terça-feira, 31 de agosto de 2010

"Galo Preto, o Menestrel do Coco" na MIMO 2010

Filme/Documentário

"Galo Preto, O Menestrel do Coco" na MIMO 2010

Erudição do coco na Mostra Internacional de Música de Olinda


Nascido em 1935, em Santa Isabel no município de Bom Conselho de Papa Caças, agreste meridional de Pernambuco, hoje, região reconhecida como quilombo, cresceu o menino Galo Preto, que herdou de sua família toda tradição do coco sertanejo, brejeiro e da poesia de repente e embolada.

Típico cantador de coco, resguarda em si o traço genético da percussão e da criatividade virtuosa do repente, além da história dos cantadores tradicionais, seus ancestrais.


O filme/documentário, Galo Preto, o Menestrel do Coco, do cineasta Wilson Freire, conta a história do senhor Tomaz Aquino Leão, Mestre Galo Preto, que é o último representante vivo da tradição do coco do quilombo de Santa Isabel e da cultura/imaginário de sua família.


Em 47” minutos, o filme registra a trajetória de um dos maiores artistas da tradição do coco, embolada e repente do Brasil.


Com um roteiro surpreendente, que revela segredos guardados há décadas, e remonta uma linha do tempo do negro na mídia nacional, sobre tudo na resistência do coco, como elemento de auto-estima e referência da música pernambucana para a construção de novos rumos no mercado musical das décadas de 1960 a 1990, este registro nos traz informações valiosas de pesquisa e das relações artísticas culturais entre os pernambucanos.


Mestre Galo Preto no REC BEAT 2010. Foto de Maíra Gamarra.

O Mestre Galo Preto se propôs a realizar este filme para garantir a salva guarda de sua história e da tradição de seu coco, que como missão de vida, pretende deixar para os mais novos, para que nunca morra esta cultura que ele mesmo diz ser “negra/indígena e pernambucana de seus ancestrais”.


Registrar, em audiovisual, parte desta historia e oralidade, e, mostrar esta tradição, é contribuir para que essa memória se mantenha viva e dinâmica, que ela possa dar luz a novos pensamentos, que ela possa contribuir para a perpetuação do coco.


O Mestre Galo Preto nasceu em Pernambuco, pertence à cultura que ajuda a preservar e recriar, mas é, acima de tudo, um patrimônio de todos os brasileiros.


Visão do site da MIMO - www.mimo.art.br/cinema


Pesquisa, produção, pós-produção e Still: Alexandre L’Omi L’Odò

Produção: Fernando Lucas

Produção Executiva: Hamilton Costa Filho

Fotografia: Hamilton Costa Filho, Marcelo Pedroso, Mariano Pickman, Mariano Maestre, Daniel Aragão e Léo

Assistentes: Andrenalina, Rafael Cabral e Pá

Som Direto: Rafael Travassos, Philipe Cabeça e Nicolau

Edição e Montagem: Herivelton Santos

Finalização: Pingo

Realização: Bode Espiatório Filmes e Cabra Quente Filmes, Candeeiro Filmes, Quilombo Cultural Malunguinho.


*Um projeto aprovado no SIC (Sistema de Incentivo à Cultura) do Recife 2008.

Veja a Programação:


Filme/documentário

"Galo Preto, o Menestrel do Coco" na MIMO 2010

Dia 05/09

18h

Igreja do Seminário

Duração: 50 minutos (Média metragem).

Gratis!

81. 8887-1496



Visite:

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Filme/documentário "Galo Preto, O Menestrel do Coco" na MIMO 2010

Site da MIMO 2010. www.mimo.art.br

Esta será uma chance impredível, antes do lançamento oficial, de todas e todos verem o filme/documentário "Galo Preto, o Menestrel do Coco" 50'min. De Wilson Freire 2008.

Data: 05/09/2010
Hora: 18:00

Local: Seminário de Olinda (Olinda/PE)


Breve resenha:


Direção:Wilson Freire
Pesquisa e Produção: Alexandre L'Omi L'Odò
O filme/documentário, "Galo Preto, o Menestrel do Coco", do cineasta Wilson Freire, conta a história do senhor Tomaz Aquino Leão, Mestre Galo Preto, que é o último representante vivo e ativo da tradição do coco do quilombo de Santa Isabel e da tradição de sua família.

Veja direto no Link: http://www.mimo.art.br/programacao/filmes_view/20

Alexandre L'Omi L'Odò
Produção do Mestre Galo Preto.

81. 8887-1496

alexandrelomilodo@gmail.com

domingo, 15 de agosto de 2010

ÚLTIMO ENCONTRO COM PIERRE VERGER

Pierre Verger, em sua casa, em Salvador, no dia do seu aniversário de 93 anos

Há pessoas que deixam balizas na memória dos outros. Pierre Verger era um homem desse gênero. O marco que ele me legou não dependeu sequer de uma relação prolongada, dessas que pouco a pouco se desenvolvem no tempo, graças ao somatório de repetidos contatos. Ao contrário, chegou como luz repentina, contida nas respostas que ele deu a algumas das perguntas que lhe propus durante nosso último encontro.

Por Luis Pellegrini – Fotos de Lamberto Scipioni

Só estive pessoalmente com Pierre Verger três vezes. A primeira foi em 1992, na Pinacoteca de São Paulo, quando ele veio inaugurar uma grande exposição de obras de artistas negros brasileiros. Em homenagem a Verger, Emanoel Araújo, então diretor da Pinacoteca, tivera a feliz ideia de pôr no saguão de entrada da casa três atabaques com seus respectivos ogãs vestidos a caráter. Quando Verger chegou, vestido com uma daquelas túnicas curtas de algodão cru e estampadas com motivos africanos que tinham se tornado uma sua marca registrada, os atabaques começaram a bater. O povo abriu alas e Verger entrou com passo lento – o Tempo, implacável inquice de Angola, já reclamava direito sobre as suas pernas. Pouco importava. Ele parecia um velho rei e, ao ver aquele triunfo, uma pergunta surgiu na minha mente: “Será ele quem carrega o orixá Xangô, ou será Xangô que o carrega?”

Tempos depois, na Bahia, eu lhe fiz a pergunta e ele respondeu de modo quase enigmático: “Dizem que é o orixá quem escolhe o filho, e não o contrário, mas ninguém sabe qual é o critério dessa escolha. Talvez se trate simplesmente de uma troca de necessidades. O filho precisa do orixá para se tornar quem ele realmente é. O orixá precisa do filho para que sua existência se torne real”. Até hoje medito nessa resposta. Suspeito que a ligação de quase uma vida inteira que Verger manteve com o universo afro-brasileiro esteja sintetizada nessa única frase.

No dia seguinte ao da sua apresentação na Pinacoteca, trazido por Carlos Eugênio Marcondes de Moura que era seu cicerone em São Paulo, Verger foi visitar a Zipak, livraria da qual eu era na época proprietário. Ficamos os três sentados um bom tempo nos fundos da loja, batendo papo. Quando resolvi lhe mostrar a seção de literatura da tradição afro-brasileira, um dos orgulhos da livraria, ele me presenteou com um lacônico: “Tem livro de umbanda em excesso”. Assim, fiquei sabendo que umbanda não era exatamente a sua preferência, e além disso verifiquei que sua fama de dizer sempre o que pensava, de não ter papas na língua, era bem verdadeira.


Casa da Fundação Pierre Verger, no bairro Vasco da Gama, Salvador, onde ele viveu até o fim.

O quarto/escritório de Verger parecia a cela de um monge.

Nosso maior – em todos os sentidos – encontro foi em Salvador, na casa onde ele morava e que abriga hoje a sede da Fundação Pierre Verger, situada no modesto bairro de Vasco da Gama. Foi na tarde do dia 4 de novembro de 1995. Era o dia do seu aniversário. Verger completava veneráveis 93 anos de idade, e eu nem sequer sabia disso. Não sabia, tampouco, que aquele seria nosso último encontro. Ele faleceu no sono, poucos meses depois, em 11 de fevereiro de 1996.

“Procure enfocar Pierre Verger mais como grande viajante, etnólogo e fotógrafo, do que como babalaô do candomblé”, recomendara Eduardo Araia, então diretor da revista Planeta, ao me despachar para a Bahia com a missão de entrevistar Verger. Subindo a ladeira íngreme e vendo de longe o casarão onde ele morava, algo me disse que seria difícil atender aquela recomendação. Para começar, o sobrado era todo pintado de vermelho-sangue, uma das cores do orixá Xangô, e cercado por altas touceiras de bambu, planta-emblema do orixá Iansã, esposa de Xangô. Fui recebido no salão do primeiro andar. Era ao mesmo tempo quarto de dormir, refeitório, escritório, sala de visitas, biblioteca e galeria de arte e de objetos pessoais de Pierre. O sentimento de que seria impossível separar o Verger cientista do Verger sacerdote de candomblé aumentou. A singeleza do salão era absoluta. O chão era todo coberto com esteiras de palha grossa; a cama onde Pierre dormia mais parecia um catre de monge franciscano; ao lado dela estava uma grande escultura de um guerreiro africano empunhando o que me pareceu ser uma espada de Ogum; perto da escultura havia um machado duplo de Xangô; dentro de um vaso, uma porção de espadas e punhais ritualísticos; pousada sobre uma cômoda estava a velha câmera fotográfica Rolleiflex, desde sempre sua fiel companheira; sua escrivaninha era uma grande mesa coberta de livros, papéis, jornais, revistas, um velho e quase destroçado abajur, e um coçador de costas. Achei que penetrava na casa de algum rei tribal africano.

Havia um falatório e um vaivem de moças que trabalhavam na Fundação. Vestido, como na vez da Pinacoteca de São Paulo, com uma das suas túnicas de algodão estampadas com motivos africanos, Pierre estava ao telefone, sentado na cama, recebendo cumprimentos de aniversário. Sentei numa cadeira e aproveitei para rememorar as perguntas que gostaria de lhe fazer a seguir. Algumas estavam na minha cabeça desde que, havia anos, tomara contato com a obra e com lances da biografia de Verger. Por que ele, nascido em 1902, em Paris, no seio da mais alta burguesia judaica européia, sobrinho de banqueiros poderosos, herdeiro de grande fortuna – embora, na época, surgissem comentários de que a empresa da família estivesse falida -, lançara tudo aos ares para se transformar num dos grandes viajantes e etnofotógrafos do século 20? Por que, embora formado pela melhor cultura racionalista francesa, dedicou a maior parte da sua vida ao estudo e à preservação da tradição espiritual afro-brasileira? Por que tal interesse o levou, na África, a ser consagrado babalaô, recebendo o nome de Fatumbi, e ser, na Bahia, iniciado nos mistérios do culto a Xangô pelas mãos de Mãe Senhora, uma das maiores mães-de-santo baianas, e receber dela o oiê, isto é, o título, ou mais apropriadamente, o cargo de Ojuobá (os olhos do rei)? Por que, em 1946, após girar o mundo e passar muitos anos em países da África Ocidental, ele desembarcou em Salvador e decidiu viver na Bahia até o final dos seus dias?

Sobre a mesa, a famosa câmera Rolleyflex e objetos de culto.

De repente, Pierre pôs o telefone no gancho, olhou para mim e fez sinal para que me aproximasse. Quando lhe disse que estava lá para uma entrevista devidamente marcada, ele fez cara de asco: “Nem pensar! Já dei entrevistas demais na minha vida. Vocês sempre fazem as mesmas perguntas e sou obrigado a dar as mesmas respostas. Que coisa chata!”

Fiquei mudo de decepção. Durante quase um minuto, ele pareceu ter perdido todo e qualquer interesse pela minha pessoa. Depois, com um estranho sorriso que misturava surpreendente malícia com a sua habitual severidade, completou: “mas hoje é meu aniversário, se você quiser ficar para um bate-papo informal, terei o maior parzer”.

Alguém já me dissera que Pierre gostava de pregar peças nas pessoas e ficar observando a reação delas. O Tempo não conseguira acabar com aquele bom humor um tanto ferino que era uma característica da sua personalidade. Foi nesse tom que ele respondeu à primeira questão:

“Abandonei a existência burguesa na Europa quando percebi que não suportaria passar o resto da minha vida num meio social no qual as pessoas passam o tempo todo tentando causar impressão umas às outras, onde a maior parte dos indivíduos se transforma em personagens fictícios que saem por aí em busca desesperada de confirmação, e onde todos, ou quase todos, representam um papel, à maneira de papagaios instruídos.”

Todo o tempo, suas respostas objetivas foram entremeadas por divagações cheias de pungente nostalgia. Contou que certa vez, quando era ainda um homem jovem, saiu de Phnom Pen, a capital do Camboja, e caminhou à noite até uma praia deserta. Lá, sentou solitário na areia e se pôs a fitar durante horas o mar escuro, “deixando que o mar entrasse dentro de mim”. Depois de alguns segundos de silêncio, ele completou: “Deve ser coisa de família. Minha mãe também gostava de ficar quieta diante do mar, absorta em seus pensamentos”.

Da sua cama, pela janela, Verger gostava de admirar as plantas do jardim

Quando lhe disse que naquela mesma noite eu iria ao Ilê Opô Afonjá ver uma festa de Omulu, ele pediu: “Leve um abraço meu para Estela de Oxossi, minha irmã querida. Fomos feitos, juntos, pela mesma mãe-de-santo”.

Mas, quando revelei que quem me levaria àquele terreiro seria Fulano de Tal, o seu gênio mordaz aflorou de imediato: “Fulano de Tal? Grande fuxiqueiro. Não conte a ele nenhum segredo, porque a Bahia inteira vai saber”.

Houve um intervalo para fotos, tiradas pelo fotógrafo Lamberto Scipioni que me acompanhava na visita. “Ótimo que você não usa flash, não gosto de luz artificial. A luz ideal para a fotografia é a luz do dia”, lhe disse Pierre. Dito isso, começou a se mover, apoiado em sua bengala, de um canto para outro do salão. Ele mesmo escolhia os ângulos, perto das janelas, e as melhores posições para se fazer fotografar. Lamberto, em certo momento, veioa mim e disse com ar cúmplice e divertido: “Ele está se fotografando através da minha câmera…”.

Por que o interesse pela tradição afro-brasileira?

“Esse interesse surgiu como uma decorrência natural dos fatos. Em 1940, consegui emprego como fotógrafo do governo francês da África Ocidental, em Dacar, Senegal. Foi lá que encontrei Théodore Monod, um dos grande etnólogos do século 20. Ele era diretor do IFAN, Instituto Francês da África Negra. Monod foi um fator determinante do meu destino. Foi ele que, anos depois, quando eu já me instalara na Bahia, me deu uma bolsa do IFAN para estudar as raízes africanas das comunidades negras da Bahia e do Recife. Mergulhei de cabeça na tarefa. A primeira coisa que descobri foi que seria impossível desempenhá-la bem se o mergulho fosse apenas intelectual, da cabeça. Teria de implicar também o meu corpo e a minha alma. Quando decidi que assim seria, tudo foi acontecendo como num caleidoscópio. Conto tudo isso em meus livros.”

A estante onde Verger guardava documentos e originais de textos.


Malas e baús que Verger usou em suas viagens pelo mundo.

Novamente apareceu o tom de nostalgia quando Pierre começou a falar do seu primeiro contato com o mundo africano: “Foi em Paris, na década de 30. Comecei a freqüentar um lugar chamado Bal Nègre, uma espécie de bar onde se reuniam negros da África e das Antilhas, gente pobre, trabalhadores imigrados que deviam enfrentar no dia-a-dia o histórico preconceito europeu contra as pessoas de cor. Eles, no entanto, dançavam e cantavam a noite toda, ao som do maior batuque. A atmosfera de alegria e descontração era total, completamente diversa do mundo infestado de formalidades inúteis onde eu nascera e vivera até então. Quando conheci o Bal Nègre, tive uma certeza: eu era um deles. Fui reencontrar esse mesmo clima quando cheguei na Bahia, e ele foi um dos fatores importantes que determinaram min há opção de viver aqui”.

E quais foram os outros fatores?

“O respeito à diferença, por exemplo. Sobretudo a diferença religiosa. Na Europa, as pessoas de uma religião com freqüência discriminam as pessoas das outras. O católico discrimina o judeu e vice-versa; o protestante discrimina o muçulmano e vice-versa. No candomblé isso não acontece. Um filho de Oxalá não vai discriminar um filho de Oxossi só porque se trata de um outro orixá. Não vai tam pouco discriminar um católico, um judeu ou um muçulmano porque sabe que cada um deles, como todas as pessoas, também carrega um orixá. Existe aceitação e respeito pelas características próprias do outro, simplesmente porque se considera que elas são características que derivam do orixá da pessoa. Esse respeito à diferença ultrapassa, por sinal, os limites da Bahia, e chega ao Brasil como um todo. Existirá outro país, como este, onde tantas pessoas acham a coisa mais normal freqüentar um templo de religião diferente a cada dia da semana? Domingo vão à missa, segunda-feira vão à festa na Igreja Messiânica, terça ao culto budista, na quarta assistem a um casamento na sinagoga, na quinta vêem novela de televisão, na sexta vão ao terreiro? À parte algumas inevitáveis seitas fanáticas que discriminam tudo aquilo que não é igual a elas, o Brasil é um dos países mais livres do mundo em termos de crença religiosa.”

Você nunca quis pertencer a uma outra religião?

“Uma vez, quando eu era ainda bem jovem, pensei em me tornar budista. Estava no sudeste da Ásia, via aqueles monges todos que só tinham uma peça de roupa, uma túnica cor de laranja, uma cuia para comer e beber, um rosário para contar os mantras e as orações. Era a idéia do despojamento total o que mais me atraía.”

Mas a renúncia aos bens do mundo pode esconder uma fuga, uma dificuldade em aceitar e assumir as responsabilidades e os grilhões do mundo e se adaptar a eles.

“Sem dúvida. Nada mais difícil, quando se procura um caminho, que descobrir se a força que nos empurra vem do desejo de fugir ou do desejo de buscar. Talvez, em algum nível bem profundo, nem haja qualquer diferença entre esses dois desejos.”

No sentido de que renunciar ao mundo e buscar a si mesmo são praticamente sinônimos, como parece afirmar o budismo?

“No sentido de que existe uma força inexorável e constante que do nascimento à morte nos impele à frente, em direção à descoberta de nós mesmos. Talvez fosse até melhor dizer: em direção à construção de nós mesmos. Tudo que nos acontece, todos os fatos com sentido ou aparentemente sem sentido das nossas vidas, talvez não sejam mais do que ferramentas, recursos, estratégias de que aquela força lança mão para nos empurrar na direção daquela descoberta. Talvez, tanto o desejo de fugir quanto o de buscar sejam duas dessas ferramentas, igualmente importantes. Como disse, naquele nível profundo talvez haja pouca ou nenhuma diferença entre elas.”

Nesse ponto, achei que chegara a hora de propor a Pierre Verger a questão que realmente me levara até ele:

Hoje você completa 93 anos, a maior parte deles consagrada ao estudo teórico e prático do candomblé. À parte o interesse cultural, o que todo esse aprendizado significa para você em termos espirituais?

Sua resposta me deixou mais que perplexo:

“Em termos espirituais? Nada. Não acredito em nada disso. Sou homem de pouca crença. Por natureza pessoal, e também por condicionamento cultural, busco muito mais ser um homem de conhecimento.”

Nada?Você foi consagrado babalaô, entregou sua cabeça a Xangô, sem acreditar em nada disso?


Verger e Luis Pellegrini, durante o último encontro que tiveram.

Verger e o fotógrafo Lamberto Scipioni, na mesma ocasião (quem tirou a foto fui eu)

Pierre me fitou longamente, como se quisesse ter certeza de que eu merecia as palavras que vieram a seguir. Mais que as de um cientista etnólogo, um artista fotógrafo, um sacerdote do candomblé, elas foram as palavras de um homem que, no fundo da sua alma, era simplesmente um grande humanista:

“Pela manhã, antes de vir me visitar, você não disse que foi ao Pelourinho e comeu um acarajé feito por aquela baiana que monta seu tabuleiro ao lado da Fundação Jorge Amado? Pois bem, aquela mesma baiana, igual a tantas outras, vestida de baiana e coberta de balangandãs, que passa o dia fritando acarajé para ganhar a vida, você sabe o que acontece à noite, quando ela vai para o seu terreiro, quando ela dança e entra em transe ao som dos atabaques e incorpora a Oxum que ela carrega? Preste atenção: ela deixa de ser uma simples baiana, igual a milhares de outras, para se transformar naquilo que ela realmente é – uma rainha. Uma rainha, sim, na profundidade do seu ser. Respeitada, tida e havida como tal por toda a comunidade do seu terreiro. E aquele estivador que passa o dia carregando sacos no cais do porto, sabe o que acontece quando ele incorpora no terreiro o Xangô que ele carrega? Acontece o mesmo: ele se transforma num rei, porque a sua verdadeira natureza é a de um rei. Você me perguntou, eu respondo: foi para isso, sim, que dediquei a maior parte da minha vida. Para contemplar e tentar entender esse espetáculo único, o maior espetáculo da Terra, que é a manifestação plena da verdade que habita a pessoa humana. A verdade profunda que é representada pelo orixá. E, se mais dez vidas eu tivesse, de bom grado dedicaria todas elas a esse mesmo objetivo.”

Não resisti e revidei:

E você mesmo, Pierre, descobriu no candomblé a sua verdade profunda?

“Gosto de acreditar que estou a caminho dela. Nunca alcancei o mistério daquele estado privilegiado de consciência que a experiência verdadeira do transe acarreta. Tenho muita dificuldade de me entregar. Acho que este é o preço que pago pela minha educação cartesiana branca e européia.”

Era hora de partir. Estendi-lhe a mão e a força do seu aperto demonstrava ainda todo o poder do seu Xangô. O brilho que percebi nos seus olhos, no entanto, pertencia a um outro rei. Era de Oxalá. O orixá branco já chegara para conduzir seu filho ao Orum dos homens do bem.

Quer ler mais? Visite o blog:

www.luispellegrini.com.br

_________________

Republico aqui, matéria postada originalmente no blog do mestre Luis Pellegrini. Este texto é repleto se sentimento e sabedoria, uma jóia rara que merece ser divulgada por ter valor histórico e antropológico, sobre tudo por que revela face importante da vida de Pierre Verger, o Ojú Obá, o Babalawò de Ifá, que em definitivo reescreveu a história do povo negro do Brasil e África. Destaco as frases de Verger, são tesouros de sabedoria de um verdadeiro mestre de si.

Alexandre L'Omi L'Odò.

alexandrelomilodo@gmail.com

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Mãe Stela de Oxóssi, entrevista no Soterópolis

Descrição
O Soterópolis foi até o bairro do São Gonçalo do Retiro, conversar com Mãe Stella de Oxossi, a matriarca do Ilê Axé Opô Afonjá, que comemora o seu primeiro centenário.

Em julho de 1910 nascia em Salvador um dos mais importantes centros da religião de matriz africana, cujo o nome significa Casa da força sustentada por Xangô, o orixá do fogo e da justiça.

Fundado por Eugênia Ana dos Santos, ou Mãe Aninha como ficou conhecida, a iyalorixá que foi também responsável por grandes avanços para a religião dos Orixás, entre eles a liberação do culto, na década de 1930, após uma audiência com então presidente Getúlio Vargas.

São muitos os projetos culturais e educacionais desenvolvidos dentro do terreiro, que é também a morada de muitos dos filhos e filhas de santo da casa, devido ao tamanho da área, foi cedida a muitas famílias para que construírem ali o seu lar .

Mãe Aninha, muito preocupada com a educação dos seus filhos, fez a seguinte afirmação: “Quero ver meus filhos aos pés de Xangô com anel de doutor”.

Com esse objetivo, foi criada dentro do terreiro a Escola Municipal Eugenia Anna dos Santos, onde muito antes de sua existência, já se aplicava a lei 10.639, que regulamenta o ensino da cultura africana e afro-brasileira nas escolas de todo país. E atende hoje a mais ou menos 350 crianças.

Nesse centenário do axé, quem faz as honras da casa é Maria Stella de Azevedo Santos, ou mãe Stella de Oxossi, que assumiu o comando do terreiro em 1976, após o falecimento de Mãe Senhora.

Foi ela que após voltar de uma viagem a Nigéria, em 1981, teve a idéia de fazer um museu ali mesmo, dentro do terreiro. Com o objetivo de imortalizar a história de sua fundadora e da religião dos orixás. Assim nasceu o Ilê Ohum Lailai, ou a Casa das coisas antigas, em português.

Post original: http://www.irdeb.ba.gov.br/tve/catalogo/media/view/1051#1
____________
Republico aqui matéria do Soterópoilis. Fantástica a fala de Mãe Stela de Oxóssi, vale a pena ver o vídeo.

Alexandre L'Omi L'Odò.
alexandrelomilodo@gmail.com

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Frente Nguzo Isaltino 13500

Conheça o site do Deputado Isaltino Nascimento PT 13500

www.isaltinopt.com.br

Voto nele por mérito!
Frente Nguzo Isaltino 13500!

Farei um texto pontuando todas as contribuições de Isaltino para o povo de terreiro e indígena, mas por enquanto coloco apenas algumas coisas aqui:

Ter atitude, vontade, força, liderança e capacidade de realização dentre outras qualidades não é pra todos e todas, e sim para aqueles que podemos confiar nosso voto e fé. Isaltino do PT, fez uma gestão muito dinâmica, dialogou com movimentos e segmentos nunca antes articulados na história da ALEPE, e por isso na inauguração de seu comitê, houve a plena expressão desta diversidade e força de eleitores que em número de mais de 5 mil, bombaram o grande espaço de interlocução de sua campanha.

Parcial do grande grupo de pessoas que foram para inauguração do Comitê de Isaltino 13500 do PT. Foto de Alexandre L'Omi L'Odò.

Posso afirmar, Isaltino foi o único parlamentar de Pernambuco a dialogar, apoiar e dar espaço ao povo de terreiro, nos moldes que ele fez, nenhum fez, pois através dele foi aprovada a Lei Malugnuinho - 13.298/07, e foi ele que deu o ponta pé inicial no tombamento das terras do Acaes em Alhandra, junto com o Quilombo Cultural Maluguinho, e hoje estas são duas realidades firmadas e confirmadas. A primeira gira de Jurema na ALEPE foi Isaltino quem deu espaço, ampliando assim as linguagens religiosas a utilizarem o espaço da Assembléia.

Isso é compromisso. Vamos em frente frater!
Apoiar-te é afirmar nossas lutas e as vitórias que vamos construir no futuro vitorioso!

Isaltino Nascimento 13500, realizando o discurso de sua campanha. Foto de Alexandre L'Omi L'Odò.

Alexandre L'Omi L'Odò.
Quilombo Cultural Malunguinho

alexandrelomilodo@gmail.com

sexta-feira, 30 de julho de 2010

XIII Alaiandê Xirê 2010 no Ilê Iyá Oxum Muyiwá

XIII Alaiandê Xirê 2010 em São Paulo
No terreiro Ilê Iyá Oxum Muyiwá

Alaiandê Xirê é o Festival de Alabês, Xicarangomas e Runtós (dependendo da Nação a qual pertencem). Trata-se do encontro anual dos Sacerdotes-Músicos, de ritmos litúrgicos e cânticos dos Terreiros de Candomblé da Bahia, das diferentes nações e de outros estados brasileiros e diásporas africanas. Foi criado pelo Ogã de Ogum Roberval Marinho e pela Agbeni Xangô Cléo Martins, membros do Ilê Axé Opô Afonjá (BA).

Alaiandê Xirê significa, em língua iorubá, “Festa do Mestre Tocador”. Alaiandê serve também como associação ao Orixá Xangô, que rege o evento. De acordo com a mitologia da religião dos Orixás, Xangô é o mestre tocador, o maior dentre todos os tocadores e dançarinos de Batá, um toque ritual em sua homenagem. Batá ainda é na África e em Cuba, o nome de um tambor consagrado a este Orixá. Segundo alguns mitos, Ayom, o Orixá do tambor era filho de Xangô e Oyá. O primeiro festival Alaiandê Xirê, aconteceu em 1998, no Opô Afonjá, palco de todos os outros Alaiandês até 2006. A partir daí ocorreu a primeira edição itinerante: no Terreiro Mansu Banduquenqué, o Bate-Folha, em Salvador.

A cada ano, o Alaiandê Xirê vem sendo realizado em uma comunidade diferente. O evento é aberto ao público em geral, e não tem fins lucrativos. Xangô, o Orixá do Fogo, Justiça e Poder em Exercício é o padroeiro desta celebração. O primeiro Alaiandê Xirê homenageou o pintor Carybé, então recentemente falecido em 1997, e Camafeu de Oxossi, figura lendária da Bahia, falecido em 1994. Em 1999, aconteceu a primeira edição internacional do evento, que contou com a presença de sacerdotes cubanos, residentes em Miami e Nova Iorque. Nesta edição, o festival prestou homenagem a Jorge Alabê. No 7º Alaiandê Xirê, reuniram-se no Terreiro de Candomblé representantes de várias religiões no “Debate sobre Ecumenismo Ecológico”.

Representantes do Budismo, do Judaísmo, da Igreja Católica, da Igreja Batista e do Candomblé se uniram em torno de um mesmo objetivo. O XI Alaiandê Xirê aconteceu no tradicional Terreiro Pilão de Prata (Odô Ogê), na Boca do Rio (BA), sob a liderança do Babalorixá Air José de Jesus, da família Bangboshê Obitikô, responsável pelas primeiras comunidades estruturadas de Culto aos Orixás da Bahia. O tema foi: "Xangô dobra os couros para o Centenário da Imigração Japonesa no Brasil". Em 2010, o Alaiandê Xirê será realizado em São Paulo sob os cuidados de Mãe Wanda de Oxum e Ogã Gilberto de Exu.

Fonte: Wiki
Povo do Santo

_______________
Republico aqui matéria que li no jornal Agaxéta.

*O evento acontecerá em Novembro.

Alexandre L'Omi L'Odò.
Iyawò.

alexandrelomilodo@gmail.com

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Inauguração do Comitê do Deputado Isaltino Nascimento- PT 13500!!


Vamos todas e todos participar deste encontro em prol da campanha do guerreiro amigo Isaltino Nascimento PT, pois o povo de terreiro tem que reconhecer seu empenho a favor dos avanços do povo negro e de santo de Pernambuco!


Malunguinho tá com você Isaltino!!
Frente Nguzo Isaltino


www.isaltinopt.com.br

Alexandre L'Omi L'Odò.
alexandrelomilodo@gmail.com

"Menino, filho da chuva". Poesia de José Mário Austragésilo.

José Mário Austragésilo, poeta, jornalista e radialista. Foto de Isabel- Sujaan.

Caro Alexandre,
aproveito o e-mail de Belsinha (que fala dos seus seis anos de iniciação para Oxum) para dizer do quanto achei bonito seu texto e emocionante, principlamente pelos sentimentos que passa.
Ofereço a você o poema abaixo:

Menino, filho da chuva

Estende tuas mãos abertas
recolhe essa água que vem do Universo
derrama sobre as cabeças inqueietas
e espalha a serenidade nos olhos dos que passam.

Menino, filho da chuva,
reparte essa dádiva com os aflitos
alivia suas dores e cansaços
oferece teu ombro amigo
e tuas rodas de cantigas e alegrias.

Menino, filho da chuva,
estende tuas mãos e faz um roda bem grande
junta todos os povos meninos
e dá para cada um uma estrela de presente.

Jose Mario Austregésilo

28/07/2010.

Abraços.
________________
Republico aqui poesia enviada ao meu email pelo amigo-irmão José Mário Austragésilo.
Agradeço todo carinho a mim dedicado, muito axé, grande companheiro poeta.

Alexandre L'Omi L'Odò
Oxum Tola wá!!
alexandrelomilodo@gmail.com

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Dia 26 de Julho 2010, meu aniversário de seis anos de iniciação para Oxum! Bariká fun mi!

Ilús que tocaram no dia do meu orunkó. Foto de Aluísio Moreira/PE

BARIKÁ FUN MI! (Parabéns para mim!)

Hoje, dia 26 de Julho de 2010, comemoro meus seis anos de iniciado para Oxum.
Celebrar é preciso!

Alexandre L'Omi L'Odò, no dia seguinte a festa do Orunkó. Foto de Aluísio Moreira/PE
Lembrar do dia 26 de Julho de 2004, é remontar a cena mais sublime que já pude mirar em minha vida. O dia da minha iniciação, do meu renascimento para a religião dos Orixás, o Babaxé (Aba Baxé ni Orí)*, a hora de minha morte e renascimento para minha fonte de equilíbrio negra natural. Oxum naquele dia entronou-se em definitivo e de forma irrevogável de uma só vez em meu Orí (cabeça) e na minha vida, no meu Odú pessoal.

Fui iniciado no Ilê Oyá T'Ògún, de mãe Lúcia Crispiniano, a mãe Lúcia de Oyá, sacerdotisa a quem devo todo meu respeito e formação iniciática no culto do Orixá e da Jurema Sagrada, a quem agradeço por todo carinho de cuidar (parir) de um filho tão complexo e difícil como eu, que sempre quero saber mais, entender mais e fazer mais por nossa religião, de forma a meu modo claro, "radical" e autocrítico.

Alexandre L'Omi L'Odò na segunda saída do Hunkó (colorida). Foto de Aluísio Moreira/PE
Recebí o chamado para a iniciação em Dezembro de 2003, em uma cerimônia de fechamento de ano da Jurema, onde quem estava no ponto era Dona Rosa, a pombojira dona do terreiro de Oyá, que me chamou em público e disse: "Nêgo dos cabilôro grande, vosmicê tem seis tempos (seis meses) pra fazer seu santo, Oxum quer seu cabilôro (Orí- cabeça)". E como sempre fui do axé e não sabia como conseguiria me iniciar sem estar preparado para os gastos e todas as responsabilidades que demandam a iniciação, indaguei a ela como poderia eu, desempregado, sem ter nenhum tostão para pagar a obrigação, fazer meu santo em seis meses (em Julho de 2004)? - Ela respondeu: Oxum vai lhe dar, pois é ela quem quer! e assim foi, Oxum, Ògún e Exú, além claro de Malunguinho, o Mestre Boiadeiro e a Mestra Paulina, deram de forma divina toda condição financeira e de estrutura psicológica e ideológica para eu cumprir as exigências do meu Orixá.

"Quando o Orixá quer, ele dá", assim já dizem os mais velhos, e eu pude confirmar isso na prática, que quando nossa divindade nos chama, temos que aceitar, de forma que, a entrega a nova vida seja completa e sem medos ou preconceitos, que o nosso renascimento seja comprometido com o equilíbrio e com a religação ancestral com nossos antepassados africanos.

Lembro ainda do grande Mestre da Jurema sagrada, o senhor Brasiliano, o Mestre Cibamba de D. Leide de Olinda, que aos meus 13 anos de idade (tempos que ainda era percussionista do balé afro Magê Molê) já havia revelado minha natureza, dizendo assim: "Nêgo, a Mulé do Ouro (Oxum) é sua mãe, ela que tá na sua caminhada pra sempre", revelando além de muito mais coisas, a forte relação que as divindades da Jurema tem com os sagrados Orixás africanos, estabelecendo uma ligação tão forte a ponto de informarem coisas que só o Ifá (sistema divinatório yorùbá) poderia dizer.

Sou da espiritualidade desde que nasci e hoje, ao passar de todo este tempo integrando o culto indígena da Jurema e o culto de matrizes africanas dos Nagô, posso dizer que estou mais forte em minha fé, em meu caminho, em minha compreensão de mundo, pois vivencio a experiência profunda da entrega, da quebra dos meus preconceitos, da luta contra o racismo e descriminação e intolerância religiosa, da luta contra os conceitos cristãos ocidentais em minha religião, na iconoclastia dos valores católicos e cristãos invasores de nossas mentes e vidas, e especialmente na liberdade de experienciar a relação integral com a espiritualidade ancestral.

Peço minha benção a Oxum por ela ter me aceito como seu filho, honrando minha vida, me possibilitando ser uma pessoa mais água do rio (L'Omi L'Odò) a cada momento, segundo, milésimo de segundo...

Mãe Lúcia de Oyá T'Ògún e Oxum. Foto de Aluísio Moreira/PE.

Falta apenas um ano literalmente para eu passar a ser um adulto em minha religião, completando o primeiros ciclo de sete anos sacerdotais, ganhando algumas liberdades, no ritual denominado de Deká**. Vamos em frente...

Deixo um Orikí para Celebrar o dia de hoje:

"Mo r'ómi màá jó- Vejo água, danço
Mo r'ómi màá 'yò-
Vejo água, sou feliz
àgbàdo mi l'ore òjò-
O meu milho é amigo da chuva"***

(As últimas duas linhas podem ser também traduzidas assim: Vejo água e estou feliz, assim como o milho é feliz quando vê a chuva. Conotando a importância da água na vida e no desenvolvimento do ser- fertilidade)

Como não pude fazer festa, fiz texto!

_________________

*"Ato de sagração, no qual o Babalorixá leva o Elegum (filho do Orixá), a confraternar um contato mais eficaz com o seu Orixá. A cerimônia lembra um batismo, que é feito com sangue de certos animais, a depender do Orixá evocado. E, ao mesmo tempo, é o nascimento do noviço para a vida na seita, que tão logo, aconteça a comunhão entre o subordinado e o elemento encantado, fica estabelecido o transe com aquele que direcionará o seu destino, chega-se ao ponto épico, onde o já sagrado iaô, receberá uma Suna (nome), que fará pronunciado, no dia de sua apresentação pública.". OMINSULÁ, Roberto dos Santos Miranda. Mitos & Ritos Nagô, o Saber de Ominsulá. Editora Brasília, Bra. 1988. pag. 156.

**Deká- Ritual de transição do cargo sacerdotal de Iyawò (Elegun, iniciado para o Orixá), para o cargo de Egbomi (meu irmão mais velho). Mas digo: Deká não quer dizer nada!

***Oriki extraído da bibliografia: CARVALHO, José Jorge de. Cantos Sagrados do Xangô do Recife. Brasília: Fundação Cultural Palmares. 1993. pag. 96 e 97.


Alexandre L'Omi L'Odò.

Iyawò ti Osún.

alexandrelomilodo@gmail.com

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Encontro de Saberes, Cultura popular e indígena nas salas de aula da UNB

Saberes Tradicionais
Cultura popular e indígena nas salas de aula

Américo Córdula, Secretário da Identidade e Diversidade Cultural e Prof. José Jorge de Carvalho, Coordenador do Projeto Encontro de Saberes

A partir do segundo semestre de 2010, os alunos de todos os cursos da Universidade de Brasília (UnB) poderão cursar, na grade regular de graduação, a disciplina Artes e Ofícios dos Saberes Tradicionais. A matéria será ministrada por cinco mestres de artes e ofícios populares e indígenas e por professores da UnB, por meio de uma parceria entre o Ministério da Cultura e a universidade.

Com o objetivo promover o diálogo entre os saberes acadêmicos e os tradicionais, além do reconhecimento de mestres dos saberes indígenas, afro-brasileiros e tradicionais como docentes do ensino superior, o Projeto Encontro de Saberes foi lançado ontem, 13 de julho, às 19h, no auditório Dois Candangos, da Universidade de Brasília, com a abertura do Seminário Internacional A inclusão das Artes e dos Saberes Indígenas, Afro-Americanos e Tradicionais na Universidade.

Alexandre L'Omi L'Odò, Juremeiro, pesquisador, sacerdote e coordenador geral do Quilombo Cultural Malunguinho/PE, abrindo o evento.

O Seminário foi aberto com a apresentação cultural de Alexandre L'Omi L'Odò, Mestre da Jurema do Recife, percussionista e coordenador do Quilombo Cultural Malunguinho. O número musical teve uma retórica espiritual, quando o Mestre, também sacerdote, defumou e benzeu o ambiente, para abrir os caminhos do evento, que irá durar três dias.

Hoje, das 9h às 20h, o Seminário apresentará as iniciativas já realizadas no Brasil e na América Latina de inclusão de protagonistas de conhecimentos tradicionais no ensino superior por meio de cursos, disciplinas ou programas de extensão. Ao todo, serão apresentadas quatro experiências internacionais, desenvolvidas no Equador, Paraguai e na Argentina e Colômbia, e mais cinco projetos que estão sendo aplicados no Brasil. Sete mestres dos saberes tradicionais também apresentarão os trabalhos desenvolvidos por eles junto às suas comunidades.

Aula Magna: a importância do ofício do pajé indígena

Mapulu Kawayurá, pajé do Alto Xingu, filha do Mestre Takumã - Kamayurá

A conferência de abertura do Seminário Internacional A inclusão das Artes e dos Saberes Indígenas, Afro-Americanos e Tradicionais na Universidade foi feita por Mapulu Kawayurá, pajé do Alto Xingu, e também filha do Mestre Takumã - Kamayurá, decano dos Xamãs da região, que, aos 80 anos, e com um problema grave de saúde, não pôde comparecer.

A Mestre Mapulu palestrou aos alunos da UnB e convidados presentes sobre a sua experiência e a de seu pai com a utilização desse ofício.

“O papel do pajé na nossa comunidade é visto com muito respeito. O ofício de pajé nos foi dado pelo criador e pelo sol, que é também nosso Deus”, afirmou a Mestra, que se tornou pajé aos 15 anos.

A conferencista, que tem oito alunos em sua comunidade, defendeu que os pajés são tão mestres quanto aqueles que ensinam sob o foco da ciência, com a diferença de que os mestres de ofícios não possuem diploma. E reivindicou: “Queremos apenas que nosso trabalho seja reconhecido aqui fora”.

Mapulu disse que levará ao pai a experiência do Projeto Encontro de Saberes para discutir com ele e com a comunidade a melhor forma de contribuir para o processo de aprendizado dos alunos da Universidade de Brasília. “Queremos construir com vocês esse aprendizado”, afirmou.

O coordenador do Projeto Encontro de Saberes (e professor do Departamento de Antropologia da UnB), José Jorge de Carvalho, que representou o reitor da UnB, José Geraldo de Sousa Junior, disse que a parceria do projeto é rica e que os mestres sempre demonstraram o desejo de levar seus conhecimentos à universidade.

O secretário da Identidade e da Diversidade Cultural do Ministério da Cultura, Américo Córdula, representou o ministro da Cultura, Juca Ferreira, que estará presente no dia 15, às 19 h, numa cerimônia institucional que será realizada no auditório da reitoria, dentro da programação das oficinas dos mestres, e contará com a presença do reitor da UnB.

Encontro de Saberes é realizado em parceria com o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT), de Inclusão no Ensino Superior e na Pesquisa, órgão do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que também apóia o projeto.

Encontro de Saberes foi realizado no auditório Dois Candangos, da Universidade de Brasília.

Oficinas

Dias 15 e 16 de julho, na UnB, o projeto Encontro de Saberes entrará em sua segunda etapa, realizando oficinas de trabalho que contarão com a participação dos mestres, de docentes da universidade e de especialistas convidados.

A terceira e última etapa do projeto será a realização de uma Residência, com a participação dos mestres de artes e ofícios populares e indígenas e dos professores da UnB, para preparação da metodologia e dos recursos didáticos necessários à oferta da disciplina Artes e Ofícios dos Saberes Tradicionais.

Clique aqui para conferir a programação do Encontro de Saberes.

(Heli Espíndola, Comunicação Social/MinC)
(Fotos: Pedro França/MinC)

Informações: encontrodesaberes2010@gmail.comEste endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. – Tel: (61) 3307.3006 – ramal 210

www.encontrodesaberes.com.br

_______________________

Republico aqui matéria do dia 14 de julho de 2010, do site do MINC, post original: http://www.cultura.gov.br/site/2010/07/14/saberes-tradicionais/

*Participar deste evento a convite oficial do Professor José Jorge de Carvalho, inclusive abrindo todo seminário com a fumaça da Jurema foi uma honra que devo a Malunguinho e aos meus mestres e mestras, caboclos e caboclas, trunqueiros e trunqueiras da Jurema Sagrada, das sete cidades, do tronco do meu Juremá.

Alexandre L'Omi L'Odò

alexandrelomilodo@gmail.com

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Infografia premiada: "Candomblé" - Jornal Extra - JAN 2009

Série de infografias e jornalimo ganha prêmio, e tem conteúdo consistente de informações para ser referência de leitura para nós povo de terreiro do Brasil.

Layout do site Religião & Fé

21.07.2010 - 19h26m
"Inimigos da Fé"
Série

A infografia "Candomblé", de autoria de Ary Moraes, publicada na série "Inimigos de fé", escrita pela jornalista Clarissa Monteagudo recebeu o prêmio SIP de Infografia, concedido pela Sociedade Interamericana de Imprensa.

As reportagens foram publicadas no EXTRA do dia 25 a 31 de janeiro de 2009.

O júri destacou o formato das páginas que permitem fazer uma coleção com informações históricas e culturais sobre o candomblé, elogiou o uso das cores e a integração entre a infografia e o tema da série, sobre o preconceito contra religiões de matriz africana no Brasil.

O prêmio SIP foi criado para estimular a liberdade de expressão e premiar a excelência jornalística em todo o continente americano.

A entrega do prêmio a Ary Moraes e Clarissa Monteagudo será durante a 6ª Assembleia Geral da SIP em Mérida, México.

O grande prêmio SIP foi concedido ao jornalista venezuelano Guillermo Zuloaga, por ser um símbolo na luta da liberdade de expressão no seu país.

Veja a infografia premiada da série Inimigos de Fé, clic nos links para ver ou baixar em PDF os textos, para facilitar a leitura dos conteúdos:

Início da série: A intolerância nas escolas

Segundo capítulo: As dificuldade para denunciar

Terceiro capítulo: O sofrimento nas famílias

Quarto capítulo: Invisíveis no mercado de trabalho

Quinto capítulo: Preconceito e violência

Sexto capítulo: O preconceito nas ruas

Sétimo capítulo: A paz é possível

_____________________________

Ary Moraes, editor de Infografia e Ilustração do Estado de Minas. Segundo Ary, o desafio é combinar o poder da imagem com o texto:
— Os dois precisam “conversar” sobre o mesmo assunto e no mesmo tom, sem que um fale mais alto que o outro. Começamos discutindo a pauta, sem esquecer que trabalhamos em equipe. Não deve existir aquela coisa de “a imagem está tirando espaço da minha matéria” e vice-versa.



Clarissa Monteagudo éformada na Universidade Federal do Rio de Janeiro, já trabalhou na Rede Record, no Jornal O DIA e na revista Isto É Gente. É uma das responsáveis pelo projeto Fé Online, do jornal Extra, um espaço virtual dedicado à defesa da liberdade religiosa e à veiculação de notícias sobre todas as crenças.


Após ler toda a série "Inimigos da Fé", infografia de Ary Moraes, premiada do Jornal Extra, pude reler muitas de minhas discussões e reforçar minhas convicções sobre nossos problemas sociais e econômicos. De fato foi merecido o prêmio, o carinho e a arte impressionada nas páginas deste jornal, revelam a consciência da jornalista Clarissa Monteagudo em tratar com seriedade e profissionalismo o tema, que ha muito vem sendo tratado de forma ignóbil pela mídia nacional.Bariká ooo, parabéns pela obra, pelos técnicos envolvidos, pelo artista que fez as artes visuais e pela escolha do tema. Indico como referência bibliográfica que trata de nossos problemas contemporâneos do axé e da Jurema. Obrigado a Mãe Iane de Oyá, de Macaé- RJ, pelo envio desta postagem pra mim.

Alexandre L'Omi L'Odò.

alexandrelomilodo@gmail.com

Quilombo Cultural Malunguinho

Quilombo Cultural Malunguinho
Entidade cultural da resistência negra pernambucana, luta e educação através da religião negra e indígena e da cultura afro-brasileira!