sexta-feira, 26 de junho de 2015

Acorda Povo de Peixinhos 2015 - Um sucesso comunitário

Acorda Povo de Peixinhos. Saída. Foto de Marquito.

Acorda Povo de Peixinhos
Um sucesso comunitário

Este ano de 2015, recebi pela primeira vez em minha casa a Bandeira de São e dos Santos juninos Santo Antônio e São Pedro, além de andor, estrela e balão. Este ritual comunitário chama-se Acorda Povo, que no bairro de Peixinhos existe a mais de 50 anos.

Na virada do dia 22 de junho para o dia 23, fui buscar, junto aos meus afilhados de jurema, na Rua da Caixa D’água, no mercadinho de Laércio a procissão. Lá já se encontrava o andor enfeitado e todos os elementos necessários para realizarmos esta tradição que leva todos os anos cerca de 500 pessoas às ruas do bairro na madrugada.

O GCASC – Grupo Comunidade Assumindo Suas Crianças, organizador a 29 anos desta tradição, durante a noite do dia 22 realizou apresentações de quadrilha junina tradicional, fez roda de coco e animou a Av. Nacional com muita alegria das crianças pertencentes à instituição. Já perto da meia noite, horário sagrado para início dos rituais, todos se destinaram ao local onde ano passado foi deixada a bandeira (barraca de Laércio)...

Neste momento, a Rede Globo (que pela primeira vez filmou a tradição) chegou para fazer uma matéria e filmou parte da atividade (ver no link no final do texto). Muito animado, o ritual começou comigo cantando alguns cocos junto com Anjinha do GCASC. Cantei também para Xangô e ali os tambores esquentaram para seguir o cortejo.

Rede Globo Filmando o Acorda Povo. Foto de Marquito.

 Comunidade de Peixinhos toda presente no Acorda Povo. Foto de Marquito.

Saída da Bandeira da CAsa de Laércio na Rua da CAixa D'água. Foto de Vanessa.

Logo deu meia noite em ponto, e em meio aos fogos de artifício, cantamos:

“Dona Ana saia pra fora, entregue a bandeira que chegou a hora... Acorda Povo que o galo cantou, São João é primo do Senhor. Que bandeira é essa que vamos levar? São João para festejar”...

Tiramos a bandeira e o andor e seguimos a procissão pelas ruas de Peixinhos ao som dos tambores que tocavam o ritmo do coco, acompanhados por ganzás, pandeiros, caixa e palmas de mão.

A esta altura, eu já estava muito emocionado e concentrado na energia de Xangô, pedindo por nossa paz e harmonia. Firmando o pensamento nas coisas boas que este Orixá sincretizado com São João poderia me dar devido a meu sacrifício e devoção. Vibrei muito carregando nas mãos o Oxê de Xangô, machado duplo que representa esta divindade.

A multidão feliz cantava alto e vibrava muito. Fogos, palmas de mão, saudações a Xangô e São João invadiram a madrugada silenciosa do bairro acordando de fato todo Povo.

Cantando para Xangô na hora da saída da Bandeira de São João. Foto de Marquito.

Procissão do Acorda Povo pelas ruas de Peixinhos. Foto de Marquito.

Procissão do Acorda Povo pelas ruas de Peixinhos. Foto de Marquito.

Multidão nas ruas de Peixinhos. Foto de Marquito.

Fé no Acorda povo de Peixinhos. Foto de Marquito.

Fé no Acorda Povo de Peixinhos. Foto de Marquito.

 Andor de São João. Foto de Ana Paula Rodrigues.

Alexandre L'Omi L'Odò celebrando Xangô nas ruas de Peixinhos. Foto de Mariana Vasconcelos.

Altar de Xangô em frente a minha casa. Foto de Alexandre L'Omi L'Odò.

Em frente da Casa das Matas do Reis Malunguinho. Chegada da Bandeira. Foto de Marquito.

Oriosvaldo de Almeida e Ricardo Nunes no momento da chegada da Bandeira. Foto de Marquito.

Saí correndo na frente para estar em casa na hora de receber a bandeira. Feliz com as pessoas que lá estavam, vibramos muito com a chegada da procissão na Rua da Harmonia. Nunca este Acorda Povo tinha entregado a bandeira na nossa rua, e este foi mais um fato a se comemorar. A vizinhança toda compartilhou deste momento e foi lindo demais.

Troquei de roupa, vesti-me todo de branco e aguardei... E logo em frente da minha casa se encontrava uma das imagens mais lindas que já vi... Uma multidão cantando, tocando e dançando, celebrando São João e Xangô, uma vibração tão forte que contagiou todos. Logo cedo, o banho de ervas sagradas já tinha sido preparado para o ritual do banho de São João. Toda pessoa que recebe a bandeira, tem que tomar no ato do recebimento um banho de água fria com ervas e outros elementos de axé. Quem me deu o banho foi Oriosvaldo de Almeida – Orí, poeta magnífico e grande mestre da educação da comunidade. Fiquei muito orgulhoso de ter recebido dele este axé. Afinal, este evento também é uma forma de ser consagrado pela comunidade como líder comunitário. Nesta hora me emocionei muito e senti o estremecimento do Orixá. Foi muito forte. Orei e pedi axé... Malunguinho e Xangô estavam muito próximos espiritualmente.

Banho de São João na entrada de minha casa. Foto de Taciana Renata.

Recebendo o banho pelas mãos de Oriosvaldo ed Almeida. Foto de Taciana Renata.

Colocamos andor e tudo mais pra dentro de casa e começamos a festa. Neste momento coloquei os Ilús pra tocar... Rinaldo Karinbó e Maia foram os Ogans responsáveis por me acompanhar nos cânticos para Xangô. Vibramos ao toque do Alujá e cantei toadas do nagô pernambucano para o Rei de Oyó.

O juremeiro e apresentador de palco Ricardo Nunes fez toda locução e apresentou o coco no terreiro. A festança ficou por conta do Grupo Raízes, parceiras que vieram do terreiro de Dona Marinalva do Xambá em Sapucaia para nos brindar com o baque forte do ritmo do coco desta nação. Abalaram Peixinhos! Os presentes dançaram muito e vibraram com muita emoção.

Outros artistas se fizeram presentes pra cantar o coco como Guitinho da Xambá, que animou a festa com os cocos do Grupo Bongar. Nino do Xambá também veio tocar, e fez o couro do bombo tremer. A presença destes parceiros aqui em casa me deixou muito contente.

Outras mestras de Peixinhos cantaram também... Maria do Coco por mais de meia hora cantou cocos antigos da comunidade e fez a poeira subir com muito pertencimento. Chamou também por Dona Elisa do Coco, que não compareceu por estar organizando outro acorda povo no momento. Eu também cantei, como não poderia ser diferente. Celebramos juntos e dançamos bastante.

Grupo Raízes fazendo a festa no Acordo Povo. Foto de Ana Paula Rodrigues.

Cantora Lila cantora do Grupo Raízes. Foto de Marquito.

Guitinho do Grupo Bongar fazendo a festa. Foto de Ana Paula Rodrigues.

Guitinho do Bongar cantando coco e animando a jurema. Foto de Ana Paula Rodrigues.

Maria do Coco, mestra de tradição de Peixinhos. Foto de Marquito.

Maria do Coco fazeno a festa no terreiro. Foto de Ana Paula Rodrigues.

Servimos comidas típicas, refrigerantes e vinho. A comunidade comeu e bebeu bastante rsrsrsrsrs. Servi o vinho de mão em mão... Ato que me era obrigatório devido aos mandados da Jurema.

Dançamos e tocamos até às 4h. Hora que finalizamos re-organizando tudo e trabalhando bastante pra desmontar a festa...

Cansados mas muito felizes, todos que contribuíram com o Acorda Povo, se confraternizaram e oraram na fé em Xangô.

Neste momento também foi a abertura oficial da Casa das Matas do Reis Malunguinho, meu terreiro de Jurema, que embora não esteja em endereço fixo ainda, atende pessoas de todos os lugares nas suas necessidades. Fiquei muito feliz com isso. Mais uma etapa cumprida de  minha jornada de sacerdote juremeiro.

Só tenho a agradecer a minha família e a todos meus afilhados e afilhadas de jurema e Orixá, além dos amigos e amigas. Sem vocês jamais teria conseguido fazer algo tão grandioso e cheio de luz.

Agradeço às minhas vizinhas Geane Brito e Aline, além de Tiago e Dinha por terem caído pra dentro e nos ajudado bastante desde montar a fogueira até a decoração. Ainda ajudaram a servir as comidas na rua. Vocês tiveram uma atitude linda. Obrigado demais.

Obrigadão à Maria Betânia que fez a decoração com tanto carinho e amor, e ainda ajudou a fazer as comidas... Você é uma especialidade. Cambona de Malunguinho valente! Obrigado também a minha afilhada Vanessa, que veio pra cá e passou o dia ajudando e arrumando tudo. Montou e desmontou conosco o evento.

Obrigado à Ricardo Nunes e família. Ele mesmo rouco se garantiu em fazer a locução do evento com muito profissionalismo. Além de ter ajudado em tudo.

Obrigado especial a minha mãe, que às cinco da manhã estava ainda varrendo a rua e limpando o restante das coisas que ficou para ajeitar.

Enfim, obrigado à Xangô, à Malunguinho, à Oxum, à Exú e a São João. Eles foram os grandes parceiros espirituais desta missão. Axé.

Viva São João!
Viva Xangô!
Viva Malunguinho!
Viva a todos nós.

Felicidade é pouco. Meu coração esta cheio de luz depois deste Acorda Povo. Obrigado Olorun por tantas vitórias em minha vida. Axé!

Servindo vinho para a comunidade. Feliz estava eu. Foto de Marquito.

Firmando a fé no fogo de Xangô. Foto de Vanessa.

Altar de Malunguinho. Foto de Vanessa.

Viva São João Xangô Malunguinho! Foto de Taciana Renata.

Axé Xangô! Foto de Vanessa.

Até ano que vem, no dia 22 de junho de 2016. Momento que entregarei a bandeira à outra pessoa da comunidade. Este ano de 2015 serei o guardião da tradição! Minhas obrigações com Xangô estão firmadas! Salve a fumaça!

Links

Matéria da Rede Globo:

Matéria no Diário de Pernambuco:


Alexandre L’Omi L’Odò
Casa das Matas do Reis Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

Religiões e os Folguedos Juninos


Religiões e os Folguedos Juninos

Neste sábado 27/06/2015 estarei realizando um bate papo maravilhoso com comunidades da cidade Joboatão dos Guararapes/PE sobre Religiões e os folguedos juninos. 

Vai ser uma ótima oportunidade de realizar mais uma vez uma discussão inter-religiosa com pessoas de diversos credos. Esta experiência tem sido muito importante e revolucionária. Creio que em breve relatórios gerais sobres estas atividades na Escola Petrônio Portela vão dar caminhos e soluções na luta contra a intolerância religiosa e o racismo no Brasil.

Visitem: www.forumdopetronio.com.br 

Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com 

sábado, 13 de junho de 2015

Acorda Povo de Peixinhos 2015


Acorda Povo de Peixinhos 2015
Celbrando Xangô e São João

A Casa das Matas do Reis Malunguinho, meu terreiro de Jurema (em seu endereço provisório) tem o prazer de receber a tradicional Bandeira de São do Acorda Povo do GCASC - Grupo Comunidade Assumindo Suas Crianças. 

Dia 22 de Junho de 2015, o Bairro de Peixinhos mais uma vez vivenciará e celebrará esta linda tradição que é levada com muita garra há 29 anos pelo GCASC. Sabemos que esta tradição tem mais de 50 anos no bairro, e que há 29 anos o Grupo se responsabilizou em manter vivo este patrimônio imaterial de nossa comunidade, afinal, se percebia na época que esta procissão junina estava se extinguindo. Este ato, nos garantiu hoje vermos viva uma das mais lindas procissões sincréticas e híbridas do Brasil.

Nos últimos anos vimos na madrugada do dia 23 uma multidão de aproximadamente mil pessoas acompanhando esta procissão. Isso é muito forte e demonstra o quanto as pessoas envolvidas se dedicam para agregar o máximo possível de membros da comunidade para manter viva nossa cultura. Isso me emociona muito.

Dia 22 de junho, às 00h a Bandeira de São João com toda sua orquestra de tambores tocando coco, sairá pelas ruas do bairro a partir da Rua da Caixa D'água, da casa de Laércio - Mercadinho Santo Antônio, rumo à Rua da Harmonia, n°27 (nosso terreiro/casa) para aqui entregarem a Bandeira e fazermos os rituais pertinentes desta tradição, celebrando Xangô e São João com muito coco.

Vamos ter o show do Grupo Raízes, que vem do Terreiro de Dona Marinalva em Sapucaia/Olinda, com o ritmo do Xambá para animar a festa. Também teremos os coquistas do bairro que cantarão fazendo a tradicional roda de coco de Peixinhos.

Teremos fogueira, comidas típicas e muita alegria para amanhecer o dia com toda fé no nosso senhor Xangô, Malunguinho e São João Batista.

Faremos uma homenagem ao importante artista plástico "Michael Jackson" (como era conhecido), por ele ter participado ativamente de anos anteriores da realização do Acorda Povo, sobre tudo pintando à mão as Bandeiras que ainda hoje são usadas. Ele faleceu ano passado deixando uma lacuna muito grande no Bairro. Ele merece nossas homenagens e orações.

Estão todas e todos convidados. Venham celebrar comigo este momento histórico na minha vida. Axé e salve a fumaça!

Estou muito agradecido por reconhecimento da comunidade. Isso nos fortalece!

Quem quiser saber o que é o Acorda Povo através de dados históricos, visite: 


Serviço:

Acorda Povo de Peixinhos 2015
22 de Junho às 00h
Local: Casa das Matas do Reis Malunguinho - Rua da Harmonia, n°27
Show do Grupo Raízes (coco do Xambá)
Grátis e na rua


Alexandre L'Omi L'Odò
Casa das Matas do Reis Malunguinho 
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com 

Acorda Povo - Uma tradição híbrida do Nordeste do Brasil

Acorda Povo de Peixinhos 2015. Foto de Marquito. 

Acorda Povo - Uma tradição híbrida do Nordeste do Brasil

No bairro de Peixinhos em Olinda, há mais de 50 anos se mantém uma tradição muito antiga do Nordeste do Brasil – o Acorda Povo. Com uma adesão enorme por parte da comunidade, esta procissão leva mais de mil pessoas às ruas do bairro, para celebrar/festejar na madrugada do dia 22 para o dia 23 de junho, todos os anos. 

Levado com garra pelo GCASC – Grupo Comunidade Assumindo Suas Crianças, há 29 anos (esta tradição já existia antes do GCASC assumi-la) esta celebração popular tem se mantido forte, preservando este patrimônio imaterial do nosso povo.

Este ano de 2015 não seria diferente. Como todo ano uma casa da comunidade é escolhida para receber a bandeira de São João e dar a festa, eu fui escolhido com muito orgulho, afinal, há anos esperava por este momento lindo que também celebramos Xangô.

Convido todas e todos para participar. 

A festa será na Rua da Harmonia 27, Peixinhos - Olinda/PE. Cheguem de 00h.

Vamos ter ainda a linda apresentação do Grupo Raízes que fará o chão tremer com seu coco do Xambá, além de vários coquistas e mestres da comunidade que também cantarão e animarão a festa.

Esta é a primeira atividade de meu terreiro de Jurema - Casa das Matas do Reis Malunguinho. Fico feliz em iniciar minhas atividades religiosas públicas louvando Xangô, Orixá que é minha estrela no axé. O senhor da alegria (Xangô), vai vir nos brindar na companhia de Malunguinho. 

Informações históricas sobre o Acorda Povo:

Aqui não escreverei um texto acadêmico. Em outro momento me aterei mais profundamente a esta tradição híbrida do Nordeste do Brasil. Sou um partícipe desta cultura, e deixo aqui algumas informações para nos ajudar a entender melhor o que é o Acorda Povo.

A Bandeira de São João é uma das procissões dançantes mais antigas do Brasil. Organizada pela Igreja Católica, a Bandeira de São João saía nas primeiras horas do dia 23 de junho, após o acender as fogueiras, com uma estrela grande, confeccionada com arame, papel ou plástico colorido, puxando o cortejo, o andor e a bandeira do Santo com a imagem dele ainda criança, que percorria os vilarejos ao som de pequenos grupos musicais. A interação dos escravos africanos ao cortejo proporcionou a introdução de alguns instrumentos de percussão; ocasião em que muitos negros aproveitavam para louvar o orixá Xangô, criando assim uma dinâmica relação de sincretismo e hibridismo cultural de forma espontânea no convívio social das tradições cristãs e de matriz africana e indígena em séculos passados.

O ritual terminava quando entregavam a imagem de São João na igreja da comunidade. Com o tempo, em razão do grande agito (danças e cantos no interior dos templos), a Igreja Católica proibiu a imagem no seu interior.

Essa atitude acabou por dividir o folguedo em duas manifestações: uma religiosa e outra profana. A Bandeira de São João tornou-se uma procissão com rezas e cânticos em louvor ao santo. A festa profana foi chamada de Acorda Povo, e saía durante a madrugada com um grupo de cantores e batuqueiros acordando os moradores da cidade para participar da comemoração, regada a muito bebida e comida típica.

Em Olinda, alguns bairros ainda mantém esta tradição: Peixinhos (um dos mais antigos), Amaro Branco, Aguazinha, Águas Compridas e Santa Casa ainda se mobilizam para manter viva a cultura. 

No Recife, cerca de sete bairros (Bairro do Recife, Água Fria, Areias (talvez o mais antigo, com 75 anos de tradição na Vila das Lavadeiras, regido pela Iyalorixá e juremeira Nenzinha de Xangô), Casa Amarela, Torrões, Várzea e Brasília Teimosa) ainda mantêm viva essa tradição. Com o crescimento da violência, os organizadores do Acorda Povo decidiram acabar com a saída do cortejo pela madrugada, e retomar o formato tradicional junto com a Bandeira de São João, com exceção da comunidade de Peixinhos/Olinda e Água Fria/Recife, que continua saindo à meia-noite.

Antes da saída, na casa do organizador (toda enfeitada com bandeirolas, balões e fogueira), o cortejo realiza orações, pedindo bençãos, e louvando o santo diante da casa capela. Dão vivas e geralmente soltam muitos fogos de artifícios. Muitas pessoas se vestem com as cores do santo ou orixá de sua devoção, o vermelho e o branco, e saem pelas ruas cantando e dançando alegremente.

É, talvez, a derradeira procissão religiosa do Brasil, onde, com a presença do povo, ainda se dança. Ainda sabe-se que esta tradição tinha outros nomes como de Procissão do Galo, Procissão de São João e Bandeira do Banho de São João. Mas hoje, não se chama mais assim.


Atrás de tudo, o povo cantando, dançando as umbigadas, soltando fogos e balões (hoje não se solta mais). Os participantes, com as cabeças enfeitadas com capelinha de melão ou manjericão, alguns deles cheios de bebidas, esbaldando-se gostosamente no ritmo que os instrumentos de percussão vão executando. Lá para as tantas, todos vão aderindo, caindo na dança das umbigadas, cantando versos, gingando, batendo ventres, pisando forte na dança do coco para São João.

Referências





Alexandre L'Omi L'Odò
Casa das Matas do Reis Malunguinho 
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Falece o Mestre coquista Pombo Roxo

Mestre Pombo Roxo. Foto de Emiliano Dantas.

Falece o Mestre coquista Pombo Roxo
Foi alegrar o céu da Jurema 

No último dia 30 de Maio faleceu o Mestre Pombo Roxo no hospital Miguel Arraes. Pombo, como era chamado pelos amigos, era cadeirante a anos viva doente com problemas urinários, diabetes e outras doenças causadas pela idade e a maus cuidados. Muito humilde, vivia no bairro do Amaro Branco, onde teve intensa participação na vida cultural do bairro. Era juremeiro e babalorixá, filho de Odé. Conhecido por ser um exímio Ogan (pois ele tocava e cantava toques de diversos terreiros da redondeza), o Mestre era muito reconhecido no meio do povo de terreiro de Olinda e de outras regiões. Pude ver ele por muitas vezes tocando no terreiro de Mãe Beata de Iansã, no bairro da Barreira, ali pertinho do Amaro Branco em Olinda. Ele tinha moral, postura e se emocionava muito cantando para os Orixás e para a Jurema. Era bonito de ver ele atuar como sacerdote. Ainda o vi andando, há mais de 20 anos atrás... Ele tinha moletas... Mas depois piorou e infelizmente ficou definitivamente na cadeira de rodas.  

Grande mestre coquista, cantava em rodas de coco do Amaro Branco e do Guadalupe. Fazia a festa de muitos cantando "seus" cocos antigos como "Vendedor de Caranguejo". Nos últimos anos ele já estava com a voz cansada, confusa e com má articulação. Por vezes era difícil entender o que ele cantava nos versos de improviso, mas isso era o menos importante, pois todos respondiam o coco e dançavam com tanta alegria que ele se animava e cantava mais e mais. Se não tomasse o microfone dele... Hahahahha Era bronca, ninguém mais cantava a noite toda. Bom lembrar disso...

Neste dia 02 de Junho, mês do coco no Nordeste, às 14h ele será enterrado no Cemitério do Guadalupe em Olinda/PE. O mesmo local onde se enterraram outros mestres e mestras coquistas como Dona Selma do Coco, Dona Célia do Coco, Pai Edu (que não era coquista mas foi um grande babalorixá e juremeiro de Olinda - Figura pública), Mestre Dedo e tantos outros que moram no município que é patrimônio cultural da humanidade. 

Vamos lá festejar sua partida. Isso mesmo, festejar. Ele não morreu. Encantou-se na Jurema. Vamos tocar seus cocos, dançar, vibrar para que o espírito dele se alegre e siga leve nos braços dos ventos de Oyá. Ele sempre será lembrado!

Muitas vezes conversou comigo horas sobre a religião... Insistia em querer me ensinar coisas do axé e da Jurema. Sempre o ouvia com afeto e paciência. Lembro de um fato... Na madrugada da saída do Homem da Meia Noite, abrindo o carnaval... Estava eu, lá no Guadalupe seguindo o Calunga Gigante... Quando me deparei com Pombo Roxo sentado em sua cadeira de rodas em frente do toldo do Ponto de Cultura Coco de Umbigada. Ali fiquei para conversar um pouco com ele enquanto descansava da folia. Ele me explicou um monte de coisas sobre como os Orixás agiam, de como deve-se tratar eles, de como saber como uma pessoa esta "manifestada" com o santo ou não... E falou sobre a Jurema, de como os caboclos eram e de como cultuar eles sem haver guerra espiritual... Coisas que guardarei como tesouro em meu coração. Toquei inúmeras vezes para ele nas "sambadas de coco" de Olinda. Segurava o tombo pra ele no pandeiro e no bombo... Era bom demais... Tempos bons de vivências práticas com os mestres do coco. Aprendi muito. Sou esta colcha de retalhos formada pela memória de casa mestre que vivi e toquei. Me orgulho disso. 

Siga em paz babá. Que seu espírito sorria ao ver a gente celebrando sua partida com amor e respeito. Siga feliz. Agora o senhor pode andar. Espírito pode tudo, ou quase tudo... Voe no céu da Jurema e alegre a aldeia dos coquistas. Dê um longo abraços nos mestres de coco que estão ai nas cidades encantadas. 

Axexê mojubá!

Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com 

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Índios e Caboclos na Jurema Sagrada - Não em nome do “nosso Senhor Jesus Cristo”!

Primeira Missa no Brasil - Pintura de Victor Meirelles (1861). Fonte: Internet.

Índios e Caboclos na Jurema Sagrada 
Não em nome do “nosso Senhor Jesus Cristo”!

Hoje acordei com um pensamento que há alguns anos vêm me perturbando... Decidi problematizar um aspecto religioso interno da Jurema Sagrada que muito me incomoda e faz refletir. Irei tratar aqui exclusivamente da realidade da Jurema por conceber não ser pertinente a mim falar de umbanda e demais religiões de terreiro neste momento. Contudo, é constatável que em outras práticas como no Nagô, no Jeje, no Ketu etc. ainda as questões aqui discutidas, estão fortemente presentes e vigentes.

O aspecto ao qual me refiro é um dos mais comuns da nossa prática religiosa. É o da “chegada” dos índios(as) e caboclos(as) nas reuniões de mesa ou em festas de salão, cujo ao qual falam antes de qualquer ato: “salve nosso Senhor Jesus Cristo” e todos presentes respondem: “para SEMPRE seja louvado”. Não só os índios e caboclos se expressam dessa forma, também os mestres e mestras e outras entidades e divindades... Mas foco aqui neste texto as entidades e divindades indígenas, porque eles e elas foram os primeiros a sofrerem o massacre do catequismo cristão, que resultou nesta permanência e louvor aos valores do opressor em nossa fé religiosa.

Não só as entidades e divindades repetem estes predicados cristãos. Os juremeiros e juremeiras também repetem, fazem o sinal da cruz, rezam o Pai Nosso e reproduzem outros elementos simbólicos dos colonizadores. Muitos, mesmo tendo acesso há um pouco mais de informação, se mantém fechados a repensar estas questões teológicas nossas...

Este não é um texto que tem como missão determinar nada para ninguém. Não é um texto que se encerra em si, e muito menos que quer violentar e desrespeitar ou expor ninguém. Sou um sacerdote que respeita todas as fés e todas as formas de interpretar o sagrado e divino, porém, isso não me impede de refletir criticamente sobre os diversos elementos que envolvem questões culturais, sociais e teológicas nossas.

Altar dos índios e caboclos na Jurema. Foto de Marcelo Curia. MDS - UNESCO. Mapeamento dos Terreiros 2010 - Recife/PE.

Os índios foram catequizados. Sabe o que significa isso? Significa que tiveram sua cosmovisão de mundo delida por outra de valores completamente diferentes e violentos... Tiveram suas famílias violentadas, estupradas, corrompidas, suas crenças destruídas, suas línguas desaparecidas, sua cultura morta e sua fé e práticas litúrgicas próprias para sempre apagadas. Tantas cosias que jamais saberemos que existiram um dia, pois não houve tempo sequer de haver um registro escrito sobre divindades e entidades que povoavam estes povos indígenas em séculos passados... Isso tudo é profundamente terrível e infelizmente faz parte de nossa história. O holocausto indígena, financiado e proporcionado pela Igreja Católica e outros parceiros políticos, deixaram marcas, feridas históricas e sociais que jamais poderão ser esquecidas ou relevadas por todos nós. Não podemos ser cúmplices, omitindo os fatos.

Isso tudo é muito doloroso. E mais doloroso ainda é ver o quanto o massacre dos povos indígenas foi cruel e mesmo assim a passividade que foi introduzida na alma dos ancestrais, fazendo-os repetir os símbolos cristãos por medo e risco de morte, se mantiveram e até hoje são repetidas com apego profundo por todos nós. Por isso, creio que este é um ponto que devemos rever, mesmo que doa e fira àquilo que toda vida aprendemos de nossos padrinhos e madrinhas mais antigos na religião.

Vamos compreender mais: Mantemos vivos cotidianamente os valores do opressor. O colonizador que nos violentou, usou das mais diversas metodologias para nos convencer de que somos todos submissos a eles, e isso é muito sério e verdadeiro. Tão sério que nem percebemos o quanto somos manipulados cotidianamente por este plano de dominação que deu parcialmente certo em co-parceria com todos nós. Também somos culpados de nossa submissão! Somos tão culpados que insistimos em manter “valores alienígenas” em nossas práticas religiosas.

Não é de purismo religioso ou tradicional/cultural que falo. Afinal, não existe religião pura, ou cultura pura. Todos nós bebemos das fontes de diversas fontes que a trajetória histórica do homem/mulher deixou para a posteridade. Falo aqui que devemos enxergar que determinados elementos devem ser mudados, ou melhor, entendidos. Que devemos buscar os elementos mais próximos de nossas raízes ancestrais e tentar reconstruir (se possível ainda) uma identidade da Jurema mais ligada a valores de sua história indígena (mesmo grande parte dos terreiros hoje serem e estarem no mundo urbano).

Catolicismo popular, fés imbricadas, re-elaborações ritualísticas, sincretismos, hibridismo etc. tudo isso é pouco para acharmos que é assim mesmo que se devem manter as coisas como estão. Nada disso explica, justifica ou dá conta de nossa demanda histórica de resgate do que foi perdido. Nenhum desses argumentos científicos citados servem de fato para esta discussão, mesmo estes elementos sendo considerados como parâmetros que devemos também considerar. Por outro lado, o que foi perdido talvez não possa ser mais recuperado... Mas o que der pra recuperar, podemos fazer um esforço redobrado para resgatar, ou mesmo re-interpretar. E ainda repito, o que proponho aqui não é que todos nós saiamos agora de nossas casas e partamos em busca desesperada de valores indígenas originais etc. Ou que abandonemos nossas práticas tradicionais... Tudo que neste breve artigo escrevo é focado na proposta de uma provocação que espero que sirva para refletirmos amplamente e sem preconceito sobre este tema.

Quando vejo em uma mesa de Jurema um índio(a) ou caboclo(a) “baixar” e repetir o tradicional “salve nosso senhor Jesus Cristo”, inevitavelmente em meu coração se dissemina uma tristeza profunda. Também inevitavelmente meu tino racional me coloca a pensar no nosso passado e ver que é triste ainda hoje entidades tão sábias e antigas manterem traços da repressão violenta católica jesuíta. Sei que este “dizer” é muito pequeno perante a força das espiritualidades ali presentes. E que esta minha crítica pode não fazer sentido nenhum para as entidades tão antigas e juremeiros e juremeiras velhos de idade e de Jurema... Mas vejo que temos amor, e valorizamos os símbolos que nos violentaram e mataram (creio que ainda continuam matando e violentando simbolicamente e socialmente). E isso me revolta. Me dá uma inquietação profunda... E ao mesmo tempo me acalmo quando vejo que para além dos planos de dominação da Igreja, tudo que ela quis fazer não conseguiu por completo, pois se ainda existimos como juremeiros, é porque não venceram completamente e nem concluíram seu pano de dominação/colonização de almas e território geográfico. 

Na visão geral interna da Jurema, um índio ou caboclo quando “baixa” e repete o “salve nosso Senhor Jesus Cristo”, significa que ele foi doutrinado. Pois, nos processos de “evolução” dentro das mesas brancas de jurema (e lembro que esta palavra branca tem vários significados onde um deles é embranquecer as práticas ancestrais indígenas e africanas), os índios que “chegam” falando Tupi, ou outras línguas indígenas, devem saudar o “Senhor Jesus Cristo”, pra mostrar que ele é bom e está regenerado de sua condição selvagem. Portanto, as mesas de evolução ou desenvolvimento, como são chamadas, também são uma reprodução do catequismo católico jesuíta. Por vezes as mesas de desenvolvimento, mais parecem mesas de catecismo, do que, de Jurema. Daí percebemos mais uma vez que nossas práticas ainda reproduzem e perpetuam os valores do opressor colonizador cristão... Isso considero uma violência simbólica muito estruturante dentro de nossas liturgias. Por tanto, pergunto, será que “evolução” só pode ser considerada como algo dentro dos padrões cristãos? Pra mim evolução (não gosto desta palavra, pois pra mim não existe evolução) é o índio ou o caboclo “baixar” falando Tupi ou qualquer outra língua indígena existente nas Américas, livre dos signos ocidentais que os violentaram e mataram. Seria uma retomada do território simbólico/linguístico que perdemos em séculos passados.

Altar de Jurema demonstrando a presença do catolicismo popular convivendo com a tradição indígena. Foto de Marcelo Curia. MDS - UNESCO. Mapeamento dos Terreiros 2010. Recife/PE.

Por mais que a saudação seja re-significada, ou que seja apenas uma frase repetida sem muito aprofundamento teológico por parte dos juremeiros (aparentemente), ou que seja algo mecânico e sem uma reflexão profunda do que se fala, contudo, mesmo assim ainda compreendo que não devemos repetir inconscientemente estes elementos. Temos Tupã, Mãe Tamain, e tantos outros deuses e deusas da tradição indígena que podemos conhecer, por que nos mantermos louvando para SEMPRE Jesus Cristo, perpetuando a memória da fé cristã?

Será mesmo que estamos agindo de forma benéfica para com nossa memória ancestral? Será que nos mantermos passivos e conformados a este processo de (ao meu ver) de vilipêndio é algo saudável para nosso futuro religioso? Penso que devemos reagir. Sei que a prática do desapego é algo muito difícil. E sei que romper com valores historicamente estabelecidos é mais difícil ainda. Mas temos o tempo a nosso favor... Ele pode dar conta de nos ajudar a perceber e resolver nossas questões mal discutidas internamente. Temos um futuro, e este, deve ser muito melhor do que é hoje para nossos ascendentes, com mais liberdade humana e crítica com acesso a história.

Toda reza é bem vinda. Toda fé merece ser respeitada. A força da Jurema “também” está nas rezas cristãs, nos santos católicos, na hóstia etc. Mas o “TAMBÉM” aqui exposto nos dá a possibilidade de entender que isso é apenas uma parte do todo, e que o todo em seu pilar fundamental tem outros elementos mais fortes do imaginário indígena. Estes elementos nos ajudam a perceber o conflito por espaço de ambos os cosmos dentro da Jurema, portanto, é bom TAMBÉM enxergarmos de fora um pouco para percebermos o quanto ainda lutam por espaço os elementos simbólicos religiosos de ambas as tradições. Este conflito por espaço é importante, pois revela a ininterrupta transformação dos símbolos e sincretismos. “As religiões e as tradições não são estáticas”.

Gostaria muito de ver um dia em uma mesa de jurema “baixar” caboclos e caboclas, índios e índias, pajés, caciques, caboclinhos e outros encantos de luz falando em língua original e saudando seus deuses próprios, seria revolucionário... Também aprenderíamos muito mais com isso. Pois, estaríamos forçados a re-aprender a falar estas línguas para nos comunicarmos melhor com os ancestrais.

Só penso na filosofia Adinkra, cujo o símbolo Sankofa serve para interpretar ou dar caminho a este dilema. Sankofa é aprender com o passado para construir o futuro, em uma tradução livre minha. E acredito nisso profundamente.

Que estas provocações sejam entendidas pela comunidade do Povo da Jurema. E que possamos construir novos horizontes de discussão, com respeito e sabedoria. Ainda digo que este é um tema que pode dar margem a uma pesquisa de mestrado ou doutorado no campo das ciências da religião, antropologia, história ou sociologia. Busquem pesquisar mais sobre nossa religião, precisamos olhar pra nós mesmos!

Talvez eu fale todas estas coisas por ser um jovem juremeiro (em meu tempo e em meu lugar) e ter tido acesso, e ter buscado outras informações que me deram condições de refletir desta forma sobre nossas questões internas. E que a frieza racional que algumas vezes sobressai em minha escrita seja fruto de um processo de “academificação” que eu mesmo decidi aderir... Mas falo aqui como religioso, como sacerdote que deseja que sua comunidade se fortaleça e estabeleça uma prática permanente crítica sobre todas as cosias. Sei que tradição é tradição, e que conceitos não se mudam facilmente. Respeito tudo isso. E gostaria que este texto fosse lido por todos os juremeiros, para que as demais críticas ao mesmo e ao tema fossem registradas para completar a missão deste escrito.

Lembro que este “artiguete” provocativo não diz respeito a nenhuma outra religião e que deve interessar diretamente aos juremeiros. Isso aqui é uma discussão teológica interna, que publico na internet por este ser o único veículo de comunicação hoje capaz de fazer estas linhas chegarem a uma parte dos sacerdotes e adeptos que usam redes sociais e outros meios on line.

Salve a fumaça!!!
Sobô Nirê!

Alexandre L’Omi L’Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

Quilombo Cultural Malunguinho

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Entidade cultural da resistência negra pernambucana, luta e educação através da religião negra e indígena e da cultura afro-brasileira!