segunda-feira, 1 de junho de 2015

Falece o Mestre coquista Pombo Roxo

Mestre Pombo Roxo. Foto de Emiliano Dantas.

Falece o Mestre coquista Pombo Roxo
Foi alegrar o céu da Jurema 

No último dia 30 de Maio faleceu o Mestre Pombo Roxo no hospital Miguel Arraes. Pombo, como era chamado pelos amigos, era cadeirante a anos viva doente com problemas urinários, diabetes e outras doenças causadas pela idade e a maus cuidados. Muito humilde, vivia no bairro do Amaro Branco, onde teve intensa participação na vida cultural do bairro. Era juremeiro e babalorixá, filho de Odé. Conhecido por ser um exímio Ogan (pois ele tocava e cantava toques de diversos terreiros da redondeza), o Mestre era muito reconhecido no meio do povo de terreiro de Olinda e de outras regiões. Pude ver ele por muitas vezes tocando no terreiro de Mãe Beata de Iansã, no bairro da Barreira, ali pertinho do Amaro Branco em Olinda. Ele tinha moral, postura e se emocionava muito cantando para os Orixás e para a Jurema. Era bonito de ver ele atuar como sacerdote. Ainda o vi andando, há mais de 20 anos atrás... Ele tinha moletas... Mas depois piorou e infelizmente ficou definitivamente na cadeira de rodas.  

Grande mestre coquista, cantava em rodas de coco do Amaro Branco e do Guadalupe. Fazia a festa de muitos cantando "seus" cocos antigos como "Vendedor de Caranguejo". Nos últimos anos ele já estava com a voz cansada, confusa e com má articulação. Por vezes era difícil entender o que ele cantava nos versos de improviso, mas isso era o menos importante, pois todos respondiam o coco e dançavam com tanta alegria que ele se animava e cantava mais e mais. Se não tomasse o microfone dele... Hahahahha Era bronca, ninguém mais cantava a noite toda. Bom lembrar disso...

Neste dia 02 de Junho, mês do coco no Nordeste, às 14h ele será enterrado no Cemitério do Guadalupe em Olinda/PE. O mesmo local onde se enterraram outros mestres e mestras coquistas como Dona Selma do Coco, Dona Célia do Coco, Pai Edu (que não era coquista mas foi um grande babalorixá e juremeiro de Olinda - Figura pública), Mestre Dedo e tantos outros que moram no município que é patrimônio cultural da humanidade. 

Vamos lá festejar sua partida. Isso mesmo, festejar. Ele não morreu. Encantou-se na Jurema. Vamos tocar seus cocos, dançar, vibrar para que o espírito dele se alegre e siga leve nos braços dos ventos de Oyá. Ele sempre será lembrado!

Muitas vezes conversou comigo horas sobre a religião... Insistia em querer me ensinar coisas do axé e da Jurema. Sempre o ouvia com afeto e paciência. Lembro de um fato... Na madrugada da saída do Homem da Meia Noite, abrindo o carnaval... Estava eu, lá no Guadalupe seguindo o Calunga Gigante... Quando me deparei com Pombo Roxo sentado em sua cadeira de rodas em frente do toldo do Ponto de Cultura Coco de Umbigada. Ali fiquei para conversar um pouco com ele enquanto descansava da folia. Ele me explicou um monte de coisas sobre como os Orixás agiam, de como deve-se tratar eles, de como saber como uma pessoa esta "manifestada" com o santo ou não... E falou sobre a Jurema, de como os caboclos eram e de como cultuar eles sem haver guerra espiritual... Coisas que guardarei como tesouro em meu coração. Toquei inúmeras vezes para ele nas "sambadas de coco" de Olinda. Segurava o tombo pra ele no pandeiro e no bombo... Era bom demais... Tempos bons de vivências práticas com os mestres do coco. Aprendi muito. Sou esta colcha de retalhos formada pela memória de casa mestre que vivi e toquei. Me orgulho disso. 

Siga em paz babá. Que seu espírito sorria ao ver a gente celebrando sua partida com amor e respeito. Siga feliz. Agora o senhor pode andar. Espírito pode tudo, ou quase tudo... Voe no céu da Jurema e alegre a aldeia dos coquistas. Dê um longo abraços nos mestres de coco que estão ai nas cidades encantadas. 

Axexê mojubá!

Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com 

Um comentário:

fernando disse...

Pombo Roxo, meu grande amigo e professor de momentos de aprendizagem sobre o coco, e sobre o valor da religião. Mesmo fora da matéria continua me dando estimulo para falar do encantamento que se vive ao entoar uma loa. Muitos passam pela vida terrena esquecidos por sua dificuldades, pois na terra apenas os que têm fama e projeção se tornam lembráveis. Nesse sentido lamento pessoas como Zé Neguinho e Pombo Roxo passarem pro outro lado sem um reconhecimento devido no meio musical e cultural de Pernambuco.

Essa comunicação em respeito ao Mestre Pombo Roxo e a todos os outros coquistas e juremeiros merece destaque. Assim agradeço suas palavras Alexandre L'Omi L'Odó.

Viva Pombo Roxo! Viva Severino!

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