terça-feira, 19 de abril de 2011

Mestre Galo Preto na Agenda Cultural do Recife - Abril 2011.


Mestre Galo Preto - Foto de Alexandre L'Omi L'Odò 2010.

Este ano, um dos grandes ícones da cultura popular de Pernambuco completou 65 anos de luta e resistência a favor do coco. Tomás Aquino Leão, de 76 anos, conhecido por Mestre Galo Preto, é bem mais do que um exemplo de vida. Ele que é músico, coquista, cantador, repentista e embolador tem uma trajetória cheia de altos e baixos. Nascido no quilombo de Rainha Isabel localizado no município de Bom Conselho, ele é o último remanescente vivo, que cultua a tradição do coco de seus antepassados. Na década de 70, esse artista popular de voz inconfundível, levou o coco pernambucano ao mais alto nível, que o fez receber o título de um dos maiores / ou maior repentista do Nordeste.  O Mestre Galo ficou conhecido pela criatividade de criar jingles políticos. Entre os políticos para quem ele trabalhou está o Miguel Arraes. Galo, também é sinônimo de luta social, com as melodias que falam sobre preconceito contra cor e a homofobia, alertas sobre o HIV, direitos dos idosos, entre outros.  O pesquisador de línguas africanas e produtor cultural Alexandre L’Omi L’Odò classifica o Mestre Galo como um "jazz man, pois, assim como o jazz é um estilo livre em que o artista pode improvisar, o mestre Galo consegue fazer a mesma coisa. Ele desenvolve e execulta ritmicamente qualquer estilo de música e toca ao lado de qualquer artista".  Mesmo com todo esse sucesso e competência, o artista acabou caindo no esquecimento do publico, passando 15 anos, afastado da música. Em 2007, ele deu início a sua luta contra o esquecimento popular, que culminou na elaboração de um filme que será lançado em breve. Em reconhecimento a esse grande artista injustiçadamente esquecido, a repórter Erika Fraga da Agenda Cultural do Recife conversou com Mestre Galo Preto, que falou um pouco sobre o início da sua carreira, o legado de seguir com o coco e os planos futuros.    

Quando você começou a cantar coco e embolada? Eu comecei a cantar aos nove anos de idade. A região onde eu morava era muito envolvida com a música, e isso me influenciou. Também fui influenciado pela minha família, pois os meus tios e os meus avôs gostavam muito de uma roda de coco e de embolada, então a música sempre esteve em meu sangue. E aos 12 anos de idade comecei a ganhar um trocado com a música.
E quando a música tornou-se profissão em sua vida? Foi quando sai do quilombo de Rainha Isabel, localizado em Bom Conselho de Papa Caças e vim morar em Garanhuns.  Na época eu fazia dupla com o meu irmão Curió e lá comecei a ter reconhecimento do meu trabalho. Com o tempo a dupla acabou mas as minhas cantorias continuaram fazendo sucesso e eu passei a me apresentar em casa de família, depois em boates, televisão e rádio. Nessa época existia apenas a rádio clube de Pernambuco. É bom lembrar que nunca fui cantador de rua, daqueles que passa o pandeiro cobrando dinheiro. Eu até admiro quem faz isso. 
Mestre Galo Preto na Feira da Música do Ceará 2009. Foto Jacques Antunes.
Mestre Galo Preto no REC BEAT 2010. Foto Maíra Gamarra.
E porque essa dupla acabou?  Porque na época eu fui convidado para fazer uma turnê com os artistas da Rádio Clube. Viajei muito cantando e isso fez com que a dupla acabasse.  

No início da sua carreia, você teve apoio do escritor Ascenso Ferreira. Como foi esse contato?
O Ascenso Ferreira foi um dos meus primeiros incentivadores, é até uma história engraçada de lembrar.
Quando sai de Bom Conselho e vim morar no Recife, fiquei na casa do meu irmão, nessa época, não existiam grandes mercados e bodegas, então as pessoas tinham que vender as mercadorias nas ruas. E para ajudar com as despesas de casa, o meu irmão me colocou para vender verduras nas ruas, e a melhor forma que eu encontrei para vender foi criar rimas. Só assim eu chamava a atenção dos meus clientes.  E todos os dias eu passava na frente da casa do Ascenso vendendo minhas batatas, e ele sempre me via cantar. Até que um dia ele me chamou e perguntou se eu também fazia rimas com outros assuntos. Ele me testou rapidamente mandando fazer uns versos improvisados. Quando terminei, ele disse que a minha cabeça não servia para carregar batatas, que eu tinha uma cabeça de mestre. Ele falou com o meu irmão me deu um cartão da Rádio Clube onde eu comecei a me apresentar.
Mestre Galo Preto 2011 - Foto de Erika Fraga.
Como surgiu o nome Mestre Galo Preto? O nome Mestre eu peguei há pouco tempo, foi em 2007 quando voltei a cantar. Mas o nome Galo Preto é antigo. Esse nome eu não ganhei nas cantorias, ganhei “arengando” quando eu era pequeno. Lembro que certo dia eu estava brigando com o meu irmão chamado Curió, mesmo ele sendo cinco anos mais velho que eu, parti para cima dele com tudo. Nisso, um senhor veio separar a briga e quando ele me segurou, olhou para mim e disse: Tu estás que só um galinho preto de briga não é? Desse dia em diante todas as pessoas passaram a me chamar de Galo Preto.

Nos anos 70 você foi considerado um dos maiores repentistas do Nordeste. Chegando a se apresentar ao lado de grandes ícones da música como Luiz Gonzaga, Lourival Batista e Jackson do Pandeiro, mas de uma hora para outra você sumiu do cenário musical e passou 15 anos distante dos palcos. O que causou o seu afastamento?     
Nessa época eu realmente fiz muito sucesso. Cheguei a me apresentar em programas de rádio e TV. Fui para o programa do Chacrinha, Flávio Cavalcanti e Silvio Santos. Mas em 1991 tive uma grande rasteira profissionalmente falando. Fui envolvido em um escândalo que jamais eu pertencia e isso me tirou a vontade de continuar cantando. Mas há quatro anos voltei a cantar.

E como foi esse recomeço?Foi em 2007, quando a Secretaria de Saúde de Olinda, na época representada por Dr. João Veiga, me fez um convite para fazer a música de uma campanha sobre a Aids e a violência, então reuni vários cantadores e repentistas e formei o grupo Mestre Galo e Preto e o Tronco da Jurema.

Como você se sente sabendo que é o último remanescente do quilombo de Rainha Isabel a preservar e passar e a continuar ensinado a tradição do coco? Eu me sinto muito feliz e honrado, pois estou deixando uma história e uma raiz para os jovens que desejam continuar com os costumes de antigamente. Mas é bom lembrar que eu sou o último daquela região, pois ainda existem muitas pessoas da minha época que têm o coco no coração e continuam carregando e ensinando esse legado.
Mestre Galo Preto na paisagem do Recife 2011 - Foto de Erika Fraga.
Você tem 65 anos dedicados ao coco, porque nunca gravou um CD? Na minha época era tudo muito difícil. Nunca tive uma oportunidade para isso. Mas o meu produtor Alexandre L’Omi L’Odò está elaborando um projeto, e acredito que ainda esse ano gravarei o meu primeiro CD.

Esse mês será lançado o filme “Galo Preto, o Menestrel do Coco”, que conta um pouco da sua história. Como foi o processo de realização do filme? O filme é um média metragem, mas ainda não tem uma data certa para o lançamento. Creio que ainda esse mês, a data será decidida. Ele tem roteiro e direção de Wilson Freire e aborda toda a minha trajetória na música especialmente no coco. No ano passado exibimos uma edição pré-acabada na Mostra Internacional de Música de Olinda, e foi um grande sucesso.  
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Re-publico aqui a matéria da Agenda Cultural do Recife do mês de Abril de 2011, feita pela repórter Erika Fraga. Corrigi alguns erros de informação, portanto todo texto segue com erratas. Dêsde já agradesço a toda Agenda Cultural do Recife pela atenção e respeito em todo processo desta matéria.

Quem desejar acessar estas informações no site da Agenda, visite o link: http://agendaculturaldorecife.blogspot.com/2011/04/mestre-galo-preto-65-lutando-pelo-coco.html
 
Alexandre L'Omi L'Odò
Produtor Geral do Mestre Galo Preto
alexandrelomilodo@gmail.com

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Grupo Bongar Grava Música Para O Rei Malunguinho

Malunguinho (trunqueiro/Exú), recebendo oferendas na Jurema. Foto de Alexandre L'Omi L'Odò - 2009.
Grupo Bongar Grava Música Para O Rei Malunguinho da Jurema Sagrada

Com o entusiasmo do dobrado baque da alfaia do coco da Xambá, os jovens do grupo Bongar se colocam no cenário da música contemporânea como legítmos representantes da tradição que representam, exprimindo de forma cosnciente toda amplitude do significado das palavras, rítmo, cultura, história e religiosidade.

É interessante observar o vigor do grupo, em reverenciar elementos da tradição da Jurema Sagrada do nordeste. Em sua rica musicalidade, o grupo parte de seu imaginário proprio para compor e criar arranjos que estão profundamente ligados à percussão, mas isso não é o suficiente para mostrar toda musicalidade vivenciada por eles, que são músicos profissionais que tocam com outros artistas no país todo, portanto, transcendem a cada CD, seus limites e arte, com êxito e firmeza.

Empolga-mos ver as raízes afro indígenas estarem vibrando tão fortemente no público que tem total participação quando são tocadas as músicas do Grupo. O repertório mais antigo já é conhecido na ponta da língua dos fãs e, a pisada sempre mexe com todos e todas que vão assiduamente aos shows.

Falar de Malunguinho hoje, em Pernambuco, é também falar da trajetória de luta e resistência do Quilombo Cultural Malunguinho, que desmistificou este personagem histórico e divino no meio do povo de terreiro do Estado e no meio acadêmico através de eventos e grupos de estudos que acontecem dêsde 2004, tendo como ponto inicial a cede do Arquivo público Jordão Emerenciano, o Arquivo Público do Estado de Pernambuco, local onde está grande parte da documentação histórica oficial sobre este herói pernambucano, que felizmente tem vasta comprovação documental de sua existência de fato.

A música "Malunguinho" fala em metáforas e provérbios populares do povo da Jurema um pouco do que é o Maluguinho divino, a divindade protetora da Jurema, o Rei da Jurema, o Mensageiro da Jurema, chamado de Trunqueiro de Jurema ou Exú, Mestre, Caboclo e Reis que tem fundamental importância para todos os terreiros que tem culto a esta religião. Este Malunguinho da Jurema, a entidade espiritual que tem vários discípulos que o recebem, é a afirmação de que o Malunguinho histórico não morreu, pois ele mantem-se vivo no imaginário coletivo, essencialmente nos terreiros pernambucanos, onde ele, sendo negro, elevou-se a um cargo de grande importância no culto dos índios, fato este interessante de observar... A toada a seguir revela um pouco de como ele é louvado nos terreiros: 

"Mas Ele é preto,
Ele é bem pretinho,
Salve a corôa do rei Malunguinho." 
(toada da gira de Malunguinho, na Jurema).

Tendo em vista a forte movimentação que a visibilização da história de personagens da nossa tradição religiosa tem tido no nosso Estado nos últimos anos, além da clara influência religiosa dos integrantes, o Grupo Bongar decidiu fazer um CD especial, chamado de "Samba de Gira", que ainda não tem data de lançamento prevista, estando este ainda em processo de gravação. A música "Malunguinho" já foi pré-gravada, mas ainda não se encontra disponível, pois passará por edições e masterização para sua finalização. Com uma mistura de Toada de Jurema, e letra/poesia composta por Guitinho, vocalista do Grupo, a música tem forte energia, pois quem escuta, dificilmente não se arrepiará e sentirá a força dos ancestrais da Jurema presente. Entrevistando Guitinho sobre a música, temos maiores esclarecimentos sobre o por que, do Grupo ter se proposto a entrar nesta luta na preservação e valorização/visibilização do herói negro/índio Malunguinho:

Por que você decidiu fazer esta música? "Decidi por ser uma admirador do culto da jurema e por ser encantado pela magia e riquesa histórica que envolve a entidade de Malunguinho na Jurema Sagrada", diz Guitinho.

Quem vai produzir o CD? "Será produzido por mim e Juliano Holanda."

Quem serão os fotógrafos que irão fazer o registro? Beto Figueiroa e Laila Santana.

Onde será gravado o CD ? "Esta em fase de pregravação. A música Malunguinho foi gravada em um DVD de um ensaio que participamos,mas não foi para CD ainda..."
Confira a letra e o vídeo com a música:
 Música: Malunguinho
Autor: Guitinho da Xambá

*Firmei meu ponto sim,
No meio da mata sim,
Salve a corôa de, Rei Malunguinho.


Se você resolveu brincar mais eu
Tu vai ter que ser muito fiel
Pois a linha que eu traço,
Eu balanço, eu remendo, eu custuro, eu desmancho
Faço boi bravo ficar bem manso
Minha ciência não é maior que Deus
Mas o mundo o qual ele me deu
Você tem que entender que eu sou eu

Minha língua é ponta de espinho
Meu olhar é varante como lança
Tem cavalo-manco no samba
A rasteira quem lhe dá sou eu
Capoeira e ginga pai me deu
Não atravesse estrepe no caminho
Porque se não você vai esperimentar
o poder e o dendê de Malunguinho

* Trecho da música que é um ponto pertencente ao cancioneiro do culto da jurema
.


Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Aula de História da África no Colégio Desafio do Recife


Aula de História da África no Colégio Desafio do Recife

Tema: A Formação da Identidade Cultural Africana Sob a Influência do Século XIX. 


A aula no Ciolégio Desafio, no dia 22 de fevereiro de 2011, no período de 08 às 12h,  inaugurando o novo espaço de eventos da escola, o auditório, foi uma grande oportunidade de trocar saberes com os alunos e alunas, que na sua maioria tiveram uma participação muito interessante, dialogando e tirando dúvidas sobre seus preconceitos sobre a África e as culturas que aqui no Brasil, ganharam forma e cor, através das matrizes afro, vindas para cá, através do inescrupuloso tráfico negreiro. Inaugurar um espaço discutindo algo tão inprescindível na formação da nossa identidade brasileira, foi uma grande sacada do professor Hugo Angeiras, que leciona historia nessa escola e me convidou para com ele realizar este momento. Ele, ao compreender a importância do tema, e a contemporaneidade e necessidade prática de se estudar a África, deu aos seus alunos uma ótima e qualificada lição de como se faz história ensinando.

Os temas foram introduzindo e desmistificando este imenso continente desconhecido ainda da maioria. Com imagens que dissoviam a visão de miséria absoluta generalizada dos países africanos, foi se introduzindo e se revelando nosso conceito e visão sobre o que é a África, pois para muitos, este continente é um país, um agrupado de identidades em um local só, sem divisão política nem geográfica.

Os alunos e alunas, a exemplo da Maria Vitória, menina negra, muito simpática e bonita, que falou até que seu pai me conhecia dos moviemntos negros e sociais e, que ela mesma se mostrou conhecedora do personagem e líder negro Malunguinho, pois seu pai falou pra ela dessa história, foi uma das que mais participou e questionou criativamente a nós, contribuindo com sua identidade fortalecida e reconhecida como menina negra estudante. Outras meninas como a Gleyce Mayara, Dhyêdra, e os alunos Igor Braz e Alysson Grace, dentre outros que não lembro o nome, participaram com muito vigor da aula/palestra.  Fiquei muito gratificado em ter sido convidado pra trabalhar este tema tão importante com  estas turmas do Fundamental II (6° ao 9° ano). 

A África como você nunca viu, Cidades desenvolvidas, paisagens bonitas, história e discussão do conceito de miséria e doença, os planos dos brancos, o racismo, a intolerância, o preconceito, foram em suma os temas abordados e discutidos. Religiões de matrizes africanas também, pois mostrei parte de material que construi sobre este tema, que mostra o culto à Babá Egún, e perguntei se alguém alí sabia do que se tratava, as respostas foram inumeras, inclusive que àquilo era "macumba", que àquilo era na "África" etc. Contudo, discutimos e trocamos saberes, e isso foi o preciosidade deste dia.

Um dos diretores do Colégio, se fez presente na aula, e conscientizado e convencido da importância deste tema ser debatido, discutido e mais aprofundado com os alunos e alunas, falou que no mês de Setembro, na Semana Estadual da Vivência e Prática da Cultura Afro Pernambucana, Lei Malunguinho n° 13.298/07, lei criada pelo Quilombo Cultural Malunguinho, aprovada na Assembléia Legislativa do Estado, vai implementar com palestras, cursos e atividades culturais esta Semana, que é de 12 a 18 de Setembro, de todo ano, celebrando o personagem negro e líder quilombola revolucionário pernambucano Malunguinho.


Deixo aqui os contatos do Colégio, para futuras articulações:


Hugo Angeiras - Professor de História
Colégio e Curso Desafio - Fundado em 2009
Rua Professor Mussa Hanzi, n°...ver, 
Fones: 3274-5010 e 3453-0824

Vejam as fotos:

Hugo Angeiras e Alexandre L'Omi L'Odò na palestra.

Alexandre L'Omi L'Odò, discutindo o tema.

Alunos e Alunas da Escola Desafio.


Tráfico Negreiro sendo abordado por Alexandre L'Omi L'Odò

Uma foto viajada... rsrs





Alexandre L'Omi L'Odò
Educador
alexandrelomilodo@gmail.com

quarta-feira, 30 de março de 2011

Teologia da Jurema Sagrada, existe alguma?

Juremeira Graça de Zé Gaguinho (Mãe Graça de Xangô). III Kipupa Malunguinho. Foto de Laila Santana.

Teologia da Jurema Sagrada, existe alguma? 

 Por Alexandre L’Omi L’Odò.

“Jurema, minha Jurema, Jurema, Jurema minha, Jurema Preta, a senhora é a Rainha, ela é dona da Cidade, mas a chave é minha”...
(Cântico sagrado da Jurema).


A Jurema mostra o mundo inteiro a quem bebe: Vê-se o céu aberto, cujo fundo é inteiramente vermelho; vê-se a morada luminosa de Deus; vê-se o campo de flores onde habitam as almas dos índios mortos, separada das almas dos outros. Ao fundo vê-se uma serra azul; vêem-se as aves do campo de flores: beija-flores, sofrês e sabiás. À sua entrada estão os rochedos que se entrechocam esmagando as almas dos maus quando estas querem passar entre eles. Vê-se como o sol passa por debaixo da terra. Vê-se também a ave do trovão, que é desta altura (um metro). Seus olhos são como os da arara, suas penas são vermelhas e no alto da sua cabeça ela traz um enorme penacho. Abrindo e fechando este penacho, ela produz o raio e, quando corre para lá e para cá, o trovão. (Nimuendadaju, 1986: 53).

Não existe ainda uma teologia escrita e codificada sobre o culto da Jurema Sagrada, porém, posso tentar aqui dar um ponta pé neste assunto que pretendo aprofundar futuramente nos meus estudos acadêmicos que já iniciaram há algum tempo.

A teologia da Jurema é originária da matriz indígena do nordeste brasileiro, em especial, etnicamente falando, dos Tupi. É baseada na fé em um Deus único, aparentemente o mesmo dos cristãos, mas devemos incorporar o entendimento de que este “Deus” na verdade pode ser feminino como a mãe Tamain dos Fulniô, ou pai Tupã, entre outros.

Na perspectiva do catolicismo popular e do espiritismo kardecista a reencarnação é um elemento fundamental em suas cosmologias, como também o é na crença religiosa dos Juremeiros, que acreditam inclusive na possibilidade do espírito retornar como Mestre ou Mestra (divindades/entidades que foram seres humanos e que viveram no mundo carnal, pertenceram à Jurema como sacerdotes ou realizaram atos heróicos ou notórios e místicos em defesa dos excluídos durante sua passagem na terra) para cumprir parte de sua “missão.

A crença em elementos, símbolos, objetos, imagens, árvores sagradas, animais sagrados (a exemplo do besouro mangangá), no Cachimbo ou Gaita e na Fumaça sagrada, compõe toda fé e imaginário teológico da religião, que absorveu elementos do cristianismo primeiramente, depois do imaginário da umbanda (a partir da década de 1970) juntando-se ainda ao Kardecismo do francês Hippolyte Léon Denizard Rivail (Allan Kardec). Séries de lendas urbanas também compõem o corpo de sua oralidade litúrgica, além de contos místicos e fábulas sobre Mestres e Mestras que realizaram atos mágicos em um tempo remoto. A Jurema em si, ainda, representa e materializa uma Deusa, já que para a maioria dos povos indígenas do nordeste a divindade suprema da existência seria mulher (Mãe Tamain). Ela é algo superior e incompreensível que toma a forma de guia, de protetora, de Deusa, a Deusa próxima, ao alcance das mãos e do espírito. Uma divindade amiga e inimiga, que podemos rogar quando necessário, a exemplo da expressão: “Que a Jurema me abençoe me proteja e me guarde”, neste caso ela é citada e rogada como Deusa, com o mesmo significado do Deus cristão que pode proteger, abençoar e guardar.

No culto, o princípio fundamental é a cura do corpo, mente e espírito, o bem estar do ser humano em todos os seus aspectos, a resolução dos problemas gerais do cotidiano e a evolução espiritual através da caridade e dos trabalhos de cura.

Bem e mal não são polarizados e nem esboçam maniqueísmo. Estes conceitos são encarados com naturalidade dentro do culto, que permite tanto usar a “ciência” para o “bem” quanto para o “mal”, sabendo-se que há a lei do retorno também presente na religião kardecista. O pecado é algo encarado como relativo, salientando que a defesa espiritual é um ato digno e que deve ser feito sem temer os encargos que o “inimigo” sofrerá materialmente ou espiritualmente. Podemos ainda ver características próximas com o Vodu do Haiti, que é uma religião popular e muito difundida neste país, sendo considerada uma religião de guerra, onde suas divindades/entidades incorporam a defesa do povo contra o poder dominante, tendo papel muitas vezes definitivo e fundamental nas decisões políticas do Estado. Na Jurema, vemos também este papel, já que nas surdinas das noites, os políticos vão aos terreiros de Jurema decidir seus destinos nos seus meios de relações de poder.

“A Pajelança Jurema Nativa possui um conhecimento e uma Tradição Milenar, (segundo o nativo Taki Cacique Pajé da Tribo Karirí Xocó apud Alberto Junior, 2007).

Os ancestrais divinizados na Jurema, tem o mesmo valor dos Babá Ègún (ancestrais ilustres divinizados que quando em vida eram iniciados ao culto de um Orixá) para os povos Yorùbás. Eles são cultuados e respeitados de forma específica, mas semioticamente semelhante a esta tradição, onde a ética, o respeito e a organização social são mantidos por estas personalidades divinizadas, que voltam para reorganizar ou manter o controle das tradições.

Maria do Acaes, a grande Juremeira histórica, nos remete ao imaginário da Jurema paraibana, que teve tantos valores agregados a ela e à sua mesa de Jurema, que curou e revolucionou a vida de muitos e muitas em seu tempo. Hoje, é saudada em todas as casas com o vigor de ancestral ilustre que fez da Jurema uma forte tradição, que emanou conceito litúrgico organizado através de sua experiência própria para os dias atuais. Isso se vê claramente nas casas mais tradicionais que preservam inclusive os elementos de mesa, igualmente a antiga tradição.

“A cosmovisão religiosa da Jurema, centraliza-se no reino da Jurema,

(...) que, em Alhandra, é também denominado de Encantos. Esse reino, de acordo com os juremeiros da região, seria composto de sete cidades, sete ciências: Vajucá, Junça, Catucá, Manacá, Angico, Aroeira e Jurema. Como mencionado acima, Andrade foi o primeiro a relatar a existência de um Reino da Jurema. Este, segundo o autor, se dividiria em outros onze reinos: Juremal, Vajucá, Ondina, Rio Verde, Fundo do Mar, Cova de Salomão, Cidade Santa, Florestas Virgens, Vento, Sol e Urubá (ANDRADE, 1983). (Salles, 2010; p. 82).

“Cascudo, em Meleagro, menciona a existência de um mundo dos “encantados”, que seria dividido, segundo alguns, em sete: Vajucá, Urubá, Juremal, Josafá, Tigre, Canindé e o Fundo do Mar, e cinco, segundo outros, que seriam os quatro primeiros, mais Tanema, ou o Reino de Iracema. Esse “mundo do além”, segundo ele, seria dividido em Reinados ou Reinos, cuja unidade seria a aldeia. Cada aldeia, por sua vez, teria três mestres. Assim, 12 aldeias formariam um reino, composto de 36 mestres. Nesse reino, haveria cidades, serras, florestas e rios” (Cascudo, 1978, apud Salles, 2010; p. 82). Mas esta complexidade pertence a uma forma de pensar o mundo através da experiência própria transcendental da viagem à Jurema, atividade muito comum aos Juremeiros antigos e índios que ao ingerir o vinho sagrado feito com as raízes da Jurema Preta (Mimosa hostilis), elevavam-se a estes mundos que eram revelados em etapas, e onde se buscava a tão citada ciência da Jurema.

A cura na Jurema pode-se compreender dentro de uma lógica holista. Os diversos processos de curandeirismo que envolvem um vasto conhecimento de ervas e magias dentro da medicina indígena/dos juremeiros contidos na ciência da Jurema, abrangem o corpo físico (a “matéria”), a mente e o espírito.
As entidades que compões a jurema são os Caboclos e índios (os guardiões da Jurema, junto com Malunguinho), Mestres Juremeiros e Mestras Juremeiras, Trunqueiros/Exús, cangaceiros, crianças, marinheiros, ciganos, freis, encantados, espíritos de baixa evolução, etc. Assim como no Kardecismo, o juremeiro pode receber entidades diversas, obsessores e outros espíritos de linhagens inesperadas, como por exemplo, os espíritos hinduístas entre outros.    

A composição e representação imagética nesta religião se compõem de imagens na estatuas e estatuetas, na maioria de gesso, com representações ainda rústicas de suas divindades/entidades. Não se sabe bem ao certo como os produtores de imagens de gesso tiveram conhecimento para retratar em suas esculturas imagens que poderiam equivaler a estas divindades/entidades, mas isso não é importante entre os religiosos, pois a representação não é fundamental no culto, podendo ser completamente abolida por uma “princesa” ou “príncipe” (taças e copos, com os fundamentos da Jurema).

A iniciação no culto da Jurema assume diversas formas e metodologias não seguindo um padrão unificado e liturgicamente igual nos terreiros. O Juremeiro ou juremeira pode nascer com a ciência e não precisar ser juremado (iniciar-se no culto), da mesma forma como uma divindade/entidade pode solicitar esta iniciação, que varia de caso a caso. O ritual chamado de Tombo da Jurema ou Juremação é um dos mais conhecidos entre os religiosos, mas nestes casos, é o mestre ou mestra, caboclo ou trunqueiro que recebe o ritual, utilizando-se do corpo do juremeiro.

O termo catimbó, muito utilizado dentro do culto da Jurema, significa “prática espírita afro-indígena, de finalidade terapêutica, originada da fusão de elementos da pajelança e de cultos bantos. É conduzida por um “mestre” e resume-se, basicamente, em sessões de passes, defumações e banhos lustrais, com cânticos propiciatórios” (Lopes, 2004). A origem do termo catimbó é controversa, embora a maior parte dos pesquisadores afirme que deriva da língua tupi antiga, onde caa significa floresta e timbó refere-se a uma espécie de torpor que se assemelha à morte. Desta forma, catimbó seria a floresta que conduz ao torpor, ou a morte, numa clara referência ao estado de transe ocasionado pela ingestão do vinho da jurema. Outras teorias, porém, relacionam o vocábulo com a expressão cat, fogo, e imbó, árvore, neste mesmo idioma. Assim, fogo na árvore ou árvore que queima relataria a sensação de queimor momentâneo que a ingestão da bebida da Jurema ocasiona. Em diversos estados do nordeste brasileiro, onde os rituais de catimbó são freqüentemente associados à prática de magia negra, a palavra ganha um significado pejorativo, podendo englobar qualquer atividade mágica realizada no intuito de prejudicar outrem. Ainda podemos entender que este termo está ligado a um significado de torpe, que coloca a pessoa em condição de inferioridade pela prática mística, julgo este sempre feito por designação leiga. Os termos juremeiro e juremeira, designando o sacerdote ou sacerdotisa que preside a mesa ou terreiro de Jurema é atualmente utilizado, sendo também recente o entendimento de que os termos catimbozeiro ou catimbozeira devem ser abolidos para uma melhor compreensão dos termos aqui expressos.

*Texto produzido para compor o site da UNICAP.


Alexandre L’Omi L’Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

quarta-feira, 16 de março de 2011

ESPAÇO DAS RELIGIÕES NO FÓRUM INTER-RELIGIOSO DA UNICAP



Desde 2007 nós criamos na UNICAP uma série de encontros mensais com animadores das tradições religiosas da região, para conhecimento mútuo, exercício de tolerância cultural e veneração pluralista pelo sagrado. Pensando na educação mais ampla do nosso povo, queremos transformar essa experiência e conhecimento do Fórum Inter-religioso da Universidade em um subsídio pedagógico para o ensino religioso, mas também colaborar na criação de um Espaço das Religiões no Recife.

Convidamos a todos para, na próxima sexta, 18 de março, 17h, no auditório do CTCH (1º andar do bloco B) começarmos a discutir então a criaçao de uma fundação, o “Espaço das Religiões”, com base em centro cultural e centro de referência museológico no Recife, para tematizar o fenômeno religioso e as diversas experiências e manifestações espirituais e religiosas. O seu objetivo é de promover o conhecimento das tradições religiosas, o diálogo entre as religiões e a convivência entre os seguidores dos diversos caminhos espirituais. Trata-se de um espaço físico e existencial para esclarecer os diversos níveis de participação religiosa, do popular ao filosófico, enfatizando o conhecimento místico que se desenvolve entre e além das diversas expressões.

Participe e envolva-se na criação de um espaço que tem o apoio do Fórum Inter-religioso da UNICAP, mas vai para muito além dos muros da Universidade, porque destina-se à escuta, à celebração e à meditação sobre as vivências da fé da nossa gente, ajudando assim a fomentar uma sociedade.

Notícia do Site da UNICAP.

Alexandre L'Omi L'Odò
alexandrelomilodo@gmail.com
Da Jurema e do Candomblé

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Cena Peixinhos - O Bairro Mostrando a Cara Para o Mundo!

Um momento singular para conhecer a nova cena cultural do Bairro de Peixnhos - Olinda.
Impredível gente, não percam, estarei lá prestigiando toda energia desse povo rico em cultura e resistência.

Alexandre L'Omi L'Odò.
Produção do Mestre Galo Preto - Que também é de Peixinhos!!

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Quilombo Cultural Malunguinho, resistência e luta pelas raízes culturais brasileiras. Por Josy Garcia - RJ

Altar de Malunguinho na Mata sagrada do Catucá. V Kipupa Malunguinho 2010. Foto de Laila Santana.

Quilombo Cultural Malunguinho, resistência e luta pelas raízes culturais brasileiras

No ano de 2008 tivemos o primeiro contato com essa turma fantástica do Quilombo Cultural Malunguinho. Não tenho medo de errar. Depois destes 3 anos de convivência posso dizer fantástica sim!

Nos encontramos pela peimeira vez em Recife, no I Seminário sobre Religiosidade Popular promovido pelo CEPIR/PE, onde fomos convidados para realizar um ciclo de palestras.

Já tinhamos ouvido e cantado cantigas de Malunguinho, impossível se falar de Jurema sem falar dele, afinal é ele quem “tira os espeques do caminho” e é o Rei da Jurema. Porém, só tomamos conhecimento de sua história a partir deste encontro.

Só por isso, o Quilombo Cultural Malunguinho já merece todo nosso respeito. Não é fácil resgatar e trabalhar nossa cultura. E o que falar das nossas raízes religiosas? Há adversidades, divisões, pessoas querendo se promover, acontece de tudo. Sem falar no preconceito...

Abertura do V Kipupa Malunguinho, Mata do Catucá. Na foto algumas figuras importante: Professor Dr. Marcus Carvalho (UFPE), Professor Dr. João José Reis (UFBA), Deputado Estadual Isaltino Nascimento, Juarez, o nosso zelador da Mata, Grupo Bongar, E representante da Jurema de Pernambuco. Foto de Laila Santana. 2010.

Mas ainda tinha mais. Descobrimos a Lei Malunguinho, o Kipupa Malunguinho e gente que realmente conhece e protege e luta, sem estrelismos, pela nossa querida Jurema Sagrada. Após nosso encontro em fevereiro de 2008, lá foram eles de Pernambuco ao Acais.

Placa do Memorial Zezinho do Acais. Ação nossa, do Quilombo Cultural Malunguinho e da Sociedade Yorubana. 1° Encontro de Jurema no Acais, maio de 2008.

Os primeiros a se juntar a nós nessa luta, sempre presentes, sempre contribuindo com idéias e muita vontade de fazer. Por isto justo, justíssimo que seus representantes estivessem presentes na entrega da Certidão do Tombamento do Sítio do Acais em 2009 junto conosco, pois são legítimos representantes na luta pela preservação da Jurema, apesar de ter gente querendo de qualquer forma apagar esta história... Não conseguirão, simplesmente porque ela já foi feita! E o Quilombo Cultural Malunguinho é parte integrante dela em letras garrafais, doa a quem doer, embora nunca tenha se utilizado disso para se promover.

Tenho orgulho de conhecer vocês. Seus adjetivos são coragem, determinação, bom senso e amor pelo que fazem e acreditam.

Posso imaginar quanto Malunguinho deve estar feliz. Em pleno Século XXI, sua história e sua luta se perpetuam com honradez através de vocês, incansáveis guerreiros do Quilombo Cultural Malunguinho.

O cahimbo e a fumaça da Jurema. V Kipupa Malunguinho. Foto de Laila Santana.

Que os Mestres da Jurema continuem abençoando vocês nesta caminhada! E no que diz respeito a nós, estaremos sempre presentes quando vocês precisarem.

Abraço fraterno,

Josy Garcia

Sociedade Yorubana Teológica de Cultura Afro-Brasileira

Josy Garcia Abrahão, Engenheira química, química, pós graduada em engenharia ambiental e engenharia de segurança do trabalho, atuando na área de petróleo e gás desde 2005. Professora de química do ensino médio da rede pública estadual há 11 anos. Presidente da Sociedade Yorubana Teológica de Cultura afro-brasileira desde 2000, autora do do livro O Cavalo do Cão. responsável pela 2ª edição do Livro Zumbi dos Palmares, editoração, revisão e edição dos livros Sambaquis e Quilombos no Litoral Fluminense e Brasil Mestiço de Eduardo Fonseca Junior. Vice -presidente da Banda Cultural do Jiló no Carnaval do Rio de Janeiro (banda que tem como principal característica a divulgação das marchinhas tradicionais).


Alexandre L'Omi L'Odò.

Quilombo Cultural Malunguinho.

sábado, 29 de janeiro de 2011

I Catucarte Cultural

Pessoal convido todas e todos para participar do I Catucarte Cultural no bairro do Alto da Bondade, em Olinda. Será um evento muito rico de cultura e articulação das comunidades onde outrora foi o Quilombo do Catucá, os domínios de Malunguinho. Segue cartaz. Divulguem.

Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
81. 8887-1496

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Meu Tempo é Agora - 100 anos do Terreiro Ilê Axé Opo Afonjá

A cada dia me orgulho em pertencer ao Orixá e a Jurema. Nada mais legitimador que a fala de uma sábia de minha religião, Mãe Stella da Oxóssi, uma sacerdotisa que me eleva a pensar como penso, a compreender como compreendo e a caminhar como caminho. Adupé Iyá mi, Adupé gbogbo Iyá agbá ti Ilé Àsè Opo Afonjá! 100 anos de pura tradição e orientação construtiva para o povo negro. indio brasileiro. Vejam!

Alexandre L'Omi L'Odò
Iyawò Ti Osún
Juremeiro

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Texto do Professor Jayro Pereira de Jesus ao Jornal Diário de Pernambuco. Críticas...

Professor Jayro Pereira de Jesus. IV Kipupa Malunguinho. Foto de Maíra Gamarra

Texto do Professor Jayro pereira de Jesus ao Jornal Diário de Pernambuco

Posto aqui, texto original feito pelo professor Jayro Pereira de Jesus, teólogo das religiões afro indígenas, que ao estar morando no Estado de Pernambuco, decidiu fazer uma crítica à mídia local em relação a cobertura das posses dos Ministros do Governo Dilma, ao qual percebeu a total falta de atenção à posse da ministra Dra. Luíza Bairros, da SEPPIR - Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. Também fez uma sensata crítica ao modelo de gestão do CEPIR do Estado de Pernambuco, que ao entender dele é: "Medíocre". Este texto saiu no Jornal Diário de Pernambuco de 14 de Janeiro de 2011, na página B4, do editorial, na parte de Cartas à Redação. O texto saiu na íntegra e vale a pena ler para refletir sobre suas sanções.

Texto Original:

Política de Igualdade Racial

Ao se ler os jornais nesse período de instalação do novo mandato presidencial, com a primeira mulher presidenta da República, verifica-se invariavelmente que as matérias com relação às posses dos ministros do governo federal mereceram relevantes coberturas das mídias em geral, com exceção da posse da ministra de Política de Promoção da Igualdade Racial, Dra. Luiza Bairros em que as notícias se ativeram a notas epigráficas. Trazendo a questão para o governo do Estado de Pernambuco, a percepção é a de que a política das relações étnico-raciais é tratada e decidida aqui no âmbito das relações domésticas familiares à revelia das organizações do movimento social negro, ficando denotada nessa prática ainda fortes resquícios da sociologia colonial da casa grande e senzala. O homicídio de jovens afrodescendentes no Estado é assustador e por isso tem que se cuidar para que o Pacto pela Vida, não se converta no Pacto pela Vida Eterna a ponto de se configurar numa política efetiva de extermínio consentido. Enfim, a política de promoção de igualdade racial do Estado de Pernambuco é inquestionavelmente medíocre, de caráter personalista e autopromocional com requintes de excentricidade em que as realizações de natureza insipiente e folclórica têm acabado por banalizar, desmerecer e descredibilizar a questão racial de forma a aviltar a dignidade do povo negro desse Estado que precisa ser consubstanciada e que de acordo com a ministra Luiza Bairros: “é preciso potencializar as ações para consolidar a cidadania negra” (DP, Política, p. A8, 4/1/2011).

Jayro Pereira de Jesus

(Teólogo da Religião Afro)

teologiaafro@yahoo.com.br

Veja a digitalização do Texto:

Texto do Professor Jayro Pereira de Jesus na página Cartas à Redação do Jornal Diário de Pernambuco de 14 de Janeiro de 2011.

Alexandre L'Omi L'Odò.
De Terreiro!
alexandrelomilodo@gmail.com

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Música para o Rei Malunguinho da Jurema Sagrada. Do Grupo Bojo da Macaíba.

Malunguinho Trunqueiro do Juremá. Foto de Alexandre L'Omi L'Odò.

Publico aqui a música feita para o Mestre Malunguinho, pelos amigos do grupo Bojo da Macaíba. Assim que tiver gravada, com certeza colocarei disponível aqui. Esta ação mostra que o trabalho do Quilombo Cultural Malunginho tá surtindo efeito, Maluguinho está a cada dia mais conhecido como herói negro guerreiro e divindade da Jurema, isso é muito importante. Valeu galera do Bojo, mojubá!!

Música para o Rei Malunguinho da Jurema!

SALVE O MESTRE MALUNGUINHO
MALUNGUINHO VAMOS SALVAR

MANDEI FAZER UMA VELA DE CERA DE ABELHA
PRA COLOCAR NA PORTEIRA
PARA O MESTRE ME AJUDAR
O MESTRE É GRANDE O MESTRE ABRE O CAMINHO
SALVE O MESTRE MALUNGUINHO
GUARDIÃO DESSE LUGAR

SALVE O MESTRE MALUNGUINHO
MALUNGUINHO VAMOS SALVAR

NEGO MALUNGO É ESPERTO É GUERREIRO
É BOMDOSO, COMPANHEIRO
ELE É REI DE CATUCA
ERA TEMIDO POR TODOS SENHORES BRANCOS
TEM A CHAVE DO ENCANTO
PARA OS FILHOS LIBERTAR

MALUNGUINHO VAMOS SALVAR.

Ritmo: Coco
Letra: Nino Souza
Música: Bojo da Macaíba

Conheçam o gruponos links abaixo:

www.obojodamacaiba.blogspot.com

Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho

alexandrelomilodo.blogspot.com

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Reflexões Afro-indígenas Teológicas - Professor Jayro Pereira de Jesus

Reflexões Afro-indigenas Teológicas

Reflexão 1

Os terreiros da religião de matriz africana e indígena são lugares da diversidade humana incondicional, pois tem na xenofilia o seu pressuposto teológico e filosófico; porém, essa prerrogativa não pode ser confundida a ponto de convertê-los em verdadeiros antros em que subjetiviades reprimidas são exercidas, dando lugar às libertinagens em que o divino ou o sagrado se confundem com as próprias personalidades ou idiossincrasias dos indivíduos dirigentes, bem como dos/as frequentadores/as sejam eles/as assíduos/as ou esporádicos/as dos “templos religiosos” afro-indígenas.

Reflexão 2


A religião de matriz africana e afro-indígena possui uma teologia e
uma filosofia que prima pela potencialização da Existência considerada como sagrada e não pela diminuição da mesma, em que a “energia” é manipulada no sentido contrário ao do engendramento da Vida enfim. Quem da Religião Afro apregoa malefícios, sobretudo, atentados à Vida, devem possuir matadores e/ou grupos de extermínios associados ao terreiro para assim conferir fidedignidade aos ditos feitiços, trabalhos, catimbós, etc. Tais elementos (homens e mulheres) que se utilizam da religião da Vida como a dos Orixás, dos Inquices, Voduns, etc., para a morte, precisam ser denunciado aos órgãos públicos de seguranças, pois se utilizam de meios mecânicos para perpetrar seus crimes.

Reflexão 3

Na religião de matriz africana e afro-indígena, o Corpo enquanto estrutura das pessoas (dos homens e das mulheres) na sua compreensão biomítica ou antropotheogônica é tido como uma espécie de território do Sagrado. Nessa concepção reside a improbidade de toda e qualquer violência física ou simbólica tantos aos Entes animados como aos inanimados humanos e da natureza. Um/a adepto/a, um/a iniciado/a, em especial, deve abster-se de todo e qualquer ópio para assim não macular a sua sacralidade existencial. As drogas de toda e qualquer natureza ou espécie não podem ser usadas por iniciados/as, em especialmente. Templos Afros que usam e estimulam, portanto, o uso de entorpecentes deve ser denunciado, porque atentam contra os fundamentos teológicos e filosóficos da cosmovisão africana, em particular.

Jayro Pereira de Jesus.
Teólogo/ATRAI
teologiaafro@yahoo.com.br

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Publico aqui reflexões importantíssimas feitas pelo Professor Jayro Pereira sobre a nossa religião de matriz afro indígena, é importante que todos leiam e coloquem seus pontos de vista, pois essas são discussões imprescindíveis ao nosso meio. A foto é de Maíra Gamarra, no IV Kipupa Malunguinho, nas matas sagradas do Catucá em 2009.

Alexandre L'Omi L'Odò.
Quilombo Cultural Malunguinho

Quilombo Cultural Malunguinho

Quilombo Cultural Malunguinho
Entidade cultural da resistência negra pernambucana, luta e educação através da religião negra e indígena e da cultura afro-brasileira!