domingo, 9 de março de 2014

12 anos de escravidão - Um filme que deve ser visto por todos, para sua educação e consciência humana


12 anos de escravidão - Um filme que deve ser visto por todos, para sua educação e consciência humana

O vencedor do Oscar mereceu com certeza toda homenagem feita pela academia. Vamos celebrar povo negro. São tempos de reparação e de ampliar as discussões sobre as formas de combater o racismo.

Leiam o texto que escrevi quando da estréia nos cinemas em Recife:

Vou começar falando da profunda dor que senti hoje ao ver o filme 12 Anos de Escravidão...

Entrei no cinema animado, curioso e feliz. Ao lado dos irmãos Olavo Souza e Noshua Amoras... Conversas mil... Porém, no silêncio do cinema, após começar o filme, minha respiração ficou quase presa com tanta realidade cruel histórica a minha frente na tela...

O filme traz em si a dor profunda do rapto de negros e negras para o trabalho escravo (claro) nos EUA... Realidade histórica também conhecida amplamente no Brasil. A princípio, só mais um filme sobre escravidão... NÃO! O filme é de história. De história real. Nua e crua. Com contextos explícitos e subliminares que nos ajudam a pensar e criticar!

Pensei em tantas coisas no decorrer do filme, que nem lembro mais... Acho que minha emoção falou mais alto... Mais sei que senti muita dor. Muita tristeza e muita vergonha de tudo que está no passado dos brancos escravocratas... Vergonha mesmo... Total vergonha e impugnância. O filme nos revela fatos já conhecidos de muitos, porém, no teor do drama, está presente a forte mensagem de luta contra o racismo hoje. Racismo esse persistente e inteligente, que se transmuta e que segue o rumo da herança maldita deixada pelos escravocratas no mundo. Porém, este longa nos dá a condição de refletir... Dá para o racista se olhar, se observar... Ver como seus bisavós, tataravós... pensavam e agiam... Dá pra colocar a carapuça, dá para no mínimo abrir os olhos para os irreparáveis erros e ignorância... 

Este filme foi feito para que mais e mais pessoas possam ver as verdades do passado e para não esquecerem do mal que foi feito aos negros e negras, e também aos indígenas por parte dos europeus. 

Saí do cinema com vontade profunda de mandar todos que são contra as cotas irem pra PQP, e também de dizer que estes são tudo FDP. E que se fodam, pois não valem nada! (embora entenda que muitos falam isso por falta de conhecimento, e outros por ruindade mesmo) Pois quem sofreu tanta violência simbólica, mental, física e social como os negros (e ainda sofremos), merecem no mínimo a reparação completa dos males causados pelos imperialistas. E quem vai de contra esta lógica da reparação é racista e merece ir preso, por cometer crime inafiançável. Ao meu ver. 

Realmente me senti mal após o filme... Quase nem almoço. Estou muito emocionado mesmo. E com razão. 

Estou ainda sem muita inspiração para falar deste filme que me deixou chocado. Mas saibam que só me revigorou ter saído de minha casa pra mexer mais uma vez nessa ferida de dentro de mim e de todos. Me deu mais sentido na vida... Mais vontade de contribuir efetivamente na luta contra o racismo no mundo.

São muitas as pautas levantadas pelo filme. Nele podemos desenvolver inúmeras discussões etc. Indico que possamos ver e depois comentar na net para enriquecer as discussões.

Recomendo este filme para todos assistirem. Vale muito a pena. Quem é de terreiro tem que ver. Sair de sua casinha e pagar no shopping quanto for pra poder refletir mais sobre seu próprio racismo. 

Obrigado a Andréa Mota pelo convite especial. Foi de muita valia.
Olavo e Noshua, a ligação de vocês hoje realmente não foi mera coincidência né!?

Salve a Jurema Sagrada. E que a fumaça também nos ajude a limpar o racismo de nos e do mundo. 

Texto publicado em 17 de fevereiro de 2014 em minha página de facebook.

Link do filme no youtube: http://www.youtube.com/watch?v=sMHO6Y6bNVo 

Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com 

1° Seminário de Cultura, Gestão Pública, Patrimônio e Economia Criativa de Alhandra


1° Seminário de Cultura, Gestão Pública, Patrimônio e Economia Criativa de Alhandra – Um avanço para a política de cultura do município e para a Jurema Sagrada

Hoje, verdadeiramente vivenciei uma experiência que com certeza marcou minha vida na caminhada em defesa pela Jurema. Fui ao 1° Seminário de Cultura, Gestão Pública, Patrimônio e Economia Criativa de Alhandra, terra dos mestres e mestras da Jurema Sagrada. Um evento de sensibilização sobre o tema de patrimônio, essencialmente na cidade. Nunca antes houve nenhum seminário do gênero promovido pela gestão pública local, vale salientar.

Fui a convite de Michelle (assessora) e do secretário de cultura José Mizael do município. Eles pesquisaram e identificaram quem de fato começou a luta no Acais no início de toda esta história em 2008, e confirmaram a partir de registros históricos que foi o Quilombo Cultural Malunguinho o primeiro a realizar um evento naquele patrimônio até então esquecido inclusive pelo povo da Paraíba e de Alhandra (não que isso seja um mérito excepcional, mas é importante registrar historicamente a verdade). Só esqueceram da Sociedade Yorubana do professor Eduardo Fonseca Jr. e Josy Garcia, que oficialmente fizeram o pedido de tombamento do Sitio do Acais, da Igreja de São João Batista do Acais e do Memorial Zezinho do Acais na época,  porém, estes foram citados no evento por mim e por outras pessoas, pelo menos.

Fala do Prefeito de Alhandra - Marcelo Rodrigues, na abertura do evento. Mesmo ele sendo evangélico, teve a capacidade de ser um gestor digno de respeito por ter inclusive reconhecido que a Jurema Sagrada é a tradição maior da cidade. Foto de Alexandre L'Omi L'Odò.

Fala de Leandro Oliveira - Conselho Nacional de Cultura - MINC na abertura do evento. Foto de Alexandre L'Omi L'Odò.

O evento foi um sucesso em si só. Bem organizado e bem planejado. Com muitas representatividades importantes inclusive a nível federal. Isso acontecer em Alhandra já é um grande indício de avanço notável e histórico com certeza, e deve ser considerado em seu mérito, tendo em vista que a presença na mesa de abertura do seminário, teve parte importante dos secretários do município e do prefeito, que já ditaram o tom do evento, favoravelmente.

Outro avanço indiscutível está no campo do respeito à diversidade religiosa e ao patrimônio material e imaterial da Jurema Sagrada por parte de seus gestores, a começar pelo prefeito da cidade que é evangélico assumidamente e foi a pessoa que mais incentivou a realização do seminário. As falas dos gestores (secretário de cultura, educação etc.), estavam repletas de respeito à religiosidade da Jurema e reconhecendo seu valor. Todos eram evangélicos e se colocaram como gestores, e, como gestores, "não poderiam cometer a intolerância religiosa". Isso me encheu de esperança. Ver isso acontecer perante meus olhos foi indescritível. Um avanço ainda não visto por mim em canto nenhum. Afinal, tradicionalmente, quando os evangélicos ascendem ao poder na política, logo procuram criar mecanismos de intolerância contra as religiões tradicionais no Brasil. Lá, ao que me parece, a coisa é, ou será diferente... Mesmo eles assumindo a forte pressão de seu eleitorado que foi mais de 80% de votos de evangélicos, estes entenderam que Alhandra é em definitivo a terra da Jurema Sagrada, e isso é uma vitória para a comunidade do povo da Jurema em todos os níveis. O prefeito até falou: “Temos que reconhecer as verdadeiras raízes culturais de Alhanra – A Jurema”. Isso sair da boca de um gestor evangélico é muito importante e marcante nos dias de hoje.
Participação na mesa sobre patrimônio da Jurema junto a gestores, representação de empresas privadas e sociedade civil de Alhandra. Foto: de João PS Neto.

Fala do representante da Associação dos Juremeiros de Alhandra Pereira (Pereirinha) sobre a importância que se deve dar ao juremeiros e juremeiras da cidade. Deixando claro que outras pessoas mal intencionadas estão articulando coisas fora do contexto em Alhandra. Foto: João PS Neto.

Junto ao IPHAEP e IPHAN, Alexandre L'Omi L'Odò expõem pontos importantes de discussão sobre a Jurema e o patrimônio de Alhandra. Foto de João PS Neto.

Estou de alma lavada. Fiz minha fala. Propus importantes atividades a serem acatadas (ou não) pela gestão – como o mapeamento dos terreiros de Alhandra e inclusão destes em políticas nacionais de combate a fome etc. Intervir onde foi pertinente, sobre tudo em relação a algumas questões do IPHAN/PB, abrindo uma reflexão ampla sobre racismo institucional nesta autarquia federal (lucubrando e afirmando que não se pode discutir intolerância religiosa sem se discutir racismo). Intervenção que foi acatada pelos pesquisadores da instituição, cabendo maior discussão no futuro... Ainda sugeri que fosse feito o IRNC dos terreiros da Cidade, para assim termos mais informações técnicas que subsidiem a produção de mais massa crítica sobre a Jurema. Também foi muito legal conhecer o Leandro Oliveira (Conselheiro Nacional de Cultura - MINC), que é um “jovem” muito antenado e inteligente, cujo articulações para futuras discussões já se delinearam. Também foi importante voltar àquela cidade para conferir as quantas andam as coisas sobre a Jurema na localidade... Ainda percebi que se os juremeiros e juremeiras da Associação de Juremeiros de Alhandra não se fortalecerem mais, vão ser com certeza, alvo fácil de manipulação de um processo que não os contemplará como deve. Sobre tudo porque há pessoas interessadas em fazer palco, ou trampolim político com este processo todo (fato já sabido por todas e todos a anos, quem é, ou são... e ainda que, estas pessoas de fora de Alhandra, causam parte fundamental dos conflitos entre os juremeiros e juremeiras locais).

Na ocasião também foi lançado o Catálogo de Referências Culturais de Alhandra. Um livro de 68 páginas produzido pelo IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional da Paraíba, que traz parte importante destas referências culturais de lá, entre elas a Jurema Sagrada, com certo destaque (ainda insuficiente) no material. O livro escrito conta com textos da pesquisadora Daniella Lira e do pesquisador Fabrício Rocha; mapas de Natália Azevedo e revisão final de Átila Tolentino, Carla Gisele Moraes, Daniella Lira e Emanuel Braga. O interessante de se observar (só de brincadeira) é que o nome da atual presidente do IPHAN/PB é JUREMA Machado, e decorrente a isso, espero que ela ajude muito ainda nessa luta, tendo em vista seu nome indígena (pois é, Jurema é nome indígena e quer dizer entre tantas tentativas de tradução: “espinho fedorento”, ou espinho venenoso”).  

Capa do Livro - Referências Culturais de Alhandra/Paraíba.

 Mesa com representações do IPHAN e IPHAEP. Foi muito rica a apresentação trazida por eles em PREZI, sobre patrimônio material e imaterial. A fala do Emanuel Braga foi muito importante dentro do contexto do evento. Foto: de Leandro Oliveira.

Importante fala de Mãe Judite da Associação dos Juremeiros de Alhandra. Ela questionava sobre a má intenção de algumas pessoas de fora de Alhandra que estão fazendo uso indevido da Igrejinha do Acais. Expôs que a chave da Igrejinha está em mãos erradas e que lá tem dono - as terras e a Igreja. Foram fortes e pertinentes suas colocações. Foto: Alexandre L'Omi L'Odò.

Em geral, foi vitoriosa a iniciativa da atual gestão pública de Alhandra, e esta merece nossos aplausos neste ponto com certeza! Ainda avaliando e indicando - esta atitude da gestão dá exemplo de como fazer democracia em um “país laico” como o nosso. Espero que haja continuidade a este processo por parte da prefeitura. Tendo em vista ser imprescindível ações afirmativas que prosperem a localidade e que também haja efetivação de uma política pública de cultura autêntica para a cidade de Alhandra com urgência. 

 Michelle Vasconcelos Brito - uma das principais articuladoras do evento. Dando uma fala de fechamento e agradecimento. Foto: Alexandre L'Omi L'Odò.

Mãe Biu, juremeira mais antiga viva ainda hoje em Alhandra, fechou o evento cantando pontos de Jurema e isso foi lindo de se vivenciar. Ela que recentemente foi premiada pelo MINC no Prêmio das Culturas Populares, é em suma, nossa representante maior naquela cidade, no que se trata a ciência mestra encantada da Jurema e suas Cidades. Nela reside parte importante de nosso patrimônio da Jurema, e temos que saudá-la por isso. Salve a fumaça!

Mãe Biu de Alhandra, juremeira mais antiga da cidade. Ganhadora do prêmio do MINC de cultura popular no ano de 2013. Ela fez o fechamento do evento entoando cânticos sagrados da Jurema e dando como habitual seu discurso religioso de muito fundamento Foto: Alexandre L'Omi L'Odò.

Eu e a Mestra Juremeira Biu de Alhandra. Orgulho de poder conhecer tamanha referência de minha religião. Foto: João PS Neto.

Ao lado do Banner do evento. Demarcando presença neste evento histórico para o Povo da Jurema. Foto: João PS Neto.

Por último, ganhei de forma muito espiritual e amorosa um cachimbo feito do tronco legítimo de Jurema Preta do Mestre Major do Dia (ou Do Dias) - cultuado por anos pela mestra Jardecilha em Alhandra - pelas mãos de seu neto Lucas Souza e permissão de Nina, sua mãe e juremeira. Este foi um presente sem igual e que agradecerei pelo resto de minha vida. Ganhei um patrimônio intransferível na ciência mestra. Já fumei com ele... E os recados já começaram a ser dados na força maior.

Participantes e realizadores do evento. Foto: não lembro quem foi. rs.

Em momento importante pra mim. Recebendo o cachimbo da madeira da Jurema Preta do Mestre Major do Dia, pelas mãos de fé de Nina da Jurema e de Lucas, seu filho. Foto: João PS Neto.

Obrigado à Malunguinho e a toda Jurema Sagrada por mais este presente em minha vida.
Sobô Nirê!

Vejam algumas fotos no link abaixo.


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Desculpem-me estar publicando tão tardiamente este texto. É que o havia produzido na época posterior ao evento, daí o perdi em meu HD. Desculpem. 

Alexandre L’Omi L’Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
Rede Nacional do Povo da Jurema
alexandrelomilodo@gmail.com

sexta-feira, 7 de março de 2014

Reflexão sobre o patrimônio do carnaval do Recife – A cultura Popular

Registro do Bloco Bola Preta no Carnaval 2014 da Prefeitura do Recife. Foto: Alexandre L'Omi L'Odò.

Reflexão sobre o patrimônio do carnaval do Recife – A cultura Popular

Não detectei nenhuma política efetiva de preservação ou salva guarda do patrimônio material e imaterial de grupos que se apresentam todos os anos no desfile do Carnaval do Recife, como, agremiações, caboclinhos, ursos, bois, maracatus etc. que tem mais de 100 anos de existência como o bloco Vassourinhas e o Bola de Ouro entre inúmeros outros. É incrível ver a olhos nus o quanto é desprezada e desrespeitada nossa cultura. O Estado não se responsabiliza nem toma parte do que é de sua obrigação e ainda promove o racismo institucional de forma aberta na maior festa de nossa terra. Festa esta, que com a face e o colorido dos brincantes e fazedores da cultura popular, enchem os cofres públicos e privados de dinheiro do turismo, sem que este seja compartilhado de forma justa e equânime.

Roupas decadentes, alegorias entristecedoras... Pessoas sem auto-estima de desfilar... “Morgação total”. Tudo bem que são grupos privados, com CNPJ... Mas isso não significa que estes tenham que dar conta da tradição imaterial que mantém viva a duras penas por tantos anos... O Estado lucra com isso, e mais uma vez repito, esta grana tem que chegar às mãos dos grupos de verdade pra poder ajudar na manutenção caríssima de seus “brinquedos”.

Muitos idosos orgulhosos desfilando, provavelmente saudosos dos tempos de ouro do grande Carnaval... Mas hoje vestidos com trapos... Reaproveitando orquestras e grupos de dançarinos de frevo... Uma reciclagem amedrontadora, que sinaliza que temos poucos músicos/orquestras e dançarinos de frevo para compor os quadros destes grupos que funcionam nas periferias das cidades...

Cabe uma pesquisa de grande porte que traga números e orçamentos, que levante novas histórias e reescreva o que aparenta nos releases lidos pelos apresentadores algo estático e ultrapassado... Textos sem brilho... Antigos... Sem graça... O próprio quadro de funcionários é antigo... Não que isso os desqualifique, mas não estamos formando novas lideranças para dar conta deste espaço do Carnaval que é muito importante pra quem quer ver as agremiações de forma total.

Arquibancadas vazias... Horário esticado demais... Estrutura das piores... Tapumes sem pintura... Arquibancadas sem qualidade nem estética decente... Local perigoso e afastado dos grandes eventos... Tudo pra não favorecer a ida de turistas ao local. Que ainda é mal indicado (o local), pois podem haver assaltos entre outras coisas perigosas lá. A má iluminação também é um prejuízo imenso... Dá medo. Uma penumbra nos arredores da passarela que faz com que as pessoas saiam mais cedo do evento pra não correrem perigo de vida. Até que o som melhorou este ano. Já foi bem pior... Pelo menos ouvi bem os grupos de diversas partes do corredor dos desfiles.

Só vemos a comunidade presente neste evento. As comunidades que fazem o carnaval de verdade. Que confeccionam as roupas, que dançam, que brincam e que fazem viva e única esta grande festa. Vão para se verem. Para ver o trabalho que fizeram e, para competirem entre si por prêmios também não muito valorosos. Vejo esta situação quase como uma estratégia de afastar as periferias dos grandes pólos. Uma forma de deixar os pretos e pretas, os pobres longe dos lugares freqüentados pelos brancos com dinheiro...  Para bons leitores de símbolos, fica claro que aquele espaço é o local feito no Carnaval para o povo pobre e negro. Um lugar desvalorizado. Racista. Sem condições de comportar tamanhas riquezas culturais que merecem mais respeito e valorização.

Lá não há “mídia”. Não há visibilidade pública... Ninguém vai lá filmar e fotografar para jornais e noticiários.

Creio que os protestos que foram recorrentes no concurso dos passistas e do rei e rainha do carnaval do Recife, por parte dos brincantes, tenham importante impacto para uma possibilidade de mudança de mentalidade entorno de políticas públicas de valorização e preservação do patrimônio do Carnaval de Pernambuco. Tendo em vista, que os gestores, que como sempre estão com uma “cara de tacho” nestes espaços, viram com seus olhos a indignação do povo. O Prefeito do Recife saiu visitando os pólos por ai... Foi ver até o show do Mono Bloco... Mas pela arquibancada não apareceu. Por que terá sido isso? O que isso significa? Perguntas que são fáceis de responder, após ler este texto.

Temos um “Paço do Frevo” que custou milhões... Onde a Globo contribuiu na construção de forma decisiva, justamente para dominar este quinhão da cultura pernambucana. Um projeto construído quase sem pessoas daqui... Um projeto que desqualificou as pesquisas do povo daqui, que não valorizou ninguém daqui... Onde até (no Cais do Sertão) os eletricistas são de fora DAQUI... Toda esta “desatenção” com os DAQUI, acabou dando em resultados catastróficos, como o quase cemitério de estandartes onde as pessoas os pisam... Pisam em histórias vivas e outras extintas... Pisam naquilo que é de mais importante pra gente, pisam na nossa cara, na nossa moral, na nossa dignidade social... Tem gente at€ que acho lindo. Esteticamente é bonito sim, achei também, mas é feio e profundamente desrespeitoso com nossa história. Isso é resultado de pura falta de vivência com nossas tradições, deslanchando em um desrespeito terrível a estes patrimônios materiais – os estandartes.

Enfim, fico triste de ter que relatar estas coisas aqui. Sou um mero suplente do segmento de patrimônio e arquitetura do Conselho Municipal de Políticas Culturais de Recife. E tive que andar pela minha cidade para ser um dos olhos que puderam enxergar onde está o racismo – institucional ou não e, e a discriminação. Onde estão as estratégias de encurralamento do povo. Onde está a falta de respeito com as nossas tradições culturais. Saio do Carnaval 2014 com más impressões sobre as gestões públicas, tanto do Recife, quanto do Estado de Pernambuco. Os erros insistem em se manter. Não há pelo menos uma tentativa de melhorar o que está errado... Isso é um mau sinal para um ano eleitoral. Temos diversos documentos produzidos em conferências de cultura, tanto municipais, estaduais e federais. Não é possível que estes gestores desrespeitosos não leiam nada do que nós, o povo, contribuímos e produzimos para melhorar nosso convívio cultural.

Como não seria possível abordar todo o tema Carnaval e gestão, esta minha abordagem e visão é parte de algumas andanças em outros ambientes também, como pólos descentralizados nas comunidades, Marco Zero, Arsenal, Pólos de Olinda etc. Mas em suma, juntando isso aos relatos dos irmãos artistas que ocuparam outros espaços, vejo que estamos em consenso pleno sobre esta situação grave de racismo institucional.

Salve a fumaça da Jurema.

Alexandre L’Omi L’Odò
Quilombo Cultural Malunguinho

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Àláfiá espiritual me deu o Professor Ubiracy Ferreira - Adupé

Professor Ubiracy Ferreira, Mestre fundador do Balé Bacnaré. Foto de Alcione Ferreira.

Àláfiá espiritual me deu o Professor Ubiracy Ferreira Adupé


Relato...

Estou muito emocionado agora...


Hoje a tarde (09/01/2014), após ter um longo sono depois de uma medicação para dor, devido ao 8° dente que extraio por causa de tratamento de ATM, tive um sonho magnífico que me abençoou demais. Até chorei ao acordar...

Estive espiritualmente com o querido professor Ubiracy do Balé Bacnaré... Encontrava com ele em uma rua vazia... Era fim de tarde e já escurecia o tempo... Ele estava vestido como sempre, sorridente e bem fisicamente... Nos víamos e ríamos juntos pelo encontro... Logo começamos a conversar longo assunto que não lembro... Dançamos muito juntos... Ele olhando pra mim e eu olhando pra ele... Dançamos e dançamos... Nunca em vida dancei com ele... Danças dos Orixás... Lembrávamos de Iyemojá Ògúnté de minha mãe Maria Lúcia Felipe Tia Lú e dançávamos mais e mais... Foi lindo... Depois disso, ríamos pela dança e seguíamos abraçados na estrada... Eu perguntava a ele, "professor, quantos anos o senhor tem?"... E, ele com o rosto de quem não falaria ria e calava... Daí eu dizia "o senhor tem uns 60 anos de idade?" e sorria... Ele logo respondeu - "Não meu filho, tenho 16, a idade e número da verdade"... E soltava uma grande gargalhada... Eu pensei no sonho que era 61 a idade invertida... Mas ali o sonho se acabou comigo acordando com grande fome, pois passei o dia todo sem comer...

Me acordei flutuando... Tão feliz por ter visto ele bem... Me emocionei muito. Nunca tive muita aproximação com ele, porém, as poucas vezes que estivemos juntos, sempre conversávamos muito e ele demostrava gostar de mim. Fiquei orgulhoso de assim, do nada, ele vir me visitar e dançarmos juntos. Agora sei que meu 2014 vai ser muito abençoado de verdade. Com um guerreiro como ele espiritualmente se comunicando comigo, é sinal que estou no caminho da verdade, como ele mesmo anunciou no número 16, que no jogo de búzios é o odú Aláfiá!

Axé e kolofé professor.

Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com 

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Iyemojá Ògúnté Mudou Minha Vida mais Uma Vez - Relato

Iyá Iyemojá Ògúnté na reabertura do Ilé Iyemojá Ògúnté em maio de 2012. Foto de Joannah Luna.

Iyemojá Ògúnté Mudou Minha Vida mais Uma Vez


Ontem minha vida mudou mais uma vez... Não sou preso em, ou a padrões estáticos, gosto de me jogar e viver o que for possível no corpo e em tudo....

Ver nos rituais de axé anuais de nossa casa Iyemojá Ògúnté no corpo de minha iyá Mãe Lu Omitòógún foi profundamente transformador mais uma vez para mim. Ver sua dança tão inusitada, inesperada, quase difícil de compreender, solta, leve, íntegra, viva, forte e africana, me tirou do eixo comum da vida e me colocou defronte a mais maravilhosa possibilidade de ser feliz com o corpo, com a alma e com a consciência. Iyemojá me fez flutuar em mim mesmo, voar nos campos livres do passado da Nigéria e mergulhar nas suas águas, que ela dançava brincando com elas... Essa dança tão atípica só pude ver no Ilé Iyemojá Ògúnté - Terreiro Nagô... Já andei em muitos terreiros do Brasil todo, mas só lá existe este traço da dança de Iyemojá, creio. Nada de dança coreografada, com requintes de passos marcados... Nada marcado, nada esperado, nada ordenado... Simplesmente livre e vibrante...

Fui pego em momento de plena contemplação por Mãe Zite de Ipondá, que da janela me olhou naquela situação e chamou minha atenção com as mãos e fez sinal de "legal" com elas, avisando que estava adorando ver aquilo também... Logo ela veio para o salão e começou a dançar junto com Iyemojá e todo o terreiro veio abaixo em dança coletiva, cânticos, palmas, vibrações e fé. Foi um momento profundo do axé da casa que muito me honra em ter me aceito...

Vi Deus e Deusa em tudo aquilo. Deus e Deusa dentro de Mãe Lu, dentro de todas as crianças que estavam ali tocando, dançando e cantando, dentro de meu pai Paulo Braz, dentro dos tambores, dentro das comidas.... De tudo... Uma vibração tão profunda de paz e misericórdia, de absolvição, de respeito ao sagrado, de harmonia, de transcendência humana dos padrões ocidentais e cristãos que aquilo me salvou mais uma vez... Me salvou do risco de crer num Deus fora de nós, que está acima de nós, e que nos condena. Nuca acreditei por opção própria nessa teologia cristã, e após ter vivenciador tudo isso, pude entender mais ainda que pular fora do barco do sofrimento da vida proposto pela condenação mental do cristianismo me renasceu mais uma vez, reafirmou-me e me fez entender que de fato estou no lugar certo. 

Tinha também muito Deus e Deusa dentro do abraço forte e intenso profundo de Xangô no meu irmão Júnior Boto. Um abraço tão consciente que me fez meditar. Me purificou... Me deu redenção e me elevou ao espírito da terra e do fogo. 

Hoje é a festa de Iyemojá... Vai ser maravilhoso poder estar junto com esta família que tem o que sempre procurei na vida, ciência profunda do amor e África. 

Kolofé, Kolofé, Kolofé! Agô Kolofé!

“Eu só poderia crer em um Deus que soubesse dançar” | Nietzsche.
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Postagem de grande repercussão no facebook. Datada do dia 14 de Dezembro de 2013. Fiz este texto após chegar em casa da abrigação de Iyemojá Ògúnté. E de fato, minha vida mudou. Só poderia mudar perante tanta beleza e divindade pura e transcendente. Minha Mãe Lu é uma mulher inspiradora, e ela também é parte desta transformação linda. Axé e adupé Iyemojá. Kolofé!

Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

Reflexão Afro Teológica Sobre Críticas ao Ilé Iyemojá Ògúnté

Detalhe do bolo de Iyemojá. Foto de Joannah Luna. 2012.

Reflexão Afro Teológica Sobre Críticas ao Ilé Iyemojá Ògúnté


As vezes me pego pensando que a mal formação dos sacerdotes e sacerdotisas no culto aos Orixás deve-se em parte (fundamental creio) a pressa dos iniciados em ter terreiro aberto. Afinal, ter terreiro além de ser um símbolo forte de poder, garante sobrevida financeira a alguns e algumas... Daí acontece que muitos não dominam todos os rituais corretamente, cantam mal, não aprendem as invocações certas, não leem os odús certos, e fazem deste culto um emendado de coisas... Remendos... Aprendizados contínuos... Claro que todas e todos tem que começar algum dia, ninguém aprende tudo, afinal nossa religião ninguém a domina por completo... Mas me veio agora a dúvida: Será mesmo que pessoas novas de idade podem questionar fatos dos mais velhos sérios? De quem vem a raiz? De quem aprende-se? Oq se faz remendando coisas é parte ou não é parte de uma tradição forte viva e vibrante da qual se dá subsídios para os rituais nas diversas casas de culto até hoje? Como poder falar mal de de algo que não se conhece?

Eu mesmo como sou infimamente fraco na parte prática do culto (não que eu não saiba fazer ebó, invocação, falar yorùbá, pois estudo desde os meus 13 anos de idade e já dei muitos cursos, ler odú, e realizar os desejos dos Orixás, cantar etc.), observo, aprendo, avalio, critico intimamente e tiro oq de melhor haver para minha cultura... 
Jamais falo do que não sei, afinal, vivo aprendendo de muitas fontes exatamente para não correr o risco de um dia abrir um terreiro sem ter aprendido como deveria as coisas no axé. Não tenho pressa, Oxum que sabe oq fará comigo no futuro...

Porém, vejo muitos e muitas de nossa religião, tecerem comentários maldosos sobre o Ilé Iyemojá Ògúnté - Terreiro Nagô, casa de culto nagô, de onde faço parte com muito orgulho. Meu pai Paulo Braz e minha Mãe Lu, são pessoas íntegras demais. Pessoas que lutaram e ainda lutam para manter viva a tradição do nagô em PE. Muitos lutam também, mas ali naquela casa tem o sangue de Pai Adão e Malaquias seu filho, correndo nas veias de muitos, vivos e fortes, ensinando e reeducando da cosmovisão do axé a nossa tradição. Todos bebem daquela fonte. Quem tem menos de 50 anos de idade, ou até 60 anos mesmo, bebem dali, mesmo levando pra suas casas partes do que não conseguiram aprender por completo por falta de humildade e capacidade de aprender.Meu pai é um homem complexo. Sábio, velho, e que sabe estudar e não tem vergonha de aprender mais e mais. Ele é um exemplo de perseverança no axé. Mesmo tendo todos os ensinamentos de seu pai, ainda hoje ele pede agô pela sua ousadia de levar a frente a tradição nagô, pedindo sempre agô kolofé a todas e todos ancestrais por estudar e colocar em prática fundamentos perdidos pelo tempo.

Daí, pessoas falarem que a casa é uma confusão, que tem brigas em panela de Iyemojá, que a família não presta, que é muita doidisse, etc. etc. etc. Só me demonstra o quanto estes mais novos não aprenderam... O quanto eles pouco observaram a dinâmica do axé, o quanto estes não absorveram a tradição dos nossos ancestrais mais ilustres de forma correta. Falar da casa que é regida por Ogunté, é falar mal de si próprio. É falar mal daquilo que vc tem dentro de seu pejí... É falar mal de vc mesmo. É negar oq vc ganhou de presente pela luta destes que vieram muito antes de vc.

Morrerei defendendo que ali naquelas simples paredes, naquele pequeno terreiro sem pompa, naquelas simples pessoas de grande axé reside a tradição mais preservada de PE. Pois que os pesquisadores abram os olhos e procurem escrever certo as coisas e parem de fazer pesquisa de gabinete e parem também de entrevistar apenas um lado dos personagens desta história. Aprendam a fazer antropologia ampla e contemporânea. Pois o axé de nossa casa é forte e irradia saberes pra todas e todos. Saberes que com certeza morreram com poucos, que se aventuraram de encarar o vivenciar no axé de forma completa e íntegra. 

Fui aqui muito prolixo para falar de algo simples... Apenas quero dizer que respeite os cabelos brancos dos mais velhos que detém o axé de fato. E procurem falar melhor a língua dos Orixás, pois nossa religião não é apenas pedir por intercessão. Nós somos guardiões de uma memória africana que merece toda e irrestrita dedicação para se manter viva e conservada. Não podemos ser íntegros, dignos e inabaláveis em nossa ética se não aprendermos isso.

Axé e agô kolofé!
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Esta postagem foi feita primeiramente no meu facebook em 27 de dezembro de 2013 por motivos de provocar uma reflexão sobre críticas que o Ilé Iyemojá Ògúnté está sofrendo devido ao incidente ocorrido no ritual da Panela de Iyemojá, em 14/12/2013. Esta mesma postagem gerou grande polêmica nesta rede social e para registrar a coloquei aqui para que mais pessoas tenham acesso. Salve a fumaça e a consciência!

Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Prêmio do Patrimônio Vivo de Pernambuco não contemplou o Sacerdote Paulo Braz Ifátòógún em 2013


Pai Paulo Braz Ifátòógún. Foto de Alcione Ferreira. Diário de Pernambuco. 2013.

Prêmio do Patrimônio Vivo de Pernambuco não contemplou o Sacerdote Paulo Braz Ifátòógún em 2013

Não foi desta vez para nosso grande mestre Paulo Braz Ifátòógún. Lutei bastante, fiz uma pesquisa em tempo recorde mas infelizmente o Conselho Estadual de Cultura não o selecionou como Patrimônio Vivo de Pernambuco desta vez. Fico triste por não ter dado esta alegria a ele neste ano, mas, ano que vem, com certeza estaremos tentando de novo este edital para que a cultura tradicional de terreiro possa ter um espaço no reconhecimento oficial do Estado. Pai Paulo nos representa a todos e todas e ele merece ser em vida reconhecido com este prêmio!

Parabenizo os três vencedores deste ano: Maestro Maestro Ademir Araújo, a quem tenho grande apreço por ser um verdadeiro guerreiro da cultura e da política cultura de PE, um homem que não se cala perante a covardia do Estado para conosco; e aos demais ganhadores. 

O Povo de terreiro precisa estar representado neste Panteão de mestres e mestras do Estado. Por isso insistirei até o fim para que Pai Paulo vença! Sou seu filho, e por ele luto mesmo! Axé e Obrigado a todas e todos do Ilé Iyemojá Ògúnté - Terreiro Nagô que me ajudaram a catar as fotos, documentos e tudo mais pra garantir a Pai Paulo o direito pelo menos de concorrer ao prêmio. AXé, axé e axé!!!


Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

sábado, 12 de outubro de 2013

Um dia para celebrar a Jurema - Matéria sobre o Kipupa Malunguinho no Jornal do Commercio de 21 de setembro de 2013

Fotografia editada da matéria do Jornal do Commercio de 21 de setembro de 2013 - Sábado. Caderno C 3.

Um dia para celebrar a Jurema

Bruna Cabral

Antes dos gajos, das sinhazinhas, do açúcar e da lavoura. Bem antes do tronco da senzala e da escravidão. Quando ainda não era quintal de ninguém e nem sonhava em ser nação um dia, o Brasil já tinha credo. Os índios, legítimos primeiros habitantes de nossa generosa geografia, cultivaram desde sempre uma liturgia verde, que se valia de frutas, ervas, cipós e tudo mais que a natureza tinha a oferecer para mantê-los em contato com o sagrado. Defendida com unhas e dentes até hoje, a Jurema, garantem seus poucos, mas fervorosos seguidores, foi a primeira religião do Brasil. A matriz do que aprendemos a chamar de fé neste País de tantas crenças que se acomodam ou acotovelam do Oiapoque ao Chuí.

Amanhã, essa tradição indígena será celebrada com fartura, música e devoção. A festa vai acontecer na Mata do Catucá, em Abreu e Lima, durante todo o dia. Batizado de Kipupa Malunguinho, o evento está em sua oitava edição e reunirá juremeiros do Brasil inteiro – homens e mulheres, crianças e velhos. Todos com a roupa tradicional da jurema: eles de calça, camisa e chapéu, e elas de saia colorida e torso na cabeça. Todo o roteiro destina-se a lembrar a vida dos índios e negros que se juntaram na fé e na labuta, nas matas do Engenho Pitanga II, bem naquelas imediações onde acontece a celebração. “Homenageamos, acima de tudo, Malunguinho, líder que se elevou à divindade na jurema sagrada. Iremos à mata para louvar e honrar nossos ancestrais”, diz Alexandre L’Omi L’Odò, estudante de história, discípulo e porta-voz da religião.

Além de oferendas em agradecimento a questões resolvidas, os filhos da Jurema levarão seus cachimbos, maracás, ilus e pandeiros para festejar. Música não haverá de faltar. Estão programadas apresentações do Coco dos Pretos, Grupo Bongar, Mestre Zeca do Rolete, entre outros. Para preservar a mata, o uso de velas será proibido. E todo o lixo produzido durante o evento será devidamente recolhido pelos juremeiros. “A mata é nosso espaço mítico. Nosso templo. Temos um respeito enorme por ela”.

E nem poderia ser diferente. Segundo Alexandre, a prática espiritual, restrita ao Norte e, principalmente ao Nordeste do País, carrega a alcunha de uma planta da família das acácias. Raízes da árvore são maceradas e misturadas a outras ervas para compor uma bebida, com efeito alucinógeno, utilizada por iniciantes e iniciados na religião – em diferentes concentrações, claro. “É o que chamamos de ciência da jurema”, explica Alexandre. A bebida, segundo ele, conduz às chamadas “cidades encantadas” da jurema, onde cada um, devidamente guiado e acompanhado por um mestre, tem determinadas revelações. “Ninguém volta igual dessa experiência”, diz.

Por isso mesmo, Alexandre e todos os entendidos da jurema costumam dizer que sua principal liturgia e seu maior dogma é a liberdade. Em seus templos ou em suas casas espalhados por todo o Estado, os filhos da religião são sempre bem-vindos. De manhã, à tarde, durante a noite ou no meio da madrugada. “Cada um tem uma necessidade específica. Às vezes, urgente. Então, procuramos orientação dos mestres para resolver cada questão”, explica Alexandre. Segundo ele, todo conhecimento dos indígenas sobre ervas terapêuticas foi preservado pelos seguidores da religião e é utilizado sempre que necessário. Mas, quando o mal é da alma, o que a jurema tem a oferecer é amparo e orientação. “Nunca fomos proselitistas. Não queremos audiência, nem confetes. Só respeito.”

A quem interessar possa, ônibus sairão do Carmo, a partir das 7h, para fazer o traslado dos participantes. O valor individual é R$ 15. Informações: 81 8887-1496 ou no www.qcmalunguinho.blogspot.com   

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Publico aqui matéria integral do Jornal do Commercio de 21 de setembro de 2013, Caderno C 3. Esta foi a primeira matéria de jornal conseguida para o evento nestes oito anos de atividades. Estamos avançando e querendo ir mais longe, contribuindo para que o povo da Jurema tenha espaço digno para sua história e religião. Salve a fumaça!


Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
Rede Nacional do Povo da Jurema
alexandrelomilodo@gmail.com 

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

VIII Kipupa Malunguinho - Triunfando na Jurema! Agradecimentos

VIII Kipupa Malunguinho (altar) - Foto de Juliana Düb.

VIII Kipupa Malunguinho
Triunfando na Jurema!

Agradecimentos

Mais um ano realizamos o Kipupa Malunguinho, Coco na mata do Catucá com êxito e alegria. Já na VIII edição, continuamos com nossa missão de fortalecer o Povo da Jurema em sua completude, tanto teológica quanto de representação política na sociedade, contribuindo para o levante da auto-estima destes, para que possam se afirmar como juremeiros e juremeiras, colocando a Jurema em um lugar mais decente perante sua história e contribuição para as demais religiões que posteriormente chegaram ao Brasil.

O Kipupa, mais uma vez reafirmo, não é uma “festa nas matas”, ou um “piquenique de Jurema”, ou até mesmo uma “caminhada de Malunguinho”. O Kipupa é o maior encontro de troca de saberes entre juremeiros e juremeiras que existe até hoje no país, evento que traz pessoas de toda parte do Brasil para conhecer um espaço histórico na luta do Povo negro e indígena de Pernambuco, também, para conhecer a história de Malunguinho e vivenciar uma experiência profunda com a ciência da Jurema Sagrada e com os saberes da cultura popular e tradicional em matas sagradas e consagradas à seu Reis e demais entidades e divindades. Também, é um grande ato de fé coletivo consciente, não devemos esquecer... Este momento também faz parte de um calendário já tradicional para nosso Povo, pois setembro já é o mês de Malunguinho para muitos terreiros que entenderam o papel de reconhecer nossas divindades com a dignidade que elas merecem nos rituais internos e na vida cotidiana, afinal, Malunguinho também é um herói de nosso povo, e assim devemos celebrá-lo.

Realizar um evento deste porte não é fácil... Muito trabalho, muita luta, meses de idas e vindas em secretarias, salas, conversando com pessoas, pedindo ajuda, realizando reuniões, correndo e correndo para garantir o melhor em estrutura e condições pra nosso povo se sentir a vontade pra poder juntos expressar o que de melhor temos em nós: nossa ciência.

Assim é o Kipupa Malunguinho, evento que cresceu junto com a consciência do povo da Jurema para construir novos rumos para nossa religião, tendo como referência o herói Malunguinho, guerreiro do Catucá que até hoje nos protege e orienta, cumprindo seu papel histórico e divino.

Temos que agradecer muito a todas e todos que ajudaram o evento a acontecer, pois sem estes não poderíamos ter o realizado, claro (rsrsrs). O evento ainda não tem a estrutura que merece, nem o reconhecimento por parte do poder público local e estadual que almejamos, mas estamos na luta, às vezes até nos humilhando por apoio... Esta fase um dia há de passar, pois creio que as entidades não estão cegas e insensíveis a toda essa luta que travamos pelo nosso povo e por eles também, a final, entendemos tudo isso como uma missão, uma missão cara, difícil, pesada, nada confortável, mas válida e necessária para podermos inverter nosso lugar de exclusão que ainda vivemos. Portanto, lutar foi nossa escolha. Não queremos ficar dentro de nossas casas apenas soltando fumaça pra ajudar “freguês” ou filhos, queremos soltar nossa fumaça pra mudar um paradigma social histórico de exclusão e racismo a que todos nós estamos submetidos indesejadamente, e por isso damos nossa cara à tapa.

Gira com o povo da Jurema no VIII Kipupa Malunguinho. Foto de Rennan Peixe.

Obrigado a Malunguinho por mais um ano de vitórias e agregação de pessoas em prol dessa luta. Obrigado a ciência mestra da Jurema Sagrada que nos permite realizar este evento. Obrigado a Tupã pela nossa existência e força vital. Obrigado a toda equipe do Quilombo Cultural Malunguinho, e a todas e todos que ajudaram mesmo sem pertencer ao QCM oficialmente; Obrigado aos apoios de: Mãe Graça de Xangô pela ajuda imprescindível na vendagem das camisas “A JUREMA MERECE RESPEITO”; obrigado a Pai Messias por ter organizado seu terreiro para contribuir com o evento; Obrigado a Pai Tonho de cajueiro Seco por mais um ano estar conosco; Obrigado a Vado Juremeiro por ter se disponibilizado a organizar o ônibus da Vila das Lavadeiras; Obrigado a Ana de Oyá por ter ajudado a vender uma parte das camisas; Obrigado a todas e todos que compraram as camisas (esta grana ajudou demais ao evento se realizar). Obrigado ao secretário de Estado Oscar Paes Barreto, a Isaltino Nascimento, ao vereador do Recife Vicente André Gomes, ao vereador do Recife Raul Julgmann; obrigado a Prefeitura de Abreu e Lima na pessoa de Wellington Tiago – secretário de Turismo e Cultura do município; obrigado a Amauri Cunha coordenador do Núcleo Afro da Prefeitura do Recife; Obrigado a prefeitura do Recife pelas águas enviadas; obrigado a prefeitura de Olinda através da secretaria executiva da Mulher comandada por Donana Cavalcanti; obrigado à Rita Honotório e sua irmã Juliene pelos fogos doados; obrigado a Juliana Bison por ter se disponibilizado a organizar o ônibus de Peixinhos; Obrigado a Anne Cleide por ter se disponibilizado a ajudar nos ônibus do centro do Recife; obrigado a Graça Bastos; obrigado a Eric Assumpção pela ajuda decisiva para a realização do evento em loco; obrigado a Vivi e a Wilson Maraca pela ajuda imprescindível em toda estrutura do evento um dia antes e no dia, inclusive no esvaziamento dos buracos de lama a balde; Obrigado a Jorginho meu filho que com sua luz me ajudou a suplantar as dificuldades; obrigado a Arthur Lima pela decoração e ajuda em geral que deu; obrigado à Kamilla da Costa pela contribuição efetiva ao evento e na ajuda que deu durante o dia do mesmo; Obrigado como sempre à Juarez e a Nani que sempre nos ajudam muito neste processo; Obrigado a Eliane do Mercado de São José, da Casa Abre Gira por nos ajudar a vender os bilhetes dos ônibus; Obrigado ao SAMU pela cobertura com uma ambulância no local; obrigado à Polícia Militar de Pernambuco nas pessoas da capitã Lucia Helena do GT Racismo da Polícia e do Capitão André Luan; Obrigado ao terreiro Mensageiros da Fé, casa que sustenta os fundamentos de Malunguinho através de Sandro de Jucá e Dona Dora (meus padrinhos); obrigado ao Ministério da Saúde por ter enviado o professor Jayro Pereira de Jesus, e obrigado ao professor por ter vindo do RS dar o curso de Afrobioética na Semana da Vivência e Prática da Cultura Afro Pernambucana e por ter participado do Kipupa com uma fala importante; Obrigado à professora Célia Cabral e a Escola Estadual Mariano Teixeira por terem realizado mais um ano a Semana de Malunguinho (Lei estadual 13.298/07); Obrigado à Alexandre Miranda pelo apoio dado; Obrigado à deputada estadual Tereza Leitão e seu assessor Félix Aureliano pelo apoio dado; Obrigado ao CEPIR e ao Governo do Estado pelo fundamental apoio dado; obrigado a Diego, motorista que me conduziu cruzando toda cidade entre dos dias 18 a 22 de setembro de 2013 – sua sensibilidade e harmonia ajudou muito a tudo dar certo; Obrigado à Nino do Bojo da Macaíba pela confecção de todas as artes usadas no evento; E um obrigado muito especial aos grupos culturais que fizeram a festa vibrar com seus cocos – Coco de Roda Bojo da Macaíba, Coco dos Pretos, Grupo Bongar, Mestre Zé Negão e ao pessoal da LAIA e ao mestre Zeca do Rolete. Ainda, agradeço a todas e todos que esqueci de colocar aqui (reinvidiquem se necessário que coloco – rsrs).

Mesmo tendo levado uns NÃO’S de instituições nacionais de Brasília que deveriam nos ajudar, o evento aconteceu, isso se deve a muita luta.

No meio de todo este processo, ainda pudemos fortalecer mais ainda a Rede Nacional do Povo da Jurema através da grande adesão por parte dos juremeiros e juremeiras e outros presentes que assinaram a ficha de adesão oficial da Rede. Em breve vem novidade por ai do nosso Povo, aguardem...

O IX Kipupa vem ai... Vamos preparar os cachimbos que a pisada vai ser forte! Simbora Povo da Jurema, buscar nosso lugar! Salve a fumaça!!!

Sobô Nirê Reis Malunguinho!
Salve a Jurema Sagrada!

Alexandre L’Omi L’Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
Rede Nacional do Povo da Jurema

Quilombo Cultural Malunguinho

Quilombo Cultural Malunguinho
Entidade cultural da resistência negra pernambucana, luta e educação através da religião negra e indígena e da cultura afro-brasileira!