Espaço internacional de discussão e troca de saberes. Local para estreitar nossas negras discussões e lucubrações sobre a Música Percussiva (Yorùbá/afro-descendente e nordestina) e as religiões das matrizes indígenas e africanas, além de todo o seu imaginário histórico, social, cultural e pedagógico. Local de exposição de vivências práticas com a religião negra!!!
A tarde do dia 01 de novembro de 2010 na UNICAP, dia de um imprensado em meio a um feriadão, levou a ciência da Jurema e o axé dos Orixás à sala 703 do Bloco "G" desta Universidade, para dialogar e elucidar estes temas com os presentes de forma a garantir a abertura do mês da consciência negra com verdadeira consciência e contribuição para o fim do racismo e da intolerância religiosa xenofóbica da sociedade brasileira para com os negros e índios e, as religiões de matrizes africanas e indígenas.
Contando com a participação especial do Professor Jayro Pereira de Jesus, teólogo da religião de matriz africana e indígena, e presidente da ATRAI- Associação de Teólogos e Teólogas da Religião de Matriz Africana e Indígena, o seminário que contou com uma metodologia dinâmica, cheia de sons e cores, elementos religiosos e poesia, levou às mentes curiosas e olhares de estranhamento dos alunos e participantes parte importante das informações teológicas, históricas e culturais destas religiões. Com a coordenação do professor Vanderlei Lain, o seminário se desenvolveu com forte direcionamento ao contexto atualizado e de qualidade de bibliografias sobre o tema e contou ainda com a experiência religiosa do aluno Alexandre L'Omi L'Odò e do Professor Sacerdote Jayro, pois ambos são iniciados aos Orixás e à Jurema Sagrada, tendo forte militância política educacional nessas, em âmbito nacional.
Contando com a dinâmica artística (recital e performance), colocando em pauta as discussões de Castro Alves sobre o escravismo, através de sua poesia "O Navio Negreiro", o grupo garantiu a atenção de todas e todos, que intervieram com perguntas e explanações. Um forte ponto do encontro foi o momento que a aluna de Direito Alice Barbosa colocou sua experiência pessoal e familiar sobre o tema, expressando seu sentimento e mudança após ter entrado em contato com o universo afro brasileiro e indígena, mudando seu pensamento e rediscutindo preconceitos seus a muitos não resolvidos. Foi interessante e verdadeiro seu depoimento.
Os organizadores do evento, prepararam um presente muito especial para distribuir com todas e todos: Copias do Documentário "Atlântico Negro, Na Rota dos Orixás", do diretor Renato Barbieri e pesquisa de Victor Leonardi. O filme traz a discussão sobre as origens do candomblé, a história do negro, o período escravagista, a luta por liberdade de negros e negras no Brasil, brasileiros descendentes de africanos retornados à África (os Agudás) e, concretiza um diálogo e troca de saberes entre o Pai Euclides (Talabian de Lissá) sacerdote da casa Fanti Achanti no Maranhão com um sacerdote do culto fon de Benin. Escolhido como material imprescindível para contribuir no aumento de saberes sobre a história e cultura do povo negro, este material pedagógico, educativo e transformador foi exibido em silêncio durante as falas da palestra, dividindo por vezes a atenção dos presentes entre as falas e as imagens na TV do pequeno auditório multimídia.
Finalizando os trabalhos, depois das grandes discussões do tema, a poesia "Navio Negreiro" voltou a ser recitada com a participação especial do músico, poeta e fotógrafo Adeíldo Massapê que com muita sabedoria dividiu a cena com L'Omi. O vinho sagrado da Jurema foi destribuido entre todos presentes, configurando um momento de comunhão com o sagrado indígena, ato que levou todos e todas à aproximarem-se para experimentar a deliciosa bebida junto a fumaça comunicativa do cachimbo de mestre da Jurema.
Publico as fotos aqui para informar visualmente todo processo do evento. Fotos de Izabella Cabral de Mello, aluna do curso de História da UNICAP. Meus agradecimentos! Divirtam-se!
Alexandre L'Omi L'Odò, abre as discussões com louvação à Jurema Sagrada, com Fumaça de cachimbo e maracá. ***
A Poesia "Navio Negreiro" de Castro Alves foi escolhida para abrir com uma performance de percussão e recital de Alexandre L'Omi L'Odò.
***
Alexandre L'Omi L'Odò explicando a "Diáspora Negra". ***
Em foco o País Mossambique, local que também foi incluído no tráfego negreiro para o Brasil. ***
Setas indicam as localidades que os Tumbeiros (Navios Negreiros) traziam os negros e negras para o "Novo Mundo". Em foco, a ceta que aponta da Nigéria, Togo e Benin para Pernambuco. ***
Texto "Sankofa e o Equívoco sobre África Distintas e Desconexas" do Livro Sankofa, a Matriz Africana no Mundo, da autora Elisa Larkin Nascimento (pág. 46 à 51), foi lido na íntegra pelo Marcelo Carrilho. ***
O tema "Xangô de Pernambuco", ou Nagô do Recife foi fortemente discutido na apresentação, mostrando o valor marcante desta tradição no imaginário geral do povo de terreiro de PE. ***
Candomblé e Suas Nações, tema elaborado para mostrar a complexidade do imaginário das religiões de matrizes africanas no Brasil. ***
A aluna Alice Barbosa, apresentou o Tambor de Mina do Maranhão e o Jarê, Xapanã e Batuque também foram temas abordados por ela. ***
Plateia assistiu ao seminário com muito interesse. ***
O tema da diversidade religiosa foi foco na fala da Alice Barbosa, que relatou para os presentes sua experiência pessoal ao entrar em contato com o tema do seminário. Ela afirmou que uma mudança forte aconteceu com ela, e que a imagem distorcida e diabolizada que ela tinha sobre estas religiões foi totalmente modificada para melhor. ***
O Professor Teólogo da Religião Afro Jayro Pereira de Jesus, foi o convidado especial para o seminário. ***
O Prof. Jayro Pereira abordou temas de extrema profundidade teológica em relação às religiões afro, mexendo com o pensamento de todos os presentes. ***
A cosmovisão africana, a teologia negra e os aspectos da lógica social enquanto "berço" da Xenofilia, formou a linha de raciocínio do prof. Jayro Pereira em sua fala. ***
Mostra do quadro escrito para definir Exú e as diferenças sociais e culturais do "berço" do ocidente e do africano. Vale salientar que a ligação entre Exú-Ruah-Pneuma = Espírito Santo, causou espanto e reflexão sobre o apresentado. ***
O Seminário foi finalizado com a segunda parte da performance de Alexandre L'Omi L'Odò, com o poema Navio Negreiro. Ele contou com a participação especial do Poeta e Músico Adeíldo Massapê, que fez os efeitos na percussão. ***
Performance do Poema Navio Negreiro de Castro Alves. ***
Uma mesa de Jurema e de estudos foi montada para ilustrar parte do trabalho. ***
Ao término da apresentação, foi oferecido ao público o vinho sagrado da Jurema, para degustação e espiritualização. ***
L'Omi oferecendo a Jurema Sagrada aos participantes. ***
Servindo a Jurema... ***
Participantes do curso de especialização em história da África bebendo Jurema. Detalhe: A direita, a aluna Maria do Carmo curiosa... ***
Degustando a jurema, aluna Karla Gama, do curso de Biologia apreciou o vinho. ***
Comunhão com o sagrado indígena! ***
O Professor Vanderlei Lain e L'Omi degustando juntos o vinho sagrado da Jurema. Ato de celebração. ***
Prof. Jayro Pereira de Jesus e o Prof. Vanderlei Lain. ***
Mestrando Américo de Ògún Soròké, Prof. Jayro Pereira de Jesus e Prof. Vanderlei Lain. ***
Poeta Adeíldo Massapê, L'Omi, Pai Américo de Ògún e alunos do curso de história da África. ***
No cachimbo da Jurema: Professor Vanderlei Lain. ***
Alexandre L'Omi L'Odò (História), Alice Barbosa (Direito), Marcelo Carrilho (Engenharia) e Fagner Nascimento (História), alunos que apresentaram e construiram juntos o trabalho sob orientação de L'Omi. ***
Alexandre L'Omi L'Odò Sacerdote e estudante de História da UNICAP alexandrelomilodo@gmail.com
Dia 4 de Novembro, com saída às 15h do Marco Zero, a Caminahda do Povo de Terreiro de Pernambuco promete levar às ruas do Recife o axé, a fumaça da Jurema, a alegria de um povo que expressará com cânticos sagrados e toques da cultura negra dos terreiros toda sua luta e tradição. A cada ano, mais pessoas participam desta caminhada. Diversas religiões marcam presença e contribuem para o avanço das discussões sobre intolerância religiosa (respeito religioso, ao meu ver), racismo e discriminação.
Serviço
4° Caminhada dos Terreiros de Matriz Africana e Afro Brasileira de PE Data: 04 de novembro de 2010 Horário: 15h Saída do Marco Zero Ponto de chegada: Memorial Zumbí dos Palmares - Pátio do Carmo do Recife
Todas e todos lá levando seus elementos simbólicos de axé, vamos mostrar nossa identidade com orgulho e consciência!
Alexandre L'Omi L'Odò Iyawò L'Osún Ilé Oyá T'Ogún alexandrelomilodo@gmail.com
Seminário Religiões de Matrizes Africanas e Indígenas
Abrindo o mês da Consciência Negra na UNICAP
O Seminário, pretende revelar aos participantes as diversas faces destas religiões brasileiras que são mistificadas e satanizadas pela sociedade, que sem possibilidade de terem acesso à informações reais teológicas, criam uma imagem completamente equivocada sobre estas tradições seculares.
Com a perspectiva de mostrar o Candomblé e suas diversas nações, o culto da Jurema Sagrada, a Pajelança, o Jarê, o Candomblé de Caboclo entre outras formas religiosas com uma metodologia epistemologicamente afrocentrada e indocentrada, todas as exposições serão focadas no significado teogônico, teosófico e histórico de cada uma, focando essencialmente no modelo principal do candomblé (culto aos Orixás) e na Jurema Sagrada do Nordeste, que tem papel fundamental nos terreiros de Pernambuco.
Trazendo como convidado especial o teólogo da religião de matriz africana e indígena, o professor e sacerdote Jayro Pereira de Jesus (Oxoguian Kalafor), baiano e profundo militante histórico do movimento negro e de terreiro do Brasil, a discussão se aprofundará com um dos maiores pensadores da religião afro no nosso país.
Sob a regência do professor Vanderlei Lain, escritor do livro Nova Consciência: A Autonomia Religiosa Pós-Moderna (Libertas, 2008) e professor da cadeira de Humanidade e Transcendência do curso de História da UNICAP, o seminário será o âmbito mais propício para uma boa conversa séria sobre fé, religião e religiosidade e filosofias de vida, mentalidades.
Abrindo o mês de novembro, o Mês da Consciência Negra, este evento que tem apoio do Quilombo Cultural Malunguinho e da UNICAP, promete promover muitas discussões relativas a realidade contemporânea do negro e índio na sociedade.
Expondo os conteúdos teremos Alexandre L'Omi L'Odò, aluno do curso de História, Alice Barbosa, aluna do curso de Direito, Marcelo Carrilho, do curso de Engenharia e o Fagner Nascimento, aluno do curso de História, todos da Universidade Católica de Pernambuco, que embora sejam de cursos distintos, discutirão o tema em grupo.
Em meio ao Feriadão e o dia de Finados, os Orixás, Caboclos, Mestres, Exús, Trunqueiros e Eguns, farão a festa na Universidade!
Serviço
Seminário Religiões de Matrizes Africanas e Indígenas Dia 01 de Novembro de 2010 Às 13h no Bloco G sala 703 - 7° andar Evento Gratuito Contatos: alexandrelomilodo@gmail.com 81. 8887-1496
"Se wo were fi na wo Sankofa a yenkyi".
Alexandre L'Omi L'Odò
Sacerdote Iyawò L'Osún e Juremeiro Aluno do curso de História
Faixa e procissão pelo centro de Camaragibe. Oxum Padroeira da cidade de Camaragibe - PE Uma questão de luta para a preservação dos mananciais e do ecossistema!
No dia 31 de julho de 2010, no município de Camaragibe, na Região Metropolitana do Recife, numa tarde que o sol fazia manha no céu, nos dando luzes avermelhadas, confortáveis aos olhos dos camaragibenses e outros que ao centro comercial da cidade chegaram para participar do evento que o povo de terreiro daquela região realizou, nos iluminou de forma transcendente o fato histórico para a comunidade do candomblé, jurema, umbanda, enfim, aos cultuadores de Orixás e Jurema, que ocorreu naquela tarde.
Materializando em forma de passeata pública, da Avenida Doutor Belmínio Correia até a Queda D'água, na Vila da Fábrica, numa cachoeira de acesso arriscado, levando a Cesta da Oxum, acompanhados pelo Afoxé Iyámi Balé Jilé, da Mameto Balé Jiná, a Mãe Nadja de Angola, do bairro do Ibura, no Recife, os sacerdotes e sacerdotisas, iniciados, neófitos e admiradores das diversas manifestações afro indígenas religiosas, além de representações políticas e governamentais, levaram ao conhecimento geral do povo da cidade a informação de que o Orixá Oxum, havia se tornado padroeira da cidade, por motivos de ideologia e preocupação ecológica, pois Oxum, sendo o Orixá dos rios e das águas doces, foi eleita pelo coletivo de sacerdotes e sacerdotisas do município, como ícone da preservação dos rios e mananciais da cidade após vasta consulta ao Ifá (jogo de búzios) e a diálogos com povo de terreiro da localidade.
Pai Gilmar de Ògún. Um dos organizadores e idealizadores do evento.
O Mapeamento dos Terreiros de Recife e Região Metropolitana, revelou cerca de 60 terreiros na cidade, tendo outros 5 que apareceram depois do processo da pesquisa ter finalizado. Contudo, podemos ver um bom número de templos dedicados ao culto dos Orixás e da Jurema na localidade, revelando sua expressiva força afro indígena religiosa.
A cidade, cortada pelo Rio Capibaribe, e tendo diversos mananciais, além de cachoeiras, sofre forte processo de poluição por parte de fábricas, lixo das comunidades e a total falta de políticas públicas de preservação do ecossistema local, fato este, que coloca o povo de terreiro em situação crítica de preocupação, pois sem água no há axé, sem água não há vida, sem rio, Oxum, a dona da fertilidade humana, da gravidez, das crianças e gestação e, da fertilidade da terra, morre, some, é afastada de seu domínio mítico teológico natural. Pensando em reverter este processo de autodestruição coletiva, os babalorixás, iyálorixás, juremeiros e juremeiras, e todos das religiões afro indígenas, inteligentemente resolveram criar atividades que trouxessem esta realidade à consciência coletiva do povo e dos poderes públicos, provocando assim uma discussão maior sobre o tema.
Mesmo com sérias dificuldades de comunicação e articulação com o poder público local, que não atendeu às reivindicações oficiais dos sacerdotes e sacerdotisas, como segundo o Pai Gilmar de Ògún, um dos organizadores e coordenadores do evento informou, foram enviados 5 ofícios solicitando apoio ao evento, como carro de som bom, trio elétrico e estrutura de logística e segurança para a caminhada, mas em quase nada foram atendidos, pois o carro de som foi de péssima qualidade, atrapalhando o melhor desenvolvimento das atividades e falas, além da pouca segurança e a falta até de água para os participantes beber. Isso mostra o retrato real de uma gestão não preocupada com temas de tão profunda urgência e importância. Os organizadores, acreditam inda que como o evento foi realizado e organizado por pessoas de terreiros, na maioria negros e negras de candomblé, a dificuldade foi maior, pois sabe-se da forte influência evangélica dentro dos órgãos da prefeitura. Contando com o apoio da Fundação de Cultura de Camaragibe, na pessoa de Rejane, o evento aconteceu na força coletiva do axé, força que rege o povo de terreiro, energia que transcende as dificuldades e nos ajuda junto com Exú, a realizar todas as coisas.
Alexandre L'Omi L'Odò falando sobre a importância do povo de terreiro se organizar e compreender sua história, para se defender da satanização da religião pelos evangélicos.
A convite dos organizadores do evento, os representantes da Pesquisa Socioeconômica e Cultural dos Povos de Matrizes Africanas, do MDS- Ministério do Desenvolvimento Social, UNESCO e Fundação Palmares, o Rafael Barros de MG da Filmes de Quintal, coordenador da pesquisa em Pernambuco, os pesquisadores, João Vitor, Alex Nagô e Alexandre L'Omi L'Odò, participaram ativamente do evento, com direito a fala no local.
Pai Djair de Oyá.
Com muita fé e presença de lideranças antigas dos terreiros da cidade como o Pai Djair de Oyá, que com um discurso muito bem fundamentado na afrocentricidade e na consciência negro religiosa, colocou em ordem o pensamento dos presentes, discursando de forma inflamada e cheia de força, reivindicando os direitos à natureza e a liberdade religiosa para o povo de terreiro que sofre todos os dias o racismo e a intolerância. Mãe Graça de Xangô, representante da Umbanda, falou e fez em forma de repente seu discurso defendendo nossa liberdade. Outras lideranças se manifestaram e o Iyawò Alexandre L'Omi L'Odò, tomou a fala a convite dos organizadores e falou do conceito de satanização que as igrejas neopentecostais cotidianamente vem tentando de forma agressiva e criminosa estigmatizar os terreiros e suas práticas. A fala foi muito forte e provocou manifestação de evangélicos que de longe assistiam ao evento. Dentre eles, um que com a Bíblia na mão, veio até o L'Omi e disse que a bíblia prova em um versículo que não recordo que Jesus diz que somos demônios por praticarmos a religião dos negros. esta situação de intolerância religiosa pública, gerou revolta em todos presentes, que juntaram-se e quase tomam medidas agressivas contra o intolerante racista que logo sumiu do local correndo como um covarde. L'Omi, assumiu mais uma vez a fala e colocou ordem na situação que mostrou de forma prática como se dá a satanização da religião negro indígena.
Mameto Nadja de Angola e Alexandre L'Omi L'Odò, instantes depois da intolerância religiosa cometida pelo evangélico.
Passado o fato inusitado, o corpo de sacerdotes se reuniu entorno da Cesta de Oxum, feita e decorada pelo Babalorixá Djair de Oyá, e a celebração à Oxum iniciou com muita força e visível alegria dos presentes pela vitória de no hoje poder manifestar sua fé nas ruas, sem que a polícia venha agredir e reprimir.
Mãe Graça de Xangô, discursando sobre a importância ed Oxum.
Cânticos para Oxum.
Cantando toadas à Oxum, a gira (xirê) formou-se grande e expressiva em plena praça pública de Camaragibe, ato inédito na cidade, que assistiu atenta a interessante louvação. Os prédios dos arredores encheram-se de espectadores nas janelas, os funcionários das lojas saíram para ver a gira e os ônibus que por ali passavam , paravam para assistir o culto rico em dança, ritmo e música dos candomblecistas e juremeiros ali.
Oxum se fez presente, atendendo o chamado de todos. A chuva que levemente caiu nas cabeças dos sacerdotes, prova da aceitação da homenagem à ela. A vibração foi muito forte sobre o cântico:
"Mo r'ómi màá jó- Vejo água, danço Mo r'ómi màá 'yò- Vejo água, sou feliz àgbàdo mi l'ore òjò- O meu milho é amigo da chuva"*
Xirê para Oxum.
Às 17h a procissão saiu em direção à Queda D'água, no bairro Vila da Fábrica. O transito da avenida principal da cidade foi interrompido e o cortejo com todos seguiu cantando, dançando e louvando Oxum nas ruas, proclamando ela como padroeira da cidade, informando a todos e todas a importância da preservação das águas da cidade.
Xirê para Oxum.
Mesmo os organizadores não tendo respostas da câmara dos vereadores da cidade, para que houvesse uma tramitação de lei municipal para oficialmente o município intitular Oxum como padroeira da cidade, o povo de terreiro o fez, com toda legitimidade e consciência, mostrando sua articulação e poder de discutir na altura que exige a crítica pública efetivando de forma real a intitulação popular de Oxum como Orixá feminino Padroeira de todo Camaragibe, Padroeira das águas doces que brotam do chão da cidade, camará da salvação da vida na terra!
A discussão sobre o tema pretende seguir com a realização de outros eventos. Oxum sempre encabeçando as discussões, como centro ético da preservação da natureza e das águas doces. Pai Gilmar de Ògún registra em entrevista por telefone que a luta continuará devido a importância que o rio tem para o povo de terreiro, conseqüentemente a todo ser vivo.
Òóré yeye o! (Mãe da bondade)**
Veja o vídeo deste momento:
Alexandre L'Omi L'Odò. Iyawò de Osún. alexandrelomilodo@gmail.com
_________________________________ *Oriki extraído da bibliografia: CARVALHO, José Jorge de. Cantos Sagrados do Xangô do Recife. Brasília: Fundação Cultural Palmares. 1993. pag. 96 e 97.
**Saudação à Oxum. Extraída da bibliografia: Beniste, José.As águas de Oxalá: (àwon omi Ósàlá). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002. Pág. 127.
--> Agradeço ao Pai Gilmar de Ògún pela entrevista dada a mim por telefone e, por ter repassado informações que contribuíram muito para este texto/relatório. --> Agradeço à João Vitor que dês do primeiro momento me ajudou tmabém com informações sobre o evento, tendo sido ele o pesquisador que me convidou junto com o Rafael Barros para ir ao evento. --> As fotos são de autorias diversas. Os autores: Alexandre L'Omi L'Odò, João Vitor e Rafael Barros. O Vídeo foi filmado por Rafael Barros. --> Mesmo tendo passado tanto tempo depois do evento, só hoje Oxum me deu condições de escrever sobre este evento que ao meu ver foi historico e merece ser copiado em outras cidades.
No domingo do dia 19 de Setembro de 2010 aconteceu o V Kipupa Malunguinho Coco na Mata do Catucá, ocasião que tive o prazer de acompanhar e que comento brevemente a seguir.
Gira dentro da mata sagrada de Malunguinho.
O encontro organizado pelo Quilombo Cultural Malunguinho chegou à sua quinta edição com o objetivo de “homenagear e reconhecer Malunguinho, líder negro que elevou-se à divindade na Jurema, assumindo a patente de Rei da Jurema, se firmando na tradição oral e teológica nordestina como defensor espiritual”, como os próprios organizadores o definem.
Neste dia, Juremeiros que por vezes são também da Umbanda e/ou do Candomblé se reuniram para cantar, dançar, comer e homenagear Malunguinho, compondo uma diversidade religiosa muito bonita. Enquanto os ônibus chegavam aos poucos, as oferendas foram sendo colocadas no altar dedicado a Malunguinho, onde todos contemplavam e ajudavam nas preparações, cortando e dispondo as frutas em cestas e fumaçando-as para abençoá-las. Alguns desciam dos ônibus cantando pontos de Jurema e de homenagem a Malunguinho e outras entidades.
Para a grande maioria não era a primeira vez no encontro. Entre os presentes haviam neófitos no culto da Jurema e também pessoas que nasceram dentro da Jurema e que consideram-se juremeiros natos. Como nos disse Toninho de Malunguinho, um juremeiro nato é “aquele que é voltado à cultura e ao culto da Jurema por uma linhagem de família”.
Para alguns a Jurema é a primeira religião brasileira. Nessa concepção, ser juremeiro é ter preocupação com a natureza, é buscar o saber e a espiritualidade que essa proporciona. Ela é o saber da natureza. Para os juremeiros, a linha da Jurema e seus mestres têm ciência, ela ensina a viver, ilumina, enfim, doutrina. Dentre os vários significados associados à ciência da Jurema estão as ideias de conhecimento, complexidade, prática, consciência, auto-aprendizado, busca, saber, doutrina, procura de verdades. A Jurema é também o culto aos ancestrais índios e escravos.
Mestres na Jurema Sagrada. Seu Aílton de Trapiá.
E o Kipupa para as pessoas com quem conversei é a chance de reafirmar essa crença, entrar em contato e reforçar essa energia viva da mata. Segundo conta o pesquisador João Monteiro, o local do encontro foi escolhido em função dos recados do próprio Malunguinho, sendo a mata do encontro o provável centro de onde foi seu reinado.
Dentre os significados de Malunguinho para os participantes, encontram-se:
- "Guerreiro, Capitão da Mata, Chefe dos Quilombos".
- "Um mestre, uma pessoa libertadora".
- "A Jurema é Malunguinho"
- "Tem que ter Malunguinho para abrir a Jurema"
- "Malunguinho está presente na vida de muitos desde a infância".
- "Malunguinho nos torna irmãos na Jurema".
Depois das muitas preparações e falas oficiais, a abertura ritual do encontro foi extremamente forte e alegre. Após semanas, dias, muitíssimas horas de preparação, o início do V Kipupa representou o auge da concentração das energias de diversas pessoas e espiritualidades para que tudo desse certo. Nos rostos das pessoas presentes só se via alegria e felicidade. Os juremeiros jogavam sua fumaça para cima abençoando esse dia, elevando o recado da Jurema.
Malunguinho na mata é rei.
Procissão para entrar na Mata. Pai Tonho de Jaboatão.
Procissão e levando as oferendas.
E assim ele também foi no Kipupa, onde todos dançavam e cantavam para louvá-lo e homenageá-lo. E Malunguinho se fez presente, fosse incorporado nos médiuns ou na fluidez da energia que circulava entre as pessoas. A procissão para a mata se deu liderada pelo sacerdote Juremeiro Sandro de Jucá e a fumaça das ervas preparadas por Ary Banto. Todos seguiam em fila se concentrando para que a festa continuasse em meio à natureza, lugar de elementos tão caros a qualquer juremeiro. Lá todos puderam beber da bebida preparada da Jurema e abençoada por suas entidades.
Juremeiros, músicos, coquistas consagrados, políticos, população local, sacerdotes, estudantes, fotógrafos, cinegrafistas, historiadores, antropólogos e outros representantes da academia como o Doutor João José Reis da UFBA, vindos de vários cantos, vários lugares. Só por esse feito o encontro já merece o nome de Kipupa, uma reunião que agrega várias pessoas de diferentes origens e interesses que se juntam sob a energia espiritual da Jurema sagrada e de uma de suas entidades maiores, Malunguinho. Caboclo? Mestre? Tronqueiro ou mesmo um Exú… Cada juremeiro tem com Malunguinho uma relação única e muito pessoal, mas para todos ele representou nesse dia alegria e união.
Salve Malunguinho da Jurema sagrada!"
Entrando na Mata. Juarez e Ary Banto abrindo os caminhos.
Oferendas.
Oferendas.
Oferendas entregues à Jurema e Malunguinho. Mel dos Caboclos.
Tocadores de Ilú. Ogans.
Fé na fumaça da Jurema.
Malunguinho.
Malunguinho.
Confraternização de cumpadres na Jurema.
Mestres na Jurema.
Toninho de Malunguinho.
02 de Outubro de 2010.
Pedro Stoeckli.
Possui graduação em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais (2008) tendo realizado intercâmbio na faculdade de Sociale Wetenschappen - Vrije Universiteit Amsterdam (2006). Atualmente é bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e mestrando em Antropologia Social na Universidade de Brasília sendo orientando do antológico professor doutor José Jorge de Carvalho. Tem experiência na área de Antropologia, com ênfase em Antropologia e Religião, atuando principalmente nos seguintes temas: transe, corpo e consumo. ______________________________ Publico aqui, texto e fotos de Pedro Stoekcli, amigo de Belo Horizonte, atualmente morando em Brasília. A idéia deste texto a princípio era que ele, vindo de outro Estado, acadêmico que nunca havia participado de um ritual de Jurema, escrevesse suas impressões sobre o que vivenciou no V Kipupa Malunguinho. Assim o fez com muito sucesso e primor. As fotos são presentes para nós, povo da Jurema, que ao nos ver em tão sencível registro, marcamos na memória momentos de união, fé e celebração em mais um Kipupa, que ficou registrado na nossa história pessoal e coletiva. Peço aqui o muito obrigado a ele em nome do Quilombo Cultural Malunguinho, pela força dada, pelo empenho na pesquisa e por ter se incerido de corpo e alma na fumaça da consciência de nossa Jurema Sagrada.
Sacerdote juremeiro e do culto aos Orixás (Egbomi), é mestrando em Ciências da Religião pela UNICAP, graduado em licenciatura plena em História, pela Universidade Católica de Pernambuco - 2014.
É membro do Comitê Nacional de Respeito à Diversidade Religiosa da Presidência da República, e do Conselheiro de Políticas Culturais do Recife. Milita nos campos das políticas públicas.
Tem experiência na área de educação, com ênfase em educação social, artística, musical e afro indígena teológica. Desenvolve trabalhos nas áreas de pesquisa, reconhecimento e preservação de patrimônio imaterial.
Tem publicado artigos científicos sobre temas relacionados a religiosidade da jurema sagrada, nos âmbitos de sua teologia e história. Ensina língua, história e cultura yorùbá, do coco e da Jurema sagrada. Desenvolve carreira de artistas e produz filmes/documentários.
É coordenador geral do Quilombo Cultural Malunguinho e desenvolve projetos de pesquisas com povo de terreiro.
Realizador há 10 anos do Kipupa Malunguinho (encontro nacional dos juremeiros), tem estimulado uma movimentação política de fortalecimento do Povo da Jurema entorno de sua história e religiosidade.