrando esse aprendizado pra eles, entendesse? Só que, pouco aqui estão procurando aprender, entendesse? (...) As famílias tem um pouco de preconceito que não quer deixar que os jovens participem nessa ligação conosco."
O que o Maracatu influenciou diretamente em sua vida? “Ele me ensinou muitas coisas velho, hoje mesmo fiz um projeto, foi aprovado, eu vou dar umas aulas aqui no Alto da Macaíba, em outra comunidade entendesse? Por que lá não tem pessoas pra fazer a história”.
 

Baque do Maracatu Leão Coroado









Gilson Gomes - Coreógrafo
Gilson Gomes, coreógrafo e coordenador do Balé Afro Raízes e Magê Molê – Como é o impacto do Balé aqui na comunidade de Peixinhos, onde vocês estão localizados? “Há, é com certeza aqui é super legal né, a turma apóia né, a nossa comunidade apóia o trabalho que a gente faz aqui, não só com o Raízes, também com o Magê Molê”.

E quais são as transformações que acontecem ai dos participantes desse Balé? "É assim, primeiro também tem que estudar né, se não estudar eles não dança, eu pego muito no pé deles, que é..., primeiro é o estudo mesmo, pra depois dançar”.


Paulo Sérgio - Bailarino
Fala de Paulo Sérgio - Bailarino do Balé Afro Raízes

"Mais um fazendo a diferença no Brasil... Por que hoje em dia, a droga tá aí, a prostituição, a violência, eu fazendo parte de uma arte, estou fazendo a diferença na humanidade. Através do grupo, nas dinâmicas, nas conversas, trabalhos sociais, a gente vai desenvolvendo cada vêz mais o que está dentro de si".


Edvaldo Ezídio – Pastor 
Edvaldo Ezídio – Pastor da Igreja Evangélica Tocha Viva (Peixinhos)Como é que a Igreja tem transformado a vida das pessoas que vivem aqui ao redor? 

“Tem gente que chega aqui viciado na bebida, agente orou, a pessoa aceitou e hoje não é mais... não bebeu, está aqui na Igreja a muitos anos, dá bom testemunho, por que Deus ainda opera nesse tempo né?! 
  
Luiz Antônio Costa – Cantor Evangélico
Luiz Antônio Costa – Cantor Evangélico - “Eu venho aqui para louvar à Deus, no tempo que eu era alcoólatra, passei oito anos retendo água para beber, passei um bom tempo da minha vida dormindo bêbado. Mas um dia Jesus, ele terminou a promessa comigo e mudou minha história. Hoje eu sou análogo da Igreja, graças a Deus”.


Luiz Antônio Costa – Cantor Evangélico - Em culto.

Pedro de Oliveira-Pastor
Pedro de Oliveira – Pastor – Igreja Evangélica Água da Vida - Como é que a Igreja pode transformar a vida de uma pessoa?  - Há onze anos atrás eu era um feiticeiro, trabalhava com Vudú, trabalhava com todo tipo de trabalho. Há onze anos atrás, eu devorava um animal nos dentes, e matava uma pessoa com 72h. Mas para a glória de Deus, hoje, Deus amostrou para mim que é possível um homem mudar, é possível um homem transformar. Foi transformada a vida da minha mãe que era macumbeira, que era feiticeira como eu, e que hoje ela se encontra no caminho do Senhor. Meu filho era garçom de Satanás, hoje ele levita na Igreja.”

Pedro de Oliveira – Pastor – Igreja Evangélica Água da Vida - Louvando.

Pedro de Oliveira Neto
Pedro de Oliveira Neto – Filho do pastor Pedro de Oliveira – “O único Deus da vida de um pai, era minha mãe. Onde ela largava muito tarde, todos as noites agente ia pra lá, pra ver se ela tava traindo, toda essa perseguição... Então, contudo isso, aconteceu uma crise familiar, onde meu pai tentou se enforcar, mas a transformação na vida do meu pai partiu do momento que ele perdeu minha mãe. Ele era uma pessoa grossa, uma pessoa ignorante, uma pessoa que infelizmente me dava vergonha de dizer que era meu pai, e a transformação na vida dele foi uma transformação radical, então hoje, meu pai é analfabeto, não sabe ler, certo? E pela misericórdia do Senhor, está conduzindo a Igreja. Para você, o evangelho tem o poder de transformar a vida de uma pessoa e de uma comunidade? Eu tenho uma total convicção que o evangelho, ele tem o poder de fazer isso.

 Bom, deixo à custódia dos que se interessarem em discutir e realizarem futuras falas que vão delinear um pensamento sobre estes discursos. Minha opinião já expus, conto com todos e todas para crescermos nossas análises sobre tudo que lemos/refletimos aqui.

Alexandre L'Omi L'Odò
 Iyawò e Juremeiro
Graduando História na UNICAP
alexandrelomilodo@gmail.com

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