quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

"O pau comeu no terreiro de macumba" - Matéria do Jornal Aqui PE sobre caso Mãe Silvanize


 
Manchete da capa do jornal Aqui PE de 09 de dezembro de 2011.
 
O pau comeu no terreiro de Macumba

Silvanize de Oliveira, dona de um centro de umbanda, na Estância, acusa evangélicos pentecostais do bairro de agredi-la. A dona de casa contou ainda que ameaçaram tocar fogo no local com ela dentro. Porém, os vizinhos dizem que é tudo invenção da cabeça dela (texto da capa do Jornal Aqui PE).

 
Matéria do Jornal Aqui PE de 09 de dezembro de 2011. Página 3.

Barraco em terreiro de candomblé

Jornal Aqui PE. Recife, sexta-feira, 09 de dezembro de 2011. Polícia – Página 3.

Dona de casa que mantém local de culto à Oxum, na Estância, se diz ameaçada por evangélicos

Um suposto caso de intolerância religiosa pode ser a causa das agressões físicas e verbais que a dona de casa Silvanize de Oliveira, de 53 anos, vem sofrendo por mais de uma década.

Os suspeitos seriam integrantes da comunidade evangélica pentecostal do bairro da Estância, na Zona Oeste do Recife, insatisfeitos com os rituais realizados no terreiro de matriz africana mantido pela mulher. Os agressores, inclusive, já teriam ameaçado atear fogo no centro de umbanda e jurema, com a seguidora dentro dele.

Hoje, o Quilombo Cultural Malunguinho acionará oficialmente o Ministério Público de Pernambuco para denunciar as agressões e os possíveis episódios relatados.

O Terreiro de Oxum seria o centro das divergências entre os grupos religiosos. Pelo relato da vítima, a primeira agressão aconteceu em 1999. Na época, Silvanize teria tido a blusa rasgada e sofrido agressões no rosto. A sessão de espancamento em frente ao centro teria durado meia hora. O episódio foi denunciado à Delegacia de Afogados.

Em 2000, teria ocorrido novo caso de violência, seguido por outro semelhante em 2001. “Tenho como provar tudo que estou dizendo. A insatisfação é por causa do terreiro; choque de religião” garantiu a dona de casa. As últimas agressões teriam acontecido no último domingo e na terça. Os visinhos atiraram pedra contra o teto da casa dela. O impacto danificou as telhas de amianto da residência, onde, num cômodo, está instalado o terreiro. “os moradores tentaram entrar para destruir tudo. Recebi ameaças de que quando estivesse dormindo, eles tocariam fogo no terreiro” explicou Silvanize de Oliveira.

Mãe Silvanize segurando a imagem de Malunguinho, seu protetor nesse caso. Últimas agressões a Silvanize teriam acontecido no domingo e na terça-feira. Foto de Glynner Brandão/DP/D.A Press.

Os rituais no terreiro Oxun ficaram paralisados entre 12 de agosto de 2009 e 4 de maio de 2011. Neste período, a Justiça investigou supostas irregularidades contra a Lei de Crimes Ambientais. Um documento expedido pelo 3° Juizado Especial de Crimes da Capital indica o arquivamento do processo. À época, a vitima chegou a ser ouvida na Delegacia de Infrações Penais de Menor Potencial Ofensivo, que funcionava no Fórum Tomaz de Aquino, e liberada depois de prestar depoimento.

Na manhã de ontem, com medo de represálias da vizinhança, a celebração à Yemanjá foi cancelada. “Aqui há intolerância. Os vizinhos chegam a chamar a polícia. O que eu quero é garantir o livre exercício da minha religiosidade. Afinal tenho direito”, comentou.

Vizinha do terreiro e evangélica, a dona de casa Edriane Maria dos Santos, 37 anos, disse que as reclamações contra o local não estão ligadas à questão religiosa. “Por mim, ela pode continuar matando os animais aí dentro. Ninguém nunca tentou invadir a casa dela. O problema é o barulho. A minha sobrinha e o meu neto não dormiram na segunda-feira por causa da zuada das atividades do terreiro”, disse Edriane. Segundo ela, Silvanize de Oliveira chegou chamar três pessoas para agredi-la na terça-feira. “Prestei queixa na polícia contra ela”, adiantou.

Visitem o site do Jornal e façam críticas: www.aquipe.com.br
 Ou escrevam para eles: aquipe@aquipe.com.br
  
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Publico aqui texto integral da matéria do Jornal Aqui PE de 09 de dezembro de 2011. Página 3, Policial. Esta matéria, embora tenha tido a infeliz manchete sensacionalista, tem um texto interessante que revela parte do caso Mãe Silvanize, que a mais de dois anos é acompanhado pelo Quilombo Cultural Malunguinho, entidade que lhe trouxe ao conhecimento de todas e todos, denunciando publicamente estes crimes de racismo, intolerância religiosa e falta de humanidade.

Contudo, cabe-nos uma crítica sensata: será que o povo de terreiro tem sido parceiro para ajudar as pessoas em fatos como esses? Será que os movimentos do povo de terreiro tem se envolvido com maior profundidade nesses casos? Bom, o MPPE – Ministério Público de Pernambuco já tem conhecimento desse caso a mais de dois anos também, e nada até o momento foi feito. Esse caso tem diversas complicações... A começar pela iyalorixá, vítima das agressões. Ela é uma pessoa que tem concepções teológicas de nossa religião muito equivocadas, que contribuem para um desequilíbrio para com a comunidade do entorno. Isso é um agravante, mas mesmo assim, devemos dar as mãos a ela. Pois se evangélicos a agridem e fica tudo por isso mesmo, ou até ela chegar a morrer por causa dessas brigas (pois ameaças já foram feitas), é toda comunidade nacional dos terreiros que perderá e irá se expor com essas possíveis situações que nos coloca a todos e todas na mesma vala dos que sofrem calados e não se organizam para dar jeito em situações críticas como essa.

João Monteiro, integrante da coordenação do Quilombo Cultural Malunguinho, esteve na casa de Mãe Silvanize levando o repórter lá. Ele, com muita inteligência e competência, conseguiu propor à comunidade que estava presente no momento da entrevista que nós todos pudéssemos ter uma conversa coletiva para tentar ajustar esta situação. Estamos nos organizando para tal ato, que poderá resultar ou não em um bom encaminhamento para ambas as partes.

Ainda nervosa e histérica com os ocorridos no momento das agressões, Mãe Silvanize me ligou pedindo socorro. Disse que “só Malunguinho para me ajudar nessa guerra”. E de fato, é a Jurema Sagrada que irá dar o caminho para a boa resolução (com paz) desse drástico caso.

Por favor, divulguem, discutam, critiquem. Vamos retro-alimentar nossas conversas com inteligência e afirmação.

Ajudem Silvanize de Oxum. Ajudem nosso povo a sair da marginalidade.

Salve a fumaça!

Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

2 comentários:

carlos tomaz disse...

L'Omi, João Monteiro,

Proponho uma concentração no terreiro de Mae Silvanize, a fim de nós ativistas, babalorixás, yalorixás, estudantes de história da África, fazermos uma cerimônia acompanhada de falas esclarecedoras e políticas sobre a importância das religiões de matrizes afroíndigenas no enfrentamento ao preconceito de origens raciais, de gênero, de orientação sexual, como também à importância das religiões na preservação da natureza, no combate ao aquecimento global, na preservação das águas dos rios, mares, cachoeiras.A ideia poderíamos por em prática com a articulação com o pessoal que está mais junto a nós, como a turma de Irani (estudantes pós graduação), Sandro de Jucá (babalorixá), a REDE AFRO LGBT, João, vc, Alexandre Dias, Carlos, Laila , cristina (fotografias...)Poderíamos ver um dia que a gente pudesse reunir esse pessoal, de preferência um domingo, a gente se articularia, juntaria o pessoal, faziamos falas políticas e de informação ampla das coisas positivas da religião. Toda essa ação deve acontecer em frente ao terreiro, na rua, publicamente para que quem passasse poderia estar ouvindo pessoas como nós mais mais instruídos, lúcidos, sobre nossas culturas negra e indigena, entendes?, penso que isso possa dar um grande passo. E aí a gente convidava novamente a imprensa para fazer uma cobertura, penso que isso poderia ajudar a gente a unir forças para tentar chamar a atenção da sociedade para esse problema. Como vc mesmo diz no texto, Mae Silvanize tem os equivocos que maioria de nosso povo tem, então desse modo, obviamente sem que a gente passe a ideia para ela e os seus filhos de que nós sabemos mais, a gente vai minando com outras informações e formação. Talvez isso aude a quebrar mais o preconceito dos que vivem ao derredor do terreiro de Mae Silvanize. Então, que tal? podemos aprofundar esse assunto hoje a noite lá em neta, e aí vamo nessa!

Carlos Tomaz
REDE AFRO LGBT
MNU-PE

Alexandre L'Omi L'Odò disse...

Referendado por nós do QCM - Quilombo Cultural Malunguinho querido. Axé. Hoje discutiremos com um coletivo maior esta proposta e vamos realizá-la, materializá-la. Salve.

L'Omi.

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