segunda-feira, 13 de abril de 2015

Coquistas de Olinda Contra a Violência

 Capa do CD Coquistas de Olinda Contra a Violência - Acervo Alexandre L'Omi L'Odò.

Coquistas de Olinda Contra a Violência

Após nove anos (o projeto iniciou em 2006 e finalizou-se em 2007), resolvi fazer esta postagem em meu blog, preocupado com a disponibilização pública do conteúdo deste CD que considero muito importante, no contexto histórico da cultura popular e também no combate a violência.

Levando em conta que foi um CD de baixa tiragem (onde quase ninguém tem. Ou sequer as pessoas têm conhecimento sobre) e que até o momento ninguém deixou as faixas disponíveis para baixar na net, cumprindo assim a missão de dar acesso ao conteúdo produzido pelos coquistas, me propus individualmente a garantir este registro e fazer esta disponibilização. Considero esta obra muito importante. Afinal, não recordo de nenhum outro projeto anterior a este que tenha reunido tantos artistas importantes entorno da luta contra a violência, e mexendo tanto com a criatividade dos mesmos, que produziram um material sui generis.

Foi um tempo de muita alegria para os artistas envolvidos. Lembro da alegria dos ensaios, das oficinas sobre violência que a Secretaria de Saúde nos deu para servir como inspiração para a produção das letras etc. Momentos raros junto à cultura popular mais original de Olinda. Dona Selma do Coco, Mestre Galo Preto, Dona Célia do Coco, Aurinha do Coco, o poeta Wilson Freire, a poetisa Dona Argentina, Guga Santos, eu, e tantos outros artistas e gestores unidos em uma proposta criativa e muito instigadora. Este foi um momento de aproximações que anteriormente não eram possíveis, como a junção de coquistas que nunca gravaram juntos... Tudo muito bonito de se ver e de se vivenciar. Foi um processo muito enriquecedor para minha caminhada de vida. Compartilhar deste trabalho me deu a condição de ampliar minha visão sobre a luta da cultura popular e também de garantir amizades eternas com pessoas que sempre admirei, à exemplo de Dona Selma do Coco, uma das responsáveis por mudar minha vida, nos tempos que estudava violão clássico no CEMO, e desisti para tocar percussão por causa de suas antigas fitinhas K7 que me encheram de esperança na cultura popular.  

Este material pode ser trabalhado em salas de aula, em espaços de educação, as faixas podem ser tocadas por DJ’s, pode-se fazer processos criativos com as faixas, ou simplesmente ouvir e curtir... Também, a disponibilização deste material contribui para a divulgação do que os coquistas de Olinda estão produzindo artisticamente e criticamente.

Abaixo seguem as faixas, as letras (na ordem que estão no CD) e os dados do disco, com os textos originais. Como creio que não se pretende re-editar este material, fica aqui registrado nesta postagem todo o conteúdo nele impresso, incluindo capa e outras imagens que compõem sua parte gráfica.

 Encarte interno do CD Coquistas de Olinda Contra a Violência. Acervo Alexandre L'Omi L'Odò.

Peço ainda a compreensão dos meus amigos e amigas que gravaram junto comigo este CD. Estou postando sem pedir permissão individualmente a cada um. Porém, re-lembro que já em 2007, nos tempos do lançamento do CD já havíamos acordado de que divulgaríamos como quiséssemos.

Faixas
Todas para Download 


1 –Conselho a um Cidadão (3:48)
BR-LGS-07-00002
Compositor: Zezinho

Vamos, vamos minha gente
Sente ali e vá pensar
Acabar com a violência
Desse jeito assim não dá

Não, não, não
Violência, não

Hoje ninguém é perfeito
Seja um grande cidadão
A mulher lhe deu a vida
Não tire dela não

Ficha Técnica

Voz: Selma do Coco
Bombo: Adriano Elias
Pandeiro: Rinaldo Aquino
Ganzá: Marcony Preto
Congas: Alexandre L’Omi L’Odò
Vocal: Célia do Coco, Arlene, Jaene, Sandrinha


2 - A gente é que faz o mundo assim (3:05)
BR-LGS-07-00001
Compositoras: Beth de Oxum, Mãe Lucia, Isabel Tavares

É mundo cão, de cão não é
É mundo de homem e de mulher
Nem animal, nem bicho ruim
A gente é que faz o mundo assim

A sociedade precisa banir
A violência social
A serra no Pantanal
O beijo a pulso no Carnaval

Banir o homem que bate em mulher
Menino gago que apanha de colher
Na hora da fome não ter o gingé
E a TV só mostra Pelé

Na hora da dor
Mulher tem onde parir
E os sem teto
Ter onde dormir

Se vamos trabalhar
Não sabemos se vamos voltar
Se temos nossos filhos
Não sabemos no futuro o que será

Banir a violência
É nosso papel
Trago coco
Nesse cordel

Segura o coco...
Esse é o nosso recado
Prá acabar com a violência social
A violência contra as mulheres
A violência contra os idosos
A violência contra as crianças

Ficha Técnica

Voz: Beth de Oxum
Bombo: Marcony Preto
Pandeiro: Alexandre L’Omi L’Odò
Ganzá: Rinaldo Aquino
Congas: Quinho Caetés
Vocal: Yalodê, Oxaguiam, Mayra Akarê, Heloize, Heloísa


3 – Sem exclusão (3:14)
BR-LGS-07-00003
Compositores: Letra Dona Argentina de Queiroz Lima
Improviso e Música: Mestre Galo Preto

Quem disser que preto é feio
Preto é bonita cor
É com preto que eu escrevo
A carta pro meu amor

A diferença esta na pele
Ponha o branco e o preto nu
Todo sangue é vermelho
Eu nunca vi sangue azul

Queremos a igualdade
Todos nós somos irmãos
Merecemos os mesmos tratos
Somos todos cidadãos

Sem marca de preconceito
Direito à cidadania
Merecer todo respeito
Vivendo com alegria

Improviso
Olha eu sou Galo Preto cantador
Pra rimar faço na hora
Minha veia expiatória
Agora funcionou
Vá sabendo que eu sou
Repentista de verdade
E mostro a capacidade
Quando você me convocou

Sou um preto de valor
Reconhecidamente
Fui a Flávio Cavalcanti
Já cantei pra toda gente
Já cantei com o Chacrinha
Ainda deixaram uma vaga
Fui no programa Silvio Santos
Fiz show com Luiz Gonzaga

Outra vez eu fui cantar
Com Lima Duarte no Som Brasil
Se você não me conhece
Olha o Galo Preto aqui

Ficha Técnica

Voz: Mestre Galo Preto
Bombo: Marcony Preto
Pandeiro: Alexandre L’Omi L’Odò
Ganzá: Rinaldo Aquino
Congas: Adriano Elias
Vocal: Dona Célia do Coco, Arlene, Jaene, Sandrinha, Alexandre L’Omi L’Odò


4 – Seu grito (3:08)
BR-LGS-07-00004
Compositora: Aurinha do Coco

Seu grito silenciou
Lá no alto em Olinda
Era uma mulher tão linda
Que a natureza criou

Ela foi morta
No meio da madrugada
Com um tiro de espingarda
Pela mão do seu amor

Fico orando
A Deus peço clemência
Com toda essa violência
O mundo vai se acabar

Moro em Olinda
Canto coco com amor
Luto contra a violência
Porque mulher também sou

Eu sou guerreira mulher
Mulher guerreira eu sou
Eu canto coco em Olinda
E canto com muito amor

Ficha Técnica

Voz: Aurinha do Coco
Bombo: Alexandre L’Omi L’Odò
Pandeiro: Rinaldo Aquino
Ganzá: Marcony Preto
Congas: Adriano Elias
Vocal: Aurinha, Jaene, Arlene


5 – Não destrua o cidadão (2:27)
BR-LGS-07-00005
Compositor: Guga Santos

É no seio da família
Que isso acontece
Você pensa que o mal está na rua
Mas é dentro de casa que padece

É triste de ver
Uma criança sofrer
Pela mão do próprio pai
Ai, meu Deus o que é que eu vou fazer

Cuide de sua família
Preste muita atenção
Violência não leva a nada
Só destrói o cidadão

Ficha Técnica

Voz: Jaene Jay
Bombo: Marcony Preto
Pandeiro: Adriano Elias
Ganzá: Rinaldo Aquino
Congas: Alexandre L’Omi L’Odò
Vocal: Aurinha do Coco, Arlene, Sandrinha, Marilda Marinho, Alexandre L’Omi L’Odò


6 – É com o coco que ela vai parar (3:06)
BR-LGS-07-00006
Compositor: Alexandre L’Omi L’Odò

Lírio cheiroso
É o lírio de Manaus
Mas quando L’Omi chega
É pau, é pau, é pau

Mas é tapa na cara, murro no olho
Queimadura, lapada e facada
É tormento, lamento e sofrimento
Humilhação, discussão, muita cachaça
Correria, estupro e muita bala
Muita droga, cuidado! Pega e mata!
Muita gente lutando e querendo
Transformar com a força da palavra
Com o coco e a cultura o povo vai indo
Vencer a guerra com o coco na batalha

Ai, ai, ai, ai, meu Deus
Como é que o mundo vai ficar?
A violência cresce ligeiro
Mas é com o coco que ela vai parar

É batendo em velho e criança
Pancadaria sem ver a quem bater
É muita fome e desemprego a crescer
Ajudando o mal a se estender
É tristeza, desgosto e desespero
Não deixando o meu povo assim vencer
Ignorância, racismo e preconceito
E muito roubo no mundo a feder

A política e a justiça elas são cegas
Só atendem a quem lhe carecer
E a gente que é pobre e consciente
Vai lutado pelo bem da sociedade
Com o coco e a cultura de verdade
Não vai deixar o mal prevalecer 

Ficha Técnica

Voz, Bombo, Maracás, Apitos, Triângulo, Matracas e Palmas de Mão: Alexandre L’Omi L’Odò
Pandeiro: Adriano Elias
Ganzá, Congas e Ilú: Rinaldo Aquino
Vocal: Dona Célia do Coco, Jaene, Arlene, Sandrinha


7 – Ziza no coco (4:17)
BR-LGS-07-00007
Compositora: Arlene Lamas

Seu Laurindo traz Ziza pro coco
Que aqui não se vê briga
Seu Laurindo traz Ziza pro coco
Que aqui ninguém se intriga

A vizinhança já vê
Toda a sua alforria
Batendo de manhã à noite
Na nêga Ziza que chia
Correndo pra se defender
Sai atrás de panela e bacia
Mas na verdade quem cuida
É o santo que nos guia

Ô seu Laurindo hoje em dia
Tem muita defesa a mulher
Tem polícia na delegacia
Psicóloga e bacharel
Tem todos os direitos do homem
E aqueles que o senhor não quer vê
Mas quem tanto na terra padece
Aprende a se defender

Aquilo sim que é mulher
Bota Amélia no chinelo
Sonhando com lar doce lar
E com seu amor sincero
Mas Ziza deixou de ilusão
Vai tirar os pratos a limpo
Seu Laurindo vá pedir perdão
Que ela merece respeito

Ficha Técnica

Voz: Arlene Lamas
Bombo, berimbau e palmas de mão: Adriano Elias
Pandeiro: Alexandre L’Omi L’Odò
Ganzá: Marcony Preto
Congas: Rinaldo Aquino
Cavaquinho e palmas de mão: Izaias do Cavaco
Vocal: Dona Célia do Coco, Arlene, Jaene, Sandrinha


8 – Coco para Rosa (3:17)
BR-LGS-07-00008
Compositor Zezinho

Minha rosa cheirosa do meu jardim
Minha rosa cheirosa do meu jardim
Eu não vou te espancar
Isso é muito ruim

Minha rosa cheirosa do meu jardim
Minha rosa cheirosa do meu jardim

Já doeu na consciência
O que eu fiz e com você
Vamos acabar com essa violência
Todo mundo quer viver, minha rosa

Ficha Técnica

Voz: Selma do Coco
Bombo: Adriano Elias
Pandeiro: Alexandre L’Omi L’Odò
Ganzá: Rinaldo Aquino
Congas: Marcony Preto
Vocal: Dona Célia do Coco, Arlene, Jaene, Sandrinha


9 – Coco do idoso (3:38)
BR-LGS-07-00009
Compositora: Dona Argentina de Queiroz Lima
Improviso e Música: Mestre Galo Preto

Olha o idoso cantando
Olha o idoso vivendo
Olha o idoso sabendo
Os seus direitos valendo

No estatuto dos idosos
Ta tudo bem explicado
Quem maltratar o idoso
Tem que ser penalizado

Vamos unir as nossa forças
Conquistar nossos direitos
Saúde, lazer e moradia
Cidadania e respeito

Preservar nossos idosos
Na sua sabedoria
É honrar o patrimônio
Da nossa cidadania

Desrespeito ao idoso
É uma discriminação
Um ato de violência
Para com o cidadão

O idoso ou a idosa
Que sentir-se humilhado
Não abra mão dos seus direitos
E nunca fique calado

Improviso
Quando olhar para um idoso
Que ele vem ou que ele vai
Lembre logo sua mãe
Seu avô ou o seu pai
E trata aquele idoso
Com uma certa simpatia
Como se ele fosse o idoso
Que é da sua família

O idoso já foi novo
Teve até muito vigor
O tempo foi passando
O idoso diminuiu
Mas eu quero dizer que o idoso
Foi quem fez esse Brasil

Ficha Técnica

Voz: Mestre Galo Preto
Bombo: Adriano Elias
Pandeiro: Rinaldo Aquino
Ganzá: Marcony Preto
Congas: Alexandre L’Omi L’Odò
Vocal: Dona Célia do Coco, Arlene, Jaene, Sandrinha


10 – Mané (4:28)
BR-LGS-07-00010
Compositora: Dona Célia do Coco

Ô Mané tu deixa de valentia
Tu bate em tua mulher
Toda noite, todo dia

Tu sabes que a violência
Ta fazendo confusão
Homem que bate em mulher
Ele não tem cartaz não

Por isso é que te digo
Me preste bem atenção
Você ta fazendo isso
Por uma alimentação
Eu digo meu camarada
Não faça isso mais não
Que o homem da capa preta
Ta na sua direção

A violência de hoje é uma calamidade
Estão matando mulher
Sem dó e sem piedade
Pra todo lado se ouve
Essa grande crueldade

Ficha Técnica

Voz: Dona Célia do Coco
Bombo: Adriano Elias
Pandeiro: Alexandre L’Omi L’Odò
Ganzá: Marcony Preto
Congas: Rinaldo Aquino
Vocal: Arlene, Jaene, Sandrinha, Marilda


11 – Deixa em paz quem quer amar (3:31)
BR-LGS-07-00011
Letra e Música: Wilson Freire
Improviso: Mestre Galo Preto

Homem com homem
Não vira lobisomem
Mulher com mulher
Não vira jacaré
Seja Maria, seja José
Cada um ama como quer

Jacaré é bicho d’água
Lobisomem é assombração
Quando o bico homem ama
Não é nada disso não

Para que reprimir
Para que discriminar
Seu eu amo, se tu amas
Deixa em paz quem quer amar

O amor é coisa séria
Amor vem do coração
Não importa qual o sexo
Amor faz a união

Improviso
Já disseram outrora
Que Jesus abençoou
Todo amor merece respeito
Eu respeito todo amor
Se o senhor ama a senhora
Se a senhora ama o senhor
Mas se ele quer amar ele
Deixa ele com o seu amor

Não, não, não
Não vira lobisomem
Não, não, não
Não vira jacaré

Ficha Técnica

Voz: Mestre Galo Preto
Bombo: Alexandre L’Omi L’Odò
Pandeiro: Rinaldo Aquino
Ganzá: Marcony Preto
Congas: Adriano Elias
Vocal: Dona Célia do Coco, Jaene, Sandrinha, Arlene, Adriano, Marcony, Alexandre L’Omi L’Odò, Rinaldo


12 – As águas do mar leva (4:47)
BR-LGS-07-00012
Compositores: Alexandre L’Omi L’Odò, Dona Célia do Coco e Wilson Freire

As águas do mar leva
Leva pro fundo do mar
A violência contra a mulher
E contra a criança o mar vai levar

A criança vem da mulher
E a mulher é pra se amar
A violência esta muito grande
E a mulher ninguém vai maltratar

Estou dizendo isso agora
Com muita satisfação
Porque essa criatura
Mora dentro do meu coração

Esse coco minha gente
Não é pra ficar à toa
Esse coco minha gente
Interessa a qualquer pessoa

Ficha Técnica

Voz: Dona Célia do Coco
Participação especial: Adriane Duarte
Bombo: Alexandre L’Omi L’Odò
Pandeiro: Adriano Elias
Ganzá: Marcony Preto
Congas: Rinaldo Aquino
Vocal: Aurinha, Arlene, Jaene, Sandrinha

Ficha Técnica

Idealização do Projeto
Márcia Marcondes
Produção Executiva
Ângela Marcondes
Assistente de Produção
Marilda Marinho Oliveira
Pós-Produção
Arlene Lamas
Direção Artística
Wilson Freire
Direção Musical
Adriano Elias
Gravado, mixado e masterizado
Estúdio Carranca – Recife. PE
Dezembro de 2006
Técnicos de Gravação
Júnior Evangelista e Marcílio Moura
Assistente de Gravação
Jonatas Melo
Mixagem
Júnior Evangelista
Produção Fonográfica
LG Projetos e Produções Artísticas
Masterização
Carlinhos Borges
Fotografia
Passarinho e Sílvia Saldanha
Ilustrações
Fátima Moreira e Eduardo Bezerra
Design & Arte Final
Eduardo Bezerra
bezerraeduardo@uol.com.br 

Texto oficial do CD

A violência nos nossos dias mata, incapacita, adoece física e mentalmente as pessoas. Como uma doença que precisa ser atacada com vários remédios e condutas para podermos enfrentá-la, a Secretaria de Saúde de Olinda tem a certeza que a prática de ver e fazer cultura legitimando os saberes de um povo, de uma região, de uma cidade ou parte dela, é um dos caminhos para que, juntamente com outras medidas preventivas, consigamos viver em uma cidade mais humana e fraterna.

João Veiga Filho
Secretário de Saúde de Olinda

Este CD é dedicado à memória de Mestre Dédo, pescador, compositor e exímio batedor de coco, falecido em janeiro de 2007, vítima de ato de violência.

Agradecimentos: À Secretaria de Patrimônio, Ciência, Cultura e Turismo (SEPACCTUR) que cedeu para nossos ensaios o teatro do Mercado Eufrásio Barbosa, Mercado da Ribeira e Clube Atlântico; à FOCCA, ao Clube Vassourinhas de Olinda, ao Centro Cultural Coco de Umbigada e a todos os músicos, artistas e amigos que com tanta perseverança acreditaram e fizeram acontecer o nosso projeto: Marluce, Mãe Lucia de Oyá, às filhas de Baracho, Biu e Dulce, Beto, Isa, Lígia, Viola, Erasto Vasconcelos, Tonho, Hemerson, Célia Meira, Sandro do Estúdio Carranca e a todos e todas as coquistas de Olinda.

Contatos: Diretoria de Vigilância à Saúde – Núcleo de Preservação de Acidentes e Violência – Fone 81 3241 6277

Ministério da Saúde - Brasil – Um país de todos – Governo Federal
Prefeitura de Olinda e SUS Olinda – Secretaria de Saúde


Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

domingo, 5 de abril de 2015

A Semana é Santa no terreiro - Matéria do Jornal do Commercio, 29 de Março de 2015

Foto da Matéria do Jornal do Commercio, 29 de Março de 2015, domingo. Caderno Especial JC Mais, páginas 6 e 7. 

A semana é santa no terreiro

RELIGIÃO

Fabiana Moraes

Durante a Quaresma, espaços de culto de matriz africana suspendem suas cerimônias, uma prática tanto absorvida quanto questionada por filhos de santo e seguidores.

As opiniões são divergentes: há quem diga que é imposição da Igreja Católica, há quem não veja base confiável para isso. Há quem tente manter a tradição, há quem não a leve como extremamente necessária justamente por entendê-la como fruto de imposição. Enquanto uns acreditam que é momento de guerra para os Orixás, outros apontam para o contrário: é hora de retiro e descanso de forças como Oxum, Ogum e Iemanjá. O ponto em comum que reúne tantas opiniões é uma prática pouco conhecida entre aqueles que não fazem parte das religiões afro-brasileiras: os terreiros de Candomblé, Umbanda e Jurema de todo o país suspendem durante sete, 15 ou mesmo 40 dias (tempo da Quaresma) suas cerimônias religiosas, toques de atabaques e oferendas que incluem sangue. Mais simbólico ainda: nestes dias, os deuses se despedem temporariamente de seus filhos e partem rumo a outro plano. Ausentam-se da terra.

Esse silenciamento das casas afro religiosas cai como uma luva no período de maior restrição próprio dos dias que antecedem o Domingo de Páscoa, e é justamente essa espécie de emparelhamento de práticas (inclusive a suspensão de carne vermelha na dieta) que leva a maioria dos adeptos das religiões de matriz afro a atendê-la como uma forma antiga de respeito, enquanto outros questionam a necessidade de sua permanência. “Uma religião impregnou a outra, nos aproximamos de muita coisa. Toda festa que fazemos deságua nisso, mesmo que tenhamos nos libertado há tanto tempo. Queiramos ou não, estamos muito inseridos”, diz Pai Ivo de Oxum, babalorixá do terreiro de Xambá, em Olinda. Também conhecido como Portão do Gelo (em referência ao antigo quilombo existente ali), o espaço é um dos poucos em Pernambuco, atualmente, a manter a cerimônia do Lorogun (ou encerramento, ou obrigação das bolsas), rito no qual os Orixás se despedem e partem em direção ao Orum, que equivaleria ao céu. Só voltam ao terreiro no Sábado de Aleluia, e é nesse entremeio que as obrigações da casa são todas suspensas. “Me perguntam porque admito todos os santos. Mas é respeito ao que as coisas são, à ancestralidade”, continua Ivo, que não enxerga a prática como imposição. No Xambá, o Lorogun é chamado de encerramento e acontece duas semanas antes da Páscoa. A cerimônia (ver arte) é fechada e só filhos da casa podem participar da despedida temporária dos Orixás.

Juremeiro e mestrando em Ciências da Religião pela Universidade Católica de Pernambuco, Alexandre L’Omi L’Odò (que prefere chamar culto de matriz africana a Candomblé, por entender este termo como algo pertinente aos terreiros baianos) concorda com Pai Ivo. Para ele, essa assimilação que faz que os terreiros emudeçam na Quaresma virou cultura, tradição. É, ainda, uma forma de resistência, mesmo provavelmente seguindo a cartilha da Igreja Católica. Ao mesmo tempo, ele percebe que a prática do Lorogun esta em declínio. “Existe um movimento de terreiros, nacional, para que se toque na Semana Santa. O povo de santo esta reagindo a esse processo de ficar preso no passado. É uma forma de afirmação: não temos mais que aceitar os dogmas católicos”, observa, lembrando que esse movimento antissincretismo foi deflagrado nos anos 80 por Mãe Stella de Oxóssi, do Ilê Axé Opô Afonjá, na Bahia.

O obrigatório cumprimento de longos períodos de silêncio e a própria cerimônia do Lorogun são, de fato, repensados pela ialorixá Mãe Valda, do Sango Ayra Ibonã (no Cabo). Ela não realiza a cerimônia de despedida dos Orixás e prefere dedicar energia, tempo e dinheiro para reverenciar Pretos Velhos que, segundo ela, representam os negros sacrificados naquele local, no qual existiu um quilombo. “No terreiro de Pirapama, o cangerê dos Pretos Velhos é um ritual ao qual sou proibida pelas entidades de deixar de fazer. Ele é a minha prioridade. Outro motivo para não fazer o Lorogun é que estou com a casa aberta há apenas seis anos e não tenho grande quantidade de filhos. Neste ritual são vários os Orixás presentes”, considera (são 14 deuses na cerimônia). Ela entende, porém, que o rito é antes de tudo um acordo com a Igreja Católica. “Então, no fundo, não seria desrespeito não realizar as práticas”.

Mãe Valda pontua, assim como outros autores que escreveram sobre a cerimônia, que o Lorogun veio com a necessidade de se cultuar os Orixás sem as pessoas perceberem. “Como o período da Quaresma corresponde a uma época de reclusão e reflexão dentro da Igreja Católica, muitos terreiros de Umbanda e Candomblé ficavam em uma posição delicada perto da comunidade católica e fechavam as portas para não ter problemas com as autoridades locais e com as pessoas em geral, quando poderiam ser acusados de desrespeitosos. Na Quaresma existe a crença de que Jesus deu seu sangue por nós. No terreiro, lidamos com o sangue e isso gera esta mentalidade, a de que não podemos curiar nenhuma animal nesta época”, conta ela, que fecha o terreiro desde o Carnaval até o Sábado de Aleluia (ou seja, cumpre toda Quaresma).

Chef do Restaurante Altar (Santo Amaro), Iabassê Carmem Virgínia é um exemplo da intensa mistura de práticas das duas religiões: na Semana Santa, prepara pratos conhecidos nas mesas cristãs, como quibebe e moqueca. Também reúne a família entorno da mesa e comunga. “Fui criada dentro do Candomblé por pessoas que aceitavam tranquilamente a Igreja Católica. Sei que existe hoje o Candomblé nato, com menos troca de Orixás por santos, mas faço questão de ressaltar que cresci dessa forma, com esse sincretismo. O povo de santo não toma isso como um problema”, comenta. Ela encerra os trabalhos somente na quarta-feira da Semana Santa (chamada de Quarta-Feira Maior ou Quarta-Feria de Ferro Velho, enquanto a quinta-feira é a Quinta das Trevas, outros nomes importados do catolicismo). “Nestes dias, podemos preparar apenas o amalá (quiabo e pirão de farinha), que é dedicado a Oxalá e não leva qualquer tipo de carne”. Carmem é integrante do terreiro Ilê Axé Ogbon Obá, em Água Fria. Lá, Pai Everaldo de Xangô faz uma pequena cerimônia e também encerra as atividades religiosas na quarta “por uma questão de respeito”. “É um momento de reflexão, de purificação, de voltar a si mesmo.” Faz jejum durante três dias, de quarta a sexta. “O tempo desse retiro dos Orixás é determinado pela casa. Cada babalorixá, cada ialorixá, determina como funciona a sua. Se pararmos muito tempo deixamos de cuidar de nossos filhos.”

SEM IMPOSIçÃO

José Amaro da Silva, professor aposentado (Departamento de Música) da Universidade Federal de Pernambuco e babalorixá do terreiro Obá Okosô, tem visão diferente daquela dos colegas de religião: Segundo ele, não há registro histórico que indique essa submissão do Candomblé ao catolicismo (em se tratando do Lorogun). “Essa cerimônia não tem nada a ver com a ressurreição de Cristo. A religião dos Orixás tem mais de 20 mil anos. Não há porque falar em imposição.” Lembra que, criança, a cerimônia do Lorogun era feita com toda pompa e circunstância no terreiro comandado por sua mãe. “A parada na atividade dos Orixás é uma oportunidade para que eles recebam energia e orientação das entidades superiores, como Olorun, para que tragam essa energia para seus filhos na terra. É também quando eles vão prestar conta aos deuses”, diz afastando-se assim da leitura de pesquisadores como Alexandre L’Omi L’Odò, para quem o Lorogun é um momento no qual os Orixás partem para uma guerra. “Essa cerimônia não ficou tão conhecida nos terreiros de Pernambuco. Esse costume foi trazido na virada do século 19 para o 20 por Fortunata Maria da Conceição, conhecida como a Baiana do Pina”, ensina. Professor do Departamento de Antropologia da UFPE, Bartolomeu Figueiroa concorda com José Amaro: A idéia de uma imposição não procede. Segundo ele, antes do Concílio Vaticano 2 (publicado em 1965), a Igreja Católica ignorava a existência das religiões afro-brasileiras. Por outro lado, estas sempre seguiram calendários litúrgicos da Igreja Católica. “Foi uma prática que nasceu da necessidade de o Candomblé ser uma espécie de ancora na cultura quase homogênea do catolicismo. Foi ainda uma maneira de atrair fiéis e não se separar da raiz católica da maioria dos pais e mães de santo. O catolicismo é mais velho na ordem mítica e simbólica. Na África por exemplo, não existe essa coisa (a suspensão das atividades dos terreiros na Semana Santa). O pessoal que vem de lá nessa época fica perdido aqui”, brinca.

A CERIMÔNIA

Passo a passo do rito secreto do Lorogun, quando orixás deixam os terreiros e só retornam no sábado de Aleluia

1-Ritual começa, como todo aquele realizado no Candomblé, com uma obrigação para Exú.
2- À noite, os filhos de santo enchem sacos de pipoca, identificados pelas cores adotadas por cada Orixá. No terreiro de Xambá, isso é feito seguindo a ordem dos 14 Orixás ali presentes, de Exú a Oxalá. No momento em que preenchem os sacos, os filhos de santo cantam para as entidades.
3- Orixás surgem para abençoar seus filhos. Vão saindo depois para o retiro.
4- As quartinhas com água são todas esvaziadas. Só voltam a ser enchidas no Sábado de Aleluia, significando renovação.
5- Os portadores do despacho saem e o restante esperam no terreiro.
6- Todas as luzes são apagadas e o peji é fechado. As imagens “no Xambá, de santos católicos” são cobertas com um pano branco.

*Matéria do Jornal do Commercio, 29 de Março de 2015, domingo. Caderno Especial JC Mais, páginas 6 e 7. 

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CRÍTICA AO CONTEÚDO DA MATÉRIA E AMPLIAçÃO DOS CONHECIMENTOS:

Transcrevo integralmente aqui a matéria acima. Como até o momento ainda não foi publicada no site do Jornal do Commercio, deixo aqui todo o texto para os que não tiveram acesso a este conteúdo. Muitas pessoas me solicitaram na internet, daí digitei. Obrigado Mari Vasconcelos por ter ditado toda matéria pra mim, ajudou totalmente.

Faço aqui algumas observações sobre o texto, que provocou alguns equívocos de entendimento ao público. Não entendam como resposta aos professores que discordaram de minas falas, apenas preciso contextualizar alguns pontos para ampliar e dar melhor caminho aos leitores no entendimento do tema abordado.

Começarei apresentando algumas informações que corrigem alguns erros no texto:

1 – Portão do Gelo não dava nome a um quilombo onde hoje é o terreiro Xambá. E sim, o terreiro hoje é um quilombo urbano. Anteriormente naquela localidade (assim como em toda mata norte) o quilombo se chamava Catucá, na primeira metade do século XIX. Portão do Gelo era (segundo relatos) o nome do portão de uma fábrica de gelo que no passado existia na atual rua da Casa no bairro de São Benedito em Olinda.

2 – Sobre indícios e registros da possível submissão dos cultos de matriz africana ao catolicismo (obviamente sem ser uma submissão oficializada pela Igreja) me parece evidente, devido ao contexto histórico de violência que envolve a história de resistência do povo de terreiro no Brasil. Se a Igreja detinha poderes políticos, inclusive de vida ou morte sobre os que não compactuavam de suas práticas religiosas (vide inquisição), organizadamente os “outros” criariam estratégias de sobrevivência para manter seus cultos preservados. Parece-me, assim como para diversos historiadores como Marcus Carvalho em seu livro Liberdade - Rotinas e Rupturas do Escravismo, Recife – 1822-1850, que os negros e mestiços desenvolveram diversas estratégias de adaptação para garantirem a sobrevivência e continuidade de sua práticas culturais e seus objetivos ligados a liberdade. Camuflar rituais africanos e indígenas os sincretizando com atividades do calendário católico não é nenhuma novidade. Algo muito óbvio. E isso considero submissão sim, um tipo de submissão ligada a sobrevivência. Se não se cantasse na cartilha da Igreja, com certeza as violências das mais complexas e terríveis possíveis chegariam aos toques/celebrações dos negros. Sobre documentos sobre isso, ver João José Reis em sua obra e tantos outros autores que trataram do tema escravidão no Brasil. Lembro que assim como o Lorogun, as demais práticas sofreram pressão para se adaptarem, mesmo supostamente o culto aos Orixás ter mais de 20 mil anos de existência. A imposição foi concreta e efetivada a base de armas de fogo e chibata.

3 – O termo “Lorogun” que em yorùbá se escreve Lórògun é um ritual que se realiza no primeiro domingo após o Carnaval nos candomblés Ketu da Bahia. O termo (que é uma elisão de uma frase em yorùbá) traduzido significa: Orò – ritual, somado a Ogun – guerra ou batalha, que na tradição baiana é uma representação da mitologia que revive a ida dos Orixás para a guerra com uma representação de batalha entre dois grupos que se enfrentam (...). Ver (BENISTE,  2002, p. 158-159).

Quando na entrevista falei que o termo significava ritual de guerra, ou que os Orixás partiam para uma guerra, falei baseado no conteúdo acima revelado. Contudo, compreendo inteiramente que em Pernambuco a prática é diferente da baiana, se distanciando inclusive do significado do termo yorùbá por completo...

4 – Discordo completamente das afirmações do professor Bartolomeu Figueiroa –

“Foi uma prática que nasceu da necessidade de o Candomblé ser uma espécie de ancora na cultura quase homogênea do catolicismo. Foi ainda uma maneira de atrair fiéis e não se separar da raiz católica da maioria dos pais e mães de santo. O catolicismo é mais velho na ordem mítica e simbólica. Na África por exemplo, não existe essa coisa (a suspensão das atividades dos terreiros na Semana Santa). O pessoal que vem de lá nessa época fica perdido aqui”, brinca. (...)

Já comentei sobre a questão da imposição... para mim não há dúvidas que houve imposição. Ainda não entendo o que o professor quis dizer com “o Candomblé ser uma espécie de ancora na cultura quase homogênea do catolicismo”, realmente fiquei em dúvida... Espero que um dia possamos conversar sobre. Também discordo da teoria de que o Candomblé se adaptou aos calendários cristãos para “atrair fiéis”, nem proselitistas as tradições de matriz africana e indígena são, portanto não há por que atrair fiéis. Ele ainda fala de uma suposta raiz católica dos pais e mães de santo... Acho que o termo raiz não se enquadra nesta situação, chega a ser forte demais. A raiz é africana, o catolicismo é a tradição da inculturação e imposição... Outro erro é afirmar que o catolicismo “é mais antigo na ordem mítica e simbólica”... Como, se a tradição africana antecede a própria existência de Cristo? (...) E para informar, não existe Candomblé na “África”. O que existe ainda são cultos às divindades ancestrais (Orixá, Vodun, Inkisse e Egun etc.), práticas diferentes das daqui em diversos pontos e convergentes em outros. Contudo, devemos observar que: A África não é um país... E sim um continente. Ao falarmos que alguém veio do continente africano devemos indicar qual país ele veio, se Nigéria, Togo, Benin, Gana, Marrocos, Egito, Congo, Angola etc.

Sei que em uma matéria de jornal não comporta tanta discussão... O espaço é pequeno e tem muitas limitações. Ainda há a possibilidade dos jornalistas se equivocarem nas transcrições das entrevistas... Portanto, tudo que escrevi aqui apenas vem a somar na discussão. Deixo a pauta aberta para contribuições e críticas, assim como as que estou fazendo livremente. O importante é trocarmos saberes e não termos medo de estar errados. Por isso digo: Não vamos fazer um Lorogun desnecessário com os pontos aqui levantados (haahhahahaahah).

Axé!
Sobô Nirê!

 Alexandre L’Omi L’Odò
Quilombo Cultural Malunguinho

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Noite dos Tambores Silenciosos de Olinda Homenageia o Grande Pai Edu

Pai Edu. Foto: Acervo Palácio de Iemanjá.

Noite dos Tambores Silenciosos de Olinda Homenageia o Grande Pai Edu

As atividades ligadas a tradição de matriz africana e indígena devem ser propagadas por nós povo de terreiro. Afinal, se a mídia não nos valoriza, temos que divulgar pra que mais e mais pessoas tenham acesso a nossas relevantes ações. 

Pai Edu, histórico sacerdote da tradição da Jurema e do Nagô, será merecidamente homenageado pela Noite dos Tambores Silenciosos de Olinda. Ato pelo qual toda comunidade de terreiro deve se orgulhar, pois ele, nas décadas de 1960 à 1990 foi um dos mais importantes vetores políticos de nossa religião. Afinal, ele com muito carisma, inteligência e saber, fazia no passado as maiores procissões já vistas em Pernambuco. Maiores passeatas do que vemos hoje...  Mesmo sem ter acesso a comunicação como hoje. 

Construiu um dos terreiro mais belos (visualmente) de Pernambuco. E contribuiu muito no processo da luta pela liberdade de expressão do povo de terreiro, ajudando na construção de leis que muito nos beneficiaram historicamente.  

Uma estrela de grande coração...  homem que materializava a força de Iyemojá, e que deu nome de Palácio à casa de Zé Pilintra,  seu eterno Mestre. 

Publicou cinco livros com a temática de terreiro. Entre eles o importante Zé Pilintra e Eu, auto-biografia dele e do Mestre. Texto inédito ao seu tempo.

Polêmico, fez muitas adaptações à tradição de terreiro... recriando a forma da fé pernambucana. Teve até dissertação de mestrado feita em seu Palácio - "Candomblé a Dança da Vida". 

Nada mais justo que os maracatus dobrem o couro para este grande guerreiro, que nos deixou há alguns anos. Partiu levando consigo o sentimento de missão cumprida na luta pelo povo negro e de terreiro. 

Axé. Axexe mojubá. Kolofé. Pateó fun oooooo!!! 

*A Noite dos Tambores Silenciosos de Olinda acontece nesta segunda feira dia 09/02/2015 a partir das 20h no Pátio da Igreja do Rosário dos Homens Pretos em Olinda.

Quase em frente a sede do Homem da Meia Noite - Amparo. 

Alexandre L'Omi L'Odò​
Historiador e Mestrando em Ciências da Religião
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

II Encontro de Juremeiros e Juremeiras em Alhandra


II Encontro de Juremeiros e Juremeiras em Alhandra

Dia 08 de Março de 2015 às 10h
Nas terras do Acaes, Alhandra/PB

O segundo encontro de juremeiros e juremeiras em Alhandra tem como objetivo, levar religiosos de diversos lugares para celebrar a ciência mestra em um dos lugares mais importantes na história da Jurema Sagrada, o Acaes/PB.

Dando continuidade ao primeiro encontro, realizado pelo Quilombo Cultural Malunguinho, a Sociedade Yorubana e outros parceiros em 2008... Sete anos depois, o QCM pretende propiciar mais um momento de grande união em torno do culto aos Senhores Mestres, que tem no mês de Março, seu mês de festas em Pernambuco. Celebrando assim, também a memória da grande Maria do Acaes, mestra lendária de nossa tradição.

Este encontro servirá para além de nos comunicarmos com as forças maiores da Jurema, e conhecermos o espaço sagrado onde outrora foi centro de grande culto ancestral de matriz indígena, o ato, também servirá para nos fortalecermos enquanto povo, que existe fortemente no Nordeste do Brasil, criando uma possibilidade de encontro inter-estadual, para nos aproximarmos mais uns do outros, para discutirmos pautas políticas, que se fazem necessárias.

Informações Gerais

Saída dos ônibus
07h em frente ao Memorial Zumbi dos Palmares, no Pátio do Carmo, centro do Recife/PE.

Valor da passagem: R$: 35

Para comprar os bilhetes:
Ligue para: 81 8302-2628 (Oi) / 8887-1496 (Oi) / 9525-7119 (TIM)
Maria Betânia é a responsável por vender os bilhetes

Roteiro:

10h - Chegaremos no Acaes e realizaremos uma grande gira de culto à Jurema Sagrada (atrás da Igrejinha do Acaes) – Podem levar ilús, maracás e irem vestidos com roupas tradicionais.

Haverá falas políticas e históricas.

13h - Almoço – Faremos uma parada no Restaurante Teto Verde em Alhandra. Valor da comida, entorno de R$: 12.  Cada pessoa paga o seu.

14h e 30min - Após o almoço, visita à casa da Mestra Jardecilha para celebração às árvores sagradas

16h e 30min – Parada no Memorial Zezinho do Acaes

17h – Retorno à Recife/PE

Realização: Quilombo Cultural Malunguinho, Rede Nacional do Povo da Jurema e Casa da Mestra Jardecilha.

Produção: Alexandre L’Omi L’Odò – L’Omi L’Odò Produções – Pesquisas e Consultorias.

Apoio: Bojo da Macaíba, Ilé Iyemojá Ògúnté, Casa das Matas do Reis Malunguinho, Senzala, Bojo da Macaíba.


Alexandre L’Omi L’Odò
Quilombo Cultural Malunguinho

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Bons fluidos para iniciar o ano novo - Matéria do jornal Diario de Pernambuco 28/12/2014


Bons fluidos para iniciar o ano novo

Banhos a base de ervas têm o poder de trazer equilíbrio espiritual, segundo religiosos. Por isso, o ritual atrai mais pessoas nessa época

Lenne Ferreira

O poder das ervas estimula pesquisas e a produção de medicamentos que deram origem a um mercado fitoterápico em constante ascensão. Prática milenar, o manuseio de raízes, cascas de caules, folhas e sementes também inspira cultos religiosos que fazem da natureza a fonte de energia para purificar e restabelecer a paz interior. Na jurema, religião de matriz indígena, banhos à base de ervas sintetizam a busca do equilíbrio espiritual e atraem até pessoas que não são adeptas do culto, principalmente nesta época do ano.

Independentemente de datas, banhar-se com a essência das plantas virou rotina na vida do bailarino Paulo Queiroz, 28 anos. Residente em Peixinhos, Olinda, o jovem não tem religião, mas acredita na força dos elementos botânicos para atrair bons fluidos. “Toda vez que vou fazer algo importante, tomo um banho específico para abrir os caminhos”. Além disso, ele faz questão de iniciar a semana com uma boa efusão de plantas, “para se proteger das vibrações negativas”.

Historiador e sacerdote juremeiro, Alexandre L’Omi L’Odò é estudioso do tema e explica que o efeito dos banhos independe da religiosidade de quem os toma. “A tradição dos banhos com ervas é algo muito antigo, presente em diversas civilizações que tentaram liberar a força energética das plantas em favor do homem”, discorre. Ele costuma atender católicos, espíritas e até ateus.
Segundo L’Omi, as ervas possuem características próprias que, quando usadas corretamente, liberam energias diferentes. Por isso, sacerdotes da jurema ou das religiões de matriz africanas e erveiros seriam os únicos aptos a preparar as porções. “Os saberes ancestrais dos indígenas e dos africanos estão bem preservados nos terreiros. Uma infuso errada pode ser venenosa ou nociva para o destino de uma pessoa”, garante.

Os banhos podem ser utilizados para fins diversos: limpeza espiritual, conforto mental, tratamento de saúde e para abrir caminhos. “Sinto um efeito positivo na minha vida. É como se tirasse um peso das minhas costas, meus pensamentos ficam livres”, descreve Paulo, que já está com sua receita pronta para a virada do ano.


Os segredos para atrair sorte e fortuna


Nos terreiros de candomblé, outras práticas comuns na religião também atraem pessoas de credos diversos nesta época do ano. Segundo Mãe Lu, do terreiro Ilé Iyemojá Ògúnté, em Água Fria, alguns procedimentos para começar o ano bem podem ser adotados. O ebó de abrir o caminho (ofertado a Orixalá), por exemplo, é um dos mais requisitados. “É só cozinhar arroz ou milho branco e colocar ibi, mel e folhas de corana crua”, ensina. Com a receita pronta, a panela deve ser levada até a cabeça para que a pessoa faça os pedidos.

Mãe Lu acredita que o mês de dezembro deixa as pessoas mais reflexivas, sem tantos preconceitos. “Embora a intolerância religiosa exista e seja muito forte, há evangélicos que nos procuram em busca de banhos. As pessoas precisam entender que nós cultuamos a natureza e qualquer um pode ter fé em seus elementos”. Ela conta que gente de fora da religião pede para participar dos cultos que abrem o ano no terreiro. “No ano passado, recebemos três famílias”.

Outra receita simples e orientada por Mãe Lu e que serve para atrair sorte e fortuna, desejos do bem comuns nesta época, é produzida com dez quiabos, três maças, cinco moedas correntes e mel. É só arrumar todos juntos em uma tigela, colocar em local visível da casa e deixar até os quiabos apodrecerem. Eles devem ser arrumados com a ponta para cima. O quiabo vai sugar toda energia ruim do ambiente. “O mais importante é acreditar. Tem que ter fé e esperar o melhor. Esse é o maior segredo”.

>Receita

Para a virada do ano

Alexandre L’Omi L’Odò ensina receita para atrair paz, dinheiro e prosperidade, além de fortalecer o espírito contra ao males universais.
Ervas (facilmente encontradas no Mercado de São José)

·         Folha de Abre-caminho
·         Folha de Botão de Ouro
·         Folha de Macassá

MODO DE PREPARO

Macerar tudo em uma bacia ou balde até extrair o sumo sagrado das plantas. Depois acrescentar perfume de alfazema, mistura e toma a partir da cabeça no dia 31, antes da virada do ano.

+Saiba Mais

Ervas mais utilizadas pelos juremeiros para o preparo de banhos

Folha de erva-doce
·         Espanta espíritos maléficos

Liamba Branca
·         Para limpeza espiritual

Folha de Canela
·         Para prosperidade financeira

Manjericão Miúdo
·         Paz mental

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Diario de Pernambuco – Local, A4. 28/12/2014. Domingo. Publico aqui esta matéria importante e respeitosa sobre a tradição dos banhos de ervas. A jornalista Lanne Ferreira está de parabéns pela bela matéria e pelo bom senso do texto. Estou atualizando muito pouco este blog devido as atividades no facebook. Mas voltarei a fazer deste espaço um campo de debates importantes. Salve a fumaça!


Alexandre L’Omi L’Odò
Quilombo Cultural Malunguinho

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Entidade cultural da resistência negra pernambucana, luta e educação através da religião negra e indígena e da cultura afro-brasileira!