sexta-feira, 20 de abril de 2012

Procissão de São Jorge/Ògún - 44 anos de tradição no Recife

São Jorge, arte de 1378 do Livro de Horas. Primeira imagem registrada em livro.

Procissão de São Jorge/Ògún – 44 anos de tradição e resistência em Recife.

No dia 23 de abril de 2011, fui pela primeira vez à Procissão de São Jorge (Ògún), do terreiro de Umbanda, Jurema e Nagô Pai Francisco, do afamado e sério Pai Messias de Ògún, o conhecido Pai Messias da Rua das Moças do bairro do Arruda, no Recife, um sacerdote dos mais dignos e cheios de força que já conheci.

Pai Mecias de Ògún (Pai Mecias da Rua das Moças). Foto de Alexandre L'Omi L'Odò.

Após ter me integrado a consciência que este ato de fé me trousse, pude refletir sobre a importância real de fortalecermos as nossas grandes e tradicionais manifestações religiosas. Ao invés de recriarmos atividades que em nada tem haver com o espírito da tradição pernambucana de terreiro, devemos contribuir para a salva-guarda e permanência desta tradição que é mais velha que centenas de terreiros de Recife e Olinda, e que tem muito mais idade que muita gente iniciada no candomblé ou Jurema em Pernambuco. 

Andor, momentos antes de sair às ruas, dentro do terreiro.

Sua procissão é uma verdadeira demonstração de força de agregação. Centenas de pessoas, entre povo de terreiro e católicos, não religiosos etc. compunham a grande caminhada. Com andor muito bem decorado com flores naturais, banda de música (metais, caixa e bombo), cavalaria, ala de “baianas” (todas filhas do terreiro), ala das bandeiras que simbolizavam cada uma um Orixá específico, faixas com frases de reflexão, show pirotécnico e muita concentração na fé, deram o tom  da tradicional procissão que seguiu seu percurso levando o cântico católico:

“São Jorge é Santo, protetor meu,
Ele é quem nos livra dos inimigos meus
Seu capacete, em sua cabeça vive
Ele é guerreiro, rei dos invisíveis”.

Ao ouvido de todos que das casas e fachadas saiam para reverenciar o “santo” e ver esta manifestação original que a cada ano leva mais gente às ruas. 

Banda de música, com metais e percussão.

 
Ala das Baianas. Todas filhas do Terreiro.

Bandeira de São Jorge a frente da procissão.

O que pude verificar foi que esta procissão é um ponto forte nos eventos de agregação das religiões, onde o povo de terreiro independentemente de nação se encontram pra celebrar juntos, à Ògún e a São Jorge. O longo percurso que rodeia quase todo bairro do Arruda e Água Fria, se fez imperceptível, pois a boa vibração das pessoas que com suas demonstrações de fé cantavam e louvavam, não permitiram que caísse o entusiasmo que marcou todo o percurso.

Protagonizando o entoar dos cânticos, estava lá o Pai Messias. Com sua presença forte de corpo e espírito, dirigia tudo com determinação e voz altiva. Muito respeitado por toda comunidade, ele com tranqüilidade deslumbrava nas ruas sua fé, com a certeza de que a comuna jamais cometeria ou permitiria qualquer manifestação de intolerância religiosa a ele, à procissão e a todas e todos que dela participavam. Esta certeza que percebi me fez refletir o quanto é importante a relação do terreiro com seu entorno, pois a Tenda de Umbanda Pai Francisco, é um referencial altamente positivo em todo bairro e cidade. Tendo em vista a prática financiada pelas igrejas neopetencostais de proporcionar o embate contra as religiões de terreiro, esta desrespeitosa e não religiosa forma de discutir alteridade foi completamente neutralizada há olhos nus pela força sagrada do Mestre Mané da Pinga (dirigente absoluto da Jurema de seu terreiro) e do próprio Ògún, Orixá de cabeça de Pai Messias, padroeiro da festa que como sempre deram proteção e tranqüilidade absoluta a todo evento.

À volta ao terreiro do andor e da procissão foi muito bonita e emocionante, o auge de toda liturgia. Com um longo show pirotécnico, que deu ao céu o tom verde e vermelho do Orixá (na nação nagô de Pernambuco), todas e todos os presentes celebraram o fim da procissão, que com palmas receberam de volta ao terreiro a imagem do “santo”.  O que mais me marcou foi a belíssima afirmação pública de que Ògún é São Jorge! Isso se fez possível através da gira de umbanda feita em plena rua em frente ao terreiro para finalizar a procissão. Ilús (instrumentos litúrgicos do terreiro), gan e agbê deram o ritmo perfeito ao som do samba de angola e do ritmo congo às toadas para Ògún na umbanda:

Ògún não devia beber,
Ògún não devia fumar,
Na fumaça ele é seu Ventania,
E na cerveja é espuma do mar”...

“Ògún, vencedor de demandas,
Ele vem de Aruanda,
Pra saudar filhos de Umbanda,
Ògún, Ògún Yara, (2X),
Salve os campos de batalha,
Salve a Sereia do Mar,
Ògún, Ògún Yara,
Ògún, Ògún Mejê”...

Com muita animação e cenas interessantes como a de um militar vestido com a farda do exército brasileiro tocando o ilú e baianas dançando as coreografias de Ògún, tudo se finalizou com uma oração tradicional da Jurema de seu terreiro.

Militar fardado tocando Ilú.

Momento da oração tradicional da Tenda de Umbanda Pai Francisco.

Lanches foram distribuídos a todos os presentes, vinho tinto, cachorro quente, arroz com galinha de molho e refrigerantes. Ainda teve a apresentação do Maracatu Nação Cambinda Estrela, do bairro de Chão de Estrelas, que fez a festa ao som das alfaias, caixas e taróis, gonguês e mineiros, regidos pelo mestre Ivaldo Marciano, que em seu discurso disse que todos os anos o Maracatu iria fazer parte da procissão, levando os tambores para saudar Ògún e São Jorge.

Pai Messias com seu carisma e sua espiritualidade leva a frente uma tradição que na fala dele deixa claro: “Só quando eu for para o Orun (mundo espiritual dos yorùbá, céu), deixarei de fazer. Mesmo assim meus filhos com minha ausência darão continuidade a tudo que iniciei nessa vida”.

Mojubá babá mi! Que me ensina e me dá coragem para prosseguir como filho de Osún e Ògún. Kimbanda dos bons!!


Ògún e São Jorge, firmes e fortes no cotidiano popular do Brasil

A popularidade deste Santo/Orixá, a cada dia cresce em nosso meio. Vejo todos os dias pelo menos umas dez pessoas no mínimo com colares que ostentam medalhões com a figura de São Jorge. Todos expostos. Há quase que uma moda atualmente em Recife, onde as lojas de “jóias” expõem em suas vitrines estes medalhões de todos os tamanhos e espessuras, de diversos materiais como o aço escovado, inox, latão, prata, ouro etc. de fato o Santo/Orixá está em alta. Mas observando um pouco mais profundamente, podemos ver que o símbolo da proteção particular é que está sendo o ponto principal desta disseminação da imagem do Santo “guerreiro e protetor”, já que estamos a cada dia que se passa inseridos numa sociedade violenta em todos os níveis, incitando a carência de elementos de proteção para o corpo e espírito. Ainda percebo a questão da afirmação da masculinidade que o símbolo de São Jorge traz aos homens. Este, exposto nos peitorais dos pagodeiros em geral, serve ao que parece, para proferir sensualidade, masculinidade e fé em um santo guerreiro e protetor. Sendo também símbolo de estética mesmo, já que tanto a imagem em camisas e em bonés são visualmente bonitas e representativas de uma ética e moral cristã (aceita pela sociedade) dando respaldo ao usuário de forma simbólica. 

 Ògún. Bela pintura em tela fotografada da parede interna do Terreiro dos Palmares, templo Jeje do sacerdote Pai Srael de Avereketi. Palmares/PE. 2009.

Em Recife, a única Igreja Católica que faz uma celebração a São Jorge é a Igreja do Santíssimo Sacramento, do bairro de Santo Antonio, no centro da capital, onde no dia 23 de abril, às 08h da manhã, celebra este santo, com a presença quase que absoluta de iniciados e iniciadas nos cultos afro indígenas. “É uma missa cheia de axé e do povo do axé e da Jurema”, como relata o historiador João Monteiro, em conversa sobre o tema.

A professora e escritora Georgina Silva dos Santos, autora da tese Ofício e sangue – o papel da irmandade de São Jorge nas culturas de ofício da Lisboa moderna, em 2002, pela Universidade de São Paulo, afirma que “São Jorge nunca foi banido do rol dos santos católicos. Ao contrário, a história de sua devoção é marcada por um incessante esforço eclesiástico para reconhecer-lhe a santidade”. (SANTOS, 2002). Portanto, a lenda de que São Jorge não é santo da Igreja católica, não é verdade. Essa crença no “Santo Guerreiro” é uma herança legítima dos portugueses no Brasil. Honrado com uma igreja em Lisboa, por Afonso Henriques, primeiro monarca português, São Jorge recebeu como herança o cavalo de seu sucessor, Sancho I, e passou a ser evocado como grito de guerra por Afonso IV. Devoção pessoal desses reis da dinastia de Borgonha (século XII ao século XIV). Este Santo foi tido como intercessor celeste na batalha que opôs Portugal e Castela, pela disputa da Coroa lusitana. Dando vitória a estes reis e derrotando “o drago castelhano” o santo foi instituído como padroeiro do reino e defensor de suas terras e gentes, ganhou notoriedade e deu ao paço régio o nome de santo – o famoso Castelo de São Jorge de Lisboa. Estes atos de D. João I inauguraram uma devoção dinástica. O santo ganhou mais ainda força com tudo isso, se estabelecendo como símbolo de compromisso da fé católica. São Jorge, com a expansão portuguesa em novas terras, inclusive no Novo Mundo e África, entrou em contato com novos territórios, levado pelos viajantes e navegadores, fiéis ao santo. O infante d. Henrique atribuiu a uma das ilhas dos Açores o nome do mártir. Já D. João II, ao construir uma fortaleza na Costa da Guiné, deu o nome de São Jorge da Mina, local de grande movimentação no período do trafico negreiro para as Américas (século XVII ao XIX). 

D. Afonso Henriques. Primeiro monarca português a honrar São Jorge com uma igreja em Lisboa.

A tradição das procissões de fato foi a responsável pela popularização de São Jorge. A introdução do santo na procissão do Corpo de Deus, ainda em 1387, manifestação católica realizada em todo o Portugal, procissão em honra à Eucaristia, era a festa mais importante da Igreja neste período histórico,  colocando centenas de devotos nas ruas, conseqüentemente ando visibilidade popular ao “guerreiro”, que muito rapidamente constituiu crença entorno de seus milagres nas causas relativas a lutas e proteção. Nessa procissão, a imagem de São Jorge era escoltada pelos artesões que trabalhavam com ferro e fogo. Era um evento bastante interessante, com danças de trabalhadoras das hortas e pomares que abriam a procissão ao som das gaitas e das flautas. Por determinação municipal, as vias eram cobertas por flores e ervas aromáticas, as pessoas colocavam nas fachadas de suas residências veludos e damascos... Na procissão, vários santos vinham acarreados. Cada um representando uma categoria de trabalhadores. Por fim, vinha o bispo ostentando o Santíssimo, ladeado pelo rei e pelos oficiais palacianos. São Jorge, atravessou o atlântico junto com a festa que o popularizou entre os portugueses... Esta procissão dividia opiniões entre cronistas e escritores da época. Uns elogiavam e diziam que esta manifestação era um bom exemplo de união do profano com o religioso, outros diziam que era ridícula. Várias foram as manifestações no Brasil que trataram o “santo guerreiro” com especial atenção, sendo até criadas novas modalidades de procissão para ele, diferenciando com o passar dos tempos com a tradicional modalidade da procissão do Santíssimo. Georgina, ainda nos informa:

“Mas, se São Jorge supria a demanda dos reis e dos exércitos, ajudando-lhes a forjar uma estampa de glórias e conquistas, no meio do povo logo se tornou advogado de causas cotidianas, com a ajuda dos orixás. Como enfrentara, num passado longínquo, desafios semelhantes aos de Prometeu, Perseu e São Marcelo, São Jorge também assumiria os de Ogum e os de Oxossi nos cultos afro-brasileiros”. (SANTOS, 2002). 

Imagem única de São Jorge com vestes romanas.

“São Jorge é Ògún”! Essa afirmação é freqüente dentro dos templos de umbanda e candomblé em toda parte do país. Um exemplo bastante interessante é a pintura da parede do salão de festas da Tenda de Umbanda Pai Francisco, o terreiro de Pai Messias. Lá na parede tem um São Jorge desenhado, que para todos os filhos e filhas, e também para o sacerdote, “é Ògún que está ali, não o santo católico”. Georgina também afirma que:

“O processo cultural de identificação, associação e inversão que caracterizam o sincretismo religioso entre São Jorge e os orixás da guerra e da caça construiu-se sobre o caráter múltiplo das divindades africanas e as variantes hagiográficas de São Jorge, um santo de “canonização literária””. (SANTOS, 2002).

Em Porto Alegre, Recife e Rio de Janeiro, São Jorge foi sincretisado com Ògún, na Bahia com Santo Antônio. Os cultos de matrizes africanas e indígenas, reprimidos e perseguidos pela Igreja e a polícia, encontraram no sincretismo religioso entre os santos católicos e os Orixás uma inteligente e criativa solução para a sobrevivência de suas divindades e religião. D. Obá II d’África, ex-combatente da guerra do Paraguai, negro freqüentador da Quinta da Boa Vista, era um desses que se dizia católico, mas não via e nem se comportava como se uma religião fosse desligada da outra, mostrando que o sincretismo de fato imbricou-se profundamente na forma de fé dos brasileiros, em especial dos negros e negras, que são herdeiros da tradição desse sincretismo na maioria absoluta. Hoje, o sincretismo não é mais tão forte e preciso. Mas, mesmo assim, São Jorge se coloca entre um dos santos católicos de maior e mais profunda relação com religiosa com o Orixá yorùbá Ògún. D. Obá II, ainda costumava afirmar publicamente que: “no Brasil, São Jorge é Ogum!”.

No Rio de Janeiro, desde 2001, o dia 23 de abril é feriado municipal. Nem mesmo a reformulação do calendário litúrgico, promovida pela Igreja católica sob a regência do papa Paulo VI em 1969, modificou a reputação e a força de São Jorge entre os brasileiros. Presente no imaginário popular, o Santo encontrou advogados devotos e poetas que fizeram e fazem de seu nome, honra e história assunto e arte cotidiana. Mário Quintana, poeta e escritor perguntava-se: “que culpa tem ele de ser tão belo e ecumênico?”.

Dedico este artigo à Pai Messias da Rua das Moças, um sacerdote que me fez entender que a fé é algo primordial para sermos integrantes plenos das religiões de matrizes africanas e indígenas. Ele é Ògún/São Jorge também, por sua luta em manter viva uma tradição tão popular no Recife. 

Pai Mecias em meio a multidão da procissão de Ògún. Foto de Alexandre L'Omi L'Odò.

No dia 23 de Abril de 2012, a Procissão completará 44 anos de história. Mais um momento a ser celebrado e revitalizado por, e em todos nós.

Mojubá aganganran ní mòun (meus respeitos e me curvo ao veloz enviado do céu) - Ògún yé (Ogum é vida)! Sarava Ogum de Umbanda!

Salve a fumaça!

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Referências

SANTOS, Georgina Silva dos. Ofício e sangue: a Irmandade de São Jorge e a Inquisição na Lisboa moderna. Lisboa: Colibri; Portimão: Instituto de Cultura Ibero-Atlântica, 2005.

Fontes

SANTOS, Georgina Silva dos. Venerado guerreiro. Revista Nossa História, Ano 1 / n° 7, maio de 2004. Páginas: 14 a 20. Biblioteca Nacional. 2004.

Entrevista com Pai Messias, Eriméia de Paulina e João Monteiro.

*Todas as fotografias aqui postadas da Procissão de São Jorge são de autoria Alexandre L'Omi L'Odò em 23 de Abril de 2011.


Alexandre L’Omi L’Odò
Iyawò de Oxum e Juremeiro.

2 comentários:

Jones Caboclo de Lança disse...

Parabéns L'omi. Incrível a sensibilidade e o teor histórico do texto. Prazer em ter lido.

Maracatu Nação Raizes de Pai Adão disse...

Jorge, Maracatu Raízes de Pai Adão. Parabéns L'omi,A sua escrita estar carregada de emoção. abraços fraternais e Salve Jorge

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