segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Juremofobia em Pernambuco “Orixá não caminha junto com fumaça”!


 
Cachimbo e Maracá. Na foto Mãe Graça de Xangô no VI Kipupa Malunguinho. Foto de Laila Santana.

Juremofobia em Pernambuco
“Orixá não caminha junto com fumaça”!

Hoje, 27 de outubro de 2011 recebi informações da última reunião da V Caminhada dos Terreiros de Pernambuco, ocorrida no Núcleo da Cultura Afro Brasileira da Prefeitura do Recife, localizado no Pátio de São Pedro.  Informações essas que me deixaram muito preocupado com a mentalidade que ainda está pairando nas cabeças dos babalorixás e iyalorixás que constituem esse movimento do povo de terreiro, que virou entidade jurídica (Associação Caminhada dos Terreiros de Pernambuco).

Através do coordenador religioso do QCM - Quilombo Cultural Malunguinho, Sandro de Jucá, tivemos notícias sobre a sanção da Caminhada em cecear a manifestação do povo da Jurema no percurso. Isso não é novidade! A mais de 3 anos nós do QCM lutamos contra essa Juremofobia, cachimbofobia, ou ainda fumaçofobia do povo de terreiro.

Veja esse vídeo gravado em um dos seminários de preparação da caminhada em 2009, eu defendendo a participação da Jurema: 


É óbvio que para uma religião se manifestar publicamente, ela tem que levar seus símbolos e elementos particulares para poder ser identificada. No caso da Jurema Sagrada, o que a identifica além das roupas coloridas, chapéu de palha e lenço vermelho no pescoço é o cachimbo, elemento essencial do culto, instrumento que integra o juremeiro e juremeira, pois é liturgicamente o símbolo mais forte, junto, claro, com sua fumaça sagrada.

Essa posição soa ridícula. Como é que uma caminhada política do povo de terreiro, e sabendo-se que a prática da Jurema é de terreiro e que todos os participantes dessa Caminhada cultuam Jurema, pode ser ceceada, impedia e inibida? Isso seria de fato juremofobia? Ou auto-rejeição religiosa?

Sabe-se que a prática da Jurema e os juremeiros, incluindo-se os índios e pajés vêm sendo perseguidos historicamente desde o século XVI, primeiro pelos jesuítas, depois pelo governo e polícia e hoje pelo próprio povo de terreiro? Não é possível que os catimbozeiros e catimbozeiras, hoje estejam submetidos ao nagocentrismo tão popular no Brasil todo. É possível? É sim! É só ver que a fumaça dos cachimbos não podem se misturar em um ato público e político na rua em uma caminhada com os santíssimos orixás... Já que a justificativa para tal proibição é que no percurso da caminhada se cantará só, e repito, só para os Orixás... Ficando a Jurema e a Umbanda para o final da Caminhada, como vem sendo esses 5 anos...
Pode-se ainda ver uma imagem discreta de cachimbo no cartaz da caminhada. Pra isso entrar ali foram necessário anos de discussões. Isso faz rir também. Como os sacerdotes e sacerdotisas não entendem o valor e a importância da Jurema para todos os terreiro?

Para nós, fim de caminhada é dispersão, momento de todos irem embora, descansar do longo caminho percorrido, não momento de “privilegiar” a Jurema! Todos cansados do percurso terão mais uma vez que assistir a um show de Jurema, em um palco “especial” montado no Largo do Carmo, ou no memorial Zumbi dos Palmares (o “Playnobil” de Abelardo da Hora, o Zumbi menos negro e representativo da história das artes plásticas no mundo) como preferirem chamar o local no centro do Recife.

Claro que essa discussão que proponho aqui não tira o valor e representatividade que essa e outras caminhadas do povo de terreiro têm politicamente para nossa religião. Mas, tenho que alertar que xenofobia de dentro pra dentro da caminhada é uma situação crítica do povo de terreiro de Pernambuco.

Não dá nem mais pra discutir nas reuniões. Escutam-se pelos bastidores até que vão tomar os cachimbos dos juremeiros e quebrar... Isso é um absurdo completo. Dá até nojo e vergonha como alguém que é de terreiro pode agir e pensar dessa forma. Isso demonstra que muitos ainda não estão preparados para serem supostas lideranças dessa caminhada.

Há rumores ainda de punição aos que não obedecerem aos “critérios construídos durante todo o ano, nas reuniões da Caminhada”. Alguém pode conceber isso? É sério? Nossa, estamos mesmo em uma ditadura do povo do nagô? Ou serão problemas pessoais entre esses dirigentes e a organização do povo da Jurema?

Colocam a justificativa da teologia de que a Jurema não se mistura com o Orixá, e “isso pode causar problemas, pois essas linhas não devem se cruzar”... Até entendo essa regra para dentro do local sagrado dos terreiros, não para a rua, em um momento “coletivo” de luta por direitos coletivos. Não cabe essa explicação juremofóbica e altamente esvaziada teologicamente.

E mais, subestimam ainda a fumaça... Colocam-nos como tabagistas fumantes... Sequer respeitam a dimensão sagrada dos juremeiros em fumar seu cachimbo sacralizado. Querem nos colocar como desordeiros e como àqueles que querem dividir a Caminhada... Nada disso! Queremos somar! Mas não admitiremos essa juremofobia, essa xenofobia descabida conosco!

A JUREMA MERECE RESPEITO! 
E nos respeitem!

Nós, Povo da Jurema não abaixaremos a cabeça! Faremos nossa concentração na Rua da Guia, local simbólico para nosso culto, e levaremos sim os cachimbos, os maracás, as nossas roupas e símbolos para integrar o evento. Pois chega de repressão. Já basta o racismo histórico brasileiro, a intolerância religiosa nacional, a discriminação e a xenofobia dos “outros”. Vamos lutar por nosso espaço de direito e queremos ver quem vai ser contra nós. Pois conosco seguem Malunguinho e uma velha guarda de mulheres e homens que sabem e entendem o valor de ser juremeiro e juremeira. Não são pessoas colocadas na situação de massa de manobra nem de “idiotização”. São pessoas que entenderam através dos mais de 8 anos das discussões propostas pelo QCM – Quilombo Cultural Malunguinho em ter auto-estima e estudar a jurema que se apresentarão como tais nas ruas do Recife, para mostrar a cara que a Jurema tem! 

 Povo da Jurema em consentração separada na V Caminhada dos Terreiros de Pernambuco em 2011. Foto de Michelle Rodrigues.

Sobô Nirê Malunguinho!
Salve a Jurema Sagrada!

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Decidi publicar este texto só agora por motivos interpessoais entre o Quilombo Cultural Malunguinho e a coordenação da Caminhada dos Terreiros de Pernambuco. A foto que tem os juremeiros e juremeiras na Rua da Guia, em consentração separada, registra o momento de nosso protesto contra esse absurdo teológico e político. Esperamos que em 2012, esta situação se resolva e que a Jurema possa ter seu espaço como todas outras religiões de terreiro no percurso de toda caminhada. Estamos na luta e de olhos abertos para enxergar os processos de exclusão que a Jurema vem sofrendo historicamente. Lembro ainda que em postagens anteriores neste blog, publiquei a matéria de jornal que registrou nosso protesto e o divulgou no dia seguinte da caminhada. Neste mesmo dia (04/11/2011), fundamos a Rede Nacional do Povo da Jurema. Instância que em breve publicaremos mais informações e participantes. 


Alexandre L’Omi L’Odò
Coordenação QCM
alexandrelomilodo@gmail.com

Um comentário:

Sandro de Jucá - Sacerdote Babalorixá e Juremeiro disse...

SEu como cordenador Religioso do Quilombo Cultural Malunguinho pude vivenciar em loco essa descriminação quando fui interpelado pela cordenadora religiosa da Caminhada de Terreiros na fundação Gilberto Freire em um evento dizendo a mesma que "A participação do Quilombo Cultural Malunguinho no inicio da caminhada de terreiros teria cido palavras dela"Maligna" para a construção daquela caminhada,Fiquei como sacerdote Juremeiro e Babalorixá legitimado profundamente magoado com as palavras que me foram ditas por ela e como cidadão fiquei desrespeitado, Nada tenho em particular contra essa senhora que no último encontro da caminhada tiver quer exigir por parte dela respeito ! e a mesma mas uma vez em tom de arrogância disse que alí me respeitava,Se já não bastasse tamanho afronto ainda na presença de vários sacerdotes e sacerdotisas tive que ouvir um grito extridente de uma das suas comandadas Que exigia ordem no resinto por ser ela uma abikú, No meu entedimento poderia ser ela uma ébilé mas diante de tamanha ignorãncia liturgica e usando o respeito devido me prontifiquei a não mas falar e para completar a noite a yá do meu amigo Alexandre L'omi ainda se portou favoravél aquelas ações se comportando tecendo comentário quando invocado o nome de Alexandre como Juremeiro dizendo "Não existe Juremeiro de internet"Em tom de voz exclamativo, Não sei o por quê dessa atitude pois para mim no que se refere a conhecimento e comprometimento liturgico o Alexandre bota muitas dessas no bolso,Não sei se por amizade a cordenadora conferiu essa atitude publicamente desmerecendo um jovem que tem se pautado ao longo dos anos na valorização colétiva da Jurema Sagrada e ainda mais é uma pessoa que passou por preceitos liturgicos que muitos que estão na caminhada ainda não passaram,Eu mesmo já sofrí chacota por parte de muitos por na caminhada ser o único a se vestir liturgicamente como um Juremeiro, Nunca me intitulei como referêncial de Juremeiro e sim como um participante dessa caminhada POLITICA de valorização do povo de terreiro,Meu comprometimento sempre foi e será com esse respeito de uma forma colétiva e nunca individual quem assisti os videos feito por nós do Quilombo sabe o que estou falando, Agora se muitos não podem nem tem postura sacerdotal e moral para fazê-lo não posso fazer nada,Não tenho uma linha de minha vida sacerdotal que me envergonhe vou pra rua caminhar de cabeça erguida e não dobro nem debrarei nunca minha espinha diante de combates como esses,Já fizeram de tudo até querer me desmoralizar no meu blog mas é isso que incomoda NADA TENHO Á DEVER e o que escrevo assino em baixo não uso as pessoas como massa de manobra ou faço jogo tacanho e rasteiro,Quando do caso que expomos sobre as atitudes de uma senhora que se intitulava Juremeira Vinhemos publicamente esclarecer o caso,Ação que a propria cordenadora Religiosa da caminhada no final do evento de coroação no pátio do terço nos veio parabenisar pela atitude e em outro momento nos ataca se achando num cargo vitalicío da cordenação religiosa da caminhada,No inicío tive forte embate com o cordenador da caminhada sobre minhas palavras em um certo momento mas hoje ele mesmo reconhece minha atitude naquela hora e vem tendo por mim o respeito devido digo de ambas as partes, Vejo nele uma pessoa comprometida com a causa e sua história de luta lhe confere isto,A Jurema merece todo respeito !E nós do Quilombo Cultural já vinhemos desenvolvendo esse respeito antes da caminhada e fomos nós que botamos literalmente a cara pra bater Quando dissemos que não se pode entender uma caminhada de terreiro sem a jurema como dupla pertença religiosa e o Rei Malunguinho nos comfere esse direito,Pessoas como o Históriador João Monteiro, Ary Banto,Professor Alexandre Dias,Carlos Alberto Leandro, Anne dentre outros tantos Juremeiros e Juremeiras nos apoiam nesse trabalho sério digno de valorização colétiva de Juremeiros e Juremeiras que nada mas querem que ser respeitados Queiram ou não queiram o Quilombo Cultural Malunguinho está presente ! É pau guiné

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Entidade cultural da resistência negra pernambucana, luta e educação através da religião negra e indígena e da cultura afro-brasileira!